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Real Madrid: «Los Galáticos»

Texto por João Pedro Silveira
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Entre 2001 e 2006, impulsionado pela liderança de Florentino Pérez, o Real Madrid viveu um período de transformação do paradigma do futebol. Em Madrid, construiu-se uma equipa de estrelas, paga a preço de ouro, sem olhar a meios.

Nascia o futebol indústria do século XXI, onde mais importante do que vencer ou jogar bem, o objetivo último de um clube era o lucro, e o sucesso media-se em venda de camisolas, venda de lugares cativos no estádio ou nos cachets cobrados para disputar amigáveis e tours na Ásia. 

No meio de um negócio multimilionário, estavam as estrelas. Raúl González, Roberto Carlos, Luís Figo, Ronaldo, Zinedine Zidane e David Beckham. Esta é a crónica desse grupo de craques que vestiu o mítico «manto blanco» que em tempos fora vestido por Di Stéfano, Puskas e companhia. Uma constelação futebolística que passou à história como «os Galácticos».

Como os Beatles

Anos depois de ultrapassada a euforia da Beatlemania, John Lennon confessava, que no fundo, os Beatles eram só quatro "gajos", «quatro "gajos" que tinham feito a coisa tornar-se muito muito grande».

Os quatro de Liverpool sempre foram um paradigma de sucesso. A história conta que os quatro eram rapazes comuns, como tantos outros, que por mérito e génio, além de muito trabalho, conquistaram o mundo e a admiração global, eram recebidos por multidões em qualquer ponto do planeta em que chegassem, tornando-se em certa data - nas palavras de Lennon - mais conhecidos que o próprio Jesus Cristo. 

Décadas mais tarde, Luís Figo, convidado pela «Four Four Two» a recordar o ano de 2003 e dez anos de «Galácticos», afirmava que «éramos como os Beatles». Zinedine Zidane, Roberto Carlos, Ronaldo e Figo, seriam à sua maneira como John, Paul, George e Ringo.
 
Da esquerda para a direita: David Beckham, Luís Figo, Florentino Pérez, Zinedine Zidane e Ronaldo. «Os Galácticos» no seu auge, após a chegada do mediático jogador inglês em 2003.
Acima de tudo, os quatro rapazes que se juntaram no Bernabéu, inauguraram uma nova era no futebol mundial. Pela primeira vez um clube - pela mão de um presidente visionário e com dinheiro para sustentar essa visão - juntava os principais craques do mundo no mesmo plantel, como se de uma coleção se tratasse. Num ápice, o sonho de milhões de jogadores de jogos de simulação de treinadores em todo o mundo tornava-se realidade, e era possível reunir num plantel uma constelação de estrelas.
 
Roberto Carlos fora o primeiro a chegar, bem antes do Presidente Florentino Pérez e quando chegou ao Bernabéu, encontrou um Real bem diferente, grande - como o Real só sabe ser - mas longe dos sucessos da sua era dourada dos anos cinquenta, ou do período pujante da «Quinta del Buitre».
 
Logo após a chegada, ajudou os merengues a reconquistar a Liga no fim da sua primeira época, depois ajudou o clube a matar o «borrego» e a conquistar a Champions 32 anos volvidos da última vitória. Em 2000, o Real conquistou a sua oitava, mas mais uma Champions parecia não bastar para a «Casa Blanca».
 
Figo, ou o fim do romantismo
 
Todavia, no Paseo de la Castellana queria-se mais, muito mais. Florentino Pérez avançou para a liderança e levou como trunfo Luís Figo. Depois de ter saído do Sporting, o extremo português tornara-se no simbolo e capitão do Barcelona. Pérez contratava aquele que muitos consideravam o melhor do mundo, e cereja no topo do bolo, «roubava-o» ao velho rival.
 
Em Barcelona rebentava a bomba, os catalães não queriam crer que nos seus olhos viam, quando compraram o jornal nessa fatídica manhã. A 25 de Julho, Figo era apresentado em apoteose em Madrid e Florentino Pérez anunciava que dez mil milhões de pesetas tinham sido depositadas na conta do clube catalão, pagando a cláusula de rescisão, confirmando assim a mais cara transferência de sempre no futebol mundial, até à data.. 
 
Os culés, magoados com a deserção do português, juraravam-lhe ódio eterno. «Pesetero!» terá sido o mais simpático dos epítetos com que Luís Figo teve de conviver durante esses dias. A sua mudança para o eterno rival, a troco de dinheiro, de muito dinheiro, quando já recebia muito dinheiro, não só escandalizou os barcelonistas, como chocou os adeptos mais puristas do desporto rei. Por todo o mundo, em Portugal inclusive, a opção do ex-sportinguista dividiu opiniões, com o apontar de dedo ao capitão da seleção das quinas pela sua falta de amor à camisola.
 
Com a contratação do «sete» lusitano, o mundo acordava para uma nova realidade, que os editoriais pela Europa fora, cunharam como o pós-romantismo no futebol. Morria um futebol de paixão ao emblema e ao seu clube, nascia o futebol do novo milénio.
 
A capa da Marca que confirmava o sim de Figo a Pérez. O Real Madrid roubava a «jóia da coroa» do rival e abria uma nova era no futebol mundial, com a mais cara transferência de sempre até à data.
Figo, tal como Roberto Carlos antes dele, chegou, viu e venceu, tornando-se campeão espanhol logo na época do début com a mítica camisola branca, ganhando também o prémio de melhor jogador do Mundo atribuído pela FIFA, prémio que sempre lhe fugira no Barcelona, onde contudo vencera o prestigiado Balon D´Or da France Football
 
Ainda os adeptos merengues festejavam a vitória, e já Florentino Pérez lhes dava mais um motivo para festejar, contratando o melhor jogador do Mundo, e da sua geração: o francês Zinedine Zidane, estrela da Juventus, campeão do Mundo e da Europa com a França. A troco de 75 milhões de euros, o Real Madrid contratava o campeão dos campeões e batia novo recorde de transferência mundial.
 
Florentino Pérez defendia a sua política, cunhando o seu plano como «Zidanes y Pavones», os Zidanes eram as estrelas de classe mundial que atraía para o seu projeto, os Pavones, eram os miúdos da cantera, de onde se destacava Francisco Pavón, um símbolo formado no madridismo, que seria fundamental para entregar combatividade e madridismo juntamente com outras referências formadas no clube como Raúl González Blanco ou Iker Casillas.
 
Pérez apostava forte nesse caminho duplo para o sucesso, projetando a construção da Ciudad Real Madrid, em Valdebebas, arredores da capital espanhola, onde iria nascer «La Fábrica», que iria produzir os «Pavones» e ser centro de treino para os «Zidanes».
 
Team Zizou
 
O marselhês não quis ficar atrás dos seus colegas, replicando a máxima de Júlio César mais uma vez, liderando o Real à conquista da "nona", em Glasgow contra o Bayer Leverkursen. Os «blancos» venciam, mas não só. Figo, ainda na mesma entrevista a «Four Four Two» lembra que jogar naquela equipa, era mais que vencer, era um prazer. Apesar de ser uma constelação de estrelas, os egos dos jogadores cediam o seu protagonismo ao Real, o grande Real Madrid, por quem lutavam e conquistavam as vitórias.
 
Zidane, Figo e Roberto Carlos festejaram juntos e depois partiram para as respetivas seleções, para disputarem o mundial da Coreia e do Japão. O francês e o português desiludiram, ficando pela primeira fase. Ambos lesionados - o francês falhou inclusivamente os dois primeiros jogos -  e em má forma, passaram ao lado da competição, onde Roberto Carlos festejou a conquista do penta, ao lado de Ronaldo, o «fenómeno», melhor marcador da prova com oito golos, dois deles apontados na final de Yokohama. 
 
Ronaldo brilhara em Barcelona - ao lado de Figo - antes de se mudar para Itália, onde fora perseguido pelas lesões. O seu regresso em grande, no palco do mundial, fez com que Florentino Pérez sonhasse com mais uma estrela para a constelação. E se Florentino sonha, a contratação acontece. Ronaldo assinava pelo Real e juntava-se a Roberto Carlos, Figo e Zizou, para formar uma versão moderna, à moda do futebol, dos quatro mosqueteiros de Alexandre Dumas, ou dos Beatles, como Figo gosta de lembrar. 
 
O último título
 
O céu brilhava em Madrid como em mais nenhuma latitude futebolística. Os «Galácticos» vendiam camisolas, enchiam estádios, apareciam em programas de televisão, vendiam capas de jornais, até vendiam discos e filmes. Hong Kong, Tóquio, Macau, Seoul, Xangai, Kuala Lumpur, Los Angeles, Nova Iorque, Sydney, os merengues viajavam por todo o mundo, jogando futebol, mas também vendendo a sua imagem e alimentando o circo mediático que os rodeava. 
 
No meio do «furacão», Roberto Carlos lembra que os craques eram «como crianças divertindo-se em campo», jogando por amor ao jogo e cultivando uma amizade que ainda hoje perdura. A «Four Four Two» fez uma capa com uma foto dos quatro campeões de 2003: Ronaldo, Figo, Zidane e Roberto Carlos. Felizes, «olhe para aqueles sorrisos» recorda figo, dez anos passados. 
 
Duas capas da «Four Four Two»: 2003 e 2013. O fenómeno dos «Galácticos», dez anos volvidos.
«Era um prazer jogar com aqueles jogadores», acrescenta por sua vez Zizou. O Real deslumbrava no campo, encantava a afición do Bernabéu, ganhando adeptos por todo o mundo. Mas a verdade é que aquele núcleo de quatro jogadores, além de jogar muito e bem, cimentava uma grande amizade que ainda hoje perdura, mesmo depois de já todos terem «pendurado as botas».
 
Florentino Pérez queria mais, pois ganhar não bastava. Vicente Del Bosque, o vencedor de duas Ligas e duas Champions, não tinha o perfil mediático que Pérez procurava e precisava dar lugar a um novo treinador. Um dia depois do 29º título conquistado pelo Real Madrid, o treinador salamanquino recebeu a informação de que o clube não iria renovar o contrato e que iria escolher um novo treinador para orientar os «Galácticos».

O escolhido seria Carlos Queiroz, adjunto de Ferguson no Manchester United, que fracassou em toda a linha no clube merengue. Apesar de ter ganho a supertaça no começo da época, foi acumulando maus resultados, sendo eliminado nos quartos da Liga dos Campeões pelo Monaco, batido na final da Taça do Rei pelo Zaragoza e terminou o campeonato em quarto, depois de perder os últimos cinco jogos da época, o que constitui um recorde negativo na história do Real. 
 
Beckham: o superstar
 
Insatisfeito com os resultados e querendo despertar a afición, uma semana depois de ter contratado Queiroz, Florentino abriu uma vez mais os cordões à bolsa e foi buscar a mais galácticas de todas as estrelas, que até então não jogava em Madrid: David Beckham. O inglês, extremo direito do Manchester United, chegava para a mesma posição que Luís Figo, o que abriu um problema ao técnico português.
 
Queiroz tinha que puxar Figo para esquerda se queria usar Beckham. Se porventura gostava de usar Figo na sua posição natural, tinha de recuar Beckham para médio interior. A verdade é que os craques do Real Madrid tinham lugar cativo no «onze». Na imprensa espanhola, várias eram as vozes que acusavam Florentino de obrigar Queiroz a usar sempre as estrelas, mesmo estando em má forma e longe de merecerem a titularidade.
 
O Real Madrid não convencia e a segunda linha por trás dos «Galácticos» começava a contestar a liderança do português. Fernando Hierro, Fernando Morientes, Steve McManaman e Claude Makélélé foram alguns dos contestatários, que afrontaram Pérez durante o processo de rescisão e se mantiveram fiéis a Del Bosque. Mais tarde, o inglês falaria da «Disneyficação do Real Madrid» que conduziu a um período falhado dos «blancos».
 
Enquanto Beckham, a estrela e modelo, vendia milhões de camisolas, ao mesmo tempo, o Barcelona contratava Ronaldinho Gaúcho, que era considerado «muito feio» para jogar em Madrid. Enquanto o Real se preparava para tornar o seu negócio ainda mais global e mediático, o rival preparava-se para conquistar a Espanha e a Europa dentro das quatro linhas... 
 
O fim da primeira era
 
Luís Figo, o herói resgatado ao Barça em 2001, seria o primeiro a «abandonar o barco» no verão de 2005. Para felicidade sua, não estaria em campo quando a 19 de novembro do mesmo ano, Ronaldinho Gaúcho liderou o Barcelona a vitória incontestável por 0x3 em pleno Bernabéu.
 
A superioridade blaugrana foi de tal monta, que os adeptos merengues aplaudiram Ronaldinho e companhia depois do terceiro golo, prestando uma tremenda ovação em pé aos vencedores no final da partida. Se dúvidas houvesse, os madridistas tinham referendado negativamente a política dos «Zidanes y Pavones».
 
Florentino percebeu que o seu tempo se aproximava do fim e abandonou o clube em Fevereiro. No fim da época seria a vez de Zidane, que punha final à carreira. Beckham, Ronaldo e Roberto Carlos punham fim à ligação que os unia ao Real no término da época 2006/07. Acabavam os «Galáticos» que passavam à história como uma das páginas mais marcantes da modalidade. 
 
O futebol não mais seria o mesmo, o Real também não e Florentino Pérez voltaria mais tarde à carga, com um novo projeto milionário, assente na contratação de Cristiano Ronaldo, que ao custar 94 milhões de euros, desalojou a contratação de Zinedine Zidane do topo da lista.
 
A equipa dos «Galácticos» do Real Madrid ficou famosa pelas contratações e por vender mais que ganhar... A política do presidente, estava assente na aquisição de uma grande estrela no começo de cada nova temporada, para reforçar o entusiasmo em volta do clube.
 
Durante o seu período de 2001 até 2007, com «onzes» diversos, o Real Madrid ganhou duas Ligas de Espanha, uma Champions e uma Taça Intercontinental... Fraco pecúlio para quem investiu perto de 420 milhões de euros... 
Comentários (3)
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motivo:
HE
becks
2014-04-21 15h29m por Henrymiguel
a era galatcivos foi mesmo muito boa ate a chegada do becks, ai a coisa descambou, tacticamente a equipa do real ficou partida, jogava antes da chegada dele com duplo pivot no mei ocampo , se bem me lembro, apos a chegada do mesmo, pa nao mexer muito, sacrificou o miolo, depois mexeu na posicao do figo. . . . . .

ate a maneira de jogar era dif, Del bosque pos aquelas estrelas todas a funcionar ( antes de becks ) a jogar de olhos fechados. . . fut lindo e eficaz de 1º toque
meu deus
2013-06-19 14h26m por VarelaShow
que equipa fantastica. beckham, figo, ronaldo, zidane, roberto carlos, raul, etc. . .
uma equipa de sonho.
estes sim sao os verdadeiros Galáticos :)

parabéns zerozero, gostei muito deste artigo.
pois. . .
2013-06-18 19h37m por miguelcasapiano
não ganharam muitos titulos, gastaram esses milhoes todos, mas apaixonaram o adeptos de futebol, e em termos de retorno financeiro, de certo que desses 420 milhoes, o valor foi triplicado.

Uma boa reportagem, mas do ponto de vista critico, nao devia ter terminado com essa frase, que vai contra o que quis transparecer da intençao de Florentino Peréz.
Estádio
Santiago Bernabéu
Lotação81044
Medidas105x68
Inauguração1947
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