história
Grandes Equipas

Wunderteam: a maravilhosa Áustria

Texto por João Pedro Silveira
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O sonho de Meisl

Hugo Meisl era um apaixonado pelo futebol, que sonhava importar para a Europa continental, a dinâmica que o jogo já tinha há muito nas ilhas britânicas. Durante os anos vinte, tentou importar, primeiro para a Áustria, e depois para o resto do continente.  

Uma das inovações de Meisl foi a Taça Mitropa, uma competição entre os melhores clube dos países do centro da Europa, que começou a ser disputada em 1927, em moldes idênticos, ao que a Taça dos Clubes Campeões Europeus, teria nas suas primeiras edições.
 
Num tempo em que o futebol fora da Gra-Bretanha era ainda de um profundo amadorismo, a Taça Mitropa mostrou ao mundo o desenvolvimento do futebol centro europeu, e o tanto que havia sido conseguido nos poucos anos do Pós-Guerra. Na primeira edição da prova, o Rapid de Viena chegaria à primeira final da competição, vencendo os checoslovacos do AC Praga na primeira mão em Viena, mas caindo com estrondo por 6x2 na segunda mão em Praga.
 
Meisl, apesar da derrota, percebeu que tinha ali os alicerces da grande equipa que sonhava construir. Uma seleção que pudesse ombrear com a Inglaterra. Usou o Rapid como base do «onze», mas foi ao rival Austria Viena, clube onde em tempos jogara, que iria buscar a estrela maior da sua super-equipa: Matthias Sindelar, o «Homem de Papel», o mittelstürmer - avançado centro - da equipa, o génio do futebol mundial de então. Juntou-lhe mais alguns jogadores do First Viena e estava criada a equipa, a seleção que passaria à história como a Wunderteam.
 
Os primeiros passos
 
Em 1927, outro sonho de Meisl, a Taça Internacional, uma competição de seleções do centro da Europa, começou a ser disputada. A Áustria conquistaria o segundo lugar atrás da Itália na primeira edição, jogada entre 1927 e 1930. 
 
Na segunda edição (1931-1932) a Áustria levaria a melhor, conquistando a competição e a imprensa austríaca consagrou a Das Team como campeã da Europa.
 
A 12 de abril de 1931, uma vitória sobre a vizinha Checoslováquia dava inicio a uma sequência de 15 jogos consecutivos sem a Áustria conhecer o sabor da derrota. A equipa de Meisl começava a fazer história, e a fama corria pelo continente.
 
Vitórias históricas: nasce o Wunderteam
 
De permeio, a 16 de maio de 1931, a Escócia visitou Viena para comprovar que o futebol britânico ainda estava uns passos à frente do futebol continental, mas quem assistiu a essa tarde de futebol na cidade do «Danúbio Azul», não esquece a forma como os austríacos liderados por Sindelar, cilindraram os escoceses por 5x0.
 
A Europa pasmou, a imprensa maravilhada, apelidou a Áustria de Wunderteam, equipa maravilha, e o nome pegava. Nascia uma lenda que ganharia na história um lugar ao lado da Hungria dos anos 50, do Brasil de 1970 ou da «Laranja Mecânica» de Cruijff
 
Oito dias depois, a Wunderteam foi recebida em Berlim, como uma constelação de estrelas. Todos queriam ver de perto os austríacos que tinham dizimado os profissionais escoceses. Sindelar e companhia deram um recital. Três golos de Schall, mais um golo cada de Adolf Vogl, Karl Zischek, e Friedrich Gschweidl, fizeram o 0x6 que arrasou a Alemanha, Contudo, e apesar da humilhação da Nationalelf, os alemães vitoriaram efusivamente os campeões austríacos. 
 
Mais uma goleada sobre a Alemanha (5x0), uma goleada sobre a Suíça (8x1) e um humilhante 8x2 à rival Hungria, a que se somaram outras vitórias, entre elas uma sobre a Itália que ajudou a conquistar a Taça Intercontinental, fez com que a fama dos austríacos atravessasse fronteiras e saltasse o Canal da Mancha para chegar à Velha Albion, onde os orgulhosos ingleses, olhavam com curiosidade para este fenómeno continental. Não tardou que a Football Association endereçasse um convite à sua congénere austríaca, para um embate em Londres, para decidir quem era a melhor equipa do mundo.
 
Uma tarde em Londres
 
Em Stamford Bridge, Londres, a Inglaterra bateu a Áustria por 4x3, num belo jogo de futebol que encantou os espetadores. Com a vitória, os ingleses podiam continuar a considerar-se os senhores do jogo, enquanto os austríacos provavam que o futebol continental tinha encurtado as distâncias para a Grã-Bretanha.
 
Nesse jogo, Sindelar, a estrela maior da constelação, marcou um golo que encantou todos o que presenciaram essa tarde mágica de Londres em 1932, um golo a fazer lembrar o golo de Maradona no mundial do México. O próprio árbitro da partida, o belga John Langenus diria um dia mais tarde:
 
«O golo de Sindelar foi uma verdadeira obra de arte, um feito que ninguém conseguiria alcançar contra um adversário como os ingleses. Nem antes nem depois dele. Sindelar pegou a bola no meio campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo o que lhe aparecia pela frente, e concluiu empurrando a bola para o fundo da baliza.»
 
Mais tarde, em maio de 1936, a Inglaterra acabaria por ser batida pela Áustria em Viena por duas bolas a uma. Entre 1932 e o mundial de 1934, os austríacos voltaram a ter uma sequência de oito jogos sem perder, o que a somar a ausência dos campeões do mundo uruguaios no grande certame, tornavam a equipa de Meisl e Sindelar uma das, senão mesmo, a grande favorita à vitória final no mundial de Itália, e a Áustria estava preparada para o repto. Em Viena, aquando da partida da comitiva, uma multidão vitoriou os jogadores, confiante que no regresso trariam a Taça Jules Rimet para casa. 
 
O Campeonato do Mundo de 1934
 
Os dias de glória da Áustria estavam para chegar, parecia ser esse o consenso entre os amantes de futebol na pequena nação alpina. Mas fora das fronteiras da Áustria, muitos eram também os que acreditavam no sucesso da Das Team, literalmente «A Equipa», como era um pouco sobranceiramente designada pelos seus concidadãos.
 
A verdade é que a Áustria nunca se encontrou em terras transalpinas, começando mal o torneio, com uma vitória sofrida após prolongamento sobre a França (3x2) em Turim. Seguiu-se uma viagem para Bolonha, onde a Áustria conseguiu uma nova vitória complicada sobre a vizinha Hungria (2x1), antes de chegar a grande Meia-final em Milão, contra a seleção anfitriã, aquele que era o último grande obstáculo, antes da final...
 
Num relvado que mais parecia um «batatal» - graças ao dilúvio da véspera - , os austríacos sucumbiram por 1x0 às mãos da equipa da casa, muito por culpa de uma arbitragem lastimável do sueco Eklind, que não viu uma claríssima grande penalidade de Monti sobre Sindelar, entre outros erros, impedindo os austríacos de chegarem à grande decisão.
 
Eklind visitara Mussolini na véspera do jogo, confraternizando com as elites do Partido Nacional Fascista Italiano, que se encontravam na cidade que viu nascer o movimento fascista, para acompanharem o grande jogo.
 
Como prémio pela arbitragem, Eklind seria nomeado para a grande final em Roma, onde voltaria a a ser «decisivo», depois de se deslocar na véspera ao Palácio Veneza, onde novamente voltou a privar com Il Duce
 
Abalada pela derrota, com lesões por debelar, a Áustria acabaria por perder com a Alemanha no jogo de consolação, acabando por ficar fora do quadro de medalhas.
 
A prata nos Jogos de Berlim
 
Após o mundial, o futebol austríaco continuou a brilhar. Nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936), sem Sindelar, a Áustria começou a prova batendo o Egito por 3x1. O segundo jogo seria contra o Peru, uma nação sul-americana sem historial na modalidade. Os austríacos chegariam sem dificuldade ao 2x0, mas para surpresa de muitos, os peruanos conseguiam empatar na segunda parte e levar o jogo para prolongamento. Nos 30 minutos extra, a surpresa chegou com dois golos tardios dos sul-americanos. 
 
Quando Fernández fez o 4x2 para o Peru, o público surpreendido e eufórico, invadiu o relvado para felicitar os peruanos. O jogo é interrompido e o árbitro considera que não há condições para ser reatado. É marcada uma repetição para dois dias depois, mas os peruanos recusam e retiram-se do torneio, indignados com a situação. A Áustria, salva miraculosamente pela invasão de campo, conseguia assim chegar às meias-finais onde bateria a Polónia.
 
Na grande final de Berlim, novamente contra a Itália, a Áustria ainda reagiu ao golo inicial dos transalpinos, mas acabou por ser derrotada no prolongamento, ficando-se pela medalha de prata, que até hoje, é o melhor resultado da história do futebol austríaco.
 
O fim
 
A 24 de janeiro de 1937, Hugo Meisl comandou a seleção nacional austríaca pela última vez. A sua Wunderteam presenteou-lhe, sem imaginar, uma vitória de despedida, derrotando em Paris, a França por 1x. Poucas semanas mais tarde, depois de já ter regressado a Viena, Hugo Meisl faleceu, vítima de um fulminante ataque de coração, contava apenas 55 anos de idade.
 
A 12 de março de 1938, a Alemanha de Hitler anexava a Áustria: o Anschluss. O país deixava de existir, tornando-se uma mera província do Império Alemão. A 3 de abril, realizou-se um jogo de comemoração da anexação da Áustria pelo III Reich. A Áustria defrontou a Alemanha no Pratter e venceu por 2x0. Foi o último jogo de Sindelar e companhia com a camisola da Áustria. 
 
No Verão, os austríacos jogariam pela seleção alemã, caindo surpreendentemente no primeiro jogo, numa derrota por 2x4 com a Suíça. Quatro austríacos que tinham estado presentes no mundial de 1934 - Josef Stroh, Franz Wagner, Willibaud Schmaus e Rudolf Raftl. Matthias Sindelar, a principal estrela da equipe austríaca, também foi convidado para defender a equipe alemã, mas o recusou. Acabaria por ser encontrado morto no seu apartamento, dez meses depois doAnschlussspiel. 
 
Um ano depois a Alemanha invadia a Polónia e começava a II Guerra Mundial, o futebol ficava para segundo plano, a wunderteam tornava-se uma página nos livros de história...
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