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      Espanha 1982

      Espanha 1982: o cinismo derrotou o futebol espetáculo

      Texto por Filipe Ferreira
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      O regresso da Itália

      O Mundial de Espanha foi antes de tudo um dos mais belos espectáculos da história do futebol. Foi uma competição repleta de grandes jogos, com belíssimos golos, surpresas e jogadas protagonizadas por alguns dos maiores jogadores da história mundial como Platini, Zico, Sócrates, Boniek, Falcão, Maradona, Rossi, Littbarski, entre outros “monstros sagrados” do futebol.

      A Squadra Azzurra tocou o céu 42 anos depois, mas não foi fácil. Ao contrário daqueles que afirmam que foi uma “vitória ao sprint” a vitória italiana foi antes de mais a “vitória de um fundista” habituado a competições longas e desgastantes, que no momento certo sabe embalar para o ataque decisivo que deixa os restantes competidores para trás. Foi assim que a Itália foi campeã.

      Alguns apelidaram esta Itália como a campeã do sofrimento, pois foi uma equipa muito acossada, tanto pela imprensa como pelos adeptos.

      A Itália atravessou o mau momento inicial debaixo de um mar de críticas, que iam subindo de tal maneira de tom que o treinador italiano, Bearzot zangou-se com a imprensa transalpina e decretou o “silenzio stampa”, o primeiro black-out da história de um mundial, que só viria a ser levantado após a vitória na final de Madrid.

      Primeira surpresa

      O Mundial espanhol começou no Nou Camp em Barcelona, no dia 13 de Junho, com a Argentina a começar a defender o título contra a sempre “perigosa” Bélgica, que confirmaria esse epíteto, quando Van den Bergh bateu Filol e fez o único golo da partida. O Mundial começava com uma surpresa e não seria a única…

      No dia seguinte no Estádio Sanchez Pizjuan em Sevilha, entrou em acção uma das melhores equipas que o Brasil apresentou em toda a história do futebol mundial.

      Entra o Brasil espetáculo

      O Brasil tinha-se preparado estagiando em Portugal, embalado pelas suas exibições e pelo carinho demonstrado pelos “irmãos” portugueses o escrete chegou ao primeiro jogo preparado para brilhar.

      Pela frente estava a U.R.S.S. que tomou a liderança com um disparo indefensável de Bal (34’). O Brasil reagiu com um golo de Sócrates (75’) e só deu a volta com um golaço de Eder a 2 minutos do final. O Brasil entrava com o pé direito e derrotava o principal adversário do grupo.

      O Campeonato seguiu com a pobre estreia da Itália, num empate a zero com os polacos e continuou com a maior goleada de sempre da fase final de um mundial até hoje, num jogo em que a Hungria brindou El Salvador com um concludente 10-1.

      Ao quarto dia da competição (16/6) chegavam dois jogos há muito esperados: a estreia da Espanha no mundial e um sempre imperdível França vs Inglaterra.

      A Argélia mostra-se ao mundo

      A equipa da casa surpreendeu tudo e todos e decepcionou a sua afición ao empatar a uma bola com as Honduras; enquanto no clássico entre ingleses e franceses - num jogo arbitrado pelo português António Garrido - dois golos de Robson e um de Mariner, contra um de Soler, valeram uma saborosa vitória por 3-1 aos Súbditos de sua Majestade.

      Mas para esse dia 16 de Junho estava guardada a maior das surpresas… A Alemanha Federal defrontava a estreante Argélia e pouco dariam alguma chance aos estreantes magrebinos, mas quando Rabat Madjer inaugurou o placar aos 54’ já ninguém estava escandalizado, dada a qualidade do futebol apresentado pelos argelinos até essa altura do encontro.

      Assustada com o golo, a Alemanha finalmente acordou e chegou ao empate aos 67’ por Rummenige. Mas rapidamente os alemães voltaram à modorra incial e alemães que o segundo golo surgiria mais cedo ou mais tarde. A verdade é que o golo nunca mais surgiu e a dois minutos do fim Beloumi marcava o segundo para a Argélia e deixava os alemães à beira de um ataque de nervos.

      Ainda na primeira jornada, mais uma surpresa: em Valladolid outro estreante, o Kuwait, empatava com a Checoslováquia.

      Brasil fulminante

      A 2ª Jornada começa com um Brasil fulgurante que apesar do golo inicial dos escoceses, mais uma vez deu a volta por cima e esmagou a Escócia por 4-1. Nesse mesmo dia os campeões do mundo com a sua jovem promessa Diego Armando Maradona em grande plano despacharam a Hungria por iguais números.

      Mas se os colossos sul-americanos mostravam o músculo, a Itália de Bearzot voltava a decepcionar empatando com o Perú a uma bola, levantando-se muitas dúvidas até aonde chegaria esta Squadra Azzurra.

      Nos restantes jogos da 2ª Jornada destaca-se a vitória da Alemanha Federal sobre o Chile e da França sobre o Kuwait, imitando argentinos e brasileiros e vencendo também por 4-1.

      Supremacia europeia

      Enquanto a U.R.S.S. conquistava a primeira vitória, sobre os estreantes Neozelandeses (3-0), a Áustria confirmava o bom momento depois de ter vencido o Chile (1-0) e vencia agora a surpreendente Argélia (2-0). A Espanha finalmente vencia por 2-1, em Valência, uma aguerrida Jugoslávia.

      Na última jornada enquanto a Polónia esmagava o Peru por 5-1 e quebrava a “maldição” dos empates que grassavam no grupo 1, a Itália ao empatar 1-1 com os Camarões qualificava-se, mesmo sem ganhar nenhum jogo, superiorizando-se aos camaroneses por ter um goal-average de 2-2, superior ao 1-1 dos africanos.

      Vergonha austro-alemã

      No grupo 2 a Argélia surpreendeu novamente e venceu o Chile por 3-2, mas de nada lhe valeu, pois no dia seguinte já sabedora do resultado dos argelinos a Alemanha ao vencer os vizinhos austríacos por 1-0, num jogo vergonhoso onde pairou o fantasma do “jogo combinado”, garantiu a segunda vaga no grupo ao lado da Áustria.

      O grupo 3 tal como o 4 não trouxe mais surpresas com a Bélgica e a Argentina num grupo, e a Inglaterra e a França noutro a carimbarem o passaporte.

      A Espanha apesar da derrota com a Irlanda do Norte seguia em frente, graças à vitória jugoslava na véspera sobre as Honduras; enquanto o Brasil fechava com chave d’ouro a sua participação no grupo esmagando a Nova Zelândia (4-0), com um dos golos apontado na sequência de uma fantástica bicicleta do Pelé Branco, como chamavam então à maior estrela da selecção brasileira: Zico.

      A U.R.S.S. apesar do empate com os escoceses garantia o segundo lugar e a passagem à ronda seguinte.

      Segunda fase

      Ao inovar com 24 equipas na fase final, este mundial continuou com uma segunda fase de grupos tal como tinha acontecido nos dois mundiais anteriores.

      Quatro grupos com 3 equipas, onde cada um dos vencedores seguiria para as meias-finais.

      O grupo A com polacos, belgas e soviéticos foi vencido pela Polónia pela diferença de golos, pois venceu belgas por 3-0 e empatou com U.R.S.S (0-0), enquanto os russos só venceram os belgas por 1-0.

      A Espanha por sua vez tinha a companhia de dois gigantes no grupo B: Alemães e ingleses que abriram as hostilidades com um 0-0.

      No segundo jogo a Alemanha venceu a Espanha por 2-1 e afastou os anfitriões das Meias-finais.

      Restava à equipa da casa um último jogo para limpar a péssima imagem que apresentou no torneio. A exibição não foi boa, mas o 0-0 deu para reparar a alma e eliminar também os ingleses do mundial.

      Já no grupo D, os franceses que não tinham brilhado na primeira fase, venceram a Áustria por 1-0 e a Irlanda do Norte por 4-1, marcando presença nas meias-finais, repetindo o feito de 1958 na Suécia.

      Grupo da Morte

      Por último o grupo C, o verdadeiro “grupo da morte”, que teve os seus três jogos disputados no Sarriá, velhinho estádio do Espanhol de Barcelona.

      A Cidade Condal recebia três gigantes do futebol mundial: O Brasil tricampeão do Mundo, a Itália bicampeã do Mundo e a Argentina - campeã mundial em título - discutiam a única vaga que dava acesso às meias.

      No primeiro jogo a Itália finalmente “acordou” para o mundial vencendo a Argentina por 2-1. Num jogo onde Maradona, a jovem estrela argentina foi alvo de uma marcação cerrada de Gentile que conseguiu o feito de cometer 28 faltas sempre sobre o mesmo jogador e só ver um cartão amarelo.

      No segundo jogo do grupo o Brasil passeou classe contra uma Argentina de cabeça perdida que perdeu por 3-1 e saiu de cabeça baixa, vendo inclusive a sua jovem estrela expulsa.

      Rossi vs Brasil

      Chegou então o dia do jogo decisivo em que um empate bastava ao Brasil para seguir em frente.

      Mas aos 8’ Paolo Rossi inaugurava o  marcador e baralhava as contas do escrete. O Brasil reagiu de pronto e Sócrates empatou a passagem dos 12’.

      Confiantes os canarinhos pressionaram os italianos, mas num rápido contra-ataque o inevitável Paolo Rossi bisava aos 25’. Telé Santana - o treinador brasileiro - levava as mãos à cabeça e o Brasil tinha que voltar a correr atrás do prejuízo…

      O intervalo chegou com os italianos na frente.

      A segunda parte começava como a primeira tinha terminado: Com o Brasil a jogar um futebol pressionante e ofensivo, de fino recorte e a encostar a Itália lá atrás.

      Aos 68’ após uma jogada brilhante do colectivo brasileiro Falcão empatava novamente a partida e era explosão da torcida nas bancadas do Sarriá.

      Mas 6 minutos depois, com uma frieza incrível, Paolo Rossi fazia um hattrick e abria a porta das “meias” para a Squadra Azzurra.

      Faltavam 16 minutos e o Brasil voltou a empurrar a Itália para trás, mas a Itália não cedeu mais e os canarinhos foram perdendo a cabeça e a lucidez e quando o árbitro israelita Abraham Klein apitou para o final, os brasileiros caíam prostrados no relvado e a Itália acordava em festejos acreditando ser possível voltar a ser campeã 42 anos depois.

      Loucura em Sevilha

      Nas meias-finais a Itália confirmou a sua superioridade e continuava embalada batendo a Polónia por 2-0.

      No outro jogo opunham-se alemães e franceses. A “força da técnica” latina contra a “técnica da força” teutónica.

      O jogo de Sevilha foi um hino ao futebol. Tudo começou com o golo de Pierre Littbarski aos 17’, ao que a França reagiu com o golo de Platini aos 26’ - através de uma grande penalidade.

      O jogo chegou ao fim dos 90’ com 1-1 e foi no prolongamento que a partida ganhou outra emoção: primeiro Tresor aos 92’ colocava a França na frente e seis minutos depois Giresse fazia o 3-1 e a França ficava tão perto da final. Mas a 3 minutos do final da primeira parte Rummenige reduzia para 2-3.

      Já na 2ª parte, aos 108’ Fischer empatava o jogo a 3-3 para desespero dos jogadores franceses.

      Ainda no segundo tempo aconteceu o caso do jogo, quando o guarda-redes germânico Schumacher trava com uma agressão bárbara o francês Battiston dentro da grande área alemã sem o árbitro marcar nada.

      O jogo foi para desempate através de grandes penalidades, sendo a primeira vez que num mundial se recorria a essa forma de desempate. Na memória de quem assistiu está a imagem do alemão Stielike em lágrimas, inconsolável, após ter falhado, e que assim haveria de continuar, mesmo depois de Schumacher defender o remate de Six.

      Com o jogo empatado a 4-4 Bossis permite a defesa de Schumacher e Hrubesch faz o 5-4 final que apurou os alemães para a final.

      A consagração

      No dia da grande final disputada no Santiago Barnabéu em Madrid, ninguém esquece as imagens do Presidente italiano Sandro Petrini na tribuna presidencial, ladeado pelo Rei de Espanha e pelo chanceler alemão Helmut Schmidt a vibrar intensamente com cada golo da Squadra Azzurra.

      Para história fica o primeiro penálti falhado numa final por intermédio de Cabrini. Mas imagem de marca do Espanha 82, aquela imagem que todos ainda se recordam é a corrida em direcção às câmaras de Tardelli a festejar efusivamente o 2-0. O jogo terminaria com a vitória italiana por 3-1 e no final outra imagem fez história: o levantar da taça pelo mais velho campeão

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