História da Edição

      Rússia 2018: Ramenez la coupe à la maison

      Texto por Ricardo Miguel Gonçalves
      l0
      E0

      O 21º Mundial da história foi considerado por muitos como um dos melhores de sempre. Desde a surpreendente eliminação da Alemanha, campeã em título, até à impressionante prestação da Croácia de Luka Modric, passando pela consagração do talento do jovem Kylian Mbappé, a história foi rica e extensa.

      Mas por mais extensa que seja a história, há sempre o sumário perfeito e esse só inclui o nome da França. A equipa gaulesa, que vinha de uma derrota caseira na final do Euro dois anos antes, foi absolutamente dominante e mereceu a conquista do maior troféu que o futebol tem para oferecer, 20 anos depois de o ter feito pela primeira vez.

      Quinas em queda prematura

      Comecemos por Portugal, que chegou a solo russo com o estatuto de campeão europeu devido à histórica conquista de 2016 e acima de tudo com vontade de brilhar com uma equipa que se assumia, mais do que nunca antes, como a melhor que a seleção nacional alguma vez tivera. Era, afinal, a mesma base de dois anos antes, à qual tinha sido acrescentada a qualidade inquestionável de nomes como Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Rúben Dias e não só.

      O objetivo mínimo era superar a má imagem deixada quatro anos antes no Brasil, quando a equipa das quinas não passou sequer a fase de grupos. Esse foi alcançado, embora não tenha sido um Mundial de grandes memórias para o nosso país, que venceu apenas um dos quatro jogos disputados.

      CR7 marcou três à Espanha @FPF
      A memória mais feliz é, possivelmente, a do jogo inaugural. Não, não foi esse que os comandados de Fernando Santos venceram, mas fica para a história o épico hat-trick de Cristiano Ronaldo, consumado com um livre cobrado de forma perfeita aos 88 minutos, que valeu um 3-3 no duelo ibérico com a Espanha.

      A tal vitória chegou no segundo jogo. Um 1-0 sobre Marrocos, que não entusiasmou portugueses nem estrangeiros devido à forma como a equipa lusa recuou depois do único golo (Ronaldo, claro) aos quatro minutos. Chegámos ao derradeiro duelo do Grupo B com o apuramento praticamente assegurado, mas o sofrimento é um estilo incontornável no futebol português, tanto que nos descontos houve, quase em simultâneo, o golo que deu um ponto à Espanha e o golo do Irão, que assim fez o 1-1 e empurrou Portugal para o segundo lugar. Os iranianos, comandados por Carlos Queiroz, por pouco não fizeram a reviravolta que eliminaria um dos favoritos...

      Terminando em primeiro, Portugal teria encontrado a seleção anfitriã, mas a queda para o segundo posto significou um duelo com o incansável Uruguai. Adversário acessível, claro, mas incansável e cheio de poder de fogo ofensivo, através da dupla Luis Suárez e Edinson Cavani.

      Cavani, o carrasco de Portugal @Getty /
      O primeiro assistiu o segundo logo ao sétimo minuto, em Sochi. Pepe empatou para a equipa das quinas já na segunda parte, mas Cavani foi quem mais quis o lugar nos quartos de final e bisou, empurrando a seleção de todos nós para fora de mais uma grande competição.

      A inexplicável tragédia alemã

      Assim, o Uruguai conseguiu um lugar entre as oito melhores seleções, mas quem foram as restantes?

      Ora, uma delas foi a França, eventual vencedora, que bateu os uruguaios nessa mesma ronda. Também a anfitriã Rússia surpreendeu ao chegar até aí, após eliminar a Espanha, mas caiu frente a uma Croácia imparável, enquanto a outra grande surpresa, Suécia, tombou perante os ingleses. Brasil e Bélgica protagonizaram o jogo grande desses quartos, que, tal como os restantes, terminou em vitória europeia.

      Mas a melhor história não está, garantidamente, nos quartos de final. A parte interessante é descortinar como é que estas equipas lá chegaram e, acima de tudo, quem tombou pelo caminho...

      Alemanha no seu pior...
      A grande ausência foi a Alemanha, então campeã do Mundo, que imitou a tentativa de defesa do título dos dois vencedores anteriores e caiu na fase de grupos. Um tombo com estrondo, para uma mannschaft que somou três pontos (golaço de Kroos nos descontos deu a vitória sobre a Suécia, que venceria esse Grupo F), mas deitou tudo a perder no último jogo, no qual perdeu por 2-0 frente à Coreia do Sul. A equipa de Heung-min Son já estava matematicamente eliminada, mas acabou por terminar em terceiro no grupo, à frente dos alemães que, pela primeira vez desde 1938, caíam numa fase tão prematura.

      Do Grupo A tombaram Arábia Saudita e Egito, este último sem qualquer ponto apesar dos esforços de Mohammed Salah. No C não houve surpresas, com a eliminação dos frágeis (Austrália e Perú) em detrimento da França, eventual campeã, e da Dinamarca, que cairia nos oitavos via grandes penalidades, frente a uma Croácia que venceu o Grupo D à custa da Argentina de Leo Messi, que bateu por 3-0. A Nigéria sonhou com a passagem, mas na derradeira jornada tombou frente aos argentinos, que até já tinha perdido pontos contra a diminuta (e estreante) Islândia.

      Zero surpresas no Grupo G, que o Brasil venceu para marcar encontro com o México nos oitavos de final, mas a canarinha não conseguiu ir além dos quartos e por consequência não apagou da memória o fiasco caseiro de quatro anos antes. Essa eliminação veio perante a Bélgica, que vivia o auge da sua geração de ouro e confirmava-a desde cedo, com o pleno de triunfos num Grupo G em que a Inglaterra agarrou confortavelmente o segundo posto. Desse grupo destaca-se ainda o estreante Panamá, que não conseguiu pontuar, mas celebrou intensamente o primeiro golo da sua história em mundiais, marcado pelo experiente capitão Felipe Baloy, mesmo que esse tenha chegado numa derrota por 6-1 com os ingleses...

      Anfitriã Rússia foi uma das maiores surpresas @Getty / Matthias Hangst
      Do derradeiro grupo, o mais equilibrado de todos eles, saiu a Colômbia e o Japão, este último em igualdade pontual com o Senegal. Com a mesma pontuação e registo de golos, o desempate entre as duas equipas foi feito, pela primeira vez na história, pela via do fair-play: os japoneses viram menos amarelos e por isso seguiram em frente!

      Mas se a equipa nipónica teve sorte aí, o azar bateu à porta logo de seguida. Nos oitavos estiveram a vencer a Bélgica por dois golos, com uma exibição irrepreensível, mas deixaram tudo fugir nos descontos, quando Chadli consumou uma impensável reviravolta (3-2).

      Dessa ronda, destaca-se também a final antecipada - foi mesmo a final quatro anos depois - entre França e Argentina, da qual les bleus saíram vencedores graças a um bis de um certo jovem de 19 anos chamado Kylian Mbappé. Nesse histórico 4-3 houve, de resto, possivelmente o melhor golo de toda a prova: um inesquecível vólei do jovem defesa Benjamin Pavard.

      Gerações de ouro a caminho de casa

      Depois do grupo perfeito, da reviravolta épica sobre os japoneses, e de uma surpreendentemente tranquila vitória (2-1) sobre o poderoso Brasil, o sonho da Bélgica estava mais vivo de que nunca.

      Bélgica sonhou! @Getty / Francois Nel
      Nunca tinha sido uma das melhores seleções do Mundo, mas a geração dourada dos belgas era boa o suficiente para as ambições do título. Não vá pela nossa palavra, recorde os nomes: Eden Hazard, Kevin De Bruyne, Romelu Lukaku, Thibaut Courtois, Vincent Kompany, Vertonghen, Alderweireld, Dembélé, Witsel, Mertens... Enfim. Roberto Martínez, que mais tarde seria selecionador de Portugal, tinha em mãos uma das melhores seleções de sempre!

      O sonho, ainda assim, acabou. Em São Petersburgo, uma França igualmente forte beneficiou do golo de Umtiti para vencer 1-0, num jogo que não esteve à altura das enormes expectativas do público geral. Significou, ainda assim, um regresso gaulês à grande final.

      Para disputar o outro lugar no jogo decisivo havia Croácia e Inglaterra.

      Harry Kane foi artilheiro com seis golos @Getty /
      Os ingleses eram favoritos. Tinham Harry Kane, melhor marcador da prova, e o selecionador Gareth Southgate implementara uma solidez defensiva que já não era vista nos três leões há décadas, tanto que a confiança inglesa subiu a pique e foi representada pelo incessante cântico «It's coming home». Inglaterra, tão forte nas bolas paradas, utilizou um desses lances para se colocar em vantagem ao quinto minuto da meia-final, mas a Croácia era incansável.

      A equipa de Zlatko Dalic vinha de duas rondas consecutivas ultrapassadas nas grandes penalidades, mas teve energia suficiente para empatar e levar a Inglaterra a prolongamento, onde Mario Mandzukic fez o 2-1 e empurrou a Croácia, contra toda a lógica, para a primeira final da sua história!

      Foi a Bélgica que agarrou o último lugar do pódio, batendo os ingleses por 2-0 no jogo que ninguém quer jogar.

      França feliz em Moscovo! @Getty /

      Glória gaulesa!

      Modric foi impressionante, mas não conseguiu levar Croácia à glória @Getty /
      França e Croácia, em Mosovo, para a grande final. De um lado Griezmann, Mbappé, Pogba e Kanté, do outro, Perisc, Mandzukic, Rakitic e, acima de todos eles, o capitão Luka Modric, que seria eleito melhor jogador da prova e, meses depois, Bola de Ouro. 

      Do maior palco imaginável no futebol esperava-se perfeição, mas o duelo decisivo ficou marcado por erros. Mandzukic abriu o marcador a favor do adversário, com um auto-golo, mas Perisic empatou. Também Lloris, capitão francês, teve uma paragem cerebral que deu a Mandzukic o golo mais fácil da sua carreira, mas entretanto já tinham marcado Griezmann, Pogba e Mbpappé - o segundo mais jovem de sempre a marcar na final, apenas superado por Pelé -, e a França já tinha o jogo no bolso. 4-2, no fim.

      Mbappé: 19 anos, quatro golos e eleito melhor jovem @Getty /
      Se Portugal, campeão europeu em título, não foi feliz em solo russo, então a França vingou essa derrota caseira de dois anos antes com a conquista do Mundo inteiro, pela segunda vez. Sagrou-se, 20 anos depois, campeã do Mundo!

      Para a história, além dessa conquista, ficam os sorrisos da equipa de Didier Deschamps e a celebração, que se estendeu por todo o Mundo e durou anos, na voz do artista Vegedream. A canção dos les bleus para essa competição («Ramenez la coupe à la maison», ou, em português, «Tragam a taça para casa») tornou-se um amuleto para o plantel, todo ele referido na letra, e num êxito duradouro para o resto do planeta.

      Comentários

      Gostaria de comentar? Basta registar-se!
      motivo:
      EAinda não foram registados comentários...
      Tópicos Relacionados
      Equipa
      Competição