A história do Europeu de França

Euro 2016: De empate em empate... até à vitória!

Texto por Luís Rocha Rodrigues
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Podia ter sido deles, os franceses, que organizavam a prova e que, repletos de craques, começaram por alicerçar vitórias em Payet, antes de Pogba e Griezmann pegarem na batuta. Podia ter sido deles, os alemães, que eram campeões do Mundo e que também tinham um leque impressionante de, ao mesmo tempo, bons jogadores e vencedores natos. Podia ter sido deles, os espanhóis, ainda com muita cultura de vitória e com alguns restos de tiki-taka assente em Iniesta. Podia ter sido de italianos, de belgas, de ingleses ou de croatas, os primeiros encantadores da prova. Mas não. Aquela seria diferente. Seria para premiar a mudança de paradigma de um país habituado às vitórias morais e às mortes na praia. À beira-mar plantados, seria para eles, os portugueses.

Com a tecnologia a entrar no futebol pela linha de golo, a maior novidade da competição foi o alargamento a 24 equipas, no formato que teve o Mundial durante várias edições (até 1994), o que permitiu que várias seleções se estreassem numa fase final: Irlanda do Norte, País de Gales, Albânia e Eslováquia (curiosamente, só albaneses não passaram o grupo). Mesmo assim, houve a enorme ausência de uma Holanda em crise e não sobrou espaço para Sérvia, Dinamarca ou Bósnia. Um alargamento que permitiu, é bom recordar, que alguns terceiros classificados se pudessem apurar.

Na multicultural e multirracial França, a organização da prova decorreu sem os problemas financeiros de casos anteriores, mas a segurança estava na ordem do dia. Os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris estavam frescos na memória e, por isso, a operação foi apertadíssima para que nada fugisse do controlo das autoridades.

Grupos pela lógica

No futebol, com prémios bastante chorudos (eis a lista monetária, segundo a qual Portugal ganhou 25,5 milhões de euros), assistiu-se a uma fase de grupos com o equilíbrio a ser nota dominante. Aliás, o facto de nenhuma seleção ter feito nove pontos e de apenas a Ucrânia não ter pontuado é exemplificativo.

Payet começou muito bem ©Getty / Lars Baron
Começando pelo grupo A, os anfitriões começaram a ganhar e assim ditaram o seu rumo no grupo A, onde a Suíça acrescentou lógica ao ficar no segundo posto e onde a Albânia acabou com uma histórica vitória, que lhe permitiu algum suspense, mas depois a certeza que não seria suficiente para seguir em frente. Um grupo também marcado por uma circunstância raríssima: dois irmãos a jogarem... um contra o outro. Os Xhaka e um «sentimento de merda». E, claro, marcado pela apaixonante história de Dmitri Payet.

Bale e Coleman no estreante Gales ©Getty / Ian Walton
No grupo B, sobressaía o duelo de vizinhos entre Inglaterra e País de Gales e, pese embora o triunfo dos ingleses nessa partida, fruto de uma reviravolta vinda do banco, seriam os galeses liderar o grupo, com duas vitórias nos outros desafios. Um grupo onde a Rússia foi a grande deceção, dentro e fora do campo - os adeptos russos causaram enormes distúrbios em Marselha, no jogo inaugural contra a Inglaterra, e a seleção enfrentou uma desqualificação com pena suspensa. Porém, não foi preciso reincidência, já que, no campo, um ponto apenas ditou o último lugar, atrás de uma Eslováquia a abrilhantar a sua estreia.

Alemanha e Polónia têm, por toda a carga histórica, uma enorme rivalidade, mas, no grupo C, houve uma espécie de pacto de não-agressão no duelo entre ambos (0x0), na segunda jornada. Um empate que acompanhou duas vitórias das duas seleções mais fortes do grupo, perante uma Ucrânia dececionante e uma Irlanda do Norte que, à conta de jogos perdidos pela margem mínima e de um triunfo contra os ucranianos, passou aos oitavos. Uma nação que foi um dos campeões fora de campo, em demonstrações fantásticas de como fazer do futebol uma festa, e que teve como principal referência um jogador... que nem sequer jogou: Will Grigg, avançado do Wigan, teve um dos cânticos marcantes da prova, mas não foi opção em nenhum jogo.

Perisic deu a vitória contra a Espanha
Com uma geração a aproximar-se da qualidade que outrora consagrou Suker, Boban e companhia, a Croácia ganhou o grupo D fruto da vitória na última jornada, mesmo a poupar Modric e Mandzukic, contra uma Espanha que tinha ganho os dois primeiros jogos sem convencer. Sob a batuta de Iniesta, faltava a Del Bosque as anteriores referências ofensivas e, mesmo com Morata a marcar, a equipa não demonstrava que podia ser La Roja demolidora que se vira nos Europeus anteriores. À Turquia, saiu a fava: mesmo tendo ganho o último jogo, foi, com a Albânia, um dos piores terceiros classificados, pelo que Fatih Terim e Arda Turan rumaram a casa, tal como os checos e Petr Cech, que se despediu.

O grupo E teve a Itália a entrar muito afirmativa, ao ganhar à constelação de estrelas da Bélgica, com uma exibição prometedora dos muito experientes jogadores que Conte escolheu (um recorde em Europeus). De Ibrahimovic espera-se sempre muito, mas o capitão da Suécia foi outro dos que se despediram da respetiva seleção sem brilho. Não marcou e os suecos ficaram em último lugar, vendo os apaixonados irlandeses, com o veterano Robbie Keane, serem terceiros com 4 pontos.

Finalmente, o grupo de Portugal, onde a equipa de Fernando Santos foi uma verdadeira deceção. Três jogos, três empates, liderança para outros e apuramento à justa. O selecionador português foi dizendo que só contava voltar para casa após a final, mas os sinais eram bastante preocupantes. Mesmo com Cristiano Ronaldo, o melhor do Mundo na altura, a equipa era sôfrega, inconstante e inconsistente. E nem falamos de um grupo da morte, pelo contrário: Islândia, Hungria e Áustria davam toda a ideia de passeio luso, que não aconteceu. Quando a decisão final chegou, Portugal tentava ainda o primeiro lugar, sabendo que o segundo era, em teoria, pior que o terceiro, já que o emparelhamento de jogos então praticamente definido ditava um trajeto muito mais complicado por esse trajeto e muitos não tiveram dúvidas em afirmar: foi o golo de Traustason, islandês que deu a vitória à sua equipa contra uma Áustria desesperada à procura da vitória, que proporcionou a Portugal um trajeto propício ao título. De segundos para terceiros, os portugueses passavam sem festa e em alerta.

Queda de candidatos

Quaresma saiu do banco para marcar ©Getty / Clive Mason
Para os oitavos de final, Fernando Santos percebeu que tinha de mudar. Renato Sanches era um jovem a explodir e foi a partir daí que passou a titular (no fim do ano seria Golden Boy), a quem se juntaram José Fonte, Cédric Soares e Adrien Silva, que compôs um meio-campo mais familiar com William e João Mário. Contra a Croácia, não houve espaço para brilhantismo, pois jogar contra a Polónia abria excelentes perspetivas de chegada às meias-finais. Muito se esperou daquele duelo que colocou Ronaldo contra o colega de equipa Modric, mas o jogo foi dececionante e resolvido no fim do prolongamento, num contra-ataque finalizado por Quaresma.

A Polónia, como referido, também passou, nos penáltis contra a Suíça, a Bélgica passeou contra a Hungria (0x4) e a Alemanha fez o mesmo contra a Eslováquia (3x0). Com mais dificuldades, a França, com Pogba a comandar e Griezmann a tratar de escalar a lista dos melhores marcadores (acabou como artilheiro, com seis), deu a volta à República da Irlanda (2x1), tal como o País de Gales, que ganhou à Irlanda do Norte (1x0).

No jogo mais aguardado desta fase, a Itália superiorizou-se à Espanha (2x0), depois de ter feito descansar quase todos os titulares no fim da fase de grupos, e confirmou-se como candidata.

Islândia deixou marca ©Getty / Matthias Hangst
Porém, a maior nota foi para a Islândia. No grupo, já tinha sido apaixonante ver aquele conjunto de vikings, que jogavam destemidos e festejavam coordenados com a bancada, numa das grandes imagens desta prova. Contra a Inglaterra, era apenas um prémio pela excelente campanha, só que os nórdicos quiseram mais e, mesmo depois de Rooney marcar cedo, aos 18 minutos já estavam a ganhar por 1x2. E assim ficou, para espanto do mundo e saída de Roy Hodgson.

Quartos dos golos

Nestas alturas decisivas, esperam-se equipas mais fechadas, cautelosas e cansadas, e menos golos, mas não foi isso que se viu. Desde logo, a França enviou para casa os marcantes islandeses (5x2), enquanto o País de Gales ganhou definitivamente a distinção de estreante vencedor, ao eliminar de forma surpreendente a Bélgica (3x1), numa reviravolta que mostrou o melhor de Ramsey e a força de Robson-Kanu.

Itália caiu nos penáltis ©Getty / Alex Livesey
Portugal anulou a vantagem polaca e levou o jogo a penáltis, onde os lusos bateram melhor e carimbaram o acesso às meias-finais, para onde também seguiu a Alemanha da mesma maneira: empate a um e ida para a marca dos 11 metros, onde Neuer foi melhor que Buffon.

Duelo do Real e dupla final

Ronaldo fez o seu terceiro golo, contra Gales ©Global Imagens / Gerardo Santos
Nas meias, a expectativa em relação ao jogo entre Portugal e País de Gales era ver quem se sairia melhor entre Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, à data os dois investimentos mais altos da história, mas com rendimento bem diferente no Real Madrid. O português foi melhor, marcou num impressionante salto de cabeça e rematou frouxo para desvio de Nani. Naquela que foi a única vitória nos 90 minutos de Portugal em toda a prova, sem o castigado Pepe (Bruno Alves esteve excelente na sua única aparição), viu-se a maior tentativa de contrariar a ideia de que os portugueses não jogavam bom futebol, enquanto na bancada se cantava «Pouco importa, pouco importa / Se jogamos bem ou mal / Queremos é levar a taça / Para o nosso Portugal».

No dia seguinte, Marselha acolhia a que muitos indicavam como final antecipada. Entre a anfitriã França e a campeã do Mundo Alemanha, quem ganhasse provavelmente levava o troféu. Outra vez à boleia de Griezmann, os franceses voltaram a apurar-se para a final, como já tinha acontecido no Euro 84 e no Mundial 98, também em sua casa.

Éder, o herói improvável ©Global Imagens / Gerardo Santos
As tendências de aposta eram claras: a França tinha tudo para ganhar no Stade de France, onde uma incrível avalanche de traças marcou o aquecimento. Ainda mais parecia ter quando Cristiano Ronaldo, após uma forte pancada de Payet no joelho, foi três vezes assistido, até, em lágrimas, abandonar o campo e deixar a sua seleção sem o capitão e referência. A França criava mais oportunidades, mas, à medida que o tempo foi passando, Portugal cresceu em pés de lã. Ameaçou o golo, viu Gignac atirar ao poste no último minuto da compensação e, em mais um prolongamento (o terceiro dos lusos), atirou à trave por Guerreiro e fez o golo mais importante da história do futebol português por Éder. Ainda sem qualquer minuto até então, o camisola 9 foi o último a entrar, começou por segurar algumas bolas e acabou a atirar à rede de Lloris, num momento magistral que deu a conquista a Portugal.

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