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      Mundial 2014

      Mundial 2014: Força alemã no país do futebol

      Texto por Vasco Sousa
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      64 anos depois, o Campeonato do Mundo regressou ao Brasil, pátria da seleção com mais títulos na competição. No meio de muito entusiasmo, os adeptos brasileiros queriam que o trauma do Maracanazo de 1950 ficasse “vingado”. Mas, para choque de todos, o Maracanazo deu lugar ao Mineiraço

      Em 1994, o continente americano tinha recebido o Campeonato do Mundo pela última vez. Depois da Europa (duas vezes) e das estreias da Ásia e da África, 20 anos volvidos e o torneio voltaria às Américas. Em 2003, Argentina, Brasil e Colômbia foram anunciadas como candidatas a anfitriãs da prova, mas três anos depois as confederações da CONMEBOL votaram unanimemente no Brasil como único candidato. Em 2007, a FIFA ratificou o Brasil como o organizador do Mundial 2014.

      Os brasileiros estavam motivados, não só para ver a sua seleção campeã mundial, mas também por receber o maior torneio futebolístico do Mundo – conhece-se a paixão do povo brasileiro pelo futebol. Ainda assim, a preparação para a fase final foi marcada pela polémica: houve derrapagem no orçamento dos estádios, bem como o atraso na construção dos mesmos, o que levou a que muitos brasileiros contestassem a organização da prova, através de ruidosas manifestações. Porém, a 12 de junho, a bola começou a rolar e o que se assistiu foi a um mês de futebol fantástico, grandes craques, surpresas e jogos e momentos para a história.

      Goleadas, surpresas, defesas…

      Coube precisamente a um jogador brasileiro marcar o primeiro golo do Mundial… mas na baliza errada. Marcelo enganou o colega Júlio César, tornando-se o primeiro jogador a marcar o primeiro golo de um Mundial na própria baliza. A Croácia adiantou-se assim, no marcador, mas o Brasil acabou por vencer por 3x1, com um bis de Neymar, a grande esperança dos brasileiros para a conquista do Hexa.

      No mesmo grupo, e debaixo de intensa chuva em Natal, o México bateu os Camarões por 1x0. Na segunda jornada, Brasil e México protagonizaram um dos grandes jogos do torneio, apesar do nulo. Foram imensas as oportunidades de golo, principalmente para o Brasil, com Ochoa a fazer uma exibição extraordinária, “copiando” a famosa defesa de Banks a remate de Pelé, em 1970, agora a remate de Neymar. No outro jogo do grupo, a Croácia goleou os Camarões, que mostraram muita indisciplina: Song foi expulso ainda na primeira parte e ao longo de todo o jogo ficaram evidentes várias discussões entre os jogadores camaroneses. Já eliminada, a seleção africana perdeu frente ao Brasil por 4x1 na última jornada, enquanto os mexicanos não deram hipóteses à Croácia (3x0), garantindo a qualificação para os oitavos de final da prova pela sexta vez consecutiva.

      Holanda vingou-se da Espanha com estilo ©Getty / Jeff Gross
      O grupo B reunia o campeão (Espanha) e o vice-campeão (Holanda) do Mundo, que se encontraram logo na primeira jornada, num jogo que ficou para a história: os espanhóis adiantaram-se no marcador, a Holanda empatou ainda na primeira parte com um golo incrível de van Persie, num salto de peixe, e na segunda parte um show de Robben levou a Holanda de Van Gaal a arrasar a campeã do Mundo por 5x1, um resultado histórico. Na segunda jornada, a Espanha voltou a perder, agora diante do Chile (que já tinha batido a Austrália no primeiro jogo) por 0x2, sendo eliminada de forma surpreendente do torneio logo na fase de grupos. A Holanda (100% vitoriosa) e o Chile avançaram para a fase a eliminar, enquanto a Espanha se despediu do Mundial com um triunfo fácil diante da Austrália.

      O grupo C prometia muito equilíbrio, sem um favorito claro. Isto na teoria, porque na prática a Colômbia não deu hipóteses aos rivais. De volta ao torneio 16 anos depois, e apesar da ausência do lesionado Falcao, a principal figura dos colombianos, a Colômbia deu espetáculo: apoiada por milhares de adeptos nas bancadas, a seleção orientada pelo argentino Peckerman venceu os três jogos, com um jogador em destaque: James Rodriguez, que marcou nos três jogos da fase de grupos. Outro jogador colombiano entrou para a história dos Campeonatos do Mundo: Mondragón jogou uns minutos na última jornada, frente ao Japão, com 43 anos, tornando-se o jogador mais velho de sempre a jogar na competição.

      Como cedo a Colômbia mostrou superioridade no grupo, restava às três outras equipas lutarem pelo segundo lugar. Depois de ter vencido na primeira jornada o Japão, a Costa do Marfim estava em vantagem, até porque na segunda jornada Grécia e Japão não foram além de um nulo. Na última jornada, o empate servia aos marfinenses para se qualificarem pela primeira vez para a fase a eliminar do Mundial, mas uma grande penalidade convertida por Samaras no último minuto permitiu uma vitória aos helénicos por 2x1 e a qualificação para os oitavos de final. Fernando Santos, o treinador da Grécia, fazia história: os gregos chegavam à fase a eliminar de um Campeonato do Mundo pela primeira vez na história.

      Uma das imagens do Mundial ©Getty / Matthias Hangst
      O Grupo da Morte era o D, que juntava nada mais, nada menos, que três campeões do Mundo: Itália, Inglaterra e Uruguai. A Costa Rica parecia não entrar para as contas do grupos – puro engano… Com rigor defensivo, velocidade no ataque e alegria a jogar, os costariquenhos protagonizam surpresas no torneio. Logo a abrir, um triunfo categórico sobre o Uruguai por 3x1, com reviravolta no marcador. No mesmo dia, e debaixo de um calor abrasador em Manaus, a Itália bateu a Inglaterra por 2x1. Esperava-se novo triunfo italiano na segunda jornada, frente à Costa Rica, mas uma vez mais a seleção da CONCACAF surpreendeu, ao vencer por 1x0, enquanto o Uruguai venceu a Inglaterra, com um bis de Luis Suárez, avançado que tinha feito uma extraordinária época no Liverpool e que falhara o encontro frente à Costa Rica por lesão. Concluídas as duas primeiras jornadas, a Costa Rica estava já, surpreendentemente, qualificada, enquanto a Inglaterra estava já eliminada. Na última jornada, as duas seleções empataram sem golos, mas o jogo decisivo opunha a Itália ao Uruguai. O empate bastava aos italianos, que fizeram questão de o demonstrar em campo, jogando de forma passiva e defensiva, mas foram castigados por um golo de Godin, que permitiu o triunfo uruguaio e consequente qualificação para os oitavos de final. O jogo ficaria marcado por um momento surreal: Luis Suárez, a grande estrela uruguaia, agrediu com uma ferradela Chiellini. O lance passou despercebido ao árbitro, mas não à FIFA – o Mundial terminava ali para o craque uruguaio.

      No Grupo E, os europeus não deram hipóteses: a França, sem Ribéry, mas com os jovens Varane, Pogba e Griezmann, e com um Benzema em grande forma, deu espetáculo: 3x0 às Honduras e 5x2 à Suíça, num jogo em que chegaram a estará a vencer por 5x0. Apesar da goleada sofrida, os helvéticos também seguiram em frente, depois de uma vitória dramática na primeira jornada frente ao Equador, com um golo de Seferovic nos descontos, e de uma tranquila vitória sobre a modesta seleção das Honduras no último jogo, com um hat-trick de Shaqiri.

      Messi foi sempre o melhor em campo nesta fase ©Andre Borges/ComCopa
      A Argentina era a favorita do Grupo F e uma das principais candidatas ao título. Com Messi como grande estrela, e com enorme apoio dos adeptos argentinos que encheram os estádios brasileiros, a albiceleste venceu os três jogos da fase de grupos, com o seu craque a ser decisivo: um golo na vitória sobre a estreante Bósnia (2x1), um fantástico golo no último minuto a dar a vitória sobre o Irão de Carlos Queiroz, e dois golos de livre no triunfo diante da Nigéria (3x2). Messi estava inspirado, a Argentina sólida e os adeptos cada vez mais sonhadores, com um cântico que se tornou num dos hinos do Mundial, em que os argentinos diziam que Messi ia levantar a taça no país do grande rival e que Maradona era melhor que Pelé… Quem acompanhou a Argentina na qualificação para a fase a eliminar foi a Nigéria, com um empate a abrir diante do Irão e um triunfo na segunda jornada frente à Bósnia.

      Varela só adiou eliminação de Portugal ©Elsa / Getty Images
      No Grupo G estava Portugal, num lote que também contava com a poderosa Alemanha e ainda com o Gana e os Estados Unidos. O Mundial correu muito mal aos lusos, e começaram, ainda antes do arranque da prova, com muitas críticas à convocatória de Paulo Bento e à preparação do torneio. Com muitos problemas físicos (Rui Patrício, Fábio Coentrão ou Hélder Postiga tiveram vida breve no Campeonato), com indisciplina (Pepe foi expulso ainda na primeira parte do primeiro jogo, frente à Alemanha) e com uma equipa sem ideias, Portugal foi goleado pela Alemanha por 4x0 a abrir o torneio, naquela que foi a maior derrota portuguesa em Mundiais, salvou um empate frente aos Estados Unidos no último lance de jogo, permitindo entrar na última jornada ainda com ténues esperanças de qualificação. Portugal venceu o Gana (equipa que entrou em campo depois de muitos jogadores terem feito greve em protesto com os pagamentos em falta da federação) por 2x1 mas não conseguiu o objetivo – e com justiça: a Alemanha (que somou sete pontos) e os Estados Unidos foram melhores.

      Finalmente, no Grupo H, havia enorme expectativa para ver o que faria a Bélgica, uma seleção ausente dos grandes palcos desde 2002 mas que surgia com uma equipa muito jovem e muito talentosa. No primeiro jogo, os belgas sentiram grandes dificuldades diante da Argélia, vencendo por 2x1, depois de estarem em desvantagem. Na mesma jornada, Coreia do Sul e Rússia empataram a um golo. Na segunda jornada, um golo do menino Origi permitiu à Bélgica derrotar a Rússia e assegurar a qualificação, enquanto que, num grande jogo, a Argélia bateu a Coreia do Sul por 4x2. Os argelinos (com Brahimi, que jogaria no FC Porto nas épocas seguintes, e Slimani, jogador do Sporting por esta altura, a marcarem) mostravam bom futebol e entraram na última jornada a precisar apenas de um empate frente à Rússia para se qualificar – e conseguiram-no! Um golo de Slimani valeu o empate a um golo aos argelinos, que pela primeira vez na história chegavam à fase a eliminar do Mundial.

      Emoção do 1.º ao 120.º minuto

      A fase de grupos tinha sido fantástica, com grandes jogos, grandes golos, polémicas, surpresas e craques a mostrarem a sua qualidade. Os brasileiros regozijavam-se: este estava a ser o melhor Mundial de sempre. E a fase a eliminar voltou a ter bons espectáculos e emoção. O anfitrião Brasil sofreu a bom sofrer para afastar o Chile: as duas equipas empataram a um golo, com Pinilla a atirar à trave no último lance do prolongamento. No desempate por grandes penalidades, o Brasil levou a melhor, perante as lágrimas do capitão Thiago Silva. Apesar de continuar a sonhar com o hexa, parecia claro que os jogadores brasileiros sentiam – e de que maneira – a pressão de serem campeões do mundo em casa.

      Slimani foi destaque na Argélia ©Getty / Julian Finney
      Num duelo sul-americano, a Colômbia bateu o Uruguai por 2x0, com um bis de James Rodriguez, um deles uma verdadeira obra de arte, considerado um dos melhores do torneio. Os colombianos faziam história, ao qualificar-se para os quartos de final do Mundial pela 1.ª vez. Quem também chegou aos quartos de final pela primeira vez na história foi a sensacional Costa Rica, que afastou a Grécia no desempate por grandes penalidades. Num jogo dramático, a Holanda eliminou o México, ao vencer por 2x1, num jogo em que aos 87 minutos os holandês estavam em desvantagem no marcador. Para além da Colômbia, a outra seleção que venceu de forma mais tranquila foi a França, que bateu a Nigéria por 2x0. A Alemanha sofreu muito para eliminar a Argélia: apenas no prolongamento levou a melhor frente à seleção africana, num desafio onde Neuer mudou a perceção que tínhamos sobre o papel de um guarda-redes: o guardião alemão travou vários ataques perigosos dos argelinos por estar adiantado no relvado – os guarda-redes passavam a ser, cada vez mais, jogadores de equipa e não apenas um elemento que se limitava a ficar debaixo dos ferros. A Argentina também teve que suar muito para eliminar a Suíça, com um golo de Di Maria no último minuto do prolongamento a permitir aos argentinos continuarem a sonhar pelo título mundial. Finalmente, no último jogo dos oitavos de final, a Bélgica foi outra seleção obrigada a ir a prolongamento para afastar a competitiva seleção dos Estados Unidos, num jogo em que outro guarda-redes esteve em destaque: Howard bateu o recorde de defesas de um guarda-redes num jogo do Campeonato do Mundo (16).

      Equilíbrio e lágrimas

      James saiu como melhor marcador ©Getty /
      Nos quartos de final, os favoritos, com maior ou menor dificuldade, seguiram em frente: o Brasil derrotou a Colômbia por 2x1, naquela que foi a melhor exibição da Canarinha na prova. Os golos foram apontados pelos zagueiros Thiago Silva e David Luiz, com James Rodríguez a marcar o golo colombiano, o seu sexto na prova, que fez dele o melhor marcador do Mundial. O então jogador do Mónaco saiu do jogo em lágrimas e, se havia alguém que merecia continuar a jogar a prova, era ele. O Brasil ultrapassava uma barreira psicológica: nos dois Mundiais anteriores, caíra nos quartos de final, mas sofria com a lesão de Neymar – o craque do Barcelona sofreu uma entrada dura já perto do final do jogo e ficou fora das opções para os jogos decisivos da prova.

      Num confronto histórico em Mundiais, a Alemanha venceu a França por 1x0, qualificando-se para as meias-finais do Mundial pela terceira vez consecutiva. A Argentina voltava a estar entre as quatro melhores seleções do mundo 24 anos depois, depois de um difícil triunfo frente à Bélgica, num mau jogo de futebol. Finalmente, a Holanda eliminou a sensacional Costa Rica no desempate por grandes penalidades. Os costariquenhos saíram do torneio como a grande sensação da prova e sem qualquer derrota – e defrontou três antigos campeões do mundo e dois ex-campeões europeus… O jogo ficou na história pela genialidade e imprevisibilidade de Van Gaal: o experiente treinador holandês guardou uma substituição para o último minuto do prolongamento, trocando de guarda-redes. Krul, o suplente especialista em defesas de grandes penalidades, numa jogada coroada de êxito, entrou para defender dois penáltis.

      O Mineiraço

      Um verdadeiro descalabro ©Getty /
      Chegados às meias-finais, havia um confronto histórico, com o anfitrião Brasil a defrontar a poderosa Alemanha. No Mineirão, em Belo Horizonte, assistiu-se a um momento épico-dramático. Poucos são os que não sabem onde estavam no dia 8 de julho de 2014. Ao minuto 11, Muller colocou a Alemanha na frente do marcador. Aos 23, Klose fez o 2x0, num golo histórico, que permitiu ao avançado alemão tornar-se o melhor marcador de sempre dos Campeonatos do Mundo (16 golos). Este segundo golo desorientou por completo a equipa brasileira que, seis minutos depois, já perdia por 5x0! As câmaras mostravam o espanto e as lágrimas dos adeptos brasileiros, incrédulos com o que estava a acontecer. Na segunda parte, o suplente Schurrle bisou, elevando o marcador para um inacreditável 7x0. Oscar descontou no fim do jogo, mas nem honra houve: o Brasil sofria a maior humilhação da sua história e o Maracanazo de 1950 ganhava um sucessor: o Mineiraço. Por sua vez, a Alemanha assumia favoritismo para a conquista do título, depois de tamanha demonstração de superioridade e qualidade.

      Na outra meia-final, não houve golos e houve pouco futebol entre Holanda e Argentina, com os argentinos a levarem a melhor no desempate por grandes penalidades. A Holanda venceria, dias depois, o Brasil por 3x0, em dias trágicos para o futebol brasileiro, com um total de 10 golos sofridos em apenas dois jogos. Os holandeses garantiam um lugar no pódio do Mundial pelo segundo torneio consecutivo, apesar das críticas de van Gaal, que defendia a eliminação do jogo de atribuição do terceiro lugar.

      Desperdício argentino e… Alemanha campeã

      Götze deu o título ©Lusa
      Pela terceira vez na história, Alemanha e Argentina defrontavam-se no jogo decisivo do Campeonato do Mundo. Em 1986, os argentinos levaram a melhor, quatro anos depois tinha sido a Alemanha a conquistar o título. O jogo teve várias incidências: Khedira lesionou-se antes do apito inicial e o seu substituto Kramer teve que ser substituído à meia hora, após um choque com um adversário. A Argentina teve mais e melhores oportunidades (incrível o falhanço de Higuaín, isolado após um erro defensivo dos germânicos…) e um golo bem anulado. Já perto do final do prolongamento, o suplente Gotze bateu Sergio Romero e já não houve tempo para mais: a Alemanha sagrava-se tetra campeão mundial!

      Messi, brilhante na fase de grupos mas mais apagado na fase a eliminar, foi considerado o Melhor Jogador de um torneio em que também brilharam, entre outros, Neuer, Lahm, Kroos, Muller, Mascherano, Robben, Neymar ou James Rodríguez.

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