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      Patrick Kluivert: A Pantera

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      A lista dos grandes avançados holandeses é longa, mas não é aborrecida. Uma nação que tem apetite pelo futebol enquanto espetáculo é, naturalmente, uma das primeiras no momento de produzir atacantes de classe mundial. Kluivert está nessa lista, e durante muitos anos fez o suficiente em campo para garantir que o seu nome aparecia em negrito.

      Rápido e ágil, técnico e inteligente, o ponta de lança com raízes no Suriname tinha tudo para vingar no futebol e foi precisamente isso que fez. Aos 19 anos, escreveu o seu nome na história, ao brilhar intensamente numa equipa recheada de estrelas. Anos mais tarde, brilhou de novo, enquanto carregava um Barcelona ferido até à meta. Anos após o final da carreira, ainda é recordado, tal como continuará a ser, pois não é qualquer jogador que vive uma carreira como a de Patrick Kluivert.

      «Eles têm o Ronaldo, mas nós temos o Kluivert»

      Dificilmente alguém saberá melhor que Patrick Kluivert a maneira correta de se anunciar ao mundo do futebol, que se colocou debaixo de todos os holofotes quando, aos 19 anos, virou a camisola ao contrário para que todos lessem o seu nome, momento em que se tornou a figura decisiva na conquista da UEFA Champions League de 1994/95 por parte do Ajax.  

      A glória surgiu muito cedo ©Getty / Neal Simpson - EMPICS
      O plantel do Ajax era um infinito poço de qualidade. Van der Sar na baliza, uma defesa com Danny Blind e Frank de Boer, enquanto que do meio-campo para a frente a equipa de Amesterdão não tinha falta de mão de obra, com nomes ao nível de Ronald de Boer, Rijkaard, Litmanen, Overmars, Seedorf e Edgar Davids. Faltava apenas uma coisa: um ponta de lança de qualidade inquestionável, capaz de finalizar as oportunidades criadas por uma equipa tão forte.

      O alvo estava definido: um jovem avançado que não conseguia parar de marcar golos no Brasil. O nome era Ronaldo, e o 'Fenómeno' poderia ter tido uma carreira completamente diferente se tivesse assinado pelo gigante holandês. Ronaldo chegou à Holanda nesse verão, mas foi em Eindhoven que aterrou, assinando pelo PSV. O falhanço na contratação podia ter sido um duro golpe para o Ajax, mas se não o foi deveu-se principalmente ao técnico Louis van Gaal, que decidiu tirar os olhos do mercado e apostar num jovem de 18 anos, que abençoou imediatamente com a sua inigualável confiança: «Eles têm o Ronaldo, mas nós temos o Kluivert».

      Kluivert parecia ter um talento especial para boas primeiras impressões, pois o final da época foi impressionante, mas o início também o tinha sido. A estreia veio no dia 21 de agosto de 1994, logo num jogo com direito a troféu: a Supertaça holandesa. O jovem avançado não precisou de mais que o primeiro jogo para celebrar pela primeira vez e marcou o terceiro e último golo do Ajax, que venceria o troféu e que começava assim a trilhar o caminho para uma grande temporada.

      Ao longo do ano, Kluivert foi competindo com De Boer e Kanu pela posição de avançado titular e, mesmo que não tenha levado sempre a melhor e fosse forçado a jogar num papel mais recuado, o jovem não se escondeu, tornando-se o melhor marcador da equipa em ano de estreia. Só não foi o artilheiro da Eredivisie porque Ronaldo não deixou, e Kluivert ficou em segundo com menos 12 tentos.

      Ainda se cruzou com Bergkamp ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      O que Kluivert levou que Ronaldo nunca conseguiu foi, no entanto, o título de campeão holandês. O Ajax venceu a prova em grande estilo, sem somar uma única derrota. Seriam invencíveis na totalidade da temporada, caso não tivessem caído nos quartos-de-final da Taça frente ao Feyenoord, num jogo em que Kluivert não jogou por estar ocupado a... jogar os quartos-de-final da Taça, ao serviço do Ajax B, que caiu na mesma ronda (na altura as equipas secundárias participavam na Taça da Holanda).

      Kluivert era alto, mas não era lento. Tinha uma grande capacidade física para proteger a bola, mas não era tímido no momento de usar a sua velocidade, para além de uma qualidade técnica inegável que utilizava para tirar os defesas adversários do caminho. Os pés eram rápidos e a cabeça não ficava atrás, com várias execuções ao primeiro toque, sendo que algumas valeram títulos, como foi o caso da Liga dos Campeões.

      Naquele dia, em Viena, nem todos os olhos estavam em Kluivert. Tinha tido uma grande época, sim, mas não deixava de ser inexperiente nos grandes palcos, tendo desempenhado um papel secundário na caminhada até à final onde o Ajax defrontaria o poderoso AC Milan. Talvez por este motivo, Van Gaal decidiu deixar o jovem avançado no banco de suplentes.

      Então Kluivert esperou enquanto, a partir do banco, apreciava o posicionamento daquela célebre defesa italiana que, em princípio, ainda teria tempo de defrontar. O momento chegou aos 69 minutos, quando o técnico holandês chamou Jari Litmanen e no seu lugar colocou um jovem pronto para fazer história, ao tornar-se no mais jovem jogador a marcar numa final da Champions League.

      15 minutos depois de entrar, chegou o momento. A defesa do AC Milan levou mais tempo que o costume a posicionar-se e o taque holandês não ficou indiferente. Rijkaard fez um passe para Kluivert, já perto da área, mas embora a intenção fosse tabelar, o jovem avançado não devolveu: e com dois toques virou entre Baresi e Costacurta para finalizar, naquele que seria o golo que marcou uma carreira.

      Uma queda inesperada

      A segunda época profissional de Kluivert foi ao nível da primeira. 23 golos, prémios de jogador do ano na Holanda e na Europa e uma caminhada semelhante à do ano anterior, embora com um final bastante mais amargo. Mais uma vez campeão da Supertaça e Eredivisie, para além da Supertaça Europeia e do Campeonato do Mundo de Clubes, o Ajax procurava repetir também o título europeu, só que a falta de frieza ditou a derrota final. 

      Barcelona viria a ser a sua casa ©Getty / Alexander Hassenstein
      O futebol dos holandeses foi o mais aclamado na Liga dos Campeões de 1995/96. Um exemplo disso foi a vitória do Ajax no Santiago Bernabéu durante a caminhada até à final, que terminou com aplausos dos adeptos espanhóis, depois de um jogo em que a superioridade da equipa forasteira foi incrível. A partida ficou apenas 0x2, com um golo de Kluivert, mas quem viu o jogo sabe que poderia ter sido muito mais e que o jovem ponta de lança até marcou mais um golo que foi incorretamente anulado, para além de quatro remates à trave.

      A final, meses mais tarde, foi novamente contra italianos, dessa vez a Juventus, mas o resultado foi diferente. Kluivert começou no banco, tal como no ano anterior, saltou para dentro das quatro linhas logo ao intervalo, num exercício que se revelaria inútil pois o empate manteve-se e o Ajax caíria nas grandes penalidades.

      O desaire europeu veio dar um duro golpe na carreira do avançado, que estava a lidar com outras complicações extra-futebol. No início da temporada, Kluivert tinha causado um acidente rodoviário que tirou a vida a um homem e nunca tinha recuperado completamente. Acusações de homícidio por parte de adeptos adversários não ajudaram o jovem a lidar com a culpa, mas o pior estaria para vir. «Algo dentrou de mim quebrou e eu nunca poderei ser verdadeiramente feliz de novo», disse Kluivert depois do caso ser encerrado em tribunal. «A criança dentro de mim morreu».

      O acidente pairou sobre uma época que, desportivamente, até foi positiva para Kluivert, mas a terceira e última temporada na Holanda seria dura demais. Acrescentada ao acidente rodoviário foi uma acusação de violação, que enterrou ainda mais a reputação do talentoso avançado. Vários problemas pessoais assombraram Kluivert na temporada de 1996/97, que o viu marcar apenas oito golos em todas as provas, um número brutalmente inferior ao dos anos anteriores.

      No Euro 2000, a desilusão ©Getty / Nick Potts - EMPICS
      Com o contrato a terminar e os vários problemas fora do campo, a saída era uma certeza, a pergunta era para onde. A resposta acabou por ser o AC Milan, equipa que contava com vários holandeses e ex-colegas de equipa, entre eles Edgar Davids, que era um amigo próximo.

      O início em Milão foi promissor, mas apenas durante a pré-temporada, porque quando começaram o jogos 'a doer', Kluivert sentiu mesmo a dor. Os adeptos queriam golos, e quando estes não surgiam faziam-se ouvir da pior maneira possível, vaiando o jogador e tornando-o alvo de cânticos racistas, nos quais Kluivert era apelidado de Il Bergkampt nero (O Bergkamp negro), numa referência ao compatriota que também tinha tido pouco sucesso em Milão. Os rossoneri acabaram a temporada em 10º lugar, naquele que foi o primeiro ano sem conquistas na carreira do avançado holandês.

      Quando a época terminou, Kluivert estava arrasado. Tinha batido no fundo. E, apesar da saída de Capello, novas contratações e boas exibições na pré-temporada parecerem ser o tónico para um reinício em Itália, havia quem tivesse outras ideias. Onde todos viam as cinzas daquilo que outrora tinha sido um avançado promissor, Louis van Gaal viu uma fénix pronta a levantar voo novamente, e foi assim que o técnico, que apostou em Kluivert três anos antes, o convenceu a voar até Barcelona.

      O renascimento Blaugrana

      A reunião com o treinador que o lançou no futebol e comandou durante os melhores anos foi bastante frutífera. O início foi lento e exigiu alguma adaptação, mas os adeptos catalães queriam boas exibições de um jogador que custou 15 milhões de euros, um valor elevado em 1998, especialmente por um atleta que vinha de dois anos francamente negativos.

      Dupla com Saviola rendeu ©Getty / Andreas Rentz
      Não muito tempo depois, Kluivert começou a render. Tornou-se uma peça importante e um dos jogadores mais populares na equipa que conquistaria novamente o título de campeão espanhol nesse ano. Não pôde participar na edição dessa temporada da UEFA Champions League, devido ao facto de ter sido contratado no último dia de transferências, não podendo ser inscrito para competições europeias, mas ainda assim Kluivert, aos 23 anos, anunciou à Europa que estava de volta. 

      No total da primeira participação na liga espanhola, Kluivert alcançou a impressionante marca de 15 golos e 16 assistências, números de um jogador que, para além de grande capacidade finalizadora, trazia consigo uma veia criativa de grandes dimensões. Claro que jogar com atletas de classe mundial como Luís Figo, Giovanni e De Boer ajudava, mas houve um colega de equipa que esteve acima dos outros.

      A relação de Kluivert com Rivaldo dentro de campo foi tão bela quanto imediata. Desde o primeiro momento, os dois jogadores entenderam-se em campo às mil maravilhas, tantas quanto as que criaram para delícia de quem visitava o Camp Nou. A parceria entre os dois avançados fazia crer que jogavam juntos há vários anos, pois estavam ligados quase telepaticamente, ou pelo menos era isso o que davam a entender.

      ©Getty / Stu Forster
      A temporada seguinte foi certamente agridoce. Kluivert recebeu a camisola 9, para reforçar o seu estatuto enquanto avançado referência da equipa, e correspondeu às expectativas, tornando-se o melhor marcador do Barça ao longo da época. Só que, enquanto o século virava, também o FC Barcelona estava em mudança. Neste caso, o problema era um desacordo entre duas pessoas no clube, mas certamente as duas a que Kluivert era mais próximo: Rivaldo e Louis van Gaal. O companheiro de equipa, e metade da dupla mais temível da Catalunha, reclamou com o técnico acerca da posição que estava a ocupar em campo, num problema que nunca ficou completamente resolvido e que acabou por ditar a saída do treinador holandês no final da temporada.

      No final dessa época, surgiria ainda o Euro 2000, que foi o auge de Patrick Kluivert ao serviço da sua seleção, embora tenha representado apenas cinco dos 79 jogos que fez pela laranja mecânica, nos quais apontou 40 golos. A expectativa era enorme para o povo holandês, com a prova a ser disputada pela primeira vez em casa, depois de alguns anos difíceis para a equipa, mas a seleção da Holanda parecia estar pronta para a tarefa.

      A fase de grupos foi uma limpeza fácil. Três vitórias em tantos jogos, frente à República Checa, Dinamarca e França, com Kluivert a marcar duas vezes. A ronda seguinte foi a mais impressionante, com uma vitória por 6-1 frente à Jugoslávia, em que Kluivert fez um hat-trick, deixando a fé holandesa no pico. 

      O que se seguiu não foi menos que um verdadeiro desastre. A meia-final, frente à Itália, estava sem golos apesar do domínio holandês, até que surgiu a oportunidade perfeita: grande penalidade. Frank de Boer falhou inacreditavelmente, e quando surgiu um novo penálti, foi Kluivert quem desperdiçou a chance. O jogo continuaria empatado, mesmo com os italianos reduzidos a dez desde a primeira parte, e a decisão seria levada ao sítio que já nenhum holandês queria nessa tarde. Os holandeses voltaram a falhar, e falharam ainda uma outra vez, até que Kluivert marcou, por fim, o terceiro penálti do desempate (quinto do jogo), embora a bola na rede não tenha sido um alívio mas sim um adiar do inevitável, pois os italianos marcaram imediatamente e qualificaram-se para a final, onde perderam contra a França.

      Newcastle foi das últimas paragens ©Getty / Owen Humphreys - PA Images
      Foi o melhor marcador (cinco golos, os mesmos de Savo Milosevic) e ficou na equipa do Euro, mas depois disso a carreira de Kluivert ficou substancialmente mais leve em termos de prémios. Aliás, aos 24 anos, o avançado holandês já tinha conquistado todos os títulos coletivos e individuais de toda a sua carreira, não haveria mais, mas a culpa não foi de Kluivert.

      O principal problema que ditou a falta de conquistas foi a quebra de qualidade do Barcelona com a mudança de direção, que viu várias estrelas abandonar o clube e o início de um período de alguns anos em que o clube culé não esteve à altura das expectativas. Apesar disso, Patrick Kluivert manteve-se em forma, marcando 25 golos na terceira época em Espanha.

      As épocas seguintes foram consistentes, novamente com mais de 20 golos entre 2001 e 2003, embora com um novo parceiro na frente de ataque. Com Javier Saviola na equipa, Kluivert passou a jogar mais atrás do veloz argentino, mas o entendimento existia e o ataque não era o problema do clube enquanto os dois estiveram juntos.

      Kluivert abandonou o Barcelona em 2004 e foi aí que, aos 29 anos, começou a perder fulgor no futebol mundial. Jogaria mais quatro anos em quatro equipas diferentes; Newcastle, Valencia, PSV e Lille, mas já não brilhava com a mesma intensidade. Da sua carreira será sempre recordado um jovem que não conseguia parar de brilhar, um jogador carismático que foi figura numa das maiores equipas do mundo, e um goleador de instintos apurados, a quem chamavam de Pantera.

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