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      Premier League 2005/2006
      Grandes jogos

      Chelsea x Man United: O bi do Special One

      Texto por Jorge Ferreira Fernandes
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      Apesar de ser uma equipa de culto, apesar de ser um dos clubes da potente capital inglesa Londres, a verdade é que o Chelsea nunca foi uma referência no que toca a títulos. Antes de Abramovich chegar a Stamford Bridge, os blues tinham apenas um campeonato ganho, na longínqua década de 50, mais algumas provas domésticas, para além das duas Taças das Taças e da Supertaça Europeia, conquistada na década de 90. Pensar em criar uma pequena hegemonia e dominar uma liga tão competitiva como a inglesa? Tarefa complicada, mas não impossível para José Mourinho. 

      O português, que entrou como Special One, já tinha batido recordes em 2004/2005, num título inquestionavelmente ganho pelo Chelsea. Perdeu-se a novidade, ganhou-se uma super equipa. Os blues, no segundo ano de Mou, foram menos brilhantes, especialmente do ponto de vista defensivo, mas igualmente eficazes naquilo que mais importante durante um campeonato: consistência, regularidade, vitórias, pontos. A cereja no topo do bolo foi uma goleada de 3x0 face ao Manchester United de Alex Ferguson

      Apesar de todo a superioridade demonstrada na Liga, esta foi uma época de algumas frustrações para o Chelsea. Desde logo pelo sonho europeu que terminou logo nos oitavos, face ao futuro campeão Barcelona. Mas não só. A receção ao Manchester United aconteceu apenas sete dias depois da derrota face ao Liverpool nas meias-finais da FA Cup, que significou o fim do sonho de conquistar a dobradinha. Um objetivo difícil de alcançar em terras de Sua Majestade, o de vencer Liga e Taça no mesmo ano, mesmo para um dos mais brilhantes técnicos da era Premier. 

      Não se sentiu, contudo, que o campeão pudesse estar traumatizado da eliminação recente. O primeiro golo, bem cedo, também impediu qualquer tipo de abalo na confiança de uma equipa já de si bem ciente das suas próprias qualidades e forças. Canto batido por Lampard, desvio na zona de penálti por parte de Drogba e Gallas a aparecer de rompante para inaugurar o marcador e o estado de euforia. Uma espécie de despedida para o francês que não conseguiu tanto protagonismo face à dupla titular do eixo defensivo e que, uns meses depois, abandonaria o clube, numa troca com Ashley Cole que muito beneficiaria os azuis de Londres

      Este não seria o último título ganho por Mourinho ao serviço do Chelsea ©Getty / Laurence Griffiths

      Entre os 22 que desfilavam pelo relvado de Stamford Bridge, naquela tarde de 29 de abril de 2006, eram muitos aqueles que projetavam já a fase final do Campeonato do Mundo da Alemanha. Já se notavam alguns cuidados redobrados e, principalmente, a preocupação era já muita de cada vez que uma figura importante ia ao chão. Foi assim com Cristiano Ronaldo, no início do jogo, após um carrinho muito forte de Lampard, que assustou o português e os portugueses, e foi assim também com John Terry, num embate mais violento e, também, insólito. Porque à abordagem agressiva de Terry, respondeu o colega de seleção e compatriota Rooney com uma entrada de sola, onde a bota do avançado acertou quase em cheio no tornozelo do defesa. Tudo acabou mais ou menos bem, depois de vários minutos de apreensão. 

      Apesar do golo de Gallas ter feito com que o Manchester United tivesse mais bola, mais domínio territorial, em detrimento de um Chelsea mais preocupado com a sua organização defensiva e com as transições, a verdade é que foi num lance rápido, de puro contra-ataque, que os red devils criaram a sua melhor oportunidade de todos os primeiros 45 minutos. Rooney, nova referência em Old Trafford, precisou de um par de toques para eliminar três defesas, falhando apenas na concretização, quando só tinha Cech pela frente. Um lance fantástico que merecia golo, um momento de inspiração que provava que, dentro do clube, Ferguson tinha já matéria prima para num futuro próximo voltar aos grandes títulos. 

      Os vice-campeões bem tentavam. Perante um Chelsea muito coeso e, ao mesmo tempo, pouco predisposto a correr riscos e a levar muitos homens para o ataque, o Manchester rematou, muito por sinal. Cristiano Ronaldo, por exemplo, tentou de todas as formas. De livres, na meia esquerda do ataque, em diagonais para a zona central, foram muitas as hipóteses que o internacional português teve, mas a mira raramente foi a melhor e, quando se acertava na baliza, estava lá um gigante Peter Cech para dar segurança. Sim, porque para lá do bom trabalho do Special One, o núcleo central dos blues era fortíssimo e altamente fiável. 

      Mas, que não se desvalorize as asas do campeão inglês. Porque se pelo meio havia qualidade de sobra, nas alas Robben e Joe Cole eram capazes de criar muitos desequilíbrios. Mudanças de velocidade que acabavam por ser decisivas face ao caráter mais defensivo dos laterais Gallas e Paulo Ferreira. Num lance de absoluta genialidade, o extremo inglês, que começava a ser uma das figuras da seleção dos três leões e que ameaçava já a sucessão de Beckham, foi capaz de, com um único toque, enganar três adversários, finalizando com toda a classe no frente-a-frente face a Van der Saar. 

      O título estava só à espera do apito final, mas, ainda antes de se poder festejar, Stamford Bridge assistiu a um golo único. Ricardo Carvalho foi o autor, na sequência de uma transição rápida perfeita, bem ao estilo da filosofia preconizada por José Mourinho. Percebendo que o espaço era muito, o internacional português e, à altura, um dos melhores centrais do planeta, avançou no terreno. Lampard decidiu entregar a definição da jogada a Cole e o inglês, mais uma vez, não desiludiu, entregando a bola de bandeja para o pé direito do antigo defesa do FC Porto, mesmo no limite do fora de jogo. Se já era estranho ver Carvalho naquela zona, o que dizer do remate, colocado, forte, sem grandes hipóteses de defesa para um impotente Van der Saar. Um prémio justo para uma das referências do bicampeonato. 

      Até ao final, o jogo entrou numa certa monotonia, mas jogou-se bem mais do que 90 minutos. Rooney, o protagonista de um lance duro ainda na primeira parte, sofreu uma entrada mais ríspida por parte de Paulo Ferreira, entre bola e tornozelo. O avançado foi assistido durante vários minutos, antes de sair numa maca, debaixo de muitos aplausos. Um momento de união de um estádio inteiro face a uma figura que seria, à partida, fundamental para a carreira inglesa durante o Campeonato do Mundo. Rooney viajaria para a Alemanha e voltaria a ter um duelo escaldante com portugueses pelo meio...

      Lesões e golos para trás, era o tempo dos festejos. Mourinho substituiu o cachecol de marca pelo cachecol de Portugal. Um representante de uma Nação que sempre amou o jogo, mas que nunca tinha tido este impacto no estrangeiro e logo num país tão competitivo e histórico como Inglaterra. Apesar das duas derrotas nas últimas duas jornadas, o Special One passava pela segunda vez em dois anos a marca impressionante dos 90 pontos. Uma equipa para a história do futebol inglês, um treinador para a história do desporto-rei. 

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      jogos históricos
      U Sábado, 29 Abril 2006 - 12:30
      Stamford Bridge
      Mike Dean
      3-0
      William Gallas 5'
      Joe Cole 61'
      Ricardo Carvalho 73'
      Estádio
      Stamford Bridge
      Lotação41798
      Medidas103x67m
      Inauguração0