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      Samuel Eto´o: O Leão Indomável

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      A tríplice coroa, uma conquista tão rara que poucos clubes experienciaram. Um feito tão lendário que marca a carreira de qualquer atleta que faça parte. São poucos os jogadores que se podem gabar de ter conquistado o campeonato, a taça, e a Liga dos Campeões no mesmo ano, mas Samuel Eto'o foi o primeiro a fazê-lo por duas vezes... Em clubes diferentes... Em épocas consecutivas.

      A verdade é que a história de Samuel Eto'o nunca foi normal. Fugiu de casa aos 11 anos e viveu ilegalmente em França durante seis meses. Dois anos depois, voltou a França, onde procurou treinos e períodos de experiência em clubes de futebol. Ainda antes de completar 16 anos, estreou-se pela seleção principal dos Camarões e, menos de um ano depois desse dia, assinou contrato com o Real Madrid.

      Para qualquer jogador de futebol, chegar ao Real Madrid já é um sonho, e significa atingir o topo, mas Samuel Eto'o fê-lo com apenas 16 anos, provando que não seria um jogador qualquer. 

      A carreira começou cedo e viria a durar quase 25 anos, com muitas conquistas pelo meio. Futebolista Africano do Ano por quatro vezes (recorde mais tarde igualado por Yaya Touré), 3º melhor do mundo em 2005, e duas presenças na Equipa do Ano, em 2005 e 2006. 

      Chegada à Europa

      Eto'o assumiu ser um sonho tornado realidade quando, depois de um jogo da seleção, foi abordado por um representante dos merengues, que o quis levar para Madrid. Para muitos jogadores, este sonho rapidamente se pode tornar num pesadelo, e foi o que inicialmente pareceu ao jovem Samuel.

      ©Getty / Firo Foto
      A primeira época em Espanha foi passada no Leganés, na Segunda División B, onde fez quatro golos em 30 jogos. Na segunda temporada, foi emprestado pelo Real Madrid ao Espanyol, onde, com apenas 18 anos, não se conseguiu afirmar e acabou por não fazer nenhum jogo. Na temporada de 1999/00 fez 6 jogos pelo Real Madrid, a maioria na fase de grupos da Liga dos Campeões, sem grande impacto. Estes viriam a ser os seus únicos minutos pelos blancos, pois, em janeiro, rumou por empréstimo ao Mallorca, equipa pela qual assinaria em definitivo no verão seguinte.

      Foi em Palma de Maiorca que Eto'o se deu a conhecer à Europa. Em quatro anos no Mallorca, Eto'o marcou 54 golos na La Liga, tornando-se, aos 23 anos, o maior goleador da história de um clube do qual guarda memórias do «melhor treinador com quem trabalhou».

      Muitos jogadores dariam tudo pela honra de serem treinados por Pep Guardiola ou José Mourinho, dois dos treinadores mais influentes da história do futebol mundial, e os dois treinadores que, com Eto'o, conquistaram tudo. Ainda assim, o camaronês não teve dúvidas: Luis Aragonés foi o melhor.

      ©Getty / CARL REDHEAD
      «Para ser treinador tenho que estudar. A minha sorte é que, como jogador, conheci um sábio que descansa em paz: Luis Aragonés. Ele tinha muita personalidade, mas sabia jogar com ela. Lembro-me de quando quase me deu uma cabeçada em Saragoça. No dia seguinte, admitiu que me queria acertar. Era como um pai».

      A Era de Eto'o

      A chegada de Samuel Eto'o a Barcelona foi, tal como tudo na carreira do camaronês, controversa. Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, quis recomprar o avançado e emprestá-lo de novo ao Mallorca, mas isso acabaria por não acontecer e Eto'o assinou pelo FC Barcelona a troco de 24 milhões de euros, tornando-se a contratação decisiva numa janela que viu os blaugrana de Frank Rijkaard receberem Giuly, Deco, Belletti e Larsson. 

      ©Getty / Luis Bagu
      O investimento do Barcelona rapidamente deu retorno. Conquistaram o campeonato espanhol e Eto'o foi o melhor marcador da prova, em igualdade com Diego Forlán, ambos com 25 golos. Mas foi nesse momento que o camaronês se destacou realmente enquanto um dos melhores futebolistas do mundo. Um avançado rápido e muito dinâmico na forma de abordar os lances, mostrava regularmente toda a técnica e criatividade de um médio centro, aliada à frieza finalizadora que só um grande avançado teria.

      Em 2006, voltou a ser campeão, dessa vez com o troféu Pichichi só para si, no mesmo ano em que o Barcelona conquistou a Champions League - vitória, por 2x1, frente ao Arsenal -, com o camaronês a marcar o primeiro golo culé. Essa campanha europeia valeu-lhe o prémio de avançado do ano, bem como o terceiro prémio consecutivo de Jogador Africano do Ano, que dedicaria a todas as crianças de África.

      No entanto, na temporada de 2008/09, surgiu um elemento perturbador na passagem de Eto'o pela Catalunha. Rijkaard saiu e deu lugar à prata da casa, Pep Guardiola, pronto para fazer a sua estreia enquanto treinador na equipa principal do Barça. Guardiola colocou os seus planos em ação desde o primeiro dia, e isso incluiu renovar a equipa. Os jogadores que estavam de saída do clube pela vontade de Pep eram Ronaldinho, Deco, e... Eto'o. Mas o camaronês mostrou tanta qualidade durante a pré-temporada que convenceu o técnico de 38 anos a reconsiderar a sua decisão, bem como o pedido específico de alguns jogadores influentes.

      ©Catarina Morais
      Eto'o acabou por ficar no plantel e ganhar lugar no onze de Guardiola. Para acomodar Messi no papel de falso nove, Eto'o jogou na direita, mas mesmo assim marcou 30 golos no Campeonato, que o Barcelona venceu, e voltou a marcar numa final da Champions League, três anos depois, para selar a tríplice coroa naquela que viria a ser a última vez que vestiu a blaugrana.

      A relação entre Eto'o e Pep Guardiola nunca arrefeceu por completo. Apesar do sucesso na única temporada que trabalharam juntos, Guardiola pediu para que o seu passe fosse vendido, o que significou a sua ida para o Inter como moeda de troca no negócio que levou Zlatan Ibrahimovic no sentido contrário. Mais tarde Eto'o viria a recordar os tempos em Barcelona:

      «Aquela era a situação naquele momento... O Messi emergeria mais tarde, mas podem perguntar ao Xavi, ao Iniesta, ou a outros: aquela foi a minha era.»

      Milão, a oportunidade de ficar na história

      «O meu advogado disse-me que o clube tinha-me colocado no mercado de transferências a pedido de Guardiola. Para mim, ficou claro que o Pep deu-me a oportunidade de ficar na história, a minha ida para o Inter foi a maior transferência de sempre na altura.»

      Como protagonizar uma época perfeita? É repetir. Depois de fazer parte de uma das equipas mais apaixonantes da história, Eto'o seguiu para Milão e fez... exatamente o mesmo. No Inter, encontrou Mourinho com uma grande sede de vencer, também ele, a Champions League por um clube diferente.

      Foi precisamente isso que aconteceu. Com Diego Milito e Wesley Sneijder a seu lado, Samuel Eto'o foi figura assídua na equipa que conquistou a Serie A, a Taça Italiana, e a Liga dos Campeões, com uma vitória por 2x0 frente ao Bayern em que o camaronês, a partir da direita, assistiu para o golo decisivo de Milito.

      ©Getty / CHRISTOPHE SIMON
      História feita. Samuel Eto'o foi o primeiro jogador a conquistar o 'triplete' por dois anos consecutivos, e fê-lo em equipas diferentes.

      Na segunda e última temporada no Inter, com Rafa Benítez, Eto'o voltou a mostrar a sua melhor forma. 37 golos em todas as competições foram suficientes para bater o seu recorde pessoal, só que, em termos coletivos, os nerazzurri ficaram-se pela Taça de Itália, num ano em que o avançado camaronês se viu perseguido pela cor da sua pele.

      A luta contra a discriminação e os anos de nómada

      Em Cagliari, o Inter venceria por 0x1 com golo de Eto'o, mas apenas depois da partida ter sido suspensa pelo comportamento dos adeptos da casa, que abusaram constantemente o jogador.

      ©Getty / Pier Marco Tacca
      «É preciso compreender que o futebol é um reflexo do que temos enquanto sociedade. O futebol é uma oportunidade para as pessoas que se acham melhores expressarem a sua visão e magoar os outros».

      Esta não foi a primeira vez que Samuel Eto'o sofreu racismo em campo. Cinco anos antes, ainda ao serviço do Barça, um jogo em Saragoça foi um verdadeiro pesadelo para o camaronês: sons de macaco, objetos arremessados e vários insultos levaram a que o camaronês tentasse, sem sucesso, abandonar o relvado.

      «A primeira vez que experienciei racismo não foi num campo de futebol. Nunca pensei que pudesse acontecer em campo...»

      A partir de 2011 a carreira de Eto'o foi a de um verdadeiro nómada. Assinou pelos 'novos-ricos' Anzhi, na Rússia, onde esteve dois anos, mas a partir daí seguiram-se vários contratos de um ano apenas. 

      Primeiro, foi o reencontro com Mourinho em Londres, onde marcou 12 golos pelo Chelsea. O ano seguinte foi dividido pelo Everton e a Sampdoria, antes de rumar à Turquia, onde esteve por três temporadas, para finalmente rumar ao Qatar, onde penduraria as botas.

      ©Catarina Morais
      Onde esteve, o sucesso seguiu-o. Fosse em clubes ou na seleção, onde conquistou duas vezes a CAN. Com a força de um leão indomável, Eto'o ultrapassou todos os obstáculos para escrever a sua história, um golo de cada vez, pois, por mais que a controvérsia o seguisse, Eto'o mostrou apenas uma coisa em campo: que o futebol é belo.

      «Futebol é belo porque quer ganhes, empates, ou percas, podes ir apertar a mão do teu adversário, seja ele preto ou branco, vermelho ou azul.»

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      Samuel Eto’o (CMR)
      Samuel Eto’o (CMR)
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