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      Entrevista à Tribuna Expresso

      (15Jan2020)| Pedro Martins: «Não consigo ver um programa de desporto em Portugal»

      2020/04/27 19:24
      Redação
      E1

      Entrevista da autoria da jornalista Alexandra Simões de Abreu da Tribuna Expresso, originalmente publicada a 12 de janeiro de 2020 e que pode ser vista na publicação original aqui

      Pedro Martins mantém as raízes em Santa Maria da Feira, onde ainda tem o primeiro negócio que abriu com a namorada, há 31 anos. Casou com ela e teve dois filhos, depois de ter feito toda a formação de jogador no clube do coração, o Feirense. Nesta extensa entrevista, o treinador do Olympiacos relata vários episódios marcantes da sua vida pessoal e profissional, conta histórias que tanto falam de copos, mulheres e escapadelas de estágios, agressões e tentativas de "linchamento", desastres em rotundas do Algarve, como de malas metálicas com taças de champanhe ou de apostas de elevador.

      Nasceu em Santa Maria da Feira.
      Sim, nasci na casa onde os meus pais viviam.

      É filho único?
      Não. Somos três, todos rapazes. Sou o mais novo, era a gaja (risos). Com uma diferença de nove e sete anos entre o primeiro e o segundo, estavam à espera que fosse uma menina. Mas um deles já faleceu.

      Como?
      Um enfarte do miocárdio, fulminante.

      Quando?
      O meu pai faleceu há 14 e no ano seguinte faleceu o meu irmão. Ambos de problemas cardíacos.

      O Pedro tem cuidados médicos com o seu coração?
      Sim, tomo pastilhas para o colesterol e de vez em quando tenho de tomar aspirinas para diluir o sangue. Ando controlado.

      O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu?
      O meu pai trabalhava numa grande empresa, antes de se estabelecer por conta própria: era mecânico de automóveis. Trabalhava aqui na garagem da Arrifana, um grande núcleo empresarial que, infelizmente, agora acho que está com algumas dificuldades financeiras. A minha mãe tinha uma grande loja, onde vivíamos. Era a nossa casa e era loja.

      Loja de quê?
      Vendia roupa, farinha, tudo um pouco, e eu nasci nessa casa. No dia em que nasci a minha mãe estava a atender as pessoas. Ela dizia que tinha muita facilidade em ter filhos, que não lhe custava muito. Durante três anos vivemos naquela casa. O meu pai quando saia da garagem da Arrifana, fora do horário de trabalho, vinha para casa e tinha também uma pequena oficina onde arranjava motorizadas, bicicletas. Foi aí que começou a estabelecer-se sozinho. Mais tarde, criou uma empresa de grande relevância no concelho da Feira. Tinha a concessão da Nissan, da Honda, da Subaru, da Kia…

      Era uma criança calma ou não?
      Eu era do género traquina. Só via futebol, fugia para ir jogar à bola.

      Fugia à escola?
      Não, nunca o fiz.

      Gostava da escola?
      Respeitava. Havia momentos em que gostava, outros momentos nem tanto. A escola primária não era de facto aquilo que mais gostava, mas depois, no ciclo e no liceu, comecei a ter outro gosto.

      Havia alguém na família ligado ao futebol?
      O meu pai era dirigente do Feirense em 1976/78 e, naquela época, quando se ia jogar fora, a 50, 60 quilómetros, cada dirigente levava os filhos. Recordo-me de ter cinco, seis anos e ir no meio deles para os campos onde iam jogar. Bons momentos. Lembro-me perfeitamente de estar no balneário, do cheiro da pomada dos jogadores, dos guarda-redes aquecerem no balneário e não no campo. Ainda sou desse tempo. Jogadores como o Silva Morais, um dos guarda-redes do Feirense, a aquecer no balneário, do Pinto... tenho uma grande recordação desses momentos. Tinha uma grande referência que era o Serginho, um ponta de lança que mais tarde veio a jogar no Porto.

      Quando era pequenino torcia por que clube?
      Pelo Feirense.

      Dos grandes, tinha alguma preferência?
      Tive sempre uma grande paixão pelo Feirense.

      E ídolos, quem eram os seus ídolos?
      Adorava o Jordão que, infelizmente, faleceu há pouco tempo. A classe, a forma como ele caminhava e corria era qualquer coisa. Tenho outros, o Chalana. Lembro-me do Europeu em 1984, absolutamente fantástico. Recordo-me desse dia. Chorei quando perdemos e tinha 14 anos; mas chorei porque nós devíamos ter chegado a uma final e para mim foi um impacto tremendo, negativamente, porque aquele grupo de trabalho merecia uma final.

      ©Catarina Morais

      Quando vai jogar à bola num clube?
      Tinha sete anos e fui para o Feirense.

      É o Pedro que pede?
      Sim. No verão, havia no concelho da Feira as Olimpíadas, penso que ainda existem. Era muito tradicional as boas equipas lá irem e muitos jogadores eram observados a partir daquele momento. Recordo-me que um dos primos da minha esposa era um dos treinadores; eu tinha seis, sete anos e ele era o treinador do Feirense na altura. Fui fazer um treino e recordo-me que ele disse: “Tu vais ficar cá e vais ao torneio Olímpico”. Foi o meu começo.

      Fez todo o percurso até profissional no Feirense.
      Dos sete até aos 23 anos, sempre no Feirense.

      Nas camadas jovens o que o marcou mais? Quando fala com outras pessoas sobre a sua formação, qual é a primeira memória que tem?
      Há vários pontos que foram marcantes para mim. Na formação, o primeiro torneio olímpico que fiz foi absolutamente sensacional, ninguém me conhecia e eu fiz vários golos e a partir daí toda a gente já me conhecia.

      Nessa altura já jogava a médio?
      Era ponta de lança, iniciei a minha carreira a ponta de lança. Quando estive pela primeira vez no Feirense, na I Liga, eu era o ponta de lança, andava sempre naquela zona mais ofensiva. Quando a equipa precisava de maior rigor, vinha para médio; quando precisávamos de ganhar os jogos forçosamente eu era o ponta de lança. Lembro-me desse torneio olímpico; lembro-me de um torneio internacional em que fui o melhor marcador em Aveiro. Aí já tinha 15 anos. Lembro-me que não era fácil, não tínhamos grandes condições, só mesmo a paixão e o amor por aquilo que fazíamos. Não havia as condições que temos hoje. Recordo-me que, com 12, 13 anos era eu que tinha que me deslocar, não eram os meus pais que me iam lá levar, nem era o clube que tinha uma carrinha que nos vinha pôr a casa. Até aos 12, 13 anos foi assim, a partir daí já começou a ser o clube a levar os atletas, a partir dos iniciados sensivelmente.

      Quando é que deixa os estudos?
      Deixo a escola no momento daquela transição dos 16 anos. Pensei: o que é que vou fazer agora?

      Sempre sonhou ser jogador de futebol? Nunca quis ser outra coisa?
      Sempre disse que queria ser jogador. E vivia no meio dos carros, os meus irmãos eram funcionários da empresa do meu pai, cada um tinha a sua vida, era uma grande empresa, com bons ordenados, mas eu sempre disse que não queria carros e que queria a minha carreira como profissional no futebol. Fui um bocado pressionado nessa altura dos 16 anos, porque chegou uma altura em que disse que não queria ir mais à escola e fui trabalhar seis meses na empresa do meu pai... mas também percebi que não era por ali.

      O que fazia na empresa do seu pai?
      Estava na contabilidade, era o responsável pela facturação, em pouco tempo aprendi. Era responsável por receber o dinheiro das empresas, o valor da facturação, ir ao bancos, essas coisas.

      O seu pai não ficou chateado quando lhe disse que não queria continuar lá?
      Eu sempre lhe disse que não estava ali a tempo inteiro, que não era aquilo que queria. Na altura ficou chateado mas depois tenho a certeza – ele nunca me disse, nem a minha mãe –, mas tenho a certeza de que eles tinham orgulho nas minhas decisões.

      Quando assinou o seu primeiro contrato?
      Foi nessa altura, com 16 anos. Era um contrato semi-profissional.

      Até esse momento ainda não tinha ganho dinheiro com o futebol?
      Não, nada. Na altura, o Sporting queria vir-me buscar e cheguei a ir para Alvalade. Estive lá cerca de 15 dias para assinar. Estava com o Paulo Torres, embora sendo mais novo. Era para assinar pelos juniores do Sporting. Entretanto, eles foram fazer um torneio a Espanha e eu não gostei.

      Do que é que não gostou?
      Não me adaptei ao centro de estágios, não me adaptei àquela vida. Não me sentia bem. Não me adaptei àquelas circunstâncias. Era um quarto para sete ou oito, havia muita confusão e eu não gostei muito.

      Não era por estar longe da família?
      Também, na altura tinha começado a namorar e também teve alguma correlação com isso.

      Essa namorada é a sua mulher?
      É, é a minha esposa. Conheci a Lina no liceu.

      Estava a dizer que não se adaptou...
      ...Não, achei que ainda não era aquele momento. Algo me dizia: não vás para aí, o teu começo vai ser de outra forma. Eu tenho estas sensações, estas sensibilidades muitas vezes e, normalmente, tendo a fazer aquilo que a minha intuição diz. Acredito muito nela. Por vezes não percebo porque é que fiz ou porque tomei aquela decisão, mas mais tarde venho a perceber porquê. Mesmo no dia a dia, o tomar de decisões, inclusivamente num jogo de futebol, quando tenho de tomar uma decisão num minuto ou dois, eu tomo-a com base na minha intuição e depois vou perceber porque é que a fiz e ela dá-me respostas. Mas, como estava a dizer, não me adaptei, não gostava. Entretanto, eles iam a um torneio em Espanha, eu tinha sido convocado mas disse-lhes: “Foi um prazer mas eu não quero. Quero ir para a Feira, quero ir para a minha terra, não me estou a adaptar”. E vim para a Feira. Foi aqui que surge e que assino o meu primeiro contrato profissional.

      Lembra-se do valor do primeiro ordenado?
      Vinte e dois contos e quinhentos (112,50€). Assinei o contrato e, passado pouco tempo, comecei a jogar na primeira equipa. Na altura havia a tradição de que os jogadores da casa tinham um determinado rendimento, tinham um determinado ordenado – e os outros era à parte. Passado pouco tempo de jogar na primeira equipa, comecei com 15 contos, depois 22,50 e depois 50 contos (250€). E foi aí que tudo começou. Nesse ano, acabei o contrato a ganhar o que todos os jogadores da casa ganhavam na altura. Ainda com 16 anos.

      O que fez com esse seu primeiro dinheiro?
      Não me recordo. Provavelmente comprei umas boas botas de futebol.

      E da estreia na equipa sénior?
      Foi contra o União de Coimbra, em São João de Ver, porque o campo relvado do Feirense entrou em obras de na relva e não tínhamos campo.

      ©Rogério Ferreira

      Tremeram-lhe as pernas por ser o primeiro jogo?
      Antes, muito. Quando entrei estávamos a perder 1-0 e primeira coisa que fiz foi um tremendo disparate: peguei na bola e, quando ia fazer um passe para o guarda redes, isolei um avançado e eles fizeram o 2-0 (risos). Aguentei e, passados dois, três minutos, estava eu a fazer o golo 2-1, numa situação de canto. Acabamos por perder 4-1.

      Tinha superstições?
      Não, nunca fui disso. Tenho o benzer que é normal. De vez em quando, se estamos a ganhar vou levar sempre o mesmo casaco, mas nada de mais e eu sei que não é por aí, como é evidente.

      Continuou a ser chamado à equipa principal?
      Sim, embora como estávamos no campeonato nacional de juniores e o treinador, o Francisco Nóbrega, já falecido, infelizmente, viu que eu ainda não estava preparado, ainda era miúdo, então ia treinar com os seniores e ia jogar com os juniores. Quando ele precisava, metia-me de vez em quando.

      Ficava chateado de não jogar nos seniores?
      Achava que fazia parte do meu crescimento. Quando ia jogar aos juniores não ia chateado, antes pelo contrário. Sabia que para chegar lá tinha que trabalhar muito, mas sabia que ia chegar lá, só tinha de ter alguma paciência. A grande oportunidade surge nesse ano quando o Francisco Nóbrega sai e o Henrique Nunes assume a liderança. Tinha sido o meu treinador nas camadas jovens, começou comigo nos juvenis, nos juniores, e a partir dali nunca mais deixei de jogar no Feirense. Fui sempre um dos indiscutíveis até à minha saída para Guimarães.

      Já lá vamos. Durante esse percurso, antes de ir para Guimarães, sai de casa dos pais, casa e tem filhos.
      Casei com 22 anos, embora já tivéssemos negócios em comum com a minha esposa, aos 18 anos. E ainda temos. É uma casa, uma loja de prendinhas no centro de Santa Maria da Feira, que ainda hoje existe, já tem 31 anos. Prendinhas para crianças, para adultos, roupinha de criança. É um negócio que já faz parte da família, faz parte da minha esposa. E antes de casar já estava a construir a minha casa. Quando nos casámos, já tínhamos a casa pronta. O Ricardo nasceu quando eu tinha 23, antes de ir para Guimarães. Ficámos um ano na Feira. O ano do Vitória é em 94/95 e quando vamos para Guimarães o Ricardo tem um ano.

      Assistiu ao parto do seu filho?
      Não consegui. Estava a fazer a pré-época aqui no Feirense, estávamos a correr na mata, que na altura era o que se fazia, e quando acabou o treino da manhã vieram-me dizer: “Olha, o teu filho nasceu”. Não estava à espera porque nesse dia a Lina tinha ido para uma consulta de rotina com o pediatra. Não estávamos à espera que fosse naquele momento. Eram mais uns três ou cinco dias. Por isso, quando me disseram “já tens um filho”, para mim foi fácil porque não andei ali de um lado para o outro.

      Qual foi a sensação quando viu e pegou nele pela primeira vez?
      Uma enorme alegria, mas também um peso nos ombros tremendo, um sentido de responsabilidade. Foi logo ali o primeiro baque. Agora ele depende de mim, agora tens de ser o grande protector. Foi isso que senti, uma grande alegria, mas senti o peso da responsabilidade.

      Dos anos passados no Feirense tem alguma histórias que se lembre, momentos marcantes?
      Primeiro tenho de lhe dizer uma coisa, o Feirense atingiu nessa altura um patamar, não digo de excelência mas conseguimos algo que não é normal e vou-lhe explicar porquê. A maior parte dos que jogaram nos juvenis manteve-se lá, coisa que no Feirense não acontecia e ninguém se lembra agora, mas na altura estar nos campeonatos nacionais não era fácil. Nós fomos para os juniores, subimos os juniores e mantivemos os juniores na primeira liga, na primeira divisão. Este mesmo núcleo chega, depois, ao campeonato da segunda divisão e de um momento para o outro começa a ganhar jogos, a ganhar jogos, a ganhar jogos e nós tínhamos equipas muito fortes, como a Académica de Coimbra, que tinha acabado de descer. O António Oliveira era o treinador da Académica, para terem a noção do poderio das outras equipas. E aquele grupo de trabalho, sem dinheiro, de um momento para o outro começa a ganhar, a ganhar, a ganhar, até que os outros quando acordaram viram que já não conseguiam lá ir. Eu acho que fizemos a diferença, um grupo de gente jovem, outros que chegaram e vieram ajudar, gente desconhecida. Nós éramos conhecidos pelos "Portugueses" porque o Feirense na primeira Liga não tinha nenhum estrangeiro. Fizemos um grande trabalho, sem dinheiro, fruto das camadas jovens do Feirense, fruto de muita carolice de muitos dirigentes, dos jogadores, pela paixão dos atletas.

      Quem era esse núcleo duro? Recorde-nos alguns nomes.
      O Artur, que era o mais velho não fazia parte desse núcleo, mas percebeu que tinha aqui muito ourinho. O José Augusto, outro dos mais velhos, também percebeu que esses miúdos ao serem ajudados o Feirense iria ter muita coisa. E do meu tempo, era eu, era o Quitó,o Pinto, o David, o Miguel Bruno, o ponta de lança, o Tó, o António Martins, o Couto, que trabalha agora na Câmara, o José Hermano, ponta de lança, era muita gente. O Feirense nunca esteve nos campeonatos nacionais, fomos nós os primeiros a abrir as portas. E era tudo feito com gente da terra, com orçamentos absolutamente irrisórios. Foi pena que não tivéssemos dado um salto qualitativo na mentalidade.

      O que quer dizer com isso?
      Este grupo de jogadores deveria ter tido um grupo de pessoas à frente que percebesse que podíamos ter dado muito mais. Isto é, não nos podemos cingir a isto: “A partir de agora vamos ter um ordenado de cinquenta contos para toda a gente, isso é impossível”. Se nós temos jogadores novos, com ambição e que querem ir para outro lado, já estamos aqui a criar um problema. O Feirense não pensava de uma forma profissional, continuou a pensar de uma forma amadora, de uma forma familiar. É verdade que houve muitos momentos de sucesso porque era familiar.

      Como se dá a passagem para o Vitória de Guimarães? Tinha empresário? Quem o contacta?
      Eu não tinha empresário . Nesse ano tive uma reunião com o engenheiro Brandão, o presidente. Tinha acabado contrato mas havia o problema da Lei Bosman e do pagamento das mais valias aos clubes. Tive a reunião com o engenheiro Brandão, não foi possível chegar a acordo, e naquele mesmo dia tomo a decisão de não querer jogar mais no Feirense, porque sentia que tinha de crescer e ali já não estava a receber aquilo que precisava em termos profissionais. Era o meu lado de ambição, embora houvesse muito o lado coração. Não foi fácil. Recordo-me que. nessa noite. saí de casa, estavam muitos agentes a ligar constantemente para casa. Quando cheguei a minha mulher disse-me: “Já ligaram não sei quantos empresários. É um para o Boavista, é outro para o Vitória de Guimarães, é outro para o não sei o quê. O que é que tu andas a fazer?!”. “Fui espairecer ”. Entretanto, recebi uma chamada do Vitória e, no outro dia de manhã, fui para Guimarães e cheguei a acordo com o Pimenta Machado e com o Ricardo Pimenta Machado, de quem ainda hoje sou muito amigo, uma pessoa extraordinária.

      Foi fácil a mudança para o Vitória?
      Não foi fácil no início. O Dr. Pimenta Machado não era fácil. Primeiro, fez-me uma proposta e mostrou-me todas as condições da academia, que são aquelas que ainda prevalecem, com grandes condições de trabalho, era a única no país na altura. Nem FC Porto, Benfica ou Sporting tinham as condições como eles. “Isto é absolutamente excelente, é fantástico, agradeço-lhe, sei que inclusivamente há aqui direitos de compensação a pagar ao Feirense, mas se me tivesse dito que era esta a proposta, eu já não tinha vindo”. O homem foi aos arames. “Sim porque eu tenho a minha vida estabilizada e não vou deixar o meu clube para ganhar sensivelmente o mesmo, vindo para aqui. Tenho ambição, mas também quero que ela seja respeitada”. Na altura, era a grande preferência do Quinito que era o treinador. E ele: “OK. O que é que tu queres?”. Eu dei-lhe os meus números, ele já não discutiu, já não fui mais arrogante, bateu o contrato, apertou-me a mão e disse: “É destes homens que eu quero ter aqui no Vitória”. E ficou assim. Foi a primeira vez que falei com o doutor Pimenta Machado. E a última vez foi quando ele disse: “Ouve lá, tenho aqui uma proposta do Sporting. Como é que é, queres ir para o Sporting?”. “Faça o favor, vamos avançar”. Foi a primeira e a última vez, passados meses, que falei com ele.

      Mas esteve uma época no Vitória de Guimarães.
      Estive, mas o negócio foi feito antes de terminar a época.

      ©Carlos Alberto Costa

      Foi viver para Guimarães?
      Sim, com a minha esposa e filho.

      Como é que foi o embate com o Quinito e com a equipa?
      De início não é fácil, não venho com estatuto, venho da II divisão, era um chavalo. Para o Quinito, não, porque ele conhecia-me, sabia o que é que eu podia render. Quando estava no Feirense, fizemos muitos jogos contra o Espinho e a maior parte das vezes ele perdia contra nós.

      Consegue traçar o perfil dele como treinador?
      O Quinito era especial em várias situações, no timing. Temos várias histórias com ele que posso contar. Até uma palestra dele era tão simplista que se tornava à Quinito. Em determinados momentos ele não metia os nomes, metia as meias e dizia: “tu vais jogar aqui e desta forma”. Metia os onze jogadores, que eram as meias, e dava o exemplo com elas. Às vezes mexia muito connosco ao intervalo, na forma como nos dizia as coisas. Ou então esmagava-nos de forma a retirar da nossa parte algo que estava adormecido; ou então, sabendo que naquele momento nós estávamos mais tensos, falava com carinho, com um tom de voz mais suave, mais doce, mais calmo. O Quinito era diferente.

      Alguma história que se lembre com ele?
      Num jogo com o Belenenses, quando estávamos a passar uma altura difícil, o Belenenses tinha uma grande equipa, era o João Alves o treinador, havia uns zunzuns de que o Pimenta Machado estava em conflito com o Quinito e eu recordo-me que o Quinito tinha sempre uma malinha metálica, onde ele levava umas cuecas e umas meias. Naquele dia, ele abriu a mala, tirou uma champanhe e copos de plástico que meteu em cima da mesa, antes do aquecimento, antes de irmos para o jogo, e disse: “Meus queridos estamos a chegar ao final do ano, para vocês desejo as maiores felicidades, um novo ano brilhante e de sucesso. Eu tenho a certeza que hoje vamos ganhar, já antecipo a nossa vitória e por isso vou abrir o espumante, vamos brindar ao novo ano e à vitória. Sejam felizes e no próximo treino estamos aqui para nos divertirmos”. E foi assim, abriu a champanhe, deu um copinho a cada um, bebemos o espumante, fomos para jogo, ganhámos o jogo e viemos felizes. É uma história à Quinito.

      E em termos de balneário foi uma diferença muito grande para o Feirense?
      Mais profissional. Eu estava habituado a um círculo familiar, praticamente não tínhamos estrangeiros, e ali estamos a falar de brasileiros, de muitos jogadores sérvios, croatas, do Paraguai e do Chile.

      Havia tendência para fazerem grupinhos?
      Tive alguma dificuldade em perceber os sub-grupos. Mas é normal. Se nós somos brasileiros a tendência é ficarmos mais com os brasileiros, se somos portugueses é com os portugueses, os mais velhos é com os mais velhos, isto é perfeitamente normal, não quer dizer que haja grupos. Os sub grupos vão existir sempre, mas no momento em que haja o interesse maior, que é o clube, o grupo, toda a gente tem que se unir em torno dele. Mas fui muito bem recebido. Em 15 dias, três semanas, já tinha, digamos, o aval positivo de toda a gente, fruto daquilo que fazia em campo e no trabalho. Muitas vezes ninguém olha para o que somos como pessoas, o primeiro impacto é sobre aquilo tu que fazes dentro do campo. Este joga bem, podemos contar com ele, este tem esta característica... Então, rapidamente, o próprio grupo absorve-te e abraça-te.

      Foi alvo de alguma praxe ou de alguma brincadeira?
      Não. De vez em quando há aqueles chapos. Estamos no balneário e, quando estamos distraídos, levamos com a nossa roupa molhada, os chapos: Mas nunca fui praxado.

      Quando soube do interesse do Sporting isso mexeu consigo, já estava à espera, como foi?
      As coisas estavam a correr tão bem que havia muita gente interessada na altura. Havia o interesse do Benfica, o Porto abordou, mas não sei até que ponto é que abordou. Havia um clube na Alemanha, o Bayern Leverkusen.

      Era o Pimenta Machado que lhe dizia que tinha havido essas abordagens?
      Também.

      Já tinha empresário?
      Não. Mas alguns empresários também me ligavam, a aproveitar o momento, se era possível fazer parte do negócio, e tinha a informação dessa forma. Eu sei que, na altura, o Benfica tinha um acordo em que metia jogadores no Vitória, mas não chegaram a acordo. Havia um intercâmbio de jogadores na altura, por isso é que disse que havia interesse do Benfica.

      Assinou por quanto tempo com o Sporting?
      Por três anos.

      Qual foi a reação em casa?
      De felicidade.

      Nada chateados de terem de ir viver para Lisboa?
      Não, nada. Foi um marco muito importante não só da minha carreira, mas também da própria família, como é evidente.

      Na altura ainda só tinha o Ricardo?
      Sim, a Bárbara veio mais tarde, nasceu quando eu já estava em Alvalade, em 1997.

      ©Carlos Alberto Costa

      Foi para Lisboa, calculo que para um apartamento do Sporting.
      Eu era esperto (risos).

      Então?
      Eu era inteligente, sempre muito à frente. Fui escolher um apartamento, mas sabia que o apartamento que eu ia escolher era por pouco tempo. Então escolhi o mais caro, não o que gostasse mais, mas o que fosse mais caro em termos de arrendamento. Porque eu tinha feito um acordo com o Sporting. “Se eu eventualmente quiser mudar de apartamento vocês continuam a pagar aquela verba que está pedida?”. Eles disseram: “Não há problema nenhum, se amanhã decidires ir para outro lado, aliás nós vamos fazer o seguinte, vais receber directamente o ordenado, como renda e não há problema nenhum”. E eu assim fiz. A primeira escolha foi no Parque dos Príncipes, escolhi um apartamento mais caro, estive lá três meses, saí, comprei um apartamento e o dinheiro que o Sporting me pagava de renda, eu pagava à banca. Foi assim que adquiri o imóvel em Lisboa.

      Ainda o tem?
      Vendi-o há dois, três anos porque já precisava de obras e a proposta que me ofereceram foi muito simpática.

      Quando começam as primeira saídas à noite?
      O normal, com 16, 18 anos.

      Nunca chegou tarde a um treino por causa de uma noitada?
      Não, nunca. Nunca perdi uma noite, nunca me deitei mal, sempre respeitei os horários. Não estou a dizer que não houve momentos em que me deitasse mais tarde, aconteceu, mas sei que, naquela fase, naquela altura não teria consequências negativas. A única situação em que eu não dormi na véspera de um jogo, estava nos juniores, mas o treinador soube: foi no casamento do meu irmão. O casamento foi à noite, aquilo prolongou-se e eu praticamente não me deitei. Mas ele até me veio buscar a casa; íamos jogar a Paços de Ferreira, eu acho que até foi o primeiro jogo do campeonato, o primeiro campeonato nacional de juniores do Feirense. Ele virou-se para mim: “Dormiste bem?”. “Não, estou praticamente sem dormir, mas estou pronto”. Foi a única vez que me deitei tarde e más horas e não respeitei o protocolo, mas fui para o jogo e estive bem.

      E no Sporting?
      Quando tinha de sair, saía, mas sem problemas.

      Nem com adeptos?
      Individualmente, não. O último ano no Sporting foi difícil, foi uma época muito complicada e, por vezes, quando saiamos à porta, as pessoas estavam insatisfeitas e insultavam-nos, algo normal.

      Quando chega ao Sporting quem apanha como treinador?
      Carlos Queiroz. Depois, Fernando Mendes e Octávio Machado.

      Não chegou a explicar como passa de ponta de lança para médio.
      O Feirense sobe de divisão e eu sou ponta de lança, vou para a I divisão como ponta de lança, embora já fizesse alguns jogos a médio. O Álvaro Carolino chama-me e diz-me: “Olha, eu acho que tu não és ponta de lança, acho que és jogador para jogar na posição 6, a médio defensivo. O que é que tu achas?”. Eu, que já vinha a fazer jogos a médio, achei inteligente da parte dele e aceitei porque ele sabia o que estava a fazer e eu também achava que essa iria ser a minha posição de futuro. Percebi em vários jogos que os meus rendimentos a médio eram superiores aos de ponta de lança. Comecei a jogar naquela posição, comecei a gostar, estava sempre em contacto com o jogo que era algo que eu precisava e foi fácil.

      Voltemos ao Sporting. Como foi o primeiro impacto quando lá chegou?
      Percebi que era um clube grande. Cresci, em pouco tempo.

      E cresceu como?
      Mentalmente. Costumo dizer que há tantos jogadores com tanta qualidade, há tantas equipas com qualidade, que se fossemos pôr nelas um branco, um verde, um vermelho ou um azul... Aquele grupo de trabalho era muito bom só por causa de uma camisola. Para mim é o aspecto mental.

      A camisola tem peso.
      Tem peso e obriga os jogadores a crescer, obriga-os a dar o salto qualitativo no seu rendimento. Eu, a partir do momento em que sabia que estava lá, sabia que tinha de errar muito menos e que o meu jogo tinha de evoluir muito. E em pouco tempo evoluiu, porque nós abrimos os horizontes, pusemo-nos ao nível de uma equipa que luta pelo título e até lá era: “Ah, é o 4º ou o 5º lugar, não passamos disto”. Mas se tivéssemos a mesma exigência que, se calhar, tinha um Porto ou um Benfica. Se calhar, estávamos a lutar pelo titulo ou não? Eu acho que tive um salto de crescimento muito grande, principalmente, no aspecto mental.

      Mas esse aspecto mental, passava só por si? Não foi também o treinador, na altura o Carlos Queiroz, que de alguma forma...
      ...Passa por nós, passa também pelas pequenas informações que vamos recebendo do clube naquele momento, mas passa por nós. De um momento para o outro percebemos, atenção que isto é desta forma. O grau de exigência que eles passam, obriga-nos a tornar-nos jogadores completamente diferentes. Foi isto que eu senti.

      ©Vítor Parente

      Carlos Queiroz é diferente de Quinito. Ensinou mais?
      Ensinou mais, claramente, mas também acho que teve muito a ver com o meu aspecto mental. O Queiroz ensinou muitas coisas, é um facto, mas não me ensinou tudo em dois meses e eu em dois meses senti um nível muito diferente daquele com estava no Vitória e tinha a ver com o aspecto mental, é isso que quero dizer.

      E em termos de balneário?
      Tivemos grupos muito bons, nomeadamente no segundo ano, com o Octávio Machado, em 96/97.

      Um Octávio Machado também muito diferente de um Carlos Queiroz.
      Completamente, no treino, na liderança.

      Dê-nos exemplos.
      O Octávio Machado em termos de treino, ainda trazia muito aquela ligação com um treinador de educação física, havia aquela relação. O Queiroz já vinha com o treino adaptado. Tudo o que era futebol, tudo o que era componente física tinha que se inserir no aspecto técnico, táctico e estratégico. O Octávio não tinha esta capacidade, esta riqueza de processos que tinha o Queiroz. Mas o Octávio era muito mais esperto a ler o jogo no banco, o Queiroz não tinha essa experiência que ele tinha. O Octávio Machado era muito forte na comunicação para o exterior e a forma como o fazia, conseguia proteger o grupo de trabalho. O Queiroz era forte na comunicação, mas nunca protegeu o grupo de trabalho. Nas estratégias de arranjar um inimigo comum, o Octávio usava isso para fechar ainda mais o balneário. Com o Queiroz, o nosso grupo era muito mais aberto, muito mais suscetível a pressões e a momentos negativos. Eram estas a grandes diferenças para mim, entre os dois.

      O Pedro ainda apanhou o Fernando Mendes e o Robert Waseige.
      Sim, o Waseige faleceu há pouco tempo.

      Que tal como treinador?
      Muito físico, poucos conceitos técnicos ou tácticos. Um pouco na base do Octávio, mas mais atrasado no processo todo. Digamos que muito conservador nas suas ideias e essas ideias já as trazia há 20 anos.

      Do seu primeiro para o segundo ano de contrato, também há mudança de presidente: sai Santana Lopes e vem Roquette. Isso mexe muito com os jogadores?
      O Sporting viveu em vários momentos uma convulsão, mas este grupo era bom. Este grupo ficou em 2.º lugar, ganhou a Supertaça, entrámos na Liga dos Campeões, fizemos boas provas. No outro ano não, mas na Liga dos Campeões recordo-me que entramos até muito bem, ganhámos ao Mónaco, que tinha jogadores como o Thierry Henry, o Trezeguet, Barthez, tinha uma grande equipa. No meu segundo ano é a mesma equipa, ficamos em 2.º lugar e a equipa dá um salto qualitativo. Vem o Waseige que está dois meses connosco, vai-se embora e é o Octávio que assume novamente o comando. A equipa começa outra vez a galgar. Mas, na altura, o Sporting tinha um departamento de scouting que, quanto a mim, cometeu erros crassos. Jogadores contratados por grandes fortunas, com peso considerável, em que o Octávio se queixava que não tinha influência na contratação dos jogadores.

      Estamos a falar de quem?
      Estamos a falar do Giménez, estamos a falar do Saber, estamos a falar do Leandro, estamos a falar do Nenê... vieram vários jogadores a peso de ouro e que não resultaram. E há conflito entre o Octávio Machado e o departamento de futebol.

      Que era liderado por quem, já era o Couceiro?
      Não, ainda era o Norton de Matos. Entrou tudo em conflito e os grandes problemas do Sporting começam a partir daí. Tivemos muita entrada de jogadores naquela altura. Se olhar para o plantel da altura, posso-lhe dizer mais nomes, mas estes foram a base dos jogadores que foram contratados a um custo elevado e de quem o Octávio Machado não gostava. Na minha opinião, ele não foi escutado para dar a sua avaliação. Quando entrou o Couceiro, o Sporting já estava todo partido. O Sporting já tinha graves problemas e não foi pelo facto do Couceiro ter vindo que se desmembrou, já estava completamente partido, muito antes, bem antes. O Sporting a partir desse tempo viveu numa paz podre e num ambiente de muitos interesses.

      Que parece ser a história do Sporting...
      ...Que é a história do Sporting, infelizmente. Mas havia um bom grupo de trabalho e ele foi desmantelado em pouco tempo, em prol dos interesses.

      Interesses de quem, de empresários?
      O futebol começou a mudar.

      É na década de 90 que mais se ouve falar em arbitragens viciadas, no poderio do norte… Sentiam isso dentro do balneário?
      Toda a gente sentia e quem era favorecido também sentia e provocava inclusivamente os colegas.

      Durante os jogos?
      Durante os jogos e em estágios de seleção. Em situações normais, eles às vezes provocavam.

      Está a dizer que os que se sentiam privilegiados, provocavam os outros que não eram?
      Sim.

      Por falar em seleção: quando é que foi chamado pela primeira vez?
      Foi naquele episódio do Sá Pinto com o Artur Jorge (risos).

      Que pontaria. Estava lá quando se deu a agressão?
      Eu estava no balneário e veio o Paulinho Santos: “Eh pá, o Sá Pinto deu na tromba ao Artur Jorge”. Este gajo está a brincar comigo, o Sá Pinto vinha aqui dar no trombil? Não foi convocado, ele não é maluco. E como era um gajo do Porto [e Sá Pinto era jogador do Sporting] eu não dei muita importância. Daí a um bocado entra o Oceano: “Então o Sá veio aqui e derreteu o Artur Jorge?”. Foi difícil, foi difícil. E acho que o Sá também cresceu muito e arrependeu-se mais tarde. Mas foi difícil para nós. Felizmente, na altura, ainda tivemos a protecção do Figo, porque o primeiro comunicado que eles tinham era de aniquilar profissionalmente a carreira do Sá Pinto. Eu e o Oceano não permitimos.

      O Pedro e o Oceano não permitiram?
      Sim. E nomeadamente para mim, que era a primeira experiência, provavelmente seria a última, ao não concordar com aquele comunicado. Atenção, não que eu estivesse a proteger ou que o Sá Pinto não tenha errado profundamente ou que merecesse uma medida exemplar. Mas toda a gente fez muita porcaria no futebol português e foram sempre protegidos – e muitos deles queriam a cabeça do Sá Pinto e se calhar tinham feito coisas tão ou mais desagradáveis, do que aquelas que lhe aconteceram. Eu acho que toda a gente merece uma segunda oportunidade, como felizmente o próprio selecionador Artur Jorge acabou por lhe dar, sabendo que foi um momento de infelicidade. E teve consequências para o Sá Pinto, que deixou um ano de jogar e provavelmente em termos financeiros e em termos de futuro inclusivamente teve repercussões, foi isso que ele teve de assumir. Agora, na altura havia muita gente que o queria aniquilar, nós também estávamos em guerra com o Porto, o Sá Pinto era um dos grandes activos que tínhamos [no Sporting], por isso também havia aquela necessidade de o crucificar. E recordo que não foi fácil. Quando chegou aquela primeira declaração eu disse: “Estou fora, não contem comigo, não faço parte dela”. E fizeram outro mais soft, diferente e sem mencionar medidas drásticas.

      ©Catarina Morais / Kapta +

      Nesses três anos no Sporting, fez parte de plantéis marcantes. Não tem nenhuma história que possa contar?
      Tenho muitas que não posso contar. Mas posso contar esta história. Tivemos um jogo amigável em Valência, chegámos numa quinta-feira – íamos ter jogo no sábado – e, à chegada, o Queiroz quis meter toda a gente no hotel e disse que só nos libertava no dia seguinte, após o treino. Toda a gente foi para os seus quartos e o Carlos Queiroz, eram duas ou três da manhã, recebeu uma chamada de uma mulher que se enganara no quarto, porque ligou para o quarto do Carlos Queiroz e pensou que era o quarto de um jogador. O do Queiroz era o 215 e o do jogador era o 315, então ligou para o Carlos Queiroz por engano. “Ainda cá deixaste isto”, disse ela. O Queiroz assumiu o papel do jogador e respondeu: “OK, já vou, já vou, diz-me lá qual é o teu quarto”. Foi ao quarto e, quando chegou, estava cheio de vodkas, eram três mulheres… (risos). O que é que aconteceu: os gajos tinham chegado, falaram com elas, elas já estavam no seu quarto, fizeram uma festinha e depois foram para a cama. O Queiroz viu aquilo tudo e foi um problema tremendo, mas aquilo ficou por ali. Só passados dois meses é que o Queiroz avançou com um processo disciplinar. Quando as coisas estavam bem, ele deixou lá, quietinho; quando as coisas começaram a ficar tremidas, instaurou um processo disciplinar.

      O que aconteceu?
      Não deu em nada. Eu fui ouvido para saberem se o Dani tinha estado comigo ou não naquela noite. Ele estava no meu quarto. Eu disse: “Ele esteve comigo, eu adormeci quando ele estava comigo, quando acordei ele estava comigo, é o que eu sei, nada mais do que isso” (risos). Outra. Num estágio na Holanda, o meu primeiro estágio, estávamos num lugar onde não havia ninguém, no meio do mato. E, do nada, vi o Dani a passar. Estava no meu quarto e vi-o passar pela janela. “Aonde é que vais?”. “Tenho ali umas miúdas, vou dar uma volta de bicicleta com elas”. De um momento para o outro, apareceram as miúdas e lá foi ele (risos). Nós acabadinhos de chegar à Holanda. O Dani era uma coisa, nunca vi ninguém tão solicitado, era a toda a hora, a toda a hora, era impossível ele ser jogador. Há tantas historias…

      Força.
      Por exemplo, na altura, os elevadores nos hotéis ainda não mostravam o andar em que iam passando e a gente não sabia qual é que chegava primeiro. Uma vez, num desses hotéis, o Carlos Xavier e o Oceano chamavam o elevador e apostavam para ver qual vinha primeiro. Na altura ainda era em escudos e o que chegasse primeiro... OK, está aqui, está pago. Faziam-se apostas assim (risos).

      Lembra-se do seu jogo de estreia na seleção?
      A minha estreia foi na Irlanda e fui muito bem recebido por todos; pelo Luís Figo, que era a nossa grande referência do futebol, era um grande capitão.

      Depois não voltou a ser chamado?
      Não. Fui duas vezes chamado. Numa delas, participei no jogo; na outra, não.

      Em sua opinião não voltou a ser chamado porquê?
      Porque havia outros melhores para aquela posição. O Paulo Sousa, o Paulinho Santos, o Paulo Bento. Mas não guardo nenhum tipo de frustração na minha vida em relação à seleção, convivo muito bem com isso. Decisões são decisões.

      Entretanto, foi pai outra vez, da Bárbara. Assistiu ao parto dessa vez?
      Não, mas passei três, quatro horas de trás para a frente, não queria assistir, mas estava sempre presente, estava por trás da porta, para saber se estava bem. Ela ainda demorou a nascer.

      Sentiu outra vez um peso nos ombros?
      Não. Isso aconteceu com o impacto do primeiro. Mas tenho com ela uma maior cumplicidade e o Ricardo é mais com a mãe.

      Voltando ao Sporting: na última época ainda apanha o Cantatore como treinador. Que tal?
      Esteve três semanas, foi um senhor. Um gentleman. Gostando ou não do seu treino, achei um homem com um carácter fora do normal. Porque ele viu que o Sporting estava completamente dividido internamente, chegou uma altura em que disse disse: “Não acredito nisto”. Passados três meses, foi-se embora. Rescindiu. Acho que o Sporting devia ter aprendido nesse momento com aquilo que se estava a passar e não aconteceu.

      Veio o Carlos Manuel entretanto.
      Mas as coisas já estão tão partidas que eu não posso avaliar como é que é o Carlos Manuel, numa situação normal, seria como treinador.

      Como estava o ambiente nessa altura?
      Estava tudo diferente, partido, cada um a olhar para o seu lado. Posso dizer que, num dos primeiros jogos no Algarve, houve um jogador que tinha chegado ao Sporting naquela altura, estava no meu quarto e pronto para ir sair à noite. E nós na véspera de um jogo contra o Farense. Eu perguntei-lhe: “O que é que vais fazer?”. “Ah, eu vou dar uma volta”. Eu aí era implacável. Uma coisa é tu estares em estágio, de pré-época e ok, um jogador foge, tem umas miúdas à espera, ok, não há problema. Outra coisa é tu saberes que amanhã vais ter um jogo importante, aquele jogador vai jogar e preparou-se para sair para a noite. Eu disse: “Oh pá, vai para a noite, mas não estejas à espera que eu te dê cobertura, porque não vou dar. Toda a gente vai saber e amanhã temos que ganhar. Eu não venho para aqui para brincar. E não me vais chamar bufo, porque eu quero é ganhar dinheiro, quero é ganhar títulos”. Então, ele ficou. Mas a primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi sair antes de um jogo. E sei que ali era só o primeiro passo. No Algarve, houve um jogador do Sporting que foi muitas vezes apanhado, inclusivamente com taxas de alcoolemia muito grandes, e acidentes na rotunda... Portanto, os jogadores que vieram...Proteção aqui, proteção acolá, começou a ficar tudo partido.

      ©Catarina Morais

      Como surge o Boavista?
      Através do presidente, João Loureiro. Assinámos o contrato num hotel em Lisboa, num guardanapo. Ele ainda fazia aqueles contratos num guardanapo. Assinámos, chegámos a acordo.

      Por quanto tempo?
      Um ano e meio.

      Jaime Pacheco, que tal?
      Fez grandes trabalhos. Tenho um enorme respeito e consideração por ele. Não fui feliz com ele. Acho que, quando cheguei ao Boavista precisava de ser ajudado de variadíssimas formas, ele não teve essa paciência, já tinha um grupo feito.

      Por que diz que precisava de ser ajudado?
      Porque não tive pré-época, porque são praticamente seis meses em que não tens praticamente contacto com bola, porque estava à parte no Sporting.

      Porquê?
      Porque quando veio Jozic, ele meteu vários jogadores à parte e os que não tinham colocação continuaram a ficar à parte.

      Não houve nenhum bate-boca?
      Houve uma análise crítica, depois da decisão que o Sporting tomou. Antes disso, nunca tive problemas com o Sporting. Agora, eu tenho uma reunião num dia, ninguém me diz absolutamente nada, e passados dois, três dias, quando tinha várias propostas, várias soluções para resolver o meu problema, veio o treinador que tinha sido contratado a dizer que não conta com este, com este e com aquele, quando o diretor podia ter-me informado disso antes... Não foram sérios comigo, não foram corretos, e depois apresentaram isto de uma forma em que lesaram o meu lado profissional. Isso é que eu não posso estar de acordo. Porque se ele não conta comigo, não há problema. No Boavista, o Pacheco disse-me no segundo ano: “Eu não conto contigo”. E não houve problema. Isto é que é frontalidade. Eu não sei se era uma decisão tomada do treinador ou se era já uma decisão tomada pelo departamento de futebol.

      Que ainda era liderado pelo Norton de Matos?
      Que ainda era o Norton de Matos. Em muitos períodos eles quiseram acabar com o núcleo Octávio Machado, o que é uma estupidez porque não há núcleos Octávio Machado, há núcleos de Sporting. Eu tive problemas, o Oceano teve problemas, o Pedro Barbosa teve problemas, entre muitos. Mas o Sporting era a instituição que devíamos preservar e não misturar as coisas. Daí a minha crítica nessa altura e da forma como foi, porque dias antes, o Norton de Matos podia ter-me dito isso. E, inclusivamente, apresentando-me daquela forma fechou-me a porta de outros clubes.

      Que clubes?
      Um deles era o Vitesse da Holanda e o outro era o Valencia. E não viram sequer os interesses do Sporting, porque podia ter sido ressarcido. Mais tarde, fui para o Boavista e o Sporting teve de pagar metade dos meus salários. Não houve a noção de proteger isso. Notava-se que havia no Sporting um quadro para a parte negocial e outro quadro para a parte futebolística – e que não estavam em sintonia. A minha crítica foi essa; não foi pela tomada de decisão porque essa aceitava, podia não gostar mas aceitava.

      Estava dizer que também não correu bem com o Jaime Pacheco. Aliás, praticamente não jogou.
      Não. Cheguei mal fisicamente, a equipa estava bem, forte.

      Estava em baixo, psicologicamente?
      Precisava de ser ajudado. Não havia tempo. E eu compreendo. Naquele momento eu precisava de facto de uma aposta forte para continuar, mas não aconteceu.

      Foi uma época e meia penosa?
      Mas aqueles seis meses nos Açores foram importantes para mim, para ganhar adrenalina novamente.

      É o Pedro que pede para sair do Boavista ?
      Fui eu. Na altura, o Manuel Fernandes também me tinha ligado e juntou-se o útil ao agradável. A família não foi para os Açores, mas ia lá com alguma frequência.

      Fizeram-lhe bem esses seis meses no Santa Clara?
      Em termos futebolísticos, sim. Era o que eu estava a precisar: jogar, jogar, jogar.

      Gostou dos métodos do Manuel Fernandes?
      O Manuel é um apaixonado, vive as coisas com muita paixão. Fez grandes trabalhos no Santa Clara.

      Estava no nível Sporting, as expectativas estavam altas e de repente dá por si no Santa Clara. Nessa altura sentiu que de alguma forma tinha já perdido o comboio?
      Sim, claramente.

      Custou a aceitar, assimilar.
      Não. Encarei com naturalidade comecei a procurar outras coisas, comecei a preparar-me para treinador.

      Quando é que começa a tirar o curso?
      Quando vou para o Alverca, a seguir.

      Já sabia que queria ser treinador?
      Eu sabia que queria ficar ligado ao futebol, de que forma é que ainda não sabia. Comecei a tirar os cursos e comecei a ter mais uma noção quando fui para o Alverca, porque sou o mais experiente do clube, já com 30 anos, tenho uma boa relação com o José Couceiro, tinha passado momentos difíceis em Alvalade e ele sabia disso. E, então, comecei a ver o futebol de outra forma, a preparar-me de outra forma.

      Mas em Alverca ainda joga durante quatro épocas.
      Sim. A última época já não a queria fazer, foi obrigação do José Couceiro. Obrigação porque, quando ele diz “eu quero que faças, eu preciso de ti aqui”, não lhe podia dizer que não. Já não queria fazer a última época, não me sentia em condições.

      Voltando um bocadinho atrás, quando chega ao Alverca ainda apanha Jesualdo Ferreira. Qual a mais valia dele?
      O professor Jesualdo tem uma qualidade tática assinalável, percebe bem o que é o futebol. Mas tem algumas dificuldades na gestão de grupos. É um grande problema na minha opinião e não estou a dizer nada que não seja aquilo que já não tivesse dito frontal e diretamente. Se ele tivesse o que o Otávio Machado ou o José Couceiro tinham, com o conhecimento que ele tem do jogo, do futebol, se ele tivesse conhecimento do ser humano e da gestão global coletiva de uma equipa seria... .

      Também teve como treinador o Vítor Manuel, que é outra figura.
      (risos) À antiga. Aquele treinador tem muita paixão, muito grito de apelar ao sacrifício , um terra-a-terra, é diferente. Em termos do que é a estratégia de jogo, o aspecto tático, ele não dava grande relevância a isso; dava muito valor aos aspectos humanos, emocionais, para ele era fundamental. Era diferente deles todos, porque ele próprio tinha essa necessidade de se conectar completamente e com todos os jogadores de uma forma muito mais próxima.

      Coloca o ponto final na carreira de jogador nesta época 2003/04. Já tinha algum nível do curso de treinador feito?
      Penso que já tinha os dois primeiros níveis.

      Já se tinha metido em mais negócios?
      Tive um restaurante em Santa Maria da Feira, chamado “Fair Play”, durante quatro anos, com um sócio daqui da Feira. Acabámos a ligação em 2002. Era um restaurante ligado ao futebol, muito giro, e trabalhava muito bem.

      Há uma sapataria chamada Pedro Martins...
      ...Não tem nada a ver comigo. Toda a gente pensa que é minha, mas não.

      Tirando o restaurante, mais algum negócio?
      Tive uma marca de desporto com o Paulo Alves, que era a Kronos, italiana, e estive cinco ou seis anos com ela. Começámos com lojas de rua, mas depois deram problemas; entretanto, começámos a vender para o grupo Sonae e entretanto lentamente fomos acabando.

      ©Filipe da Silva Coelho

      Começa uma nova carreira como adjunto do José Couceiro, em Setúbal. O que foi mais complicado na passagem de jogador a treinador?
      Para já, devo dizer que não troco a minha profissão pela de jogador de futebol.

      Gosta mais de ser treinador?
      Gosto.

      É mais difícil do que ser jogador?
      Bem mais difícil. Mais responsabilidade. Temos várias vertentes em que temos de estar em cima, temos de ser competentes, temos de estar atualizados, obriga-nos a desafios constantes de querer mais e mais e mais, o que obriga a ir à procura de informação. Estou a tentar aprender o grego e a melhorar o meu inglês, tenho de falar francês, aprender a falar com novas culturas, novas mentalidades de dirigentes, de staff. O futebol dá-me isto. O futebol deu-me muita coisa. A experiência de ter sido jogador. Muitos treinadores que nunca jogaram à bola, se tivessem tido essa experiência, faço ideia o que eles podiam ser ainda mais como treinadores. Como treinador trabalho 24 horas por dia, estamos sempre a ir buscar coisas, estamos sempre a procurar o jogo, o treino, o que é que dizem as pessoas ligadas ao futebol, a imprensa. Não as redes sociais. Estou fora. Não faço, não leio.

      Porquê?
      Porque não me diz nada. É o tipo de crítica em que ela é mais negativa do que positiva e, mesmo que fosse positiva, se nos tira o foco do que é a realidade, do que é imprescindível, está errado. Eu não vou ver uma única vez as minhas redes sociais. A minha gente trabalha para isso e eu recuso-me a ver e às vezes os meus filhos querem falar sobre isso à mesa e eu não permito. Aliás, aconselho-os a não o fazer como uma forma de proteção.

      Quando era jogador lia as críticas nos jornais?
      Sim.

      E afetavam-no?
      Quando havia críticas que não eram objetivas e tinham outros contornos, não gostava. Para mim era perfeitamente normal: "Pedro Martins fez um mau jogo, não jogou bem", ponto final. Por isto ou por aquilo. Agora quando elas são subjetivas...

      Como assim?
      Quando diziam que provavelmente devo fazer outro tipo de posição... Não sei, não consigo explicar desta forma. Mas há críticas em que há segundas intenções. E que são para proteger outro tipo de pessoas, não propriamente uma crítica ao jogador. Por vezes, é para promoção de outro tipo de jogadores, também acontece isso. Mas globalmente aceitava bem as minhas críticas.

      Enquanto treinador dá ainda mais importância ou pelo contrário?
      À crítica? Não a ouço. Só das pessoas que estão comigo. Não leio jornais - e grego é complicado. Não consigo ver um programa de desporto em Portugal, daqueles que temos diariamente. Não consigo. Ninguém respeita ninguém, os clubes são representados de uma forma estúpida. Não é bom para ninguém, só para meia dúzia de pessoa, não faz sentido.

      Quando começa a carreira de treinador quem eram as suas referências?
      Eu não tenho grandes referências, tenho pessoas que foram muito importantes na minha carreira, como o José Couceiro, Henrique Nunes, Carlos Queiroz, Otávio Machado, e deles recebi muita coisa boa e também recebi aquilo que acho que não devo fazer.

      E o que não faz que lhe fizeram?
      Não ponho nenhum jogador à parte. Mesmo com ameaça que esteja lesionado. Da minha parte, o jogador é para trabalhar, depois tomo as decisões que tenho de tomar. Tenho de adaptar toda a gente de forma a estarem todos aglutinados e motivados para o treino. Eu tive treinadores em que, num dia eu não podia fazer aquele tipo de treino, mas no outro dia já estava pronto e ele se recusava que eu fosse para o treino porque achava que a lesão continuava. E a razão era muito simples. Não era por ele estar preocupado comigo, mas porque ele pensava que eu estava a pressioná-lo para que no próximo jogo estivesse disponível. Tive esse problema com um treinador.

      Pode contar o episódio?
      Posso. Eu conheço bem o meu corpo, havia um exercício que consistia em muitos remates e o meu joelho começou a inchar. Disse ao treinador que tinha de parar porque já tinha o joelho inchado, mas que amanhã treinava normalmente. No outro dia, o meu joelho já estava porreiro, mas ele disse que eu não treinava. Estávamos a dois dias da competição. Perguntei porquê e ele disse: "Não vais treinar porque estás com o joelho assim". Respondi-lhe que me conhecia bem, que tinha feito o tratamento, sabia que estava bem porque aquilo acontecia com muita frequência nomeadamente quando fazia muitos remates com tanta intensidade. Mandei chamar o médico que conhecia o meu historial, confrontei-o com o treinador e o médico disse que podia treinar. Esse treinador, se tivesse algum jogador com uma dor no dedo punha de lado, porque era menos uma dor de cabeça para as suas decisões, para as suas escolhas.

      Depois de estar em Setúbal vai para o FCP, ainda como adjunto...
      ... Eu queria dizer ainda que acho que foi um ano extraordinário para mim, em Setúbal. Estava ávido de aprender com o Zé [Couceiro], o processo de treino, como é que ele planeava e estava também ávido de perceber o jogo, mais e melhor. Até chegar ao nosso dia de estágio, eu ia ver quatro, cinco jogos . Durante seis meses fiz milhares e milhares de quilómetros, tirei milhares e milhares de informações, comecei a perceber ainda melhor o jogo, como é que os treinadores pensam, qual era a filosofia. Chegava a determinada altura e eu já sabia: este aos 10 minutos vai fazer aquilo. Já conhecia as rotinas dos treinadores. Para mim, mais do que o treino, eu tinha necessidade de absorver essa informação.

      Quando vai para o FCP, sentiu grande diferença em relação a Setúbal. A tal mística do Porto é diferente?
      Eu conheço bem o Porto, sou do norte, conheci muitos jogadores, conhecia bem a realidade do FCP. Mas o FCP que nós encontramos não era o Porto dos outros Portos. O FCP tinha sido campeão do mundo, campeão europeu, tinha grandíssimos jogadores e muitos deles foram embora. Outros, que fizeram grande época, queriam ir embora. Houve a contratação de muitos jogadores jovens; com qualidade, mas que ainda não estavam preparados para a nova realidade que é a Europa e do que é o FCP. Estavam sempre a fazer comparações com o passado, com o jogador X, Y e Z. Aquele é que era bom; que aquele que chegou não se sente adaptado, que já não havia fome de vencer do grupo de trabalho... Não foi fácil. Vieram jogadores com grandes nomes, mas muito jovens e exigiram muito deles quando eles não podiam dar e isso criou um grande problema.

      Dê-nos um exemplo.
      O caso do Fabiano. Para mim é um ponta de lança de top, se calhar dos melhores que o FCP teve e não teve sucesso no FCP. Não teve porque foi sempre visto como o grande reforço, de um momento para o outro queriam que fizesse 30 e 40 golos, quando o miúdo tinha acabado de vir do Braisl e não estava preparado. O FCP estava completamente dividido. Exigência top, elevadíssima, as pessoas não tinham paciência e por isso não foi o que se esperava.

      O Pinto da Costa tem o peso que se diz ter dentro do balneário?
      Ele é o presidente e é um líder. Ele tinha o peso dele, mas que as coisas não resultaram, não resultaram, por variadíssimas razões.

      Era homem de ir ao balneário com frequência?
      Chegou a ir uma ou duas vezes, mas não mais do que isso. Porque o ano estava a ser muito difícil a todos os níveis.

      Só lá estão seis meses.
      Depois é contratado Co Adriaanse, o Couceiro é convidado para ser o assistente dele, mas não aceitou. E vamos para o Belenenses. E não corre bem, descemos de divisão. Correu muito mal.

      Consegue encontrar uma explicação?
      Tínhamos jogadores de qualidade, o balneário era bom, curiosamente trabalhavam muito bem na semana mas chegava ao fim de semana e não ganhavam os jogos. Não tinha jogadores de malícia, de experiência, o grupo era muito bom. No momento em que se encontram lá em baixo - porque nós chegámos e aquilo já estava complicado -, se não tiveres grupos fortes, coesos, resistentes, por vezes não com tanta qualidade, mas que sejam fortes, não acontece. E o Belenenses tinha gente muito boa, mas é daqueles casos que não consigo dar uma explicação. Acho que tinha a ver com a maturidade competitiva que o grupo não tinha.

      ©Carlos Alberto Costa

      A seguir começa como treinador principal. Como foi?
      Sempre disse ao Couceiro que o meu objetivo um dia era fazer a minha carreira, sozinho, como principal. Nunca lhe escondi. Até lá ia ser-lhe fiel, leal, mas no momento em que quisesse decidir sair... Então surgiu a oportunidade da seleção de sub-21. Ele foi para os sub-21 e eu disse: está na hora.Tu vais para as seleções e eu vou fazer o meu percurso. Vou começar de baixo, vou começar cá na zona.

      Antes disso, tem um problema em Espanha em que é detido. Pode contar o que aconteceu?
      Sobre esse assunto não vou falar, está resolvido, fui absolvido, que fique bem claro. Fui vítima de uma burla. Ponto final.

      Entretanto o seu irmão faleceu, um ano depois do seu pai. A morte do seu irmão foi um choque maior do que a do seu pai?
      Eu vi morrer o meu pai. O meu pai foi para o hospital na véspera de carro, estava tudo bem. Quando cheguei no outro dia ao Monte da Virgem a Matosinhos, quando vi o meu pai vi logo que ele ia morrer naquela altura. Estava à nossa espera para se despedir. Foi exatamente isto que aconteceu. O meu pai morreu nos braços da minha mãe, estava exausto, cansado e quando nós chegamos ele despediu-se e faleceu.

      E o seu irmão?
      O meu irmão.. Fui o primeiro a vê-lo. Eu tinha um jantar marcado para aquele dia com ele. De vez em quando era normal ele chegar atrasado, mas tínhamos marcado para às sete da noite, nove horas, nove e meia e nada, não achei aquilo normal. O meu irmão vivia sozinho. Tive de pedir a chave à minha sobrinha para ir a casa dele ver o que é que se passava. Eu estava com aquele feeling de que algo não estava a correr bem. Quando abri a porta ele estava estendido no chão com uma garrafa de água debaixo do ombro. Deve ter acordado, levantou-se com a garrafa de plástico na mão e tombou.

      Foi um choque brutal.
      Levei um baque. Este custou. E o meu pai também como é evidente. Mesmo assim, o meu pai pegou no carro e foi ao hospital pela mão dele, à noite as coisas estavam bem e no outro dia tu sentes quando o vês pela primeira vez que ele vai despedir-se de nós. Tu não sabes que ele vai morrer, mas sentes que ele está ali a despedir-se de nós. O meu irmão mais velho não estava e eu só lhe mandava mensagens "anda rápido que o pai não vai aguentar". Eu tinha este feeling. E o meu irmão não chegou a tempo.

      Voltando à carreira. Como surge o União de Lamas?
      O Luís Miguel chateou-se na altura com o presidente. O presidente ligou-me, fez-me o convite e lá fui eu abraçar a primeira experiência como treinador.

      Estava nervoso?
      Para a primeira palestra estava muito nervoso. Era muita coisa, primeira experiência, como é que vai ser?

      Saiu-lhe bem a primeira palestra?
      Muito bem. De um momento para o outro estou nervoso mas também começo a perceber que estou a chegar onde pretendo e já me estou a catapultar.

      Como corre o resto de época?
      O Lamas estava condenado à partida, com muitos problemas a todos os níveis. Não havia dinheiro, não havia contratos, não havia ordenados. Pedi a minha demissão no dia em que o presidente do clube recebe a verba da câmara, tinha prometido aos jogadores que ia pagar dois ou três meses de salário e não honrou com os seus compromissos. Nesse dia bati com a porta.

      Segue-se o Lusitânia de Lourosa.
      Porque o Lamas melhorou significativamente o seu jogo e os de Lourosa perceberam que o Lamas, em pouco tempo, mesmo com os problemas todos, era um equipa que tinha melhorado imenso. E foram buscar-me.

      Ficou em casa duas épocas.
      E que grandes épocas. Um ano e meio, mas que grandes momentos de aprendizagem. Gostei muito de Lourosa. Adeptos com fervor. Era sempre o rival do Feirense. Em Lourosa tive ano e meio absolutamente fantástico. Nós tínhamos muitos jogos fora. Mil pessoas a ver os nossos jogos e as pessoas iam porque tinham prazer. O Lourosa tinha graves problemas também, mas cumpriam. Orçamentos baixíssimos. E no outro ano era uma equipa que estava a lutar para subir de divisão, a lutar com o União da Madeira, com o Penafiel...E com uma equipa muito jovem. Tive grandes momentos em Lourosa.

      Como é que foi parar ao Espinho?
      O Espinho na altura deu-me um projeto de subida de divisão, coisa que o Lourosa não podia fazer. E até o próprio Espinho não podia fazer, porque vivia acima do que realmente podia, ainda vivia no tempo dos lordes. As pessoas ainda não tinham percebido que o tempo dos lordes já tinha passado e que tinham de mudar rapidamente de mentalidade.

      É no Espinho que sofre a primeira chicotada?
      No Espinho fui eu que pedi a demissão. Não queria continuar no Espinho. Se alguém um dia me disse assim "vais-te embora", foi no Vitória. Não no Espinho. Quando saí do Espinho eu disse: "Não acredito em ninguém, não acredito no projeto, não acredito em vocês, vamos chegar a um acordo". Fechei a porta, não estava para aquilo.

      ©Catarina Morais

      É no Marítimo que dá o salto, mas começa por ir para a equipa B.
      Vou para equipa B do Marítimo com a noção de que me dava mais do que o Espinho para a minha carreira profissional - e estava a lutar para não descer e supostamente no Espinho lutaria para subir, o que era uma mentira porque eles viviam de facto numa imagem de Espinho de há 30 anos, que se refletia perante aquilo que poderiam oferecer e que ao momento era zero. Preferi o risco Marítimo. Fui nessa altura, mas antes o presidente do Marítimo andava constantemente a sondar-me.

      Foi com mulher e filhos?
      Aí, não, porque aí os miúdos já estão numa fase mais crescida. Fui sozinho.

      Está na equipa B três meses de uma época e três meses da seguinte. Como se dá a passagem para treinador principal do Marítimo?
      Quando cheguei ao Marítimo B, faltavam oito jogos para o final da época, o Marítimo B estava em penúltimo, tinha 19 pontos, estava na iminência de descer. Fiz os oito jogos. Tivemos sete vitórias e um empate. Passamos do último para 5.º lugar. Houve logo um salto qualitativo. No ano seguinte, o presidente convidou-me, e fiz um acordo com ele que vou revelar e acho que não vai levar-me a mal. Eu disse-lhe que não íamos falar de verbas de contrato, mas queria duas coisas: formar uma equipa B boa para futuro e a segunda coisa era que se alguma coisa acontecesse ao treinador da equipa A, a primeira opção seria eu. E assim foi. Fiz uma grande equipa, muitos deles vieram a ser também jogadores da equipa A. Aliás, quando acabei a minha carreira no Marítimo, tinha 17 oriundos da equipa B, da formação. Muitos foram vendidos. Quando o Mitchell van der Gaag foi embora, ele ligou-me e cumpriu com a palavra dele. Foi assim que me tornei treinador do Marítimo durante praticamente quatro épocas.

      A passagem de divisões inferiores para a divisão principal também provocou mudanças em si, percebeu que era outro mundo?
      Como é óbvio. Primeiro, temos um conjunto de pessoas de grande qualidade que nos estão a ajudar. Nas segundas divisões era eu que tinha de fazer tudo. Era com a minha câmara de filmar que ia ver os jogos, não tinha ninguém para fazer os scout out dos jogos, era eu que fazia tudo. Na I Liga já começava a ter gente a trabalhar para mim, eu só tinha de pôr a máquina a trabalhar da forma como eu quero, cada vez mais profissional e autónoma. Há diferenças, claro, como passados 10 anos sou muito melhor treinador do que era na altura, já tenho mais bagagem e muito mais coisas assimiladas do que quando comecei no Marítimo. E daqui a dez anos vou dizer a mesma coisa.

      No Marítimo já tinha algum modelo de jogo?
      Já.

      Qual é o seu modelo de jogo?
      Como é que hei-de dizer... Isso é uma boa pergunta. O meu modelo de jogo tem a ver com o meu processo de treino. Por isso é que algumas críticas que vi de alguns colegas são injustas, por serem incompetentes muitos deles. Por não perceberem. Por vezes nós temos um chavão, e aquilo é chapa gasta para toda a gente. São muito apelidadas as minhas equipas de serem equipas de transições. É mentira. Os dados comprovam isso. Há momentos em que a minha equipa é forte nas transições e há outros momentos em que a minha equipa trabalha bem a organização ofensiva, tem um ataque planeado como deve ser, sabe aquilo que quer. Consigo dar isso à minha equipa porque eu trabalho estes momentos todos no jogo. Não podem chamar à minha equipa uma equipa de transições quando tenho 70 ou 80% dos jogos de liderança da posse de bola. Alguma coisa está errada. Se me disser que é forte na transição, sim senhor, mas é também uma equipa que sabe o que faz na organização planificada ofensiva. Os números falam por si. Eu vejo muita gente a cometer este erro continuamente. Se o fazem é porque estão distraídos, se estão distraídos não estão a ser competentes. É isso que quero dizer. E muitos deles estão distraídos. Eu tenho o meu modelo de treino, agora o modelo de jogo é levado pelas características dos jogadores que tenho.

      É o tipo de treinador que se adapta às características do plantel em vez de ser este a adaptar-se ao seu modelo de jogo?
      Eu tenho este modelo, mas eu tenho de ir ao encontro deles com o meu modelo. E se não tenho jogadores para fazer transições rápidas, posso ter jogadores em ataque rápido e tenho de fazer o meu exercício de treinos de acordo com as características deles. Eu tenho jogadores que são fortes na posse de bola, então eu tenho que pôr esta equipa a trabalhar bem nesse processo, sem esquecer que ter posse de bola por si só não serve para nada. Então. mesmo esses que tenham posse de bola, vão ter que aprender algo mais de forma a crescer no seu jogo.

      É um treinador flexível.
      Claramente, sou muito flexível. Estou sempre a tirar exercícios para ir de encontro às necessidades da equipa, as necessidades do jogadores e muitas vezes às vulnerabilidade que naquele momento a equipa tem. Se eu vejo que a minha equipa está a precisar disto ou daquilo, eu tenho de criar exercícios de forma a melhorar, sem nunca perder o meu modelo e a minha filosofia. Mas o meu modelo pode mudar de um ano para o outro.

      Mudou já? Onde é que se dão as maiores transformações?
      No Marítimo. No meu segundo ano. Uma equipa de jovens jogadores que joga de variadíssimas formas. Hoje tenho a certeza que se perguntar a todos os maritimistas qual foi a melhor equipa que viu jogar, toda a gente vai falar no ano dessa equipa. É a época em que atingimos o 5.º lugar com os chavalos, é a 2011/12. Chegou-se a uma altura em que diziam: esta equipa defensivamente está top, organização está top, transições excelente. E passados uns tempos diziam "isto aqui é o tiki-taka do Barcelona". Noutro dia já estavam a dizer que era matreira. Nós conseguimos isso.

      Passou a seguir algum treinador em específico? As suas referências mudaram?
      Não. O que eu é faço é, quando encontro uma ideia boa, meto no meu processo.

      E de quem bebeu ideias boas?
      Minhas. Do meu processo, quando estive no Sindicato, quando estive no Lamas, quando estive no Lourosa, em Espinho...as minhas ideias.

      Desses quatro anos de Marítimo, o que mais o marcou?
      A entrada na fase de grupos da Liga Europa. Foi um momento para mim extraordinário. Vocês não imaginam, nós ficamos em 5.º lugar, mas aquela equipa, até faltar cinco jornadas, podia ficar em 4.º ou 3.º - e era uma equipa só de chavalos. Toda a gente dizia que íamos descer de divisão. Ainda me recordo no primeiro jogo fora, em Braga, perdemos 2-0, jogámos mal, mal, mal. Acabou o jogo, eu estava preocupadíssimo, mas também cheguei no outro dia e disse: "Esta é a equipa em que confio, esta é a equipa em que eu acredito e esta é a equipa que acho que vai fazer a diferença". No jogo a seguir, ganhámos em Alvalade 3-2 e nunca mais parámos.

      ©Rogério Ferreira

      Como se dá a ida para o Rio Ave?
      Fui contactado pelo Miguel Ribeiro. O projeto do Rio Ave era interessante, com um orçamento já significativo, com bons jogadores, boas equipas, que me ia dar aquilo que precisava para a minha carreira. Ir para junto da família era outro fator importante.

      Quando se está tanto tempo fora, longe da família, perde-se alguma coisa, muda alguma coisa ou ainda reforça mais os laços?
      Reforça, perde-se muita coisa e volta-se a ganhar. Faz parte. Há coisas que foram positivas, outras negativas. Mas a distância para mim nunca é benéfica.

      Teve um balneário onde figuravam jogadores como o Ukra. Como é que é ter um jogador como ele?
      O Ukra é muito responsável. Dá a sensação que ele é maluco a toda a hora o que não é verdade, é só para aqueles momentos.

      Alinhava nas brincadeiras?
      Eles faziam no momento e no espaço deles. Eles sabiam que havia momentos em que podiam fazê-lo, numa altura em que a ocasião o merecesse. De outra forma, à minha frente não o faziam, como é evidente. Ele sabia quando podia fazê-lo. Depois há uma coisa: o espaço e o local deles é muito sagrado. Eu não entro no balneário dos jogadores. Só quando tenho uma reunião e quero falar com o plantel na íntegra. De outra forma não vê o treinador Pedro Martins a entrar em nenhuma circunstância no balneário. Eu respeito o espaço, a privacidade.

      Como caracteriza as duas épocas à frente do Rio Ave?
      Falam por si. O Rio Ave entra na fase de grupos da Liga Europa, nunca o tinha feito. Até hoje é um marco na história. Vamos às meias finais da Taça de Portugal, somos eliminados pelo Braga. Perdemos uma final com o Benfica, em penáltis; tínhamos jogado na quinta-feira Liga Europa e jogámos logo a seguir no domingo e fomos aos penaltis com o Benfica. Até à penúltima jornada estávamos a lutar pela Europa, perdemos essa possibilidade na Madeira. No ano seguinte, fomos às meias-finais da Taça de Portugal, atingimos a Liga Europa. Acho que foram dois anos absolutamente fantásticos. No primeiro ano, o Rio Ave vendeu sete jogadores e no ano seguinte consegue um nova qualificação para a Liga Europa.

      Antes de acabar a época já sabia que ia para Guimarães. Foi contactado pelo Vitória a meio da segunda época no Rio Ave, certo?
      Sim. Eu não tinha só o Vitória - tinha mais clubes interessados. Tinha um na Grécia e outro na Turquia. E o António Silva Campos já sabia da minha parte que não tinha intenções de continuar no Rio Ave.

      Porquê? Porque tinha esses contactos ou por outros motivos?
      Primeiro que tudo, eu queria um projeto que me obrigasse a ser mais ambicioso... Não quer dizer que o Rio Ave não seja, e eu sei que as pessoas de Vila do Conde não me gostam de ouvir quando digo isto, mas o um clube como o Rio Ave, que é altamente profissional e organizado, não tem a cidade a acompanhar. Não tem as pessoas para lhe dar o transfer para outra realidade. Para mim começou a ser curto. É esta a crítica que faço. É porque de facto as pessoas não acompanharam o crescimento do clube. E, para mim, era importante porque esse é um sinal de excelência, de maior exigência e eu precisava disso. Portanto a minha decisão acima de tudo era pensar que o Rio Ave já não me podia dar aquilo que queria na minha carreira.

       

      ©Global Imagens / Fábio Poço

      E surge o contacto do Vitória. Era o passo que queria?
      Era, porque é um clube onde fui jogador e tem uma dimensão social à Vitória.

      Nesses dois anos de Vitória o que destaca?
      Eu acho que voltei a unir os vitorianos. Os vitorianos voltaram a sentir-se donos do clube. Eu senti que nós não fazíamos serventia a ninguém. Há muita coisa boa que foi feita. E orgulho-me pelo meu reinado como treinador. Mais de 30 milhões entraram nos cofres do Vitória, em Europas, em jogadores vendidos. Do primeiro ano para o segundo perdemos oito jogadores, muitos deles foram vendidos por valores recordes. Os casos do Soares e Raphinha. Ainda hoje sinto orgulho quando ouço o hino, de que fui impulsionador, tenho orgulho durante aqueles dois anos, praticamente andou com casas acima dos 20.000 adeptos, independentemente do jogo, se era importante ou não, tínhamos sempre grandes casas. Aconteceu isso no meu tempo.

      Mas é no Vitória que sofre a primeira chicotada.
      Faz parte.

      A primeira chicotada dói muito?
      Como é evidente. O que me custa mais foi não ter tomado uma decisão antes. Estava agarrado a um contrato, mas devia ter tomado uma decisão antes. Porque a minha relação com o Júlio Mendes nunca existiu praticamente durante o ano todo, portanto era uma questão de tempo. Eu devia ter antecipado.

      A sua intuição não funcionou dessa vez.
      Funcionou. Eu tinha era um problema para resolver, que era um milhão de euros que tinha de pagar de compensação. Mas a partir do momento em que dei a primeira entrevista no final de agosto, a minha intuição bateu certinho. Sabíamos que íamos ter problemas. Mas faz parte.

      ©Olympiacos FC

      Como aparece o Olympiacos da Grécia?
      O Olympiacos já tinha feito convite antes. Tentou em janeiro desse ano, falou com o presidente e o Armando Marques, não chegaram a acordo, tão simples como isto. Depois voltou outra vez.

      Era algo que ambicionava, ser treinador fora de Portugal?
      Sim, porque eu precisava de novo desafios.

      Sentia-se preparado para sair?
      Eu sinto-me preparado para qualquer desafio em Portugal e no estrangeiro e precisava disso.

      Como foi a adaptação? O que custou mais?
      Nada. Primeiro, o clube teve muitos treinadores portugueses e muito da organização penso que tem o dedo dos portugueses.

      Em que se notava esse dedo português?
      No dia a dia, na organização, por exemplo, o plano semanal era um plano típico dos portugueses, e a forma como o staff falava. Desde o chegar até o acabar do treino, aquilo notava-se que era de portugueses. Estar uma hora antes, o treino, que tipo de treino, a prevenção. E depois eles diziam, o Vítor [Pereira] fez isto, o Marco [Silva] fez aquilo, o Leonardo [Jardim] fazia assado, nota-se esses pormenores constantemente. Até os próprios aparelhos de ginásio, nota-se que estiveram ali portugueses, porque vai a outro lado e não existiam. Mais ninguém ali dominava o treino daquela há forma há dois ou três anos, tinha que ser o treinador português.

      A língua é difícil?
      É (risos). Tenho muita dificuldade. Tenho tradutor mas não preciso diariamente, só para as conferências. O inglês é suficiente para me expressar no dia a dia, só tenho alguma dificuldade quando eles não percebem inglês.

      O facto de ir para um país estrangeiro levou-o a fazer exigências que não tinha feito até então?
      Uma das exigências que fiz a mim próprio - e que não cumpri até hoje, porque ainda não tive tempo, porque é muito absorvente -, era aprender o grego. Quando fui para lá, já sabia ler o grego. Sabia o alfabeto todo e ia na rua e lia perfeitamente. Não percebia. tive quatro, cinco aulas ainda em Portugal. Já percebo muita coisa deles.

      E exigências ao clube?
      A minha equipa técnica anda sempre comigo, desde a Madeira, e portanto é uma exigência.O presidente Marinakis desde o primeiro dia em que cheguei que me disse vê o que tens a fazer, limpa como tens de limpar, faz o que tu quiseres, eu dou-te suporte. O ano passado, 21 jogadores foram embora e vieram 20 jogadores. Foi uma equipa completamente nova, jovem, o Olympiacos já não gastava as fortunas que gastava antigamente. Esta equipa que temos é uma equipa jovem, hoje está muito mais experiente passados 18 meses.

      Prefere trabalhar com jogadores mais jovens?
      Eu gosto de trabalhar com jogadores inteligentes e com jogadores que percebem o jogo. Não tenho problemas em trabalhar com jovens ou com menos jovens, a idade não me vai dizer nada. Tenho um jogador, o Guilherme, que é muito inteligente e já não é propriamente novo, tem 28 anos, e não é por aí. O capitão neste momento tem 35 anos e saiu do Olympiacos, foi para o estrangeiro e provavelmente diziam que tinha vindo para o Olympiacos para acabar a carreira e hoje está a jogar. Gosto de equipas com intensidade e normalmente a intensidade está mais inerente ao mais jovem, ao mais novo. Mas tem de haver um equilíbrio.

      Nesta época e meia que já leva de Olympiacos o que está a ser mais difícil de gerir e de lidar?
      As expetativas. Na Grécia é tudo paixão, num momento está tudo bem, tudo excelente e no jogo a seguir as coisas estão todas mal. É o triplo do que se passa em Portugal. Aqui já nos queixamos, na Grécia temos de potenciar isso três vezes mais.

      Teve algum problema com algum adepto ou algo do género?
      Nunca. Sou muito bem tratado. Se você fosse na rua comigo ia perceber a forma como sou respeitado, considerado e acarinhado. Mesmo muito.

      Tenciona continuar na Grécia ou gostava de ter outro projeto na próxima época?
      Neste momento é este o meu projeto. Fico onde me sinto bem. Eu estive cinco anos na Madeira e no último ano não continuei porque achava que estava na hora, já não estava lá, já não queria, já não era a mesma coisa, o desgaste com os jogadores, o staff e o presidente já se fazia sentir. E não tem nada a ver com o presidente, estou muito agradecido ao Carlos Pereira, como treinador ele foi um pai para mim, não me esqueço aquilo que ele fez. Mas eu estava cansado, nós também temos este desgaste. Às vezes, faz-me confusão é como alguns treinadores estão há 10, 15 anos. Eu não podia dar nada já ao Marítimo.

      Acha que há um prazo, um limite?
      Quando tu não podes, ou já não estás a dar coisas boas e positivas a um clube, está na hora de sair. Eu já não podia dar mais ao Marítimo e se calhar o Marítimo também não podia dar-me a mim.

      Ainda tem para dar à Grécia e vice-versa?
      Na Grécia ainda vamos ter grandes momentos, tenho a certeza disso.

      Mas tem o PAOK do Abel Ferreira, em boa gíria, a morder-lhe os calcanhares...
      É o futebol.

      Há rivalidade entre os treinadores portugueses quando estão lá fora, no mesmo país?
      Não, da minha parte não há. Mas ele também está a 500km de mim.

      Não costumam falar, trocar ideias?
      Não. Mas não por nada, também não o faço em Portugal, não só lá.

      Notou muita diferença na qualidade do futebol de Portugal para a Grécia?
      Eles são competitivos.

      Mas a qualidade não é tão boa.
      Mas são jogos muito competitivos. Há uma coisa que devo realçar que é a qualidade dos relvados que maioritariamente é fraca. Os estados, a grande maioria, carne de maior qualidade. A maior parte dos clubes não tem grandes infra-estruturas para o futebol profissional.

      Tendo em conta os problemas do Rúben Semedo no passado, teve alguma conversa especial com ele?
      Sim. Fica entre mim e ele. E com alguma frequência temos várias conversas. O Rúben para ter a noção o compromisso dele é tão grande, tão grande tão grande, que ele neste menos tem menos 8kg do que quando chegou ao Olympiacos. Ele é hoje um homem, um jogador com um compromisso muito grande.

      Disse recentemente que o campeonato português comparado com o de há cinco anos está pior. Porquê?
      Estamos sempre a vender os melhores vamos perdendo qualidade. Não há hipótese. Não aparecem João Félix todos os anos para ir renovando, acontece uma vez de 10 em 10 anos. Perdemos tanto jogadores... Basta ver as nossas participações na Europa para perceber o nível dos nosso clubes. Perdemos qualidade.

      Quando diz "se não percebermos que o negócio não pode ser gerido de forma clubística, corremos o risco de passar a disputar uma espécie de II divisão da Europa", o que quer dizer em concreto?
      Nós vamos correr esse risco, nós vamos participar na II liga da Europa, não tenha dúvidas. Esse é o passo que vai acontecer daqui a 10 anos nós vamos estar a falar de uma grande liga europeia e as equipas portuguesas vão estar a jogar na 2ª liga.

      Acho que isso acontece só por causa da venda dos melhores jogadores ou há outros factores?
      Quando falei que não podemos ver isso com olhos clubísticos é exatamente isso. O Benfica não pode jogar com o Nacional e ganhar 10-0 ou 8-0. Não tem aqui competição. O Benfica, o FCP ou o Sporting não podem ter orçamentos de 80 milhões e os outros terem de 4/5 milhões e viverem grandes problemas financeiros.

      Como é que se dá a volta a isso?
      O que toda a gente já devia saber. Dividam os direitos de TV, façam um pacote global dos direitos financeiros televisivos e distribuam com maior equidade, reforcem estas equipas para dar-lhes grandes competições, independentemente de quem é o campeão ou não. Com mais competitividade o negócio é apetecível para as televisões, se conseguirmos reter os nosso melhores ativos dois anos, três anos e não só seis meses, há maior qualidade, maior competitividade, que são os fatores importantes. Agora não queiram vender e depois vir dizer "nós vendemos mas vamos lutar para..." Mentira, é mentira. O presidente do Vitória quando vendeu os sete ou oito jogadores não pode dizer que o nosso objetivo é o mesmo. Não é. Não é. E ele sabia que não era. Ou assumimos isto ou não assumimos. Se os clubes grandes não perceberem isto vão perder competitividade na Europa, porque não têm competição cá dentro. E os clubes pequenos vão-se contentando com pouco, muitos deles são subservientes aos grandes o que é um erro. Agora, então com as Sociedades Anónimas há aqui interesses bem mais evidentes, que é um problema.

      ©Olympiacos FC

      Na Grécia é muito diferente?
      Pior. Claramente. O campeonato é mais competitivo, mas está atrasado muitos anos relativamente a Portugal. Para já, não tem a qualidade do jogador português. Está muito atrasado a todos os níveis.

      Está sozinho na Grécia ou com a família?
      A minha esposa está comigo, os meus filhos não. Eles já têm 26 e 22 anos.

      O seu filho chegou a jogar futebol.
      Sim. Mas neste momento tem um ginásio e está a trabalhar lá. Tirou a licenciatura de Desporto, não está a exercer, não é fácil dar aulas, e tem um ginásio. A minha filha está na faculdade de veterinária, a tirar aquilo que mais gosta. Mas eles ainda estão por casa.

      É verdade que recusou recentemente uma proposta da Arábia Saudita onde iria ganhar 4 milhões/ano?
      É verdade. Não vou falar em números, mas é verdade que recusei a proposta.

      Porquê?
      Já recusei ir para Arábia várias vezes. Porque ainda não está na altura. Estou muito focado noutras coisas.

      Em quê?
      No campeonato e num título na Grécia.

      E depois disso, qual a sua maior ambição enquanto treinador?
      Depois disso? Vou para Inglaterra. É o campeonato da paixão, é o grande campeonato. Tem tantas grandes equipas.

      Já houve algum costume grego que tivesse adoptado para si?
      O que me chateia é o trânsito. É eu estar nos semáforos e por exemplo querer cortar à esquerda, que até posso ser o primeiro, mas vem o de trás, não quer estar à espera e mete-se a frente dos semáforos. Isso irrita-me profundamente (risos). É constante, há sempre fila e está sempre alguém, um, dois, três, quatro a meter-se à frente. É uma grande falta de respeito. Eles não respeitam as autoridades por isso, porque falar ao telemóvel, não há problema, este tipo de situação, não há problema, vermelhos, stop, seja o que for não há problema.

      Qual foi o melhor jogador que lhe passou pelas mãos até agora?
      Na Grécia, o Fortounis. Em Portugal houve gente muito importante...Não sei. Não é fácil.

      Pergunto de outra forma. Qual foi o jogador que mais o surpreendeu mais pela positiva, do qual não estava à espera tanta qualidade?
      Sami.

      E já apanhou grandes desilusões com jogadores que julgava serem fantásticos e afinal...
      Muitas. Rincon, vitoriano. Eu pensei que ele ia ser o futuro Marega.

      Qual foi a situação mais difícil com que teve de lidar enquanto treinador?
      Tive alguns problemas. O Marega criou-me alguns problemas. Houve um jogo em que ele é expulso, insulta os adeptos, vai-se embora, não espera pelo final do jogo e de um momento para o outro está toda a gente a pedir a cabeça dele e eu tenho de assumir um papel de liderança. Para 99% das pessoas, se eu fosse por eles, eu teria criado problemas ao Marega por aquele infeliz comportamento. Mas é um grande profissional, é top. Uma excelente pessoa que teve um momento infeliz. Mas eu também acho que é aqui que se faz a diferença porque eu não fui pelos 99%, eu fui pela minha cabeça e achava que ele podia ser muito importante como jogador para o Vitória e foi isso que aconteceu. Esta foi uma das situações delicadas, tive outras.

      Conte lá outra.
      Tive com o Kléber no Marítimo. Tive alguns problemas de início os jogadores do Marítimo não me levavam a sério numa primeira fase, porque sendo um treinador da equipa B, pensavam que eu era interino. O meu segundo jogo foi com o V. Setúbal e o Kléber portou-se mal. Aos 20 minutos está a pedir para ser substituído, eu substitui-o e ele saiu como se nada fosse. E no final do jogo, os adeptos não gostaram, eu não gostei do comportamento do Kléber e a partir do momento em que ele fez aquilo publicamente, da forma como o fez, eu também tinha de tornar pública aquela situação porque também tinha de proteger o treinador, e foi uma situação que não foi fácil. Acabou o jogo, conferência de imprensa, e eu fui muito, muito agressivo com o Kleber e ainda bem que o fiz, porque a partir de então começámos a ter o jogador que até à altura não tínhamos; não tinha nada. Mas foi difícil. Foi uma decisão que tive de tomar e inclusivamente disse, nesse mesmo dia, ao presidente o seguinte: "Se você quiser que eu continue vai ter dizer a toda a gente que eu vou continuar no clube, sob pena de amanhã até me poder mandar embora, mas vem ao balneário e vai dizer que isso de ser interino ou deixar de ser, ou de omissão, acabou. Ou você faz isso e depois faz o que bem entender no próximo jogo, daqui a dez dias, seja o que for, mas agora vai ter de tomar esta postura, porque senão não há hipótese nenhuma para segurar o meu balneário". E foi exatamente que o Carlos Pereira fez no dia a seguir.

      Qual foi o pior castigo que infligiu a um jogador?
      Castigo? De vez em quando são multados.

      Quando chegam atrasados ao treino?
      Isso já é normal. Agora, quando o mesmo jogador chega repetidamente atrasado, há uma altura em que o cesto dele já está no meu balneário e ele tem de bater à porta para apanhar o cesto e a partir dali fica outra vez controlado. é só para alertá-lo. As multas que acontecem, como aconteceu no Marítimo e aconteceu aqui no Olympiacos, porque eles estão discutir entre eles e passou para outra fase em que tenho que intervir. E vem a multa para nós jantarmos. Aconteceu com o Marítimo. Posso contar a história.

      Força.
      Dois jogadores. Acabou a primeira parte do jogo, eles estavam a discutir: "Porque é que não me deste a bola, eu tinha hipótese de fazer golo, devias ter-me dado a bola"; "tu és isto, tu és aquilo". Cheguei lá: "Calou, ninguém abre a boca". E eles continuaram. Mais 30 segundos, dei outro berro e acabou. Segunda parte, tudo calmo. No dia seguinte, disse-lhes: "Meus meninos amanhã vamos jantar, esta vai ser a ementa no nosso restaurante normal e vocês vão pagar o jantar". Aí já nem abrem a boca (risos). Depois estão a correr e andam com aquela cara de azia (risos). Mas depois passa.

      É um homem de fé?
      Sou. Não quer dizer que vá à igreja com frequência, mas sou um homem de fé. Quando chego a Portugal vou ao cemitério visitar o meu pai, avós e irmão. Tenho essa comunicação, ligação.

      Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer extra futebol?
      Não. De vez em quando jogo padel com o meu filho. Gosto de uma peladinha com amigos. Mas só isso.

      Há algum outro desporto que goste de seguir?
      Quando os jogos da NBA estão "quentinhos", nas fases finais, gosto de ver.

      Na Grécia continua a seguir o campeonato português?
      Tudo, a minha televisão é portuguesa.

      ©Vítor Parente / Kapta+

      Gostava de volta a treinar em Portugal?
      Agora, não. Nesta fase não. Inglaterra é um grande passo.

      E se fosse um dos grandes portugueses a chamá-lo?
      Não me parece.

      Acha impossível um dos grandes convidá-lo?
      Não, não. Acho perfeitamente possível, cada vez mais possível.

      Em que é que o facto de ter ido para fora o enriqueceu enquanto treinador?
      Enriqueceu a todos os níveis. Uma equipa líder, o perceber e comunicar numa equipa top, a exigência, embora no Vitória ela também seja muito grande. Não posso avaliar que no Vitória é inferior a do Olympiacos, não me parece. Mas tem sido um grande desafio e crescimento, pelo facto de sair da minha zona de conforto, mesmo pessoalmente e para o meu grupo de trabalho, um ou outro não sabia falar inglês e fui obrigado a comunicar com eles.

      Acha que já é melhor treinador do que foi jogador?
      Eu sinto isso, claramente. Muito melhor.

      Se não fosse jogador de futebol que teria sido?
      Treinador (risos). Não me vejo de outra forma. Nunca vi nada mais do que isto. Sinto-me preparado, se amanhã tiver de abraçar um projeto como dirigente desportivo sinto-me completamente preparado ser na parte financeira quer a nível desportivo.

      Gostava de um dia passar para esse lado?
      Neste momento não me vejo nessa situação. Mas, daqui a 15 anos, sei lá. Estou preparado para isso, claramente.

      Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
      Ai, eu tenho tantos amigos. Tantos e bons. Não é fácil eleger um. Tenho amigos na Nazaré, tenho amigos do coração em Guimarães, em Lisboa, sei lá...

      Qual é o seu pior defeito e a melhor qualidade?
      O maior defeito a teimosia. A maior qualidade, sou persistente, perseverante.

      Portugal
      Pedro Martins
      NomePedro Rui da Mota Vieira Martins
      Nascimento1970-07-17(50 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoMédio (Médio Defensivo) / Médio (Médio Centro)
      Comentários (1)
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      motivo:
      Televisão
      2020-04-27 19h43m por Daniele
      "A Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio" da RTP, o programa que vejo, tenho esse prazer e não perco um episódio (e guardo alguns, que agora nesta altura fui revendo). Na SportTV vejo pelo menos o que tem o ex guarda redes Ricardo, SportingTV um ou outro programa, mas aquele que faço por não perder é a Grandiosa.
      Quantos ao outros mais ou menos vistos, nem considero para o quer que seja. 0.

      Quanto à entrevista, li na altura como outras que tem sido partilhadas e ma...ler comentário completo »
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