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história
Grandes jogos

Sporting x Benfica: a magia de JVP

2012/12/10 12:41
Texto por João Pedro Silveira
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«Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.»

- Bernardo Soares, in Livro do Desassossego.
 

A noite que podia ser de glória para o leão, acabou por se transformar num pesadelo leonino, enquanto a águia, rampante, brilhante numa noite de gloriosa conquista, conquistou na casa do eterno rival a goleada mais saborosa de todas. 3x6! Ou a perfeição segundo João Vieira Pinto...

Um dia depois dos católicos celebrarem o milagre de Maria em Fátima em maio de 1994, no dia seguinte, os benfiquistas rumaram a terreno «inimigo» para confirmarem com os seus próprios olhos, muito mais do que um milagre. Confirmaram em pleno relvado do José de Alvalade à consubstanciação de João Vieira Pinto (JVP) e a perfeição futebolística. É por isso, que o 14 de maio está para o benfiquismo, como o natal para os cristãos, ou o 25 de Abril está para os amantes da liberdade, porque nessa mesma noite, o Benfica foi esmagador, imperial e vencedor incontestado, daquele que provavelmente foi um dos melhores Sporting da história...

Caminhos para o dérbi

A corrida para a vitória no campeonato, estava a ser disputada taco a taco por águias e leões, com a perseguição portista há muitas jornadas. Com maior ou menor dificuldade, Sporting e Benfica ultrapassavam os adversários e prometiam fazer a luta durar até ao fim. Ao FC Porto parecia reservado o papel de observador...

Na 27ª jornada, os leões perdiam nas Antas por 2x0, num jogo em que Carlos Valente expulsou Vujacic, Peixe e Juskowiak. O leão podia queixar-se da arbitragem, mas também se lhe podia apontar os tiros que dera no próprio pé, como a discussão entre Paulo Sousa e Carlos Queiróz, ao intervalo, nos balneários das Antas, que obrigou o treinador a abdicar do médio-defensivo para a segunda parte, quando o resultado estava ainda em 0x0, mas o Sporting já jogava com menos um. O resultado penalizou os leões, que ainda perderam Peixe e Juskowiak para o dérbi que se avizinhava... 

Os leões curaram as feridas, batendo o Estoril por 3x1 em casa e goleando o Beira-Mar no Mário Duarte por 0x4, enquanto o Benfica, depois de vencer no Restelo, escorregava em casa com o Estrela da Amadora (1x1). O leão sorria, voltava a estar a um ponto, uma semana antes do dérbi.

O grande dia

Se Juskowiak podia ser substituído por Cadete, Peixe, o que estaria incumbido de «guardar» JVP, fazia muita falta a Queiróz. Do outro lado, Toni, tirava Rui Costa da lista dos eleitos e fazia subir Kennedy no terreno, voltando a colocar o veterano Veloso no «onze». 

O Benfica era uma equipa de respeito que contava com jogadores de classe como Isaías, Aílton, Mozer, Schwarz, JVP; já o Sporting não pedia meças ao rival, com uma equipa com nomes que ainda hoje farão suspirar os simpatizantes do leão: Luís Figo, Krassimir Balakov, Stan Valcxx, Paulo Sousa...

O favoritismo, como convém no «clássico dos clássicos», era repartido, com um pequeno ascendente para os da casa, sedentos de uma glória que já lhes escapava há doze anos, e que estavam cientes do significado de vencer e se isolarem no primeiro lugar da tabela, a quatro jornadas do fim...

Os benfiquistas chegavam ao grande jogo, acossados por críticas. No caminho até Alvalade, o mar «verde-e-branco» de esperança, bandeiras e cachecóis do Sporting em todo o lado, JVP, em silêncio, no banco do autocarro benfiquista, cogitava uma vingança...

Pontapé de saída

Entre sessenta, a setenta mil, os números são inconclusivos, presenciaram o pontapé de partida do grande dérbi, apitado por António Marçal, num fim de tarde chuvoso em Lisboa...

O Sporting entrou com todo o gás, empurrando o Benfica às cordas e chegando ao golo, através de Jorge Cadete, na sequência de um canto. Alvalade parecia um vulcão, e os leões vitoriavam a sua equipa. O Sporting seguro, trocava a bola ao som de «olés» que chegavam das bancadas.

Tudo corria bem até que JVP apanhou a bola já no meio campo leonino, fugiu a Paulo Sousa, e a mais de trinta metros chutou para um golo de antologia. Contra o corrente de jogo o Benfica empatava com um golo do outro mundo... Corriam trinta minutos...

Cinco minuto depois, agora no seguimento de um livre curto, Balakov aponta o livre, e na pequena área, Luís Figo cabeceia para o fundo das redes de de Neno. Dois minutos depois, um slalon de JVP, bate Vujacic, e com um remate cruzado bate Lemajic. Sporting 2, JVP 2! O Benfica volta a empatar!

Aos 44, Aílton marca um livre para a direita, Paneira cruza para o segundo poste, Isaías cabeceia para trás, onde JVP de cabeça faz o hattrick. 2x3! A multidão em Alvalade não queria crer no que os seus olhos viam. No resto do país, pela televisão, um país apaixonado vibrava com o jogo dos jogos...

Uma substituição para a história

Chegava o intervalo e o Sporting tinha de inverter a história. Queiróz arrisca e resolve trocar Paulo Torres por Pacheco. Em Alvalade há quem abane a cabeça, temendo a avenida que se pode abrir para a ala direita encarnada.

Três minutos depois do recomeço, Vítor Paneira corre pela direita, Paulo Sousa fica fora do lance, cruza, JVP deixa passar a bola e Isaías fuzila Lemajic. Aos 57´ JVP foge, obviamente pela direita... Patética, a defesa sportinguista tenta compensar o buraco à esquerda, desequilibra-se, o «oito» benfiquista aproveita, rompe e cruza para Isaías fazer o seu segundo, o quinto dos encarnados.

Os benfiquistas festejam a goleada, histórica! Alvalade não quer acreditar, Queiróz percebe a dimensão colossal do seu erro tático e manda avançar Poejo para o lugar de Iordanov. O jogo está perdido, o Sporting já não consegue se encontrar em campo, o Benfica não para, e vaga atrás de vaga, ameaça fazer mais estragos.

Aos 74 minutos, é a vez de Hélder, o central, fazer um golaço e festejar o sexto do Benfica. A humilhação está confirmada, e o «sete» um número místico nesta coisa de jogos entre o Sporting e o Benfica, ameaça ser repetido.

O Sporting, num último assomo de orgulho, cerra fileiras e ainda reduz, de penalty, por Krassimir Balakov. 3x6. Resultado final. O país benfiquista exulta como João Vieira Pinto, o «Menino d´Ouro», orgulho dos benfiquistas, que cala Sousa Cintra, o presidente leonino que um ano antes o apelidara de mercenário. A vingança estava servida. «A Bola» atribuía pela primeira - e única - vez a nota dez num jogo a um jogador.

João Vieira Pinto saía do massacrado relvado do velhinho Alvalade, vitoriado pelos colegas. Nas bancadas, entretanto semi-desertas, alguns adeptos sportinguistas choravam, enquanto aplaudiam os seus vencidos heróis. Esta era a sina do Sporting, de chorar por perder mais uma vez, uma batalha decisiva no seu estádio...

 


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Comentários (2)
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Motivo:
sl
JVP
2016-03-14 11h49m por slb_pride
Derreteu a defesa dos lagartos com uma monstruosa exibição. Pena uns anos depois o Benfica ter sido minado por dirigentes de tão fraco nível, caso contrário este magnífico jogador teria terminado a carreira no SLB como ele e todos os benfiquistas desejavam. Mas pronto, a história essa já não se pode mudar.
am
Derby
2012-12-10 22h47m por amq55
Sou portista, mas sinto falta de dérbies assim. Estádio cheio, comentários decentes e jogos tremendos.
jogos históricos
U Sábado, 14 Maio 1994 - 00:00
José de Alvalade
António Marçal
3-6
Jorge Cadete 8'
Luís Figo 35'
Krasimir Balakov 80' (g.p.)
João Vieira Pinto 30' 37' 44'
Isaías 48' 57'
Hélder 74'
Estádio
José de Alvalade
Lotação75200
Medidas105x68
Inauguração1956