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DFC Prag: uma viagem pela história

Texto por João Pedro Silveira
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The first official German championship was 
 
organized by the DFB in 1903, and was based upon 
 
regional qualifiers played through 1902. Some of 
 
the regions, such as Hamburg and Berlin, had full 
 
fledged league play, whereas others, such as
Na viragem do século XIX para o século XX, Viena era a capital de um Império com 676,615 km²,  um espaço geográfico que nossos dias se encontra partilhado por 13 países. O Império Austro-húngaro era uma Monarquia dual onde viviam mais de 52 milhões de almas, conviviam lado-a-lado 13 nacionalidades distintas e onde se professavam sete religiões, além de se falarem ao todo 16 línguas, nove das quais detinham o estatuto de idioma oficial.
 
Viena era o centro desse imenso Império, mas outras cidades floresciam na província como Budapeste, Zagreb, Trieste, Cracóvia ou Lviv, como centros de cultura e desenvolvimento. Uma dessas pujantes cidades de província era Praga, a bela cidade banhada pelo Moldava, que com o desenvolvimento industrial, se tornara um dos principais pólos aglutinadores do Império.
 
Uma comunidade singular
 
Há séculos que diversas comunidades germânicas viviam fora das fronteiras dos dois grandes estados de população alemã: Áustria e Alemanha. "Colónias" germânicas, que em muitos casos remontavam à aurora do milénio, encontravam-se radicadas em regiões tão díspares como o norte de Itália, os países bálticos, a Ucrânia, a Roménia ou os Balcãs.

Na atual República Checa, desde a Idade Média que uma grande comunidade germânica habitava o coração da Boémia-Morávia, preservando os seus hábitos, costumes, e claro, a língua. Praga era o centro de umas dessas comunidades, que convivia em harmonia com a maioria checa, ao contrário das Sudetas, onde os sudetendeutsche - alemãs das Sudetas - há muito clamavam por fazer parte da Alemanha e mostravam claro desprezo pelos vizinhos eslavos.
 
Franz Kafka e Rainer Maria Rilke serão dois dos mais ilustres exemplos de alemães nascidos em Praga. Enquanto o poeta, autor de «Vida e Canções» nasceu no seio de uma família cristã, já Kafka, era filho de uma família judia de língua alemã, um Ashkenazi, como muitos dos rapazes que pertenciam ao Deutscher Eis- und Ruder-Club Regatta Prag, um clube que se dedicava à prática do remo no Moldava, e que no inverno, aproveitava as águas congeladas para se dedicar aos desportos que se praticavam sobre o gelo.
 
A Ponte Carlos, sobre o Rio Moldava, é o ex libris de Praga, a cidade que viu nascer o DFC, o mais alemão de todos os clubes nascidos fora da Alemanha.
Entre os estudos na Universidade Carolina de Praga - Univerzita Karlova v Praze - os rapazes dedicavam-se ao desporto, sempre atentos às novidades que chegavam da Alemanha e Inglaterra, como o críquete e o futebol.
 
Apaixonados pelo novo desporto que os ingleses acabavam de introduzir na Europa resolveram fundar uma delegação para jogar o tal football em nome do Deutscher Eis- und Ruder-Club Regatta Prag. Mas a ligação entre remadores e futebolistas não durou muito tempo e nascia então o Deutscher Fußball Club Prag, literalmente o Clube Alemão de Futebol de Praga, era o dia 25 de maio de 1896.
 
O DFC encontrou dificuldades para competir e escolher a prova em que devia participar. Dilema natural para um clube alemão, localizado na Boémia-Morávia, que pertencia ao Império Austro-Húngaro.
 
Ainda no ano da sua fundação o DFC disputou o campeonato checo da Boémia-Morávia que venceu logo na estreia. Pouco depois estreou o Belvedere Station que anos mais tarde teria uma lotação de 18 mil lugares e que durante três décadas seria o estádio do clube (até 1939), palco das principais conquistas do DFC.
 
Mas os alemães de Praga não estavam satisfeitos por disputar um campeonato que não consideravam o seu. Entrava então em cena um reputado médico da Renânia-Palatinado, que há já algum tempo radicava e exercia na cidade, o Prof. Dr. Ferdinand Hueppe, apaixonado pelo «desporto dos bretões», que ao tornar-se presidente do clube ajudou a mudar a história do mesmo, fazendo questão de levar o DFC a competir em provas disputadas na Alemanha.
 
A 28 de janeiro de 1900 marcou presença em Lípsia, com os representantes de mais 85 clubes, na fundação da Deutscher Fußball-Bund (DFB, a Federação de Futebol Alemão). Hueppe dera provas de tal dedicação e paixão pela causa que os seus pares o elegeram como o primeiro presidente da instituição.
 
25 de maio de 1896
 
Deutscher Eis- und Ruder-Club Regatta Prag
 
À procura da Viktoria
 
Após alguns atrasos, chegou então a altura de se disputar a primeira edição do campeonato alemão. As equipas qualificavam-se através dos campeonatos regionais e além do DFC Prag, mais seis equipas participaram na fase final.

O objetivo supremo era a consagração como primeiro campeão da Alemanha e a conquista da Viktoria Meisterschaftstrophaee, o troféu que coroaria o rei do futebol alemão até ao surgimento da Bundesliga nos anos sessenta. 
 
A Viktoria, o troféu entregue ao campeão alemão entre 1903 e 1963. No ano de estreia da competição, o DFC esteve muito perto de conquista-la.
O sorteio colocou o Karlruher FV no caminho do DFC Prag e o jogo dos quartos-de-final estava marcado para Munique, mas o DFC argumentou que por motivos económicos não conseguiria fazer a viagem até à Baviera, conseguindo assim convencer a DFB a mudar o local do jogo para Praga.
 
O Karlruher protestou e o jogo ficou adiado. Com um problema entre mãos, além de várias desistências na prova, a DFB resolve que as duas equipas passam às meias-finais, marcando nova data e local.

Desta vez, Karlruher e DFC deviam encontrar-se em Lípsia, no nordeste da Alemanha.
 
O estranho telegrama
 
Na véspera do jogo, pouco antes da delegação partir de comboio rumo a Lípsia, os diretores do Karlruher receberam um telegrama que anunciava o cancelamento do jogo. Com um jogo cancelado, enviaram um telegrama para a DFB e ficaram à espera da resposta que tardava e já não embarcaram no comboio.
 
No dia seguinte, em Lípsia, os jogadores DFC Prag esperavam no centro do campo, à hora marcada pela chegada do adversário. A DFB marcou falta de comparência ao Karlruher e o DFC passava assim para a final. Em Karlruher a indignação subia de tom, sentindo-se vítimas de fraude. Ainda hoje ninguém sabe a origem precisa do telegrama, mas em Karlruher havia quem pudesse jurar que este tinha sido enviado de Praga...
 
Em Hamburgo o DFC Prag era dado como o grande favorito. Todos consideravam os futebolistas da Boémia-Morávia como verdadeiros artistas. O Leipzig eliminara nas meias-finais o clube local, o Altonaer FC 93, o que fazia com que as gentes de Hamburgo estivessem ainda mais inclinadas para apoiar os azuis de Praga.
 
Enquanto o Prag chegou à final sem  jogar nenhuma partida, o VfB teve de batalhar para chegar ao grande jogo. Aconselhava-se prudência, contra os azuis e amarelos, mas os jogadores do Prag estavam tão confiantes que na véspera do jogo foram sair à noite.

A cidade banhada pelo Elba, há muito que era famosa pelos seus estabelecimentos de reputação moral duvidosa especialmente em redor da Reeperbahn. Até altas horas houve comemoração e bem acompanhada pela cerveja, grande parte da equipa perdeu-se pelos recantos mais escuros da longa noite de Hamburgo.
 
Um acordar difícil
 
De manhã o espetáculo na comitiva checa era degradante. Uma ressaca coletiva não prenunciava nada de bom. O jogo começou com uma hora e meia de atraso, mas as crónicas não culpam a bebedeira dos rapazes de Praga. A culpada, a haver uma, seria a bola, que se encontrava em parte incerta.
 
Ferdinand Adolph Theophil Hueppe(n. 24.8.1852  Neuwied-Heddesdorf - m. 15.9.1938 Dresden) Médico e bacteroligista de renome, foi o presidente do DFC e o primeiro presidente da Federação Alemã de Futebol.
Sem bola e com o jogo atrasado, chegou a hora de entrar em cena Franz Behr, o craque do meio campo do Altonaer FC, o clube que era dono do estádio onde se jogava a final. Behr seria o verdadeiro herói do primeiro campeonato alemão.

Desde manhã que lutava contra o tempo, para garantir que nada impedia a realização da final. Cortara a relva do campo, repara as redes nas balizas. Vendeu bilhetes para o jogo, aproveitando a presença de diversos dirigentes que se encontravam na cidade para um congresso da DFB.
 
Cuidou que houvesse transporte para que as duas equipas se deslocassem até ao estádio, assim como conseguira que ambas as comitivas fossem devidamente acomodadas. Seria ele a arranjar a bola do jogo - pertença do clube - e ainda pegou num apito para arbitrar a final. Para finalizar um dia em grande, ainda seria eleito Presidente da Federação, cargo que manteria só por um ano, pois em 1904 emigraria para o Brasil, onde viveu até à sua morte em 1944.
 
A final
 
O Prag ainda se adiantou no marcador por Meyer aos 22 minutos, mas os rapazes do Leipzig empataram pouco depois, para fazer o resultado ao intervalo. No segundo tempo o cansaço apoderou-se dos azuis de Praga e o Leipzig "cavalgou para a vitória", golo atrás de golo, até o score chegar aos 7x2. A Viktoria seguia para Lípsia com os justos vencedores, que um ano depois voltavam a mais uma final.
 
Mas além da estranha carreira que conduziu o DFC Prag até à grande final sem disputar um minuto sequer, a própria final não ficaria isenta de suspeitas.

Nesse dia, o DFC fez alinhar sete (!) jogadores da seleção austríaca no onze inicial, mas só um deles pertencia ao clube, os outros tinham sido "emprestados" para jogar só a final. Obviamente, todos tinham um pseudónimo na ficha de jogo, pois o DFC não podia inscrever mais jogadores na prova, além dos que tinha indicado aquando da inscrição.

Os jornalistas presentes no estádio em Altona não conseguiram reconhecer os jogadores e simplesmente acabaram por encobrir a situação, pois afinal o presidente do clube era também o presidente da Federação...
 
A Federação tinha gasto  2200 Reichmarks para organizar a prova, fazendo apenas 1300 de lucro. A situação era complicada para a DFB, que entre as diversas medidas tomadas para se modernizar, se filiou na FIFA, sendo obrigada a deixar de aceitar clubes de fora da Alemanha nas suas competições.

Fechava-se a via germânica para o DFC Prag, abria-se a porta austríaca, pelo menos por algum tempo...
 
Sucesso na Checoslováquia
 
Expatriados, os alemães de Praga passaram a disputar competições na Áustria, Hungria e Boémia, tornando-se um clube de referência no futebol do Império. Ao todo, até 1918, treze jogadores do DFC Prag vestiriam a camisola da seleção austríaca. Com a qualidade das suas equipas foi sem surpresa que voltou a conquistar o Campeonato da Boémia por duas vezes, em 1913 e 1914. 
 
A equipa do DFC Prag em 1904: Fischer, Sedlaczek, Dr. Fischl, Meissner e Weil; Schwarz, Österreicher, Kurpiel, Dr. Frey e Robicek; Eisenstein e Pick.
A derrota alemã e austríaca na Primeira Guerra Mundial conduziu ao desmembrar do Império e a Checoslováquia proclamou a sua independência com Praga como capital. O DFC passava a ser a partir dessa data um clube checoslovaco.
 
Durante os anos vinte, os "alemães" assumiram-se como uma das principais equipas da Checoslováquia conquistando dez títulos de campeão da Boémia entre 1923 e 1937 e ainda dois campeonatos checoslovacos (amadores). Sem renegar às suas origens, há muito que o DFC aceitara jogadores checos e eslovacos, como antes alinhara com austríacos e alemães não nascidos na Morávia. A religião também ficava à porta do Belvedere, alinhando na equipa tanto católicos como protestantes, assim como judeus.

O DFC era um exemplo de integração e era acarinhado por muitos "não alemães" e pelas próprias autoridades checoslovacas, que sempre o apresentaram como um bom exemplo da saudável convivência entre as diversas etnias do país.
 
O princípio do fim
 
A história do fim do DFC começa em Berlim, a 30 de janeiro de 1933, com a ascensão de Adolf Hitler e do Partido Nazi ao poder. Quem lera o Mein Kampf -o livro que Hitler escrevera enquanto esteve preso, depois da tentativa de tomar o poder em 1923, através do célebre «Putsch da Cervejaria» em Munique - não tinha dúvidas quanto as reais intenções do chanceler sobre a Áustria, as Sudetas, a Boémia-Morávia e a restante Europa Central...
 
Em Outubro desse ano nascia o Sudetendeutsche Heimatfront, o partido alemão das Sudetas, fomentado por Berlim para reivindicar a região para o Reich. Em Março de 1938 a Alemanha anexa a Áustria e rapidamente se aperta o cerco às Sudetas. A Checoslováquia não cede à pressão alemã e pede a ajuda das potências ocidentais.

A 30 de Setembro, em Munique, o célebre tratado deixa o destino da Checoslováquia nas mãos de Hitler. França, Inglaterra e Itália fecham os olhos, um dia depois a Alemanha invade as Sudetas, quebrando uma das promessas assinadas na véspera. Ingleses e alemães consideram que evitaram a guerra. Meses depois a Boémia-Morávia era oficialmente integrada no III Reich e a Eslováquia tornava-se um protetorado, a Checoslováquia desaparecia. Em Setembro do ano seguinte Hitler virou as suas exigências para Danzig e a Polónia e o resto seria história...
 
O NSTG Prag
 
Entretanto em Praga o DFC já não existia. Os jogadores judeus tinham sido excluídos da equipa. Os poucos que restavam juntaram-se aos jogadores do Deutsche Sportbrüder Prag para formar o Nationalsozialistische Turngemeinde Prag, um clube formado (como tantos outros) para fomentar as virtudes do nacional-socialismo através do desporto. 
 
Curioso pensar, que depois de o DFC ter "vivido" tantos anos sob o domínio austríaco e checoslovaco, nunca abandonando a sua identidade germânica, e levantando bem alto a bandeira alemã, que defendia com brio e nacionalismo, o clube deixaria de existirnão por culpa por culpa própria ou dos checos, húngaros ou austríacos, mas sim pelos mesmos compatriotas alemães, que pouco depois da anexação não hesitaram em acabar com o clube.
 
Em 1938 a Alemanha anexou as Sudetas e a Boémia-Morávia. A população de maioria alemã recebeu de braços abertos a wehrmacht que foi recebida como se tratasse de um exército libertador.
O novo clube seria incluído na novel Gauliga Sudetenland, um dos diversos campeonatos regionais que davam acesso ao Campeonato Alemão. Em 1941 conquistaria a Gauliga Sudetenland, apurando-se para a fase final, onde se quedaria eliminado na primeira fase. Um ano depois, ficaria em segundo lugar na Gauliga, acabando por não conseguir nenhuma posição de destaque até ao fim da Segunda Guerra Mundial
 
Com a derrota alemã, as Sudetas voltaram para a Checoslováquia, mas a sua população alemã seria transferida em massa para as novas fronteiras da Alemanha. Terminavam assim, ingloriamente, séculos de presença alemã no coração da Boémia. O DFC Prag desaparecia para sempre, tornando-se com o passar dos anos, numa breve nota de rodapé nos livros de História.
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