história
À volta do jogo

Fado e futebol: a atribuição do Euro 2004 a Portugal

Texto por Pedro Marques Silveira
l0
E14
Se o leitor pudesse regressar ao outono de 1999 talvez não reconhecesse Portugal. Por esses dias sentia-se e respirava-se confiança. Ultrapassados iam os tempos de crise e descrença. Passar os olhos pela imprensa de então é encontrar um ramalhete de glórias. Acima de tudo, Portugal olhava-se a si mesmo com bons olhos. 

Jorge Sampaio estava em Belém, António Guterres em São Bento. O FC Porto de Jardel e companhia era pentacampeão nacional e o Sporting ainda não sonhava que estava a meses de quebrar um jejum de 18 anos. João Vieira Pinto era capitão e símbolo do Benfica

©Catarina Morais
Luís Figo caminhava para se consagrar como Melhor Jogador do Mundo e Cristiano Ronaldo ainda era mais um miúdo em Alvalade, pois a Academia de Alcochete não saíra, todavia, do papel. Aliás, a última grande referência da formação de Alvalade e menino bonito dos sportinguistas era a nova «promessa» do Barcelona, que dava pelo nome de Simão Sabrosa...
 
Um «outro» país
 
O nosso país vivia uma época que, olhando agora para trás, não só nos parece distante como, de certa forma, irreal. A economia portuguesa crescia a 3,8 por cento, depois dos 4,9 por cento do ano anterior, terminando uma década em que o crescimento do PIB nacional fora sempre superior à União Europeia. A ideia de convergência com os países mais ricos da Europa parecia possível.
 
O país já não era aquele tímido bom aluno dos primeiros anos da adesão à CEE. Com a autoestima reforçada, considerava-se já um membro de pleno direito do «clube dos ricos». A transição do cavaquismo para o guterrismo ocorrera sem percalços. A democracia portuguesa estava madura e recomendava-se...
 
Lisboa fora Capital Europeia da Cultura em 1994 e organizara a Expo 98. O Porto seria Capital Europeia da Cultura em 2001. José Saramago vencera o Nobel da Literatura em Outubro de 1998. A comemoração dos grandes Descobrimentos estava no auge. 500 anos depois das grandes descobertas, o país parecia reencontrar o seu caminho.
 
Eusébio foi sempre um dos símbolos do Benfica e de Portugal ©Carlos Alberto Costa
A voz de Portugal fazia-se ouvir no Mundo. Entre 1994 e 1996, Diogo Freitas do Amaral fora Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 1999 a política externa portuguesa tivera um papel fundamental na denúncia da situação em Timor. Para culminar este processo de afirmação internacional, Portugal candidatara-se à organização do Europeu de futebol em 2004. E, então, chegou aquela semana de outubro...

Fado e Futebol
 
A 6 de outubro o país era abalado pelo choque da notícia do falecimento de Amália Rodrigues, que fora encontrada sem vida, logo pela manhã, no chão da sua casa de banho. A morte da fadista, «a Voz de Portugal», que juntamente com Eusébio da Silva Ferreira, fora o grande símbolo nacional, pré e pós Abril, deixou a sociedade em profunda comoção. Nessa quarta-feira, e nos dias seguintes, milhares ocorreram ao n.º 193 da Rua de São Bento, em Lisboa, prestando homenagem à diva do fado. 
 
Foi decretado luto nacional e três dias depois o Estádio da Luz, em Lisboa, seria palco do último jogo da qualificação para o Euro 2000. O minuto de silêncio terá sido um dos momentos mais arrepiantes da história do futebol português.

A voz de Amália ecoou no estádio: «Coração independente, Coração que não comando: Vives perdido entre a gente, Teimosamente sangrando, Coração independente.» A Luz aplaudiu de pé a fadista. Terão sido os mais longos sessenta segundos do velhinho Estádio do Benfica e no final, a ovação foi estridente, causando tanto impacto na memória afetiva do adepto português que, ainda hoje em dia, cada minuto de silêncio num estádio luso é sempre acompanhado por uma chuva de palmas. 
 
Em 2000 e 2001, Figo foi considerado o Melhor Jogador do Mundo, primeiro pela France Football, depois pela FIFA ©Carlos Alberto Costa
Antes da qualificação para o Euro 2000 portugueses e magiares tinham-se encontrado pela última vez num jogo oficial em 1966, em Inglaterra, com Eusébio em campo. Os lusos tinham vencido por 3x1 e chegado às meias-finais do Mundial e ao terceiro lugar na prova, que os colocara nas bocas do Mundo. Nesse distante ano de 66, também Amália Rodrigues conquistava a América, com uma atuação memorável no Lincoln Center, em Nova Iorque. Fado e futebol, dois dos três pilares da portugalidade desses tempos.
 
Trinta e três anos volvidos, Portugal venceria a Hungria por 3x0, não obstante ter jogado mais de metade da partida com menos um jogador, num sofrimento desnecessário, nesse fado que os portugueses insistem em viver... No final, as lágrimas de Eusébio correram mundo. Emocionado, o «Pantera Negra» dedicava a vitória à sua amiga Amália. 
 
O sonho 
 
Mais três dias passaram até a história do futebol português ter mais uma data marcante. O palco desta feita era Aachen ou Aix-la-Chapelle, consoante se cedemos à grafia alemã ou francesa. A imprensa portuguesa da época tendeu a escolher a forma germânica, mas alguns francófonos resistiram. Curiosamente, a única grafia que não deu sinal de vida por esses dias foi a portuguesíssima Aquisgrano, nome pelo qual a cidade natal de Carlos Magno é conhecida por estas bandas...
 
Em terras alemãs, Gilberto Madaíl encabeçava uma comitiva de peso que contava com o inevitável Eusébio, Carlos Cruz, o então Ministro da tutela José Sócrates e o Secretário de Estado do Desporto Miranda Calha, e ainda António Sequeira, dirigente da Federação. São estes seis que ouvem in loco o sueco Lennart Johansson pronunciar o nome de Portugal.

A UEFA atribui a organização do Campeonato da Europa de futebol de 2004 ao nosso país, em detrimento da candidatura conjunta da Áustria e da Hungria e da candidatura espanhola, que após o anúncio de Johansson não consegue esconder o mau perder. Em Portugal e na Europa a imprensa fazia eco da história: mais uma vez, David vencera Golias. 
 
A euforia entre a comitiva nacional é total. No país comemora-se e todos os quadrantes se mostram satisfeitos com a atribuição do Euro a Portugal. Poucas eram as vozes que ousavam remar contra a maré e contestar a atribuição do Euro a Portugal.

O Estádio do Dragão foi um dos construídos de raiz para o Euro 2004
No projeto inicial, dez seriam os estádios onde a prova se ia desenrolar, cinco deles construídos de raiz: Alvalade, o novo estádio do FC Porto, os estádios municipais de Braga e Leiria, e o intermunicipal Faro-Loulé. Os restantes seriam para remodelar ou ampliar, projeto que acabou por não ser seguido na íntegra. Por exemplo, o Benfica acabou por construir um estádio novo. O custo estimado seria de 60,6 milhões de contos, 299 milhões de euros na moeda atual e o Estado seria responsável por 25 por cento do financiamento. 
 
O desígnio nacional
 
Portugal chegava às meias-finais do Euro 2000, Figo era eleito o Melhor Jogador do Mundo, João Vieira Pinto era dispensado por João Vale e Azevedo e mudava-se para Alvalade, onde ainda se vivia a ressaca da conquista do título. 
 
Foi no estádio da Luz que Portugal perdeu a final do Euro 2004, ante a Grécia ©Carlos Alberto Costa
Dois anos depois do falecimento, os restos mortais de Amália Rodrigues eram transladados para o Panteão Nacional. O Governo de Guterres caía depois do famoso discurso do pântano, suceder-lhe-ia Durão Barroso. O país descobria que estava de «tanga» e Durão anunciava que partia para Bruxelas, quando os portugueses já só pensavam no seu Euro 2004.

Mourinho levou o FC Porto a conquistar a Europa e Scolari pediu bandeiras em todas as janelas, mas Angelos Charisteas estragou-nos os planos e Portugal acabou por cumprir o seu fado. Santana Lopes deu lugar a José Sócrates.
 
Em 2010, quando as contas da organização do Euro 2004 fecharam, as derrapagens tinham elevado a fatura dos estádios até aos 665 milhões de euros... Portugal era um país em crise e em vésperas de recorrer à ajuda externa. Como tantas vezes ao longo da sua história, os portugueses lamentavam essa «estranha forma de vida» e já ninguém mais parecia lembrar as emoções daquele outubro memorável de 1999.
Comentários (15)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
motivo:
JO
Euro 2004
2015-04-30 17h10m por JoseTiagoVale
Só para que saibam nós ainda estamos a pagar este Europeu. . .
Zerozero
2014-10-12 23h34m por Cobain
Bom artigo, não parece mas já se passou muito tempo. Em 1999 estava ainda na primária, bons tempos xD

Já agora, "Santana Lopes sucede a José Sócrates". . . Não terá sido ao contrário?
--
jmgfd
2014-10-12 21h22m por -----------
para um pais rico teriamos de apostar nem no PS e nem no PSD acho. . . pois é sempre a mesma história
AH
Expo 98 e Euro 2004
2014-10-12 17h10m por Ahly
Dois eventos internacionais de grande dimensão que deixaram marcas na economia portuguesa! Creio que não houve um plano a longo prazo e agora estamos a pagar as favas!
VB
15 anos. Como o tempo passa
2014-10-12 16h40m por VBaiaLegend99
É incrível parece que foi ontem que estava a ser noticiado pelos jornais que iríamos organizar o euro 2004 e teríamos novos estádios.
JO
EURO 2004
2014-10-12 16h12m por JoseTiagoVale
Excelentes memórias, grande verão de 2004 para nunca esquecer. Mas não esquecer o que realmente é importante: Foram gastos mais de 500 milhões de contos para Portugal ser campeão europeu, e nem com aquela super equipa foram capazes de ganhar, mas também ter aquele seleccionador de [. . . ] , para escolher o Ricardo em vez do Baía. . . Mas pronto. Bons tempos sim senhor
euro 2004
2014-10-12 16h12m por Tobin
correu muito bem mas a verdade é que foi um erro. . . . ou pelo menos nos moldes em que foi feito. . . .
SO
Comentário
2014-10-12 15h45m por SOMOS_SEMPRE_PORTO
Que belo comentário foi aqui escrito, é de fato lamentável a comparação com o tempo em 1999 e o que vivemos neste momento.
Boa Reportagem
2014-10-12 14h38m por M_A_O_N
Muito boa reportagem. PARABÉNS!
JM
Portugal
2014-10-12 14h34m por jmgfd
Bons tempos. . . A economia portuguesa prosperava, as pessoas eram felizes, vivia-se bem, a assistência social estava no auge.

Era eu pequenino e tudo parecia bem mais belo que do que é agora

Espero que voltemos a esse tempo em breve.
Muito bom
2014-10-12 14h16m por luso08
Grande artigo, parabens ao zerzero e ao autor do texto Pedro Marques Silveira, com texto desta qualidade vale a pena vir a este todos os dias. -
DA
Euro2004
2014-10-12 13h15m por David7Villa
Neste tempo a seleção estava muito próxima do povo, foi um período de grande festa. Não ganhámos mas fomos á final, o que é prestigiante.
Infelizmente a construção dos estádios foi uma causa ( das muitas ) para que o nosso país esteja como está agora.
PA
grande artigo
2014-10-12 12h21m por pablo-aimar
euro 2004, o sonho que se tornou pesadelo no sentido lato e figurativo. as derrapagens, a crise, a grecia. . . mau demais. portugal ficou ainda mais em depressao
Euro 2004
2014-10-12 11h37m por Syeger
Este grande evento foi a prova de que o nosso país é realmente capaz quando as pessoas se empenham e trabalham todas para o bem comum.

Foi um mês que ninguém vai esquecer e um torneio quase perfeito! Só faltou mesmo a vitória final!

Pode ser que daqui a uns bons aninhos possamos ter o privilégio de voltar a organizar um Europeu.
MI
2004
2014-10-12 11h08m por miguelmam
Great Times.
Tópicos Relacionados