história
À volta do jogo

Descalçar a bota

Texto por João Pedro Silveira
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A quarta edição do Campeonato do Mundo teve lugar no Brasil em 1950, era a primeira edição da prova que se disputava depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939/45).

A grande festa

O Brasil engalanou-se para receber a competição. O espetacular Maracanã era o palco principal do torneio, engalanado - mas não ainda acabado - para presenciar ao pontapé de saída da seleção anfitriã.

Houve uma salva de 21 tiros de canhão, houve balões, fogo-de-artifício, bandas filarmónicas. O Rio de Janeiro, o Brasil inteiro pararam para celebrar o grande momento.
 
Num dos cartazes da prova que engalanava o recinto, entre outras bandeiras de países participantes na competição, encontrava-se a bandeira nacional da Índia, grande gigante asiático que se tornara independente do Império Britânico em 1947, fruto da longa luta pela independência, contra o jugo britânico, liderada entre outros por Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru.
 
O caminho para o Brasil

A presença inglesa na Índia legara aos indianos o gosto pelo desporto. Mas ao contrário de outras regiões do Império, onde o futebol e râguebi foram prontamente adoptados pelos locais, no subcontinente indiano - Índia, Paquistão, Sri Lanka e Bangladesh - o futebol nunca se impôs, ficando para trás, em comparação com o hóquei em campo e particularmente o críquete, uma verdadeira paixão nacional por essas bandas.
 
Contudo, o futebol também tinha o seu lugar no coração dos indianos e logo depois da independência a federação local candidatou-se a representar o país em grandes competições. Em 1948, os indianos já haviam participado nos Jogos de Londres, onde a sua seleção de futebol dera grande réplica à França (1x2). Qualificara-se para o mundial brasileiro, com um caminho facilitado, graças à desistência da Indonésia, Birmânia e Filipinas. 
 
Confiantes, os indianos preparam-se para o mundial com uma tour vitoriosa que passou pela Malásia, Singapura, Sri Lanka e Hong Kong. Com o estágio feito, as vitórias tinham acrescentado a moral necessária para a estreia na competição. A equipa estava preparada. O sorteio colocara a estreante Índia no grupo 3, com os bicampeões em título (Itália) e as seleções do Paraguai e Suécia.
 
A bomba
 
Mas eis que a bomba caiu em Nova Deli. A FIFA enviou um telegrama informando a Federação Indiana que os seus jogadores (ao contrário do que sempre acontecera, Jogos Olímpicos incluídos) não podiam jogar descalços. No mundo das coincidências estranhas, a seleção indiana não podia defrontar o «país da bota» por causa de onze pares de botas...
 
De acordo com as normas, a equipa indiana era obrigada a usar calçado desportivo - tal como acontecia no futebol desde meados do século XIX - e que não podia competir no Brasil sem botas. 
 
Treinador, jogadores e dirigentes apelaram à FIFA. O futebol indiano era disputado sem botas e tal facto nunca fora impedimento para a Índia disputar jogos internacionais. A resposta da FIFA foi pronta: a seleção indiana não poderá jogar sem botas. A poucos dias de começar o torneio, com as «malas feitas», os dirigentes indianos encontravam-se com um dilema entre mãos.
 
Costuma dizer-se que perante uma decisão complicada, ficamos com uma bota por descalçar. Neste caso, os indianos tinham uma para calçar. Aliás, tinham 22, duas para cada um dos jogadores que entrassem em campo para jogar.
 
Nova Deli informou a FIFA que a seleção não iria participar na prova porque chegara à conclusão que o custo da viagem e da estadia era incomportável. Do Rio de Janeiro chegaram promessas que tudo seria pago e que a Federação Indiana não teria gastos... Em vão, a decisão estava tomada. 

A decisão não terá sido a mais ponderada, os indianos preferiram sair do torneio a calçar umas botas e desde então, nunca mais estiveram perto de jogar o maior torneio do mundo...
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Equipa
Competição
Estádio
Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Lotação78838
Medidas105x68
Inauguração1950