história
À volta do jogo

Visita do Dynamo Moscovo ao Reino Unido

Texto por João Pedro Silveira
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It is aIt is a grey November morning in 1945, and an aeroplane emblazoned with the communist red star touches down on the tarmac at Croydon Airport. On board are Dinamo Moscow, here by invitation of the Football Association to partake in a month-long tour celebrating the game’s return after World War Two.
It is a grey November morning in 1945, and an aeroplane emblazoned with the communist red star touches down on the tarmac at Croydon Airport. On board are Dinamo Moscow, here by invitation of the Football Association to partake in a month-long tour celebrating the game’s return after World War Two.
A Guerra terminara na Europa uns meses antes. Em maio, uns meses antes, em Potsdam, na Alemanha, os aliados - ingleses, soviéticos, americanos e franceses - tinham decidido o destino da Alemanha e do resto do continente.
 
As relações «este-oeste» ainda não tinham "azedado", o famoso discurso de Winston Churchill sobre a "cortina de ferro" só seria proferido no ano seguinte. Para a esmagadora maioria dos historiadores, a Guerra Fria só começa em 1947, mas é inegável que a tensão política entre a Grã-Bretanha e a URSS já se arrastava desde os últimos anos da guerra.
 
Winston Churchill, Primeiro Ministro inglês até 1945, desconfiava de Estaline e tentava por todos os meios travar a "ofensiva comunista" no leste da Europa. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército Vermelho encontrava-se em força estacionado por toda a Europa de Leste, frente a frente com ingleses e americanos. Em Washington acreditava-se na cooperação com os soviéticos, em Londres, a desconfiança em relação ao "gigante vermelho" era latente.
 
Não surpreende que as autoridades soviéticas estivessem interessadas em mudar a perceção que a opinião pública tinha da URSS. Era preciso mostrar ao Ocidente, e aos ingleses em particular, que os comunistas soviéticos não eram o papão, e que depois de terem lutado «lado a lado» contra os nazis com os seus aliados ocidentais, os soviéticos queriam mostrar ao Mundo que estavam genuinamente empenhados em construir em conjunto um mundo melhor e mais pacífico.
 
Antes de levantar voo
 
Como em outras alturas, o desporto, e neste caso o futebol, surgiu como o veículo privilegiado para melhorar as relações anglo-soviéticas.

Imbuída no espírito da aliança, a Football Association (FA) lançou um convite à sua congénere soviética para enviar uma equipa para disputar umas partidas de futebol no Reino Unido. A ideia foi bem acolhida pelos dirigentes desportivos, mas olhada com preocupação pelas autoridades comunistas. Contudo, com o passar do tempo, perceberam que o envio de uma comitiva a Inglaterra seria uma manifestação de boa-vontade que poderia dar boa imagem à União Soviética.

Então, como política de charme, resolveu-se enviar uma comitiva desportiva para fazer uma tour no Reino Unido. O escolhido seria o Dynamo de Moscovo, recentemente consagrado como campeão da Liga Soviética, para ir defrontar os britânicos, a União Soviética enviava os seus melhores filhos. 
 
Nenhuma equipa soviética havia visitado o Ocidente, nem antes, nem durante o conflito. Para muitos, em Inglaterra e noutros países, a União Soviética era uma perfeita desconhecida, distante e envolvida numa aura de suspeitas desde a Revolução Bolchevique de 1917.
 
As tours de equipas de futebol já há muito que existiam no futebol europeu, mas nada comparado com as competições europeias. A própria UEFA só veria a luz nove anos mais tarde. 
 
Uma tour era sempre encarada como um fenómeno mediático, como tão bem exemplifica o sucesso que teve entre nós a tour que os argentinos do San Lorenzo de Almagro realizaram a Portugal e Espanha em 1946. Como tal, a tour do Dynamo a terras de Sua Majestade seria um marco que perduraria na memória dos apaixonados do jogo, em Inglaterra, na Rússia e um pouco por todo o mundo.
 
Desencontros
 
Era uma manhã tipicamente britânica, fria, com nevoeiro intenso, quando um avião ornamentado com a característica estrela vermelha soviética aterrou na pista do Aeroporto de Croydon, a sul de Londres. A bordo vinha a equipa do Dynamo de Moscovo, campeão soviético em 1945. 
 
A primeira visita de uma equipa soviética ao Reino Unido ficou marcada por um incidente logo nos primeiros instantes, pois pouco depois de aterrarem os dirigentes do clube perceberam que não havia nenhuma bandeira soviética para saudá-los, o que provocou grande desagrado em toda a comitiva.
 
Viajando para Londres sem hotel marcado a comitiva descobriu que a hospitalidade inglesa deixava muito a desejar. Se os dirigentes ingleses estavam genuinamente interessados na visita dos astros soviéticos, o mesmo não se pode dizer da indústria hoteleira londrina. Deixando a questão para ser resolvida na última hora, a federação não havia conseguido arranjar um alojamento para os ilustres visitantes.
 
A cidade ainda não recuperara da Guerra e dos poucos hotéis em funcionamento em Novembro de 1945, nenhum estava interessado em receber uma comitiva de 40 pessoas, muito menos comunistas, dizia-se em surdina.
 
A FA tentou resolver a situação colocando os soviéticos num quartel do exército localizado na capital, como as condições estavam longe de satisfazer, os visitantes declinaram a oferta e partiram para a embaixada soviética em Kensington Palace Gardens, onde foram acomodados pelo embaixador, provocando um incomodo diplomático e evidente constrangimento em Whitehall que pediu explicações a Stanley Rous.

Entretanto, entre a comitiva já se falava de um regresso imediato a Moscovo, mas o bom senso prevaleceu. Após três noites em Kensington Palace Gardens, Stanley Rous, Secretário Geral da FA, futuro presidente da FIFA, resolveu a situação encontrando alojamento adequado para os soviéticos. A situação ficava resolvida, mas a relação de confiança estava estragada.
 
As «divas de leste»
 
Antes de partirem para Londres os moscovitas haviam entregue à FA uma lista detalhada com 14 pontos para serem atendidos. Entre as exigências soviéticas encontrava-se a obrigatoriedade de todas as refeições serem efetuadas na embaixada da União Soviética, de serem disponibilizados 600 bilhetes por jogo para cidadãos soviéticos que viviam no Reino Unido, de serem autorizadas substituições durante as partidas e a mais peculiar de todas, a necessidade de se realizar um jogo com o Arsenal.
 
Sobre esse ponto, o treinador Mikhail Yakushin diria mais tarde que ir a Londres e «não jogar com o Arsenal, seria como ir ao Cairo e não ver as Pirâmides». 
 
Apenas dois pedidos da lista não foram atendidos: os jogos não se realizavam só ao sábado e apenas uma vez por semana. Acordados os detalhes, o Dynamo acedeu a defrontar Arsenal, Chelsea, Cardiff City e Rangers, sobrando duas vagas na agenda para um encontro em Birmingham, presumivelmente com o Aston Villa e em Londres com uma seleção de estrelas de diversos clubes locais. 
 
O primeiro jogo seria com o Chelsea e teria lugar em Stamford Bridge, casa dos blues. A expectativa era imensa. Durante as semanas que antecederam o jogo a imprensa londrina fez eco da visita e preparou os adeptos para uma "curiosidade futebolística" que seria ver o encontro os profissionais atletas britânicos e os amadores moscovitas, que haviam vencido a Liga Soviética com 19 vitórias em 22 jogos.

O Dynamo reforçou-se com artilheiro do CDKA Moscovo, Vsevolod Bobrov que apontara 24 golos na Liga e mais dois reforços provenientes do Dynamo de Leninegrado: Yevgeniy Arkhangelskiy e Boris Oreshkin. Apesar dos reforços o "Sunday Times" alertava os seus leitores pedindo que não se esperasse muito desta equipa de trabalhadores fabris. 
 
Estádio cheio
 
O estádio encheu-se para esse célebre jogo, a imprensa da época refere números ao redor dos cem mil, um recorde sem paralelo na história de Stamford Bridge. 
 
Esse 13 de Novembro ficou na história do futebol dos dois países com o Dynamo a apresentar-se para aquecimento com fatos-de-treino, coisa nunca antes vista naquelas paragens. Outro momento que ficou na memória dos adeptos ingleses foi a vénia que os cordiais russos fizeram ao público antes de começar o jogo, além de entregarem flores aos seus adversários.
 
A jogada de charme russa começava a obter resultados depois dos incidentes e desencontros dos primeiros dias. 
 
Tal como o Dynamo se reforçara, também os londrinos juntaram Len Goulden, Tommy Lawton e Johnny Harris à equipa e sem surpresa venciam por 2x0 ao intervalo, não obstante o bom jogo dos russos que tinham detido as principais oportunidades do jogo.
 
No segundo tempo os forasteiros lançaram-se com afinco para o ataque empatando a partida em pouco tempo. O Chelsea ainda voltou à liderança mas Bobrov conseguiu o empate que "agradou" às duas equipas.
 
Quatro dias depois, em Ninian Park, Cardiff, os galeses do Cardiff City foram esmagados por 1x10 perante 60 mil adeptos chocados com tamanha exibição de superioridade russa. Por sua vez a superioridade britânica sofria um grande abalo, com muitos a esquecerem que o modesto clube galês pertencia ao terceiro escalão...
 
Nevoeiro e surpresa
 
Seguiu-se um regresso a Londres para o tão aguardado encontro com o Arsenal. Os londrinos tinham alguns jogadores ainda a servir no exército e tiveram que recorrer a reforços. George Allison convocou então as estrelas Stanley Matthews, Stan Mortensen e Joe Bacuzzi, três dos melhores jogadores do Reino Unido. Além do mais, o jogo teria lugar em White Hart Lane, casa que o Tottenham emprestara aos gunners dado que Highbury continuava "ocupado" pelo exército britânico, que ainda não libertara o espaço depois do fim da guerra. 
 
O árbitro era um russo que acompanhara a equipa na digressão, um dos 14 pontos que vinham na famosa lista. White Hart Lane com 55 mil espetadores na bancada que em boa verdade pouco viam do jogo, tal o nevoeiro que caía sobre o estádio dos Spurs. 
 
Logo aos 30 segundos os visitantes adiantaram-se e quase ninguém viu o golo. A arbitragem causou muita polémica e o jogo tornou-se bastante duro perante a complacência do árbitro e as vaias do público inglês. O Arsenal virou o jogo antes do intervalo (3x2) mas no segundo tempo os soviéticos voltaram à liderança (3x4) com um golo em fora-de-jogo de Soloviev e um belo remate de Bobrov que selou a vitória.
 
Terminado o jogo os russos festejaram a histórica vitória e rumaram para norte onde os esperava o Rangers.
 
Regresso a casa
 
Na Escócia todos queriam vencer o jogo, tentando conseguir algo que os ingleses e galeses tinham falhado. 92 mil lotaram o estádio de Ibrox em Glasgow para assistir a um duríssimo empate a duas bolas.
 
Dias depois o Dynamo era suposto encontrar o Aston Villa em Birmingham ou noutro local a designar mas os russos regressaram prontamente a Londres, de onde sem darem justificações partiram rumo à Suécia para encontrar o Norrköping, deixando os seus anfitriões ingleses sem saber o que dizer...
 
Assim terminava uma célebre visita dos "artistas soviéticos" à pátria de futebol que ajudou a cimentar a aura das primeiras grandes estrelas do futebol russo.
 
Em Moscovo, Josef Stalin ficou muito agradado com o resultado desta visita dos seus desportistas ao ocidente. O isolamento futebolístico soviético estava a chegar ao fim. Em meados dos anos 50 a URSS filiava-se na FIFA e mais tarde na UEFA e contacto com o futebol ocidental deixaria de ser uma anormalidade e tornava-se comum...
 grey November morning in 1945, and an aeroplane emblazoned with the communist red star touches down on the tarmac at Croydon Airport. On board are Dinamo Moscow, here by invitation of the Football Association to partake in a month-long tour celebrating the game’s return after World War Two.
These were the days before regular European competition; Uefa would not come into existence for another nine years. No Russian side had ever visited Britain before and, despite the two countries technically still being allies with the Cold War yet to begin, the communist party were initially wary of allowing a football team to visit the West. But after much persuasion they came to see the political value of a successful tour.
Things did not begin smoothly, however. Dinamo received a distinctly low-key welcome – they were particularly irked at not being greeted by the Soviet flag n– and although their trip caused great interest among a war-weary public, the same was hardly true of London’s hoteliers. Many could not or, in some instances, would not put up the 40-strong party. After passing on some pretty uninviting army barracks they spent the first night at the Soviet embassy. Immediately there was talk of a return to Moscow. Only on the third day did the FA’s secretary Stanley Rous find suitable accommodation, but the whole affair soured an already strained relationship.
Dinamo had only agreed to the tour after submitting an exhaustive 14-point list of demands to a bemused FA. These diva-like wishes ranged from facing Arsenal (“to come to London and not play Arsenal would be like visiting Cairo without seeing the pyramids” commented Dinamo’s coach Mikhail Yakushin) and permitting substitutions during matches, to taking all of their meals at the embassy and making 600 tickets available to Soviet citizens living in Britain. The FA agreed to all of them, save for two: games would not necessarily be held on a Saturday, nor just once a week.
Fans were keen to catch a glimpse of Dinamo - particularly at Stamford Bridge
Aside from Arsenal, the line-up was completed by Chelsea, Cardiff City and Rangers. That year Dinamo won the Soviet championship playing an attacking 4-2-4 formation, winning 19 of their 22 matches – including 17 in a row – and scoring 73 times. The invitation caught Dinamo on the hop somewhat though, mainly because the Soviet season followed the calendar year and had finished in October. It meant a premature return for the players, who were forced to clear the snow at their training base before preparing themselves. Yakushin also padded out his squad with Vsevolod Bobrov, the league’s top scorer with 24 goals for runners-up CDKA Moscow, and Dinamo Leningrad pair Yevgeniy Arkhangelskiy and Boris Oreshkin.
The British press had, for the most part, written Dinamo off. “They are not nearly good enough to play our class of professional teams,” said the Sunday Express. “Do not expect much from this bunch of factory workers.” Despite this, for Dinamo’s inaugural fixture against Chelsea on 13 November some estimates put the crowd at Stamford Bridge past the 100,000 mark. These exotic visitors wowed them with an organised warm-up in tracksuits beforehand, both of which were unheard of in Britain at the time. Quite what the Chelsea squad thought when presented with bouquets of flowers at kick-off is another matter.
Dinamo - and their flowers - take to the pitch against Chelsea
The home side, strengthened by the recent signings of Tommy Lawton - then one of the best English forwards around - plus Len Goulden and Johnny Harris, led 2-0 at half-time, but Dinamo were zipping the ball about nicely, playing a distinct quick, fluid style. Lawton noted that "it was brilliant teamwork, speed and ball control. To be honest, the Russians should have been four goals ahead after only 20 minutes except for their poor shooting." They equalised with two goals of their own after the break, only for Chelsea again take the lead. But a late strike from Bobrov earned the visitors a deserved draw - they had more than passed their first test and won over many admirers.
Four days later, Cardiff found themselves on the wrong end of a 10-1 drubbing at Ninian Park in front of 60,000 fans. Notice how the Pathé news reel below describes the result as a 'shock', despite the fact Cardiff were a team of part-timers playing in the Third Division.
The penultimate match was the biggest of the tour: Arsenal, the fixture they had insisted upon. Many of Arsenal’s players were still serving in the forces overseas, leading to manager George Allison getting Stanley Matthews, Stan Mortensen and Joe Bacuzzi to “guest” for the Gunners.
As per one of their 14 demands, the game was officiated by a referee Dinamo had brought to Britain with them. They took the lead after just 30 seconds, not that many of the 55,000 crowd saw it. A thick fog enshrouded White Hart Lane where the game was played (the Ministry of Defence still occupied Highbury, which had been used as an Air Raid Precautions centre during the war). But Arsenal fought back to lead a controversial fixture 3-2 at the break. Some say it should have been cancelled, while others claim Dinamo had 12 men on the pitch at one stage after a substitution error. They equalised through an offside Sergei Soloviev and Bobrov netted the winner.
George Orwell penned his “the Sporting Spirit” essay shortly afterwards. “Now that the brief visit of the Dinamo football team has come to an end it is possible to say publicly what many thinking people were saying privately before the Dinamos ever arrived,” he wrote. “That is, that sport is an unfailing cause of ill-will, and that if such a visit as this had any effect at all on Anglo-Soviet relations, it could only be to make them slightly worse than before. Even the newspapers have been unable to conceal the fact that at least two of the four matches played led to much bad feeling. At the Arsenal match, I am told by someone who was there, a British and a Russian player came to blows and the crowd booed the referee. The Glasgow match, someone else informs me, was simply a free-for-all from the start.”
Rangers wanted to beat Dinamo, mainly for national pride and to achieve what the English had failed to do. Over 92,000 crammed inside Ibrox to see what Orwell correctly described as a physical encounter end 2-2. Aston Villa were, at the end of it all, supposed to face Dinamo. Or, at least that’s what they thought: Dinamo instead returned to London. They left Britain soon afterwards, landing in Moscow undefeated, and as heroes; several of the party were awarded the honour “Master of Sport”.
Dinamo had proved they were equal to their western European counterparts and, while it perhaps didn’t do any favours for diplomatic relations, the tour proved to be a bit of a coup for the communists – just as they had desired. And off the back it, one year later the USSR would join FIFA, beginning a new chapter in Soviet football.
 
Read more at http://www.fourfourtwo.com/features/flowers-fog-and-george-orwell-how-dinamo-moscow-conquered-war-weary-britain#8y35Tw7Ct3amGwKh.99
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Estádio
White Hart Lane
Lotação36284
Medidas100 x 67 m
Inauguração1899
Estádio
Ibrox
Ibrox
Escócia
Glasgow
Lotação51082
Medidas-
Inauguração1899