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      T. Campeões 1986/87
      Grandes jogos

      Dynamo Kiev x FC Porto: vitória de sonho

      Texto por João Pedro Silveira
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      A campanha portista que culminou com a conquista da Taça dos Clubes Campeões Europeus (Viena) teve muitos momentos que os adeptos gostam de lembrar. Desde a goleada aos amadores malteses até ao calcanhar de Madjer, muitas serão as memórias que o comum adepto portista recorda com emoção, mas certamente que muitos falarão de uma tarde em Kiev, na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde o FC Porto foi gigante e escreveu uma das mais belas páginas da sua história.

      O papão soviético

      Certamente que a maioria dos nossos leitores mais jovens não imagina o poder e a força da equipa do Dynamo Kiev em meados dos anos 80. Os ucranianos eram uma máquina que jogava de olhos fechados, magistralmente orientada por Valeriy Lobanovsky e pelo seu futebol científico, e eram os vencedores em título da Taça das Taças, para além de serem a base da seleção soviética, a mesma seleção que esmagara Portugal em Moscovo quatro anos antes, que no ano anterior brilhara no Mundial do México e que vira Igor Belanov vencer o Ballon d'Or da France Football.

      Nesse tempo, o nome Dynamo Kiev impunha tanto ou mais respeito que Real Madrid, Bayern Munique ou Juventus. Jogar em Kiev era uma missão dificílima e era preciso recuar a 1983 para encontrar alguma equipa que saísse de Kiev com a vitória: o Hamburger SV de Magath e Hrubesch, que venceria essa edição da Taça dos Campeões Europeus.

      O caminho

      O caminho portista até à meia-final fora seguro. Esmagados os malteses do Rabat Ajax (9x0 e 0x1), seguiu-se o campeão da Checoslováquia, o Viktovice, que depois da derrota por 1x0 na primeira mão seria eliminado com uma convincente vitória nas Antas (3x0), enquanto nos quartos o Brondby do imberbe Peter Schmeichel vendeu cara a derrota (1x0 e 1x1). 

      Por sua vez, o Dynamo começara por eliminar o Beroe da Bulgária (1x1 e 2x0) para depois afastar o Celtic (1x1 e 3x1) e arrasar o Besiktas com dupla vitória: 0x5 em Istambul e 2x0 em Kiev.

      Na primeira mão da meia-final, o FC Porto vencera com golos de André e Paulo Futre, mas o Dynamo Kiev, que até aí não perdera nenhum jogo na competição, tinha redobradas esperanças de dar a volta em casa graças ao golo de Yakovenko.

      A habitual desconfiança portuguesa

      Tirando a vitória tangencial em Malta, o FC Porto não conseguira nenhum resultado positivo fora das Antas durante a competição, enquanto o Dynamo vencera todos os jogos que fizera em casa, sempre com dois golos de vantagem, resultado que a repetir-se garantia a final à equipa soviética.

      Por mais confiança que os adeptos portistas tivessem na sua equipa, a vantagem curta assustava. Em Kiev era preciso muita cabeça fria, solidariedade e saber defender, porque a pressão dos "brancos" seria terrível.

      Essa era a opinião do adepto comum e até da imprensa, que não vaticinava um passeio portista às margens do Dniepre. Mas o treinador Artur Jorge tinha outros planos...

      Um começo de sonho

      Ciente que a melhor defesa era o ataque, Artur Jorge resolveu trocar as voltas a Lobanovskiy e preparou a sua equipa para entrar decidida a fazer um golo.

      Mal Ronald Bridges apitou para o começo da partida, o onze azul e branco esqueceu que estavam cem mil espetadores nas bancadas do imponente Estádio Olímpico de Kiev.

      O FC Porto entrou com tudo. Paulo Futre endiabrado parecia que só conseguia ser travado com recurso a falta. Foi precisamente isso que aconteceu perto dos três minutos, quando Kuznetsov ceifou o endiabrado número dez portista.

      Depois Celso pegou no esférico e a sorte, que tanto gosta de proteger os audazes, ajudou a desviar a trajetória da bola para o fundo das redes de Viktor Chanov. 0x1 aos três minutos, que mais podia o FC Porto desejar? 

      Artur Jorge indicou o caminho, apontando para a baliza de Chanov: se o FC Porto fizesse o segundo, o Dynamo Kiev caía e já seria incapaz de se levantar.

      Dito e feito. Aos dez minutos, um canto no lado direito, Rabah Madjer colocou a bola no centro da pequena área, os defesas e os avançados falharam ao primeiro poste, Chanov ficou a meio do caminho, o esférico bateu no chão e encontrou a cabeça de Fernando Gomes no segundo poste. Golo do Porto! 0x2 e era a loucura no relvado de Kiev. Os jogadores portistas compreendiam a dimensão histórica daquele golo. O Dynamo tinha de marcar quatro eliminar o adversário. O dragão ia jogar a final de Viena...

      Golo e sofrimento

      Por instantes, a equipa portista tirou os pés do chão. A bola foi ao meio-campo, os soviéticos ganharam um lançamento pela direita, já bem dentro do meio-campo portista, a bola foi parar a Mykhaylychenko que não perdoou. Entrou na área e colocou a bola junto ao poste esquerdo de Mlynarczyck, que foi incapaz de pará-la. 

      Num minuto apenas, o Estádio Olímpico que parecia um imenso mausoléu transformava-se num vulcão que rugia. O FC Porto tinha de arregaçar as mangas.

      Durante longos 80 minutos, os portistas defenderam-se, umas vezes com arte, outras com sorte. Muitas vezes contaram também com a inépcia ucraniana. 

      Quando o galês apitou para o fim do jogo, surgiu a merecida celebração. O FC Porto tinha encontro marcado com o destino no relvado do Prater...

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      jogos históricos
      U Quarta, 22 Abril 1987 - 00:00
      Olimpiyskyi National Sports Complex
      Ronald Bridges
      1-2
      Oleksiy Mykhaylychenko 11'
      Celso 3'
      Fernando Gomes 10'
      Estádio
      Olimpiyskyi National Sports Complex
      Lotação70050
      Medidas105x68
      Inauguração1923