história
Grandes Equipas

O Ajax de setenta

Texto por João Pedro Silveira
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Com Michels no banco e Cruijff no relvado, a década de setenta viu o Ajax tornar-se na potência dominante do futebol europeu.

Era mais que uma equipa, era «A equipa», um manifesto artístico, um «onze» de luxo, que começava na segurança de Stuy e na «muralha» constituída por Blakenburg e Hulshoff. Os laterais Suurbier e - o magnífico - Krol davam profundidade à equipa, enquanto o meio campo composto habitualmente por Haan, Mutren e Neeskens, mantinha a posse de bola, girando o esférico de pé para pé, o afamado «carrossel mágico» que hipnotizava as defesas adversárias, incapazes de taparem os buracos, por onde apareciam os letais Swart, Keizer e Cruijff.

1971: a primeira conquista europeia do Ajax, a Taça dos Campeões, vencida ao Panathinaikos em Wembley por 2x0.


Tanto sob as ordens de Michels, ou mais tarde de Kovacs, o Ajax dos anos sessenta foi como um meteoro que cruzou a Europa do futebol, virando do avesso velhos conceitos e alterando totalmente a ordem natural das coisas. Depois do futebol total dos holandeses, o futebol nunca mais voltaria a ser o mesmo, e o domínio subiu muitos quilómetros para norte, deixando as cálidas paragens do futebol espanhol, português ou italiano, para se instalar com toda a garra e força, nas paragens setentrionais da Alemanha, Holanda e Inglaterra.

O começo...
 
Todavia, o sucesso do clube de Amesterdão, começara muito antes deste onze estelar. Tudo começara com Jack Reynolds, um inglês que orientara o Ajax entre os anos vinte e quarenta. Um estudioso que devotara muito tempo ao estudo das táticas inovadoras que os magiares - e antes deles os austríacos - tinham introduzido nos anos trinta e quarenta. Levou para Amesterdão os mesmos princípios de liberdade de ação no campo.
 
Nos anos trinta, criou a primeira grande equipa do Ajax, que dominou por completo o futebol local. A guerra impediu a continuação do trabalho e a ascensão do futebol holandês, mas findo o conflito, Reynolds voltaria para relançar as bases do renascimento do grande Ajax, lançando as sementes dos sucessos futuros.
 
Rinus Michels, avançado do clube nos anos quarenta, que jogara na equipa de Reynolds, bebeu dos ensinamentos do treinador inglês, mas não se ficou por aí, refinando e pondo em prática tudo o que aprendera, quando foi chamado a liderar os de joden, em meados dos anos sessenta.
 
Quando chegou ao clube ficou impressionado com um rapaz franzino, com uma técnica acima da média, que com apenas 17 anos se estreara na primeira equipa do Ajax. Michels percebeu que Johan Cruijff seria o segredo do seu sucesso, criando um esquema centrado nele e nas suas capacidades. 
 
À sua volta foi reunindo um conjunto de jovens promessas, que se juntando a antigas referências do clube, formaram uma equipa que se lançou à conquista da Holanda e da Europa. O Ajax que estava quase a descer de divisão, rapidamente recuperou e voltou a sagrar-se campeão dos Países Baixos, ganhando assim acesso à Taça dos Campeões Europeus, a montra dos predestinados do futebol continental.
 
Glória europeia
 
1967 foi o ano em que o nome do Ajax surgiu como um meteoro na cena futebolística europeia, com os holandeses a esmagarem o Liverpool por 5x1, em jogo a contar para a Taça dos Campeões europeus. Seguiram-se novas campanhas de sucesso... A 19 de fevereiro de 1969, o Ajax encontrou o Benfica nos quartos-de-final. Os portugueses eram vice-campeões europeus e grandes favoritos.
 
Em Amesterdão, Eusébio e companhia fizeram estragos, vencendo por 1x3. Todos pensavam que a eliminatória estava resolvida. Mas quinze dias passados, o Ajax foi a Lisboa dar uma nova imagem das suas capacidades, realizando uma magistral exibição e vencendo por 1x3, obrigando a terceiro jogo, que foi vencido com um claro 3x0. Era o nascer do grande Ajax europeu, que nesse ano, ainda acabaria vencido pelo Milan na final.
 
Dois anos depois, já ninguém parou Cruijff e companhia, e o Ajax chegou finalmente a glória, com a vitória sobre o Panathinaikos, na final de Wembley, a que se sucederam mais duas vitórias e um histórico tricampeonato europeu, até aí só atingido pelo «super» Real Madrid dos anos cinquenta.
 
A despedida de Johan Cruiff, o fim da carreira do maior ídolo de sempre do clube de Amesterdão.
 
Michels venceu e partiu para Barcelona, sendo substituido pelo romeno Stefan Kovacs, que conduziria os holandeses ao bicampeonato europeu em 1972 e ao tricampeonato em 1973, onde também já não contou com Cruijff, que seguira as pisadas de Michels e se mudara para a «Cidade Condal».
 
Ciente do poder da máquina que herdara, Kovacs afirmou: «Ao , sem Pelé, ganhava-se com facilidade. Ao Real Madrid, sem Di Stéfano, também. O Ajax sem Cruijff, Keizer ou Neeskens continuava uma força coletiva. Uma equipa de futebol deve ser como uma empresa, só que sem gerentes, apenas trabalhadores», argumentou um dia quando escreveu sobre a sua experiência no Ajax, sumarizando que: «O futebol simples é o mais belo de todos. Mas jogar futebol simples é a forma mais difícil de todas as formas de jogar.» E não havia dúvidas: o futebol do Ajax era o mais belo de todos!
 
A morte do Catenaccio
 
A Taça dos Campeões de 1972, provou ser a melhor hora do futebol total, com o Ajax a bater o Inter por 2x0, com a imprensa europeia em delírio, anunciando - talvez precocemente - a «morte do Catenaccio». Nos Países Baixos, o Algemeen Dagblad titulava em letras garrafais: «O sistema do Inter ficou em cacos. O futebol defensivo acabou!»
 
Um ano depois, era a vez da Juventus perder a final para o Ajax (1x0), ficando totalmente vingada a pesada derrota de 1969 com o AC Milan. O futebol defensivo dos italianos, que se tornara a força dominante na Europa, superiorizando-se ao futebol romântico do Real Madrid primeiro, e Benfica depois, acabava de encontrar uma força superior.
 
Stefan Kovacs levado em ombros pelos atletas no fim do jogo com a Juventus, depois da conquista da terceira Taça dos Campeões em 1973.
 
O «futebol total» relegou o rigor defensivo italiano para uma longa travessia do deserto, com os gigantes de Itália a sofrerem a dominação holandesa, a que se seguiu a alemã e depois a inglesa. Só com a Juventus de Platini em 1985 e o maravilhoso Milan de Arrigo Sacchi no fim da década de oitenta, a Itália voltaria a emergir como força dominante do continente, mas isso são contas de outros rosários...
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