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Fritz Walter: o Herói de Berna

Texto por João Pedro Silveira
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Em 1945 a Alemanha estava destruída. Hitler suicidara-se no seu bunker de Berlim a 30 de abril, o III Reich rendera-se uma semana depois. Os exércitos russo, inglês, francês e americano ocupavam o país de «lés-a-lés». As cidades alemãs eram mantos de destroços, imensos emaranhados de ruínas que deixavam a nú o grau de destruição a que o glorioso III Reich fora sujeito por culpa dos sonhos megalómanos de Adolf Hitler e dos seus esbirros. 

Havia sete milhões de mortos por enterrar, milhões de deslocados por alojar. Estrangeiros para devolver às suas pátrias originais. Milhões de crianças, mulheres e homens famintos e milhões de soldados alemães prisioneiros que esperavam no estrangeiro o regresso a casa...
 
Os campos estavam incultiváveis, a indústria não existia, as estradas, os portos, os caminhos-de-ferro, as pontes e todas as infraestruturas vitais ao crescimento económico estavam reduzidas a escombros...
 
Fritz Walter, o herói desta história, estava na Rússia quando a guerra acabou. Fora integrado na Luftwaffe (Força Aérea Alemã) e feito prisioneiro na frente russa. Supostamente terá sido salvo de ser enviado para um campo de concentração na Sibéria, onde pereceram tantos alemães até aos anos 50, por um guarda húngaro que o reconhecera dos campos de futebol e que o resolveu poupar ao triste destino...
 
Nove anos mais tarde, em Berna na Suíça, os húngaros iriam amaldiçoar o destino e o próprio Fritz Walter ... 
 
A infância na Alemanha de Weimar
 
A vida de Walter, é absolutamente indissociável da história conturbada e sangrenta do seu país. Walter nasceu a 31 de outubro de 1920 em Kaiserslautern, numa Alemanha que recuperava da derrota na I Guerra Mundial. 
 
O desemprego e uma inflação galopante provocavam a doença e a morte, devastando um país que vivia na ressaca da humilhante derrota e do diktat do Tratado de Versalhes que reforçava essa humilhação. A Alemanha tentava entrar no seio das nações democráticas, mas a débil estrutura política do país e a falta de tradição democrática, tornaram muito complicados estes primeiros anos da República de Weimar, tal como ficou conhecida, pois nasceu depois da assembleia constituinte que se realizou na cidade com esse nome.
 
O pequeno Fritz cresceu num país em que as tensões sociais estavam ao rubro, com combates na rua entre a esquerda revolucionária e a extrema direita nacionalista. Apesar de toda a devoção dos pais, Walter, como todos os rapazes da sua idade, passou por dificuldades.
 
E quando a Alemanha parecia viver finalmente numa democracia plena e com uma economia em crescimento, o crash da Bolsa em Nova Iorque, lançou a Alemanha numa espiral de desemprego e pobreza nunca antes vista, que culminaria com a ascensão do Partido Nacional Socialista (Nazi) ao poder.
 
Kaiserslautern, Mannschaft e a II Guerra Mundial
 
Na sua Kaiserslautern natal, começou a jogar num clube local, quando os pais trabalhavam no restaurante do estádio e graças ao seu jeito, passou rapidamente para o 1.FC Kaiserslautern.
 
Seria com a camisola vermelha do grande clube renano que faria a estreia no futebol profissional apenas aos 17 anos. Três anos depois chegaria à Mannschaft, num amigável com a Roménia, mas o começo da Guerra um ano antes e a generalização do conflito com a entrada de russos e americanos tornou impossível a continuação de encontros internacionais de futebol.
 
Fritz foi integrado nas forças paraquedistas especiais da Luftwaffe e fez missões por todo o continente. De tal maneira ficou traumatizado, que após o conflito, jurou que nunca mais voltaria a andar de avião.
 
Da Guerra trouxe ainda a Malária, que o tornou muito susceptível ao sol e ao calor. De tal maneira era diferente a sua exibição com chuva e frio, que qualquer dia chuvoso na Alemanha ficou conhecido como um dia de «Clima Fritz Walter».
 
Pós-Guerra e sucesso no Kaiserslautern
 
Da «Alemanha, Ano Zero», magistralmente filmada por Roberto Rossellini, à Alemanha do Wirtschaftswunder [Milagre económico] dos anos 50, passaram pouquíssimos anos. O obreiro da nova Alemanha, que entretanto passava a chamar-se República Federal da Alemanha era o chanceler Konrad Adenauer. A Alemanha dividia-se em duas, e a ocidente nascia a futura potência económica do continente.
 
Dentro dos campos de futebol o herói seria Fritz Walter, ao ponto de anos mais tarde, numa escola de Kaiserslautern, à pergunta «quem fundou Kaiserslautern?», um miúdo de seis anos responder que tinha sido Fritz Walter. O Professor obviamente não podia considerar a resposta completamente errada...
 
Em 1950-51 ajudou - e de que maneira! - o Kaiserslautern a conquistar o seu primeiro campeonato alemão, dois anos depois repetiu a dose. Ao longo dos 22 anos que vestiu a camisola do clube apontou 380 golos em 411 jogos, tornando-se de tal maneira ligado à história dos roten teufel [diabos vermelhos] que o clube e a cidade, batizaram o estádio como nome de Fritz-Walter-Stadion.
 
A presença no mundial
 
Impedida de participar no mundial de 1950 no Brasil, devido ao embargo desportivo que ainda vigorava desde a II Guerra Mundial, a Alemanha ficou dividida em três seleções: R.F.A., R.D.A. e Sarre, mas só duas tomaram parte na qualificação para o mundial de 1954.
 
A R.F.A. acabou por jogar no mesmo grupo que o Sarre e a Noruega, qualificando-se sem problema para a fase final que se disputava na Suíça. Na estreia no Wankdorf em Berna, perante 28 mil pessoas, numa tarde de calor, o capitão Walter não conseguiu jogar o seu futebol, mas os alemães bateram os turcos por 4x1.
 
À segunda partida no Saint Jakob em Basileia, chegou o «choque de realidade» que foi o encontro com a superfavorita Hungria, que era invicta há quatro anos e que atropelou Walter e companhia com um humilhante 8x3, obrigando os alemães a terem de jogar um jogo de repescagem, novamente com a Turquia no Hardturm em Zurique. Walter marcou um dos sete golos da vitória retemperadora sobre os turcos (7x2) que garantiu a passagem aos quartos-de-final.
 
Depois da vitória sobre os jugoslávos nos quartos-de-final (2x0), a R.F.A. encontrou pela frente uma outra seleção que fizera parte do III Reich: a Áustria. 
 
Num encontro germânico, as velhas rivalidades entre os do norte e os do sul, aqueceram o clima no relvado, mas não o suficiente para impedir Fritz Walter de apontar um golo, um dos seis com que os alemães despacharam os vizinhos meridionais...
 
Milagre de Berna
 
Garantida a qualificação para a primeira final da sua história, a Alemanha tinha pela frente a Hungria e a possibilidade de vingar a humilhação da primeira fase.
 
Mas tirando os alemães, e não todos, mais ninguém apostava um cêntimo que fosse na possibilidade teutónica de vitória, pois do outro lado estava uma equipa que já não perdia há 31 jogos, e há quatro anos que não conhecia o travo amargo da derrota...
 
Fritz Walter estava particularmente descontraído, enquanto tocava «Das Lied Der Deutschen», o hino nacional alemão, a sua confiança aumentava. O dia acordara nublado, fresco e com chuviscos, à hora do pontapé de saída confirmava-se que estava um dia de «Clima Fritz Walter»...
 
Às cinco da tarde do dia 4 de julho de 1954, perante 60 mil espetadores que lotavam o Wankdorf em Berna, o inglês William Ling apitava para o começo do jogo...
 
Os quatro cavaleiros do Apocalipse, assim eram conhecidos Ferenc Puskás, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Zoltán Czibor, lançaram-se sobre a defesa alemã sem piedade...
 
Com 8 minutos de jogo, já ninguém tinha dúvidas, graças aos golos de Puskas (6’) e Czibor (8’), a Hungria caminhava para o seu primeiro título mundial. Só faltava saber por quantos golos iria vencer... Contudo Fritz Walter e companhia não pareciam abatidos...
 
Dois minutos depois, numa jogada de ressalto, Morlock reduziu e trouxe a Alemanha Ocidental de volta ao jogo. Os húngaros acusaram o toque, demorando um pouco a voltar ao ritmo inicial. Mas quando os magiares já começavam a dar sinal de voltarem a pegar no jogo, sofreram o golo do empate (18’).
 
Em menos de dez minutos a Alemanha empatava o jogo, e nem vinte minutos de jogo se haviam jogado. O futebol avassalador dos húngaros parecia tolhido perante a incapacidade de resistência germânica. Até ao intervalo a Hungria dominou, mas de forma nervosa e insegura, e os alemães começavam a respirar confiança...
 
45 minutos para a história
 
O intervalo trouxe nova vida aos húngaros. O treinador Gusztáv Sebes teve uma dura conversa com os seus pupilos, alertando-os para o perigo que corriam se não reagissem e voltassem a empurrar os alemães para trás. No outro balneário, Sepp Herberger lançava um discurso motivacional, confiando no seu capitão Walter para continuarem a escrever uma página brilhante da história do futebol alemão.
 
Os húngaros entraram no segundo tempo com um 4-2-4 bem estruturado no relvado, onde quatro setas apontavam diretamente a baliza do guardião Turek. Puskas, Czibor, Kocsis e Hidegkuti, eram incansáveis, avançado como as vagas do mar, uma vez e depois outra, e ainda outra... Os ataques magiares fizeram o barco alemão tremer, mas não afundar. 
 
Os «Quatro Cavaleiros do Apocalipse» foram incapazes de furar a «muralha» germânica, e os húngaros acabaram por ser derrotados, pelo 3º golo alemão, apontado por Rahn aos 84 minutos.
 
Quando pouco depois o William Ling, apitou para o final, os alemães envolveram-se em festejos no meio do relvado, enquanto os húngaros não acreditavam no que lhes tinha acontecido. No meio do relvado, os germânicos festejavam exuberantemente, e nas bancadas os espetadores estavam incrédulos, cientes que tinham assistido a um momento histórico. Walter era o centro de toda atenção, dentro e fora do campo. A sua exibição de sonho e a força com contagiara os colegas, a sua liderança heróica, valera à Alemanha uma vitória para a história. A primeira grande conquista do futebol germânico.
 
Por toda a Alemanha havia explosões de alegria e as ruas das cidades e vilas enchiam-se de adeptos e bandeiras. Nove anos depois do fim da Guerra, os alemães podiam novamente festejar...
 
Depois da final, a equipa húngara realizou mais 19 jogos, ganhando 16 e empatando três. Foram seis anos em que a equipa dourada magiar só perdeu um jogo, logo aquele, precisamente o jogo em que São Pedro terá ouvido as preces de Fritz Walter...
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Comentários (5)
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motivo:
Filme
2013-11-08 16h42m por Thirteenth
Há um filme alemão de 2003 que retrata este episódio memorável da História do Futebol chamado «O milagre de Berna», que foi dedicado pelo realizador a Rahn que faleceu nesse ano.
Título alternativo
2013-11-07 19h32m por Thirteenth
Este poderia ser o título deste magnífico artigo: «Fritz Walter-O Capitão dos Herois de Berna». Aproveito para relembrar os restantes Herois: Turek, Eckel, Posipal, Kohlmeyer, Mai, Liebrich, Rahn, Ottmar Walter (irmão de Fritz), Morlock, Schafer e ainda os «reservas» Laband, Bauer, Erhardt, Mebus, Metzner, Klodt, Herrmann, Biesinger, Pfaff, Kubsch e Kwiatkowsky.
Golos
2013-11-07 17h44m por Thirteenth
Autores dos golos alemães: Morlock e Rahn (2).
SI
Walter
2013-11-07 16h06m por silvermik3
Provavelmente pelo facto e influência de ser capitão. Mas realmente fala-se mais do "milagre" de Berna que dum "herói" específico.
Walter
2012-06-17 01h50m por Jay-Jay_Okocha
Não percebo porque é que dizem que ele é o heroi de berna, já que não marcou nenhum dos golos da vitoria alemã sobre os hungaros. .
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