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Lilian Thuram: o filósofo

Texto por Pedro Marques Silveira
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Era a meia-final do Campeonato do Mundo, a França a jogar em casa enfrentava a Croácia. Era o último degrau antes da grande final em Saint-Denis. Pela quarta vez na história a seleção gaulesa chegava às meias-finais do Campeonato do Mundo, mas nas três tentativas anteriores perdera sempre, com o Brasil em 1958, e com a Alemanha Federal em 1982 e 1986.

Mas desta vez a França era a favorita, contudo o jogo chegava empatado ao intervalo e os franceses pareciam tremer de nervosismo, com medo de falhar...

Tudo piorou logo no recomeço, quando Davor Suker desfez o nulo e abriu o marcador, colocando a Croácia na frente.

Nas bancadas e por todo país em frente da televisão, os franceses levam a mão à cabeça temendo o pior, mas no minuto seguinte o lateral direito Lilian Thuram sobe no terreno e empata a partida. A Croácia nem tivera tempo para saborear a vantagem e a França podia recuperar do choque, todo o hexágono podia respirar fundo...

O jogo seguiu nervoso e pouco depois Thuram salvou um golo cantado, corrigindo miraculosamente uma falha que tinha cometido momentos antes. A França tremia, mas não caía.

Oito minutos passaram e Thuram voltou a subir no terreno, ganhou a bola na esquina da área e chutou em jeito, fazendo o 2x1. A França passava para a frente e contornava o susto. O Stade de France explodia em festa, Thuram ajoelhou-se no relvado, todo ele era confiança. Com um sorriso decidido, aguardou a chegada dos colegas que correram na sua direção para festeja-lo.

Thuram nunca marcara um golo pela seleção francesa e nunca mais voltaria a marcar. Vestiu por 142 vezes a camisola azul e só marcou dois golos, mas que golos esses que valeram o acesso à final do mundial onde a França conquistaria o seu primeiro Campeonato do Mundo. 

De Guadalupe onde nascera, a essa noite de glória em Saint-Denis muita coisa acontecera - e muita mais haveria de acontecer - mas nenhum momento define melhor a coolness de Thuram, como a forma como naturalmente aceitou a celebração dos colegas. Lembrando essa noite, Thuram confessou que não sabe muito bem o que se passou. O colega Marcel Desailly e o treinador Aimée Jacquet diriam que Thuram estava em transe, sem saber o que fazia.

Nesse exato momento talvez Thuram não soubesse o que estava a fazer, mas quando olhamos para a carreira e vida do homem, se há uma certeza, é que dentro ou fora de campo, Lilian Thuram sempre soube o que fazer.

Asas de Anjo

Quem olha distraidamente para um mapa do arquipélago de Guadalupe pensará que no centro deste arquipélago existe uma ilha bem maior que as restantes. O desenho da ilha faz lembrar um par de asas de um anjo, se bem que a "asa direita" pareça ter sido apertada, deixando-a com uma forma um pouco mais alongada.

©Getty / Martin Rose
Mas se observar com mais atenção, vai perceber que há um pequeno canal que separa a "ilha" em duas partes de dimensões aproximadas. Esse pequeno estreito, conhecido como o Rivère Saleé, não é mais que um braço de mar que une as duas baías e separa Basse-Terre de Grande-Terre. Guadalupe não é uma ilha, é um estreito cercado por duas ilhas, perdão, Guadalupe é um anjo com as suas duas asas.

E é na margem direita da entrada sul desse estreito, na ilha de Grande-Terre que se encontra Pointe-à-Pitre, a cidade natal de Thuram, e o local onde reatamos a nossa história...

«Nas Antilhas joga-se descalço»

Seria na ilha descoberta por Cristóvão Colombo que 478 anos, 1 mês e 29 dias depois do navegador genovês a ter reclamado em nome dos Reis Católicos como pertença da coroa de Castela, que nascia Ruddy Lilian Thuram-Ulien, filho de Marian Thuram e de um pai que o pequeno Lilian só "conhecia de vista".

A sua infância, com a de tantas outras crianças dessa parte do mundo, era vivida em liberdade. Podia falta muita coisa em casa, mas sempre havia o que comer. Marian arregaçava as mangas, desunhava-se, mas nada faltava aos seus filhos.

Lilian cresceu despreocupadamente, entre os estudos e as tarefas da casa, tanto ia banhos nas praias das redondezas como jogava futebol descalço com os amigos, perseguindo uma bola de trapos juntamente pelas ruas e descampados em volta da sua casa em Anse-Bertrand.

Brincar nas praias de areia fina, banhar-se no mar quente das Caraíbas, para ao fim da tarde regressar a casa para o beijo da mãe, assim eram passados os seus dias até a mãe emigrar para França como mulher-a-dias.

Durante quase dois anos viveu com os seus irmãos e irmãs, até ao reencontro da família em Bois-Colombes, no fim do verão de 1981.

A descoberta do racismo

6700 quilómetros separam Guadalupe de Paris, mas mais que essa distância, ou que o contraste entre a urbanidade e a frieza dos subúrbios parisienses com a beleza natural da ilha caribenha onde tinha crescido, mais do que as diferenças entre o inverno chuvoso e frio de França e os dias ensolarados de temperaturas quentes em Guadalupe, o verdadeiro choque, podemos mesmo dizer o verdadeiro embate de frente que o pequeno Lilian sentiu na pele, foi com o racismo.

©Getty / Bongarts
Thuram podia estranhar os costumes, a frieza no trato, mas o que o apanhou de surpresa foi o racismo que encontrava diariamente nas ruas, ou até na escola. As piadas, os insultos, a constante humilhação que sentia pela cor da sua pele ser diferente da dos outros meninos, baralhavam-no, ao ponto de questionar-se «porque é que a cor branca era associada ao bem e a negra ao mal»?

Muitas vezes sentou-se na cama do seu quarto à noite, a sonhar em voar de volta para a sua ilha em forma de asas de anjo, voltar a rever os seus amigos e deixar para trás aquele mundo cinzento, onde lhe apontavam a dedo a cor escura da sua pele.

De Fontainebleau a Montecarlo

Trocar Bois-Colombes por Avon, perto de Fontainebleau foi uma mudança importante na vida do pequeno Lilian. Numa pequena localidade continuava a ser "um estranho", mas respirava outros ares, longe do ar soturno e ameaçador do banlieue noir que encontrara em Bois-Colombes. Em Avon começou a jogar futebol na rua juntamente com outros caribenhos, mas também com árabes, portugueses, africanos, recordando o prazer de outros tempos em Guadalupe.

Fontainebleau é conhecido pelo seu icónico château, onde o infâme Manuel Godoy, ministro de Carlos IV de Espanha, assinou com Napoleão Bonaparte o famoso tratado em que Portugal seria dividido em três partes.

Curiosamente, numa daquelas coincidências que a história tanto gosta de nos brindar, o nosso herói comecaria a jogar futebol pela mão de um pequeno clube português da cidade, o humilde Portugais de Fontainebleau, o seu primeiro degrau de uma carreira impressionante.

Começou como médio ofensivo e aos poucos foi recuando no terreno, passando pelo Racing de Fontainebleau, depois pelo Entente 77 e pelo Melun, onde se cruzou com outra futura referência do futebol francês, Claude Makelele. Aos 17 anos aceitou o convite dos dirigentes monegáscos e assinou pelo AS Monaco, começava a sua carreira de profissional.

Saltar a fronteira

Chamado à seleção pela primeira vez em 1994, só conseguiria a sua primeira internacionalização em 1996, para o lugar de outro guadalupino, Jocelyn Angloma. 

Entre 1996 e 2000, forma juntamente com Laurent Blanc, Marcel Desailly e Bixente Lizarazu, formando uma das melhores linhas defensivas de todos os tempos, que juntamente com Bernard Lama (até 1996) e Fabien Barthez (depois de 1996) nunca perdeu um jogo pela seleção francesa quando jogavam juntos. 

Seria precisamente em 1996 que trocou o Monaco, onde o melhor que conseguira fora sagrar-se vice-campeão (em duas ocasiões), pela Parma, dando um pequeno salto para a vizinha Itália.

No Ennio-Tardini pegou de estaca no «onze» de uma das melhores equipas do futebol italiano e europeu. Com os gialloblù venceu duas Taças de Itália, uma supertaça italiana e uma Taça UEFA, seguiu-se o convite da Juventus em 2001.

No topo do Mundo

©Getty / Henri Szwarc
Antes de chegar à Vecchia Signora, já Thuram conquistara a Europa e o Mundo com a «seleção do galo», sagrando-se campeão mundial em 1998 e campeão europeu em 2000.

Durante esse biénio, a França era reconhecidamente a melhor equipa do mundo, liderada por Zinedine Zidane, superiorizava-se constantemente aos adversários e tornou-se na primeira seleção europeia a conquistar o Euro quando era campeão mundial em título, feito que seria igualado pela Espanha em 2012. 

Foi condecorado como campeão mundial e europeu e rotulado como um dos melhores defesas laterais do Mundo, que Thuram chegou à Juventus. No gigante de Turim venceria por duas vezes o Scudetto e jogaria uma final da Champions perdida para o AC Milan nas grandes penalidades. Jogaria ainda duas épocas em Barcelona de 2006 a 2008, tendo perdido por meses a conquista da Liga dos Campeões com Ronaldinho, Deco e companhia, e tendo partido no verão antes de Pep Guardiola iniciar o período mais áureo da história do futebol blaugrana

Na seleção esteve presente no desastre que foi a participação francesa no mundial da Coreia e Japão, tendo conquistado a Taça Confederações no ano seguinte.

Em 2004, em Portugal, no Euro a França cairia nos quartos-de-final em Alvalade às mãos da Grécia, dois anos mais tarde, em Munique, a França eliminou a Espanha, o Brasil e Portugal, antes de perder na final de Berlim, jogo de má memória em que Zidane perdeu a cabeça.

A sua carreira internacional terminaria em 2008, de braçadeira no braço, comandando a França na triste participação no Euro 2008, desiludido com um problema coronário que o obrigou a pendurar as botas definitivamente. Com 142 internacionalizações tornou-se no jogador francês que mais vestiu a camisola da seleção nacional gaulesa, superando o recorde do anterior detentor, Michel Platini.

O pensador, o activista, o contestatário

Fora dos campos Lilian Thuram nunca se escondera, assumindo as suas posições políticas e sendo um feroz crítico do racismo em França e no futebol europeu.

Causava polémica ao apoiar os emigrantes durante os motins de 2005, provocando a ira das autoridades francesas, que o acusavam de premiar criminosos, pois juntamente com Patrick Vieira, oferecera bilhetes para um jogo da França em Saint-Denis, a alguns dos acusados durante os motins. Quando o então ministro do interior Nicolas Sarkozy se referiu aos rapazes árabes e negros responsáveis pelos motins como «escumalha», Thuram respondeu que «se eles são escumalha, eu também sou escumalha».

Mais tarde «pôs água na fervura», lembrando o seu passado nos bairros da cintura industrial parisiense, afirmando que não desculpava a violência, mas que a compreendia.

Opositor de Sarkozy, Thuram não perdia um momento para criticar a sua presidência e as políticas de emigração da República Francesa, tornando-se uma bandeira da esquerda radical francesa, e provocando a cólera no outro lado espetro político francês, com Jean-Marie Le Pen a considera-lo que como «negro» e «não europeu» era «uma afronta à França».

©Getty / Aurelien Meunier
Embaixador da UNICEF, colabora na recuperação de escolas no Haiti, depois do terramoto que devastou o país em 2010. Regressa regularmente a Guadalupe, onde é muito acarinhado e os amigos asseguram que não mudou nada, continuando humilde e amigo como era quando partiu para França em 1981.

Membro da Legion d'Honneur desde 1998, uma das maiores distinções agraciadas pelo estado francês, Thuram é considerado pelos jovens filhos dos emigrantes como um deles. 

Em 2010 publicou o seu livro "As Minhas Estrelas Negras: de Lucy a Barack Obama", percorrendo depois a França, a Europa e o Mundo, em conferências e entrevistas, sempre empunhando a bandeira da luta contra o racismo, que é juntamente com a luta contra a homofobia e o apoio ao emigrante, uma das lutas que Thuram jura travar até ao último dos seus dias. 

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