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Leônidas da Silva: Diamante Negro

Texto por João Pedro Silveira
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Leônidas da Silva foi - depois de Arthur Friedenreich - a primeira grande estrela do futebol brasileiro. Adorado pela «torcida» do seu clube, reverenciado pelos rivais, marcou uma era no futebol «canarinho», tornando-se a primeira estrela global Made in Brasil, encantando a América do Sul primeiro, e a Europa depois, durante o mundial de 1938, onde deu a conhecer ao «velho continente», o famoso «pontapé de bicicleta».

Franzino, alto, esguio, «O Homem-Borracha» era um jogador inesquecível. Por norma os seus golos eram tão belos que até o guarda-redes que acabara de bater se levantava para o cumprimentar pelo feito.

Um dia, lembrando a compleição física do «Diamante Negro», o jornalistas uruguaio Eduardo Galeano escreveu que Leônidas «Tinha o tamanho, a velocidade e a malícia de um mosquito».

Ainda escrevendo sobre o craque carioca, Galeano lembra que «No Mundial de 38, um jornalista francês da revista «Match» contou-lhe seis pernas, e foi da opinião que ter tantas pernas era coisa de magia negra». Magia negra por certo não seria, mas que Leônidas não era um jogador deste mundo, parece não haver grandes duvidas...

A bicicleta

A origem do «pontapé de bicicleta» é um dos mais discutidos momentos da história do futebol. Leônidas reclamou para si a invenção do movimento técnico, mas parece ser consensual que em terras brasileiras, seria Petronilho de Brito o autor da jogada, cabendo a Leônidas a arte de aperfeiçoa-la e divulga-la pelo Brasil primeiro, depois pelo resto da América e pela Europa.

Em 1938, chegou a apontar um «golo de bicicleta» no mundial, mas o árbitro, confuso com uma jogada que nunca vira, anulou o golo, considerando que era falta. O mundo e a velha Europa ainda não estavam preparados para a inovação criativa do «mago brasileiro».

No São Paulo, onde jogou na última fase da carreira, apontou diversos golos com o mítico pontapé, conquistando tal fama que ganhou um lugar na história do clube e uma famosa estátua, uma réplica do famoso «pontapé de bicicleta» que imortalizou, que pode ser encontrada no museu do clube.

No Pacaembu, efetuando mais uma «bicicleta» com a camisola do tricolor.
Todavia, a origem do mítico pontapé não terá raízes brasileiras, mas sim chilenas, pois foi no Chile que o emigrante basco Ramón Unzaga Asla, começoua efetuar a famosa jogada a partir de 1914... Durante os campeonatos sul americanos, as acrobacias chilenas surpreenderam os argentinos, peruanos, uruguaios e brasileiros, que começaram a tentar imitar o truque chileno.

Mas seria numa tour à Europa do Colo Colo que tornou a «bicicleta» num fenómeno imparável. Na passagem por terras espanholas, o avançado Arellano não perdia o ensejo de rematar de bicicleta, chegando a marcar um golo com o acrobático pontapé, que os jornalistas espanhóis não perderam tempo a batizaram como «chilena». Arellano, de apenas 24 anos, encontraria a morte em Valladolid, após um aparatoso choque com um adversário. Num momento que assombrou a história da «bicicleta».
 
Leônidas, indiferente à pista «chilena», sempre se considerou como um pai do «pontapé de bicicleta». Anos mais tarde, recordaria: «Nem lembro quando marquei o primeiro golo dessa maneira, mas posso garantir que fazia a jogada desde menino». A verdade, é que inventor ou não, Leônidas ainda é hoje recordado, dentro e fora do Brasil, como Leônidas, o da «bicicleta».

Menino do Rio

Os pais, Dona Maria e o Sr. Manoel Nunes da Silva, escolheram o nome do famoso guerreiro e rei espartano para o seu «minino». Leônidas da Silva, Nasceu no bairro de São Cristóvão, no dia 6 de Setembro de 1913, num dos últimos dias do Inverno carioca. São Cristóvão, um bairro de origens aristocráticas, no começo do século XX era um bairro de gente humilde e pobre, e humildes eram as raízes do pequeno Leônidas. 
Desde de tenra idade se apaixonou pelo jogo que jogava com os amigos na Praia Formosa, perto da Ponte dos Marinheiros, para desespero da Dona Maria, que acreditava que seriam os estudos e não o «pontapé na bola» que dariam um futuro ao rapaz. Sem forma de poder dar aos filhos tudo o que desejaria, acabou por entregar Leônidas e a sua irmã mais velha, Aristotelina, àqueles que seriam os seus «pais de criação».

Estudando na Escola Epitácio de Sousa, não se destacava nas letras nem nas matemáticas, mas brilhava na edução física. Aos 13 anos começou a joar no São Cristóvão, e sem surpresa pegou de estaca na equipa e começou a dar nas vistas. 

No Mundial de 1938 em França conquistou a Bota de Ouro, sagrando-se o melhor marcador da edição.
Adepto do Fluminense em menino, acabou por jogar nos outros três grandes clubes da Cidade Maravilhosa, mas nunca vestiu a camisola tricolor que tanto amara na infância e só jogou nas Laranjeiras como adversário. 

Depois de começar no São Cristovão, passou pelo Sírio Libanês  - que teve de abandonar quando o clube deixou a prática do futebol - e  o Bonsucesso - onde além de futebol também jogava basquetebol - , os três primeiros degraus na carreira, antes de despertar o interesse do Peñarol e rumar a Montevideu, onde jogou uma época (1933) ao serviço do clube da capital uruguaia.

Um ano depois, jogou o seu primeiro mundial com a seleção brasileira, chegando a Itália, onde uma derrota por 1x3 logo no primeiro jogo com a Espanha, deitou por terra o sonho de um país. Para Leônidas o fraco consolo de marcar o único golo brasileiro na competição. Quatro anos depois voltaria à Europa, para jogar o mundial de 1938 em França e poder deixar o seu nome na história do mais importante torneio do Mundo.

A questão da pele e o futebol

O futebol fizera um longo caminho desde o dia em que Charles Miller desembarcara no porto de Santos carregando na bagagem, duas bolas usadas de futebol, uma bomba para encher as bolas, um par de chuteiras, alguns equipamentos usados e um livro com as regras do jogo que aprendera a jogar em Inglaterra. 

Pela seleção brasileira, Leônidas disputou dois mundias: 1934 e 1938, apontando golos nas duas edições e brilhando imensamente.


O jogo dos bretões abrasileirou-se e Leônidas da Silva teve um papel muito importante nessa nova forma de jogar o jogo, dando-lhe as características de mestiçagem que todos reconhecemos na forma de jogar brasileira, bem distante da inglesa original. 

Nove anos depois das exibições de Leônidas no mundial francês, Gilberto Freyre prefaciava «O Negro no Futebol Brasileiro», da autoria do jornalista Mário Rodrigues Filho, onde pela primeira vez se situava a história do futebol no Brasil dentro da história da própria sociedade brasileira, já marcadamente urbana e com uma capacidade ímpar de atrair e tornar suas, as importações que chegavam dos mais variados pontos do mundo.

Não era à toa, segundo Freyre, que o futebol brasileiro sublimava tantos elementos da cultura nacional, desde o samba à capoeiragem, assim como «a molecagem baiana» e a «malandragem carioca» e até em certo ponto o cangaceirismo que ainda grassava no Sertão e no Nordeste.

Para Freyre, «com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é. A dança dançada baianamente por um Leônidas; e por um Domingos, com uma impassibilidade que talvez acuse sugestões ou influências ameríndias sobre sua personalidade ou sua formação. Mas, de qualquer modo, dança».

Numa sociedade racista, ainda segregacionista, herdeira do esclavagismo, o sangue africano de Leônidas era alvo de preconceito. A cor da sua pele nunca foi esquecida. Jogou no Vasco, o primeiro clube brasileiro a aceitar negros desde a «Resposta Histórica», abrindo as portas de outros clubes como o Flamengo e o Botafogo, onde seria campeão carioca, como já fora no Vasco da Gama.

Seria um dos primeiros jogadores de cor a vestir a camisola do Flamengo, que até então, fazendo jus à sua fama de elitista, só aceitava jogadores brancos, ajudando com os seus golos a quebrar o preconceito e a abrir o caminho para as futuras estrelas não brancas do futuro, como Garrincha, Carlos Alberto ou Pelé.

Receção apoteótica em São Paulo

Jogou na Gávea, no Leblon até ao fim de 1941, com um registo histórico de 153 golos em 149 partidas. Seis épocas em que conquistou quatro títulos até que aceitou o convite para se mudar para o São Paulo. A sua mudança para Sampa tornou-se num verdadeiro fenómeno de popularidade. Enquanto o Mundo se destruía na escuridão da Segunda Guerra Mundial, o Brasil florescia, apaixonado pelo jogo que os ingleses tinham legados. 

Estátua de Leônidas no Museu do São Paulo FC.
Dez mil foram esperar a chegada do Diamante Negro à Estação da Luz, em pleno centro da Cidade, aplaudindo efusivamente quando Leônidas saiu do comboio e finalmente pisou a plataforma da estação.

Acompanhado em cortejo, descobriu assim a cidade que agora o recebia acaloradamente. O «Homem de Borracha» tinha tratamento em São Paulo à altura de que os americanos dispensavam aos astros de Hollywood.

Durante oito anos, até ao final da carreira em 1950, Leônidas vestiria a camisola do «tricolor paulista» em 212 ocasiões, apontando 141 golos. Em oito épocas conquistaria cinco Campeonatos Paulistas, tornando-se num ídolo do São Paulo FC.

Os números da carreira de Leônidas são tão expressivos, que falam por si. Além da seleção, jogou em oito clubes, nos maiores do Rio de Janeiro, mas também em São Paulo e no Uruguai, e apenas no São Paulo e no Vasco da Gama  - 27 golos em 29 jogos - não ficou com um média superior a um golo por jogo.

A consagração em França

No torneio de 1938, a Europa estava um passo da guerra, enquanto as seleções sul-americanas boicotavam a prova. O Brasil, o único representante da América do Sul em terras gaulesas, parecia indiferente ao estado de tensão que se vivia no «Velho Continente». Leônidas não podiam ser mais indiferente.

Por esses dias era juntamente com o ditador Getúlio Vargas e o cantor Orlando Silva, um dos três homens mais conhecidos e reverenciados do país.
 
O Brasil ainda não era a potência que viria a ser, mas os brasileiros estavam confiantes na estreia em Estrasburgo, malgrado a inclemente chuva que se abatia pelo terreno. A vitória sobre a Polónia por 6x5 - após prolongamento - no jogo da estreia, deixava as expectativas ainda mais elevadas.

O jogo com os polacos tornou-se num épico e num dos mais excitantes confrontos da história dos mundiais. O Diamante Negro foi decisivo no caminho para os quartos de final, mas a Polónia vendeu cara a derrota. 

Depois de estarem a perder por 1x3, empataram o jogo a quatro, forçando o prolongamento. Ernst Willimowski, que apontara três golos no tempo regulamentar, marcaria o quarto, mas Leônidas apontou dois golos no prolongamento - finalizando um hattrick - e deu a vitória ao Brasil.

Para memória futura ficara o longo período do segundo tempo que o avançado brasileiro jogara sem botas, aproveitando o estado enlameado do terreno para jogar como mais gostava, até que o árbitro reparou e o obrigou a calçar. 
 
 
O Brasil seguiu para eliminar a Checoslováquia nos «quartos», após segundo jogo, garantindo uma vaga na semi final contra a campeã do Mundo, Itália. Em Marselha, Vittorio Pozzo armou a sua Squadra para garantir um lugar na final em Colombes, Paris. Os brasileiros, confiantes, deixaram o tocado Leônidas a descansar, com o objetivo de chegar à final.

A Itália venceu por 2x1 e Leônidas só disputou o jogo para atribuição do terceiro lugar contra a Suécia, onde voltou a marcar, garantindo o bronze para os brasileiros.  
 
Leônidas e o Brasil acreditavam que a sorte lhes sorriria no mundial seguinte, mas o Mundo tinha outros planos... Pouco mais de um ano depois, a Alemanha invadia a Polónia e começava a Segunda Guerra Mundial. O futebol, como quase tudo no planeta, ficava em suspenso.

Os mundiais de 1942 e 1946 seriam cancelados, a bola só voltaria a rolar em 1950, no Brasil, mas Leônidas já tinha 46 anos, e a não convocatória para o mundial, fê-lo perceber que o seu lugar no jogo tinha acabado e que chegara a hora de pendurar as botas e dar o lugar aos mais novos...

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Comentários (2)
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Leônidas
2014-08-01 16h30m por gongasmota1998
O famoso criador do pontapé em bicicleta fez um grande mundial de 1938 pena é não ter jogado a meia final frente à itália devido ao treinador querer poupar jogadores para a a final
CA
Diamante Negro.
2013-09-15 06h32m por Cafarchio
O segundo grande craque da história do meu querido São Paulo FC, depois de Arthur "El Tigre" Friedenreich. Recentemente o tricolor paulista jogou com camisas modelo "retrô", uma ação de marketing em homenagem ao Leonidas.