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      Uruguai 1930
      Rivalidades

      Luta no Rio da Prata: Uruguai x Argentina

      Texto por João Silveira
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      A história da rivalidade entre as duas seleções remonta aos primórdios do futebol em ambos países, mas foi durante o primeiro mundial que atingiu o seu zénite. A jogar em casa, o Uruguai, bicampeão olímpico em título, era o grande favorito à conquista do troféu. Os rivais do outro lado do Rio da Prata, eram os únicos que se podiam interpor entre o Uruguai e a Taça Jules Rimet.
       
      Rivalidade histórica

      A rivalidade já vinha desde os tempos em que os europeus se haviam instalado nos dois lados do Rio de la Plata. Nos campos de futebol remontava ao fim do século passado e aquecia a cada dia que passava, quando mais se adivinhava a final entre vizinhos e rivais.
       
      Para acalmar o ambiente, a organização conseguiu que o grande Carlos Gardel, cantor e compositor de tango, além de actor de cinema, oferecesse um recital às duas delegações.
       
      Gardel, voz maior do tango, também é motivo de disputa entre argentinos e uruguaios, que o reclamam como seu. Ninguém sabe ao certo onde nasceu o astro, dividindo-se as opiniões entre a cidade de Toulouse em França, ou Tacuarembó, no interior uruguaio, já perto da fronteira com o Brasil.
       
      Questionado sobre o tema, Gardel não ajudou muito a esclarecer as dúvidas, limitando-se a referir que nascera «em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade».
       
      Nem na escolha da bola se entendiam...

      Nas vésperas do encontro e na manhã do próprio jogo, milhares de argentinos encheram dezenas barcos e pequenas embarcações - há quem fale em centenas - e atravessaram o Rio da Prata rumo a Montevideu. 

      Nas ruas da capital uruguai, a rivalidade acendia os ânimos, com gritos de ordem, piropos habituais e uma outra escaramuça. No estádio, os dirigentes da FIFA tentavam em vão, conseguir que as duas delegações se entendessem à cerca de que bola utilizar na partida.

      Às oito da manhã abriam-se os portões, seis horas antes do jogo, e ao meio dia o Centenário estava cheio como um ovo, com mais de 80 mil pessoas à espera do pontapé de saída...

      Na porta do quarto de Luis Monti, o intratável central argentino, estrela e referência da Alviceleste, surge um papel onde se lê «se ganhas morres tu, ou a tua mãe». Monti acusa o toque e faz uma exibição apagada. Pouco tempo depois da final muda-se para Itália, onde seria campeão do Mundo pela Squadra Azzurra

      Por culpa do descontrolado comportamento de alguns hinchas argentinos, o árbitro belga John Langenus pediu um reforço policial para a partida se poder realizar, e exigiu um plano de fuga para poder apanhar um barco rapidamente, caso as coisas corressem mal, fazendo-se ao mar e deixando o Uruguai e a Argentina para trás. 

      A desconfiança era mútua e de tal ordem, que Langenus se viu obrigado a aceitar que em cada parte do jogo fosse usada uma bola diferente. Na primeira parte jogou-se com a bola argentina, na segunda com a uruguaia.

      Os visitantes venciam por 1x2 ao intervalo, no segundo tempo os uruguaios viraram o jogo para 4x2. Curiosamente, ou talvez não, cada equipa tinha ganho a metade da partida que se tinha jogado com a sua bola. O jogo acabava com a vitória uruguaia, mas a história da final estava longe de acabar...

      O after match

      Já depois de terminado o mundial, a Federação Argentina cortou relações com a sua congénere uruguaia, invocando a má educação e o tratamento a que sua delegação fora votada em solo uruguaio, durante todo o desenrolar da competição.

      A derrota na final ficou «atravessada» na garganta dos dirigentes argentinos, que nunca «digeriram» muito bem o resultado da grande final do Estádio Monumental.
       
      Se muitos, argentinos incluídos, atribuíram ao apoio dos adeptos locais a reviravolta no resultado e consequente vitória uruguaia na final, muitos lembraram que a intimidação tinha atingido níveis inapropriados para uma competição desportiva. 
       
      A violência uruguaia durante a final, as lesões sofridas pela dureza do jogo da Celeste Olímpica, as pressões sobre a equipa de arbitragem, de tudo se serviram os argentinos para justificar a derrota. 
       
      Depois do jogo, e já "seguros" em casa, alguns jogadores afirmaram que não tinham podido dar o melhor de si, com o medo que tinham de não poder regressar à Argentina. Tal acusação enfureceu os uruguaios que apresentavam os agradecimentos públicos das diversas seleções estrangeiras, como o bom exemplo da capacidade de organização uruguaia e a simpatia das suas gentes.
       
      Em Buenos Aires, os adeptos irados atacaram o consulado uruguaio à pedrada e a polícia abriu fogo sobre os manifestantes, impedindo a todo o custo o assalto iminente às instalações consulares uruguaias.
       
      A Federação de Futebol da Argentina viu-se «obrigada» a cortar relações com a Federação Uruguaia, desistindo de competir também na Copa América, e as próprias relações entre os dois países perigaram, com o bom-senso por fim a prevalecer a impedir um corte radical entre os dois vizinhos. 
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