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      Brasil 1950
      Grandes jogos

      E.U.A. x Inglaterra: Milagre em Belo Horizonte

      Texto por João Pedro Silveira
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      «Todo o Mundo torce por David, ninguém torce por Golias»
       
      - Wilt Chamberlain
       
      Na tarde de 29 de junho de 1950, as gentes de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais, Brasil, assistiram a um milagre. Um verdadeiro milagre futebolístico, sem paralelo na história dos Mundiais...
       
      Recuemos a um tempo em que havia grandes seleções europeias como a Itália, a Áustria ou a Hungria, ou gigantes sul-americanos como Uruguai, Brasil e Argentina... Depois havia uma seleção a pairar sobre todas as restantes nações que jogavam futebol no planeta: a Inglaterra.
       
      Os inventores do jogo
       
      Os inventores do jogo há décadas que se recusavam a misturar com os restantes, tão cientes que estavam da superioridade dos seus profissionais, dos seus artistas sem paralelo. Recusaram-se a participar nas três primeiras edições do Campeonato do Mundo, todas elas disputadas antes da Segunda Guerra Mundial
       
      Com o fim do conflito, chegou uma nova mentalidade ao futebol da Velha Albion. A Inglaterra não estava mais orgulhosamente só e estava disposta a "descer à Terra" para provar dentro do campo a sua inequívoca superioridade.
       
      Os ingleses chegaram ao Mundial em boa forma, vencendo todos os jogos do grupo de qualificação disputado com escoceses, irlandeses do norte e galeses e deslocaram-se ao continente para vencer sem dificuldades belgas (1x4) e portugueses (3x5), que já três anos antes tinham sido esmagados no Jamor por um humilhante 0x10.
       
      Em terras brasileiras, os ingleses começaram com uma vitória descansada sobre o Chile. Apesar da vitória magra, a confiança crescia à medida que se aproximava o segundo jogo contra a 100 por cento amadora seleção dos EUA. 
       
      David e Golias
       
      Os norte-americanos tinham feito uma longa viagem de barco até «Terras de Vera Cruz» imbuídos no espírito de «o que importa é competir». Derrotados pela Espanha (1x3), aproveitaram o tempo para se prepararem para o «jogo das suas vidas», onde podiam defrontar os verdadeiros artistas da bola e100% profissionais como Matthews, Mannion ou Finney
       
      Belo Horizonte presenciava mais um encontro entre David e Golias de tal maneira desequilibrado que as casas de apostas britânicas atribuíam uma odd de 500-1 para uma vitória norte-americana. 
       
      Nessa tarde, os mineiros puderam assistir à maior façanha de sempre do futebol norte-americano e uma surpresa sem paralelo na história do beautiful game. Um estudante natural do Haiti, um lavador de pratos, um condutor de carro funerário, entre outros, derrubariam os génios profissionais do seu tempo... A todo-poderosa Inglaterra caía com estrondo!
       
      Poupanças e ameaças
       
      Logo após o primeiro apito, os EUA foram empurrados às cordas. Nem um minuto corrido e Frank Borghi - o condutor funerário - voava para evitar um golo cantado de Bentley.
       
      Borghi e os colegas foram aguentando o pressing inglês e, aos 12 minutos, já se contavam seis oportunidades claras de golo que quase por milagre não tinham ido parar ao fundo das redes dos yankees, sendo que duas delas tinham inclusivamente batido com estrondo na madeira. 
       
      Golo norte-americano que surpreendeu o mundo inteiro.
      Walter Winterbottom, o primeiro treinador de sempre da seleção inglesa, estava feliz com a decisão de ter deixado Stanley Matthews de fora e a descansar para o último jogo.
       
      Borghi recordou um dia mais tarde que, antes do jogo, o objetivo para uma boa exibição era só sofrer cinco ou seis golos, pois menos que isso seria milagre.
       
      Se perder por menos de cinco era encarado como um milagre, o que dizer quando, ao minuto 37, o professor primário de Filadélfia, Walter Bahr, centrou para o centro da área, onde nenhum dos avançados americanos conseguiu chegar à bola que parecia controlada pelo guarda-redes. Inesperadamente, vindo do nada, um estudante haitiano que lavava pratos num restaurante em Brooklyn, de seu nome Gaetjens, intercetou o esférico antes que o guardião inglês o conseguisse agarrar e rematou para a baliza deserta.
       
      No banco, William Jeffrey, treinador norte-americano, festejava eufórico, parecendo não acreditar que o golo fora apontado por aquele rapaz que encontrara por acaso dias antes da seleção partir para o Brasil e que fora convocado somente na véspera da partida.
       
      Incredulidade
       
      Se os americanos não acreditavam e os brasileiros esfregavam os olhos na bancada para ver se era mesmo realidade o que tinha acontecido, os ingleses pareciam ter ficado em estado de choque, chegando ao intervalo a perder com aquele adversário.
       
      O segundo tempo começou com a mesma toada, com Borghi a salvar uma e outra oportunidade, parecendo que crescia de tamanho a cada novo lance. Aliás, a cada minuto que passava parecia que os norte-americanos cresciam, tornavam-se mais altos e mais fortes, bem longe daquele grupo que tremia de medo na primeira parte e que era absolutamente incapaz de segurar a posse de bola para fazer dois passes seguidos.
       
      Até ao fim, o massacre inglês tornou-se uma confusão absoluta, enquanto os brasileiros aplaudiam com alegria cada novo golo evitado. Quando o apito final soou, os ingleses não queriam acreditar.
       
      Os brasileiros levaram os jogadores americanos em ombros e os ingleses foram esconder-se nos balneários. À Inglaterra e restante Europa chegavam as notícias da derrota inglesa, mas nas redações dos jornais ninguém acreditava na veracidade da notícia... Do lado americano, a incredulidade era maior. Nenhum jornalista estadounidense marcara presença em Belo Horizonte. Quando o telegrama chegou aos Estados Unidos com a informação que os amadores norte-americanos tinham vencido os profissionais ingleses por 1x0 tomaram o resultado por uma gralha e de Nova Iorque saiu para o resto do país a informação que os Estados Unidos tinham perdido por 1x10.
       
      O fim do mito
       
      A seleção dos Três Leões não recuperaria do golpe. Finney lembrou a «imensidão» de bolas ao poste que os ingleses enviaram, em contraste com o golo absurdo que o adversário tinha apontado.

      Mas, na alma inglesa, a derrota fora pesada demais. Mesmo com o regresso de Matthews, a Inglaterra perderia 0x1 com a Espanha, golo de Zarra, e ficaria fora do Mundial.
       
      Só dezasseis anos depois, a jogar em casa, a Inglaterra conseguia provar ao mundo o seu valor. Quanto aos Estados Unidos, a seleção saiu de prova naturalmente e os seus jogadores voltaram à vida normal, jogando futebol por prazer como sempre haviam feito.
       
      O sucesso foi nota de rodapé num país apaixonado por beisebol. O desporto mais amado no planeta permaneceu no anonimato, sendo uma «excentridade» das comunidades emigrantes europeias e latino-americanas. Os jogadores chegaram a casa, recebidos por familiares e amigos em apoteose. Seria preciso esperar 40 anos para a seleção do Tio Sam voltar a marcar presença numa fase final de um Mundial...
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      jogos históricos
      U Quinta, 29 Junho 1950 - 19:00
      Raimundo Sampaio (Arena Independência)
      Generoso Dattilo
      1-0
      Joe Gaetjens 38'
      Estádio
      Raimundo Sampaio (Arena Independência)
      Lotação23018
      Medidas105x68
      Inauguração1950
      TEXTO DISPONÍVEL EM...