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          Euro 1984
          Grandes jogos

          França x Portugal: um triste São João

          Texto por João Pedro Silveira
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          1984. O ano que George Orwell imortalizou e precisamente o mesmo ano em que a seleção nacional de França ultrapassou o seus limites, medo e receios históricos, assumindo-se enfim na sua condição de grande, concretizando o tão aguardado encontro com a história. 

          Esta era a terceira vez que a França organizava um grande evento futebolístico depois do Mundial de 1938 e do Europeu de 1960. Em ambas as ocasiões, os bleus haviam ficado muito longe do sucesso, caindo precocemente e nunca mostrando capacidade para discutir a vitória final na competição.

          Todavia, o Euro '84, disputado durante um solarengo junho francês, os bleus passearam no caminho até à meia-final, confirmando jogo após jogo a condição de favorito que tinham acumulado após anos e anos de fracassos.

          Com as ausências de Inglaterra, Itália, Holanda e União Soviética, a que se somava a precoce eliminação da Alemanha Federal - ainda na primeira fase, o caminho para o primeiro título francês apresentava Portugal e depois o vencedor do Dinamarca x Espanha como os obstáculos que toda a França imaginava fáceis de contornar. E se porventura os obstáculos não se revelassem tão fáceis de ultrapassar, a França não tinha que temer, pois contava com o melhor jogador da competição: Michel Platini.

          O 10 da Juventus literalmente levou a equipa às costas, marcando o golo da vitória na estreia com a Dinamarca e fazendo dois hat-tricks contra a Bélgica (5x0) e Jugoslávia (3x2), destacando-se numa equipa fantástica onde também brilhavam craques como Tigana, Giresse, Fernández, Rocheteau...

          Quatro cabeças, quatro sentenças

          Na partida que podia dar à França a primeira final do seu palmarés, Portugal era o adversário que estava do outro lado da «barricada». Os lusitanos chegavam pela segunda vez a uma grande competição e tal como no Mundial de 1966 voltavam a atingir a meia-final onde, por coincidência das coincidências, encontravam o anfitrião, papel que em 1966 fora reservado à Inglaterra.

          No Europeu francês, os portugueses chegaram com quatro treinadores... Fernando Cabrita e José Augusto, a quem se somavam os «representantes» de FC Porto - António Morais - e Benfica - Toni.

          Cada cabeça, cada sentença, já dizia o povo, deixando antever os problemas que esta comissão técnica teria de enfrentar. E a verdade é que os problemas não foram poucos, desde a escolha dos eleitos que partiram para terras francesas até ao «onze» que iniciava cada partida.

          Num acordo de cavalheiros realizado ainda em Lisboa, os quatro treinadores acederam a dar o direito de desempate a Fernando Cabrita, por ser o mais velho, no caso de empate numa decisão. 

          Com qualidade e um futebol de primeira, mas também com igual dose de sorte, Portugal empatou com a Alemanha a zero antes de empatar 1x1 com a Espanha, sabendo que uma vitória sobre a Roménia garantia a classificação para as meias-finais sem necessitar da ajuda de «resultados alheios». O golo de Nené afastou os romenos da prova e marcou o encontro com a França de Platini na meia-final em Marselha, a 23 de junho, noite de São João, que os portugueses esperavam que fosse de boa memória.

          Vélodrome: o palco de um jogo épico

          Tocaram «A Marselhesa» e «A Portuguesa» acompanhadas à vez pelas 55 mil gargantas que enchiam o Vélodrome. A França estava a 90 minutos, ou, na pior das hipóteses, a 120 minutos de jogar pela primeira vez uma final de uma grande competição. O sonho comandava a vida, sonho esse embalado na arte de Michel Platini.

          E tudo corria de acordo com o plano, quando os franceses se colocaram em vantagem com um golo de Jean-François Domergue, aos 25 minutos, na transformação de um livre direto, que deixou o benfiquista Bento pregado ao chão e não isento de culpas... 

          O jogo continou com a mesma toada: Bento a mostrar que não se deixara afetar pelo golo, fazendo defesas que mantiveram o sonho português vivo, e uma França perdulária a ajudar na indecisão quanto ao resultado final. Aos 74 minutos, quando já poucos acreditavam, Portugal voltou ao jogo com um cabeceamento de Rui Jordão que permitia o empate que durou até aos 90 minutos.

          A França acusou o toque do golo e para surpresa de muitos era Portugal que se lançava ao ataque. Aos 98 minutos, Chalana recebeu a bola na ponta direita, fez o que quis de Domergue e centrou para o remate acrobático de Jordão que, ao bater no chão, passou por cima de Joël Bats e colocou os portugueses na frente.

          E Paris a seis minutos...

          A vencer por 1x2, esperava-se que Portugal recuasse linhas e defendesse a vantagem, mas não foi assim que sucedeu, com Chalana e Nené a levarem perigo para área contrária sempre bem secundados pelos laterais - João Pinto e Álvaro Magalhães. 

          O golo rondava as duas balizas, mas Bats e Bento efetuavam de defesas miraculosas. O português estava numa noite inspirada, defendendo tudo o que era possível e ainda o que era impossível. E se porventura a bola passava, havia sempre uma perna para desviar a bola ou um ferro providencial.

          Mas a seis minutos do fim acabou a sorte, com Portugal a deixar-se apanhar em contrapé depois de mais um ataque em que a equipa se lançara toda na frente para conseguir o 1x3.

          Domergue, numa noite de sonho, aproveitou uma carambola para finalizar uma jogada cheia de ressaltos. O jogo estava louco e qualquer um podia vencer. A França acabaria por chamar a sorte a si após uma jogada de Tigana que, com um passe atrasado, encontrou Platini sozinho no centro da defesa portuguesa. Com toda a calma do mundo, o 10 recebeu a bola, dominou-a com calma e com uma rotação evitou quatro defesas e o guarda-redes, escolhendo o local para colocar a bola com classe. França 3x2 Portugal! O sonho português acabava e a França seguia para Paris onde merecidamente seria muito feliz.

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          jogos históricos
          U Sábado, 23 Junho 1984 - 20:00
          Orange Vélodrome
          Paolo Bergamo
          3-2
          a.p.
          Jean-François Domergue 24' 114'
          Michel Platini 119'
          Rui Jordão 74' 98'
          Estádio
          Orange Vélodrome
          Lotação67394
          Medidas105x68m
          Inauguração1937