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      Grandes Jogos
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      Portugal x Inglaterra: Foram dez a fio...

      Texto por João Pedro Silveira
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      A guerra acabara há menos de dois anos. Graças à neutralidade intransigentemente defendida por Salazar, Portugal fora poupado ao devastador conflito. O povo agradecia ao ditador a paz e o progresso, ou assim queria vender a propaganda oficial do regime que nunca se fartava de mostrar a «comunhão» entre os portugueses e o doutor de finanças de Santa Comba Dão.

      Para comemorar uma nova era da história nacional, a Inglaterra, velha aliada e uma das vencedoras da guerra, era a convidada de honra para o primeiro grande jogo de futebol em Portugal depois das armas se terem calado. O novíssimo e monumental Estádio Nacional recebia o encontro. As mais altas esferas do regime encabeçaram a peregrinação até ao Jamor nessa tarde, em busca da honra e da glória para apoiar onze bravos lusitanos.

      No fim do dia, Portugal saía vencido por um histórico e humilhante 0x10 perante o olhar incrédulo do Presidente Carmona. A anedota prevaleceu na memória de todos e o resultado nunca mais foi esquecido: aquilo não fora um desafio, tinham sido... dez a fio.

      Esperança e propaganda

      A bola começou a rolar e, logo no primeiro ataque, a Inglaterra colocou-se na frente. Incrédulos, os portugueses aplaudiram o regresso da bola ao centro de jogo, não imaginando o cortejo de bolas no fundo das redes que se iriam seguir.

      Antes da meia hora já os ingleses venciam por 0x4 e Tavares da Silva mandou sair o leão Azevedo para dar lugar a Capela. O guardião leonino não escondeu a vergonha: «O selecionador podia ter dito para eu me magoar e eu, que diabo, magoava-me. Agora ser substituído assim, perante o público...»

      Contudo, o problema não estava na baliza, como os restantes seis golos dos ingleses confirmariam...

      O capitão Cardoso recebeu ordem para ser substituído. Tavares da Silva gritou irado para dentro do campo: «Cardoso! Magoa-te e sai do campo e diz ao Amaro para tomar conta da equipa!». Cardoso obedece e sai, enquanto ao seu lado Feliciano jogava com a cabeça partida, com sangue a correr-lhe pela cara abaixo, rezando a todas as alminhas para ser substituído. 

      Ao intervalo, Portugal perdia por 0x5, golos de Mortensen, Lawton (3) e Finney. Não havia forma de contornar o desastre. A ordem era para cerrar fileiras e tentar impedir o desastre iminente. Ninguém tocou na fruta, chá e laranjada: os mimos preparados para os atletas se refrescarem durante o intervalo. Tavares da Silva berrava com os seus homens que, cabisbaixos, se lamentavam da falta de apoio do público.

      Muda aos cinco, acaba aos dez

      Como no velho jogo de infância, o Portugal x Inglaterra mudou aos cinco e acabou aos dez. Mortensen (3), Lawton e Stanley Matthews fizeram os cinco golos da segunda parte e Portugal abandonou o relvado vergado à força dos números. A pior goleada da sua história.

      A imprensa foi pródiga em procurar razões (e culpados) para a débâcle, mas seria pela pena do mestre Cândido de Oliveira que chegaria a mais lúcida observação do «desastre do Jamor»:

      «A treinar com o relógio no pulso, ou uma vez por semana, e a jogar ao domingo, depois de uma semana a serrar madeira, a cavar, a carpintejar - ou a jogar hóquei... Nunca poderemos igualar no domínio técnico, ou no domínio da ciência do futebol, aquelas máquinas de jogar futebol que são cem por cento profissionais como os Lawtons, os Matthews, os Imbellonis, os Martinos... Os artistas que o futebol pode criar».

      A PIDE ao barulho

      Se o encontro tinha sido mau para as cores lusitanas, pior seria o pós-jogo. Corria a história que os jogadores tinham pedido um prémio de presença, no valor de 100 escudos, que a Federação negara. Segundo essa mesma versão, os jogadores tinham entrado em campo dispostos a perder, magoados com os dirigentes federativos que, além de terem recusado o prémio, tinham colocado os familiares dos jogadores nas piores cabeceiras do estádio, não obstante lhes terem cobrado preço de bancada central.

      À noite, a Federação organizou um banquete no Avenida Palace Hotel para honrar os atletas e homenagear os ilustres visitantes. Para escândalo e brado geral, os jogadores nacionais recusaram-se a marcar presença. O governo não gostou da "rebeldia" e chamou a PIDE para interrogar todos os jogadores.

      Estes explicaram-se e todos - com a exceção de Jesus Correia que à noite jogara por Portugal no Mundial de Hóquei em Patins que se realizava então em Lisboa - foram castigados. O capitão Álvaro Cardoso foi o mais castigado, considerado como principal responsável e recebeu um ano de castigo. Manuel Capela - seu braço direito - recebeu seis meses e os restantes jogadores receberam dois jogos. Sem castigo ficaram Jesus Correia, Albano, Feliciano, Patalino, Araújo e Pacheco.

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      jogos históricos
      U Domingo, 25 Maio 1947 - 00:00
      Estádio Nacional do Jamor
      Charles de la Salle
      0-10
      Tommy Lawton 1' 11' 38' 61'
      Stan Mortensen 7' 59' 71' 77'
      Tom Finney 21'
      Stanley Matthews 85'
      Estádio
      Estádio Nacional do Jamor
      Lotação37593
      Medidas105x68
      Inauguração1944
      TEXTO DISPONÍVEL EM...