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      Escócia x Inglaterra: o pontapé de saída

      Texto por João Pedro Silveira
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      Como todas as grandes histórias, a história do futebol também tem capítulos que remetem para o tempo dos reis e princesas, de nobres cavalheiros e gentis donzelas. Como tal, propomos ao caro leitor um pequeno exercício de imaginação, acompanhando-nos numa viagem pelo tempo à aurora do futebol internacional até uma cinzenta tarde de 30 de novembro do ano de 1872.

      O local é o West of Scotland Cricket Club Ground, em Hamilton Crescent, em Partick, Glasgow, na distante e chuvosa Escócia. E o motivo é o primeiro jogo oficial de futebol entre seleções nacionais. Como todas as boas histórias, esta também começa com um «Era uma vez»...

      Uma rivalidade crescente

      Era uma vez um jogo que dia a dia começava a conquistar mais adeptos. Um pouco por toda a Grã-Bretanha, homens e rapazes jogavam futebol de preferência ao sábado, pois, na conservadora sociedade vitoriana, o domingo era o dia reservado para o Senhor.

      Escoceses e ingleses enfrentam-se pela primeira vez na história.
      Ingleses e escoceses apaixonaram-se perdidamente pelo jogo e com o passar do tempo começaram a esgrimir argumentos sobre quem jogaria melhor futebol. Se a Velha Albion, pátria do futebol, ou a vizinha do norte. 

      Durante 1870 e 1872, cinco jogos tiveram lugar em Londres, mas a equipa escocesa era composta na sua esmagadora maioria (ou na totalidade) por expatriados radicados na capital inglesa. Os anfitriões venceram três partidas e houve dois empates. Os escoceses, não satisfeitos, começaram a ponderar um jogo entre os seus melhores jogadores e os melhores jogadores ingleses para mostrar de vez o verdadeiro valor do futebol escocês, batendo os ingleses em campo. 

      O repto de Alcock

      Jornais de Edimburgo e Glasgow lançaram o repto de Charles Alcock, o diretor da Football Association (FA), para se organizar um jogo entre os dois países na zona das Borders, a região mais a norte de Inglaterra que faz fronteira com a Escócia.

      Alcock mostrava-se bastante preocupado com o estilo de regras e o número de jogadores utilizados na Escócia, enquanto os escoceses respondiam ao inglês que, com aquele tipo de regras que se jogavam na Inglaterra, ele não encontraria uma única equipa escocesa capaz de jogar.

      O tempo foi-se arrastando até que o Queens Park, de Glasgow, de longe a melhor equipa escocesa à época, aceitou o repto para defrontar os ingleses, em solo escocês, contando reforçar-se com alguns expatriados, em particular as duas maiores estrelas a atuar em Inglaterra: Arthur Kinnaird, que jogava no The Wanderers, e Henry Renny-Tailyour, craque do Royal Engineers. Ambos acabaram por não poder participar e a equipa escocesa contou com um onze composto só por jogadores do Queens Park.

      Não obstante a não existência de uma federação escocesa, o jogo foi apresentado como um encontro entre os dois países, com a FA a reconhecer que o jogo como um Escócia x Inglaterra. Mais tarde, a FIFA retificaria esta decisão, considerando o jogo de 30 de novembro de 1872 como o primeiro confronto oficial entre seleções de dois países. 

      Um dia histórico

      Os relatos descrevem um dia frio, com quatro mil pessoas - que pagaram um xelim para assistir à partida - em redor de um campo muito mal tratado pela chuva que caíra ininterruptamente nos três dias anteriores. A equipa escocesa foi selecionada pelo guarda-redes e capitão Robert W. Gardner, enquanto o onze inglês foi escolhido por Alcock, lesionado e ausente do jogo, que elegeu jogadores de nove clubes diferentes.

      Por culpa do nevoeiro cerrado, o jogo começaria vinte minutos mais tarde. A Inglaterra jogava de branco e com bonés, ao passo que a Escócia equipava de azul-escuro, com um cardo bordado na camisa (1) e com gorros vermelhos. 

      Placa evocativa do encontro pioneiro entre seleções.
      Passados mais de cem anos da histórica data, não deixa de ser curioso reparar que, apesar da Escócia começar o jogo com seis avançados e a Inglaterra com oito, não foi o bastante para existir um único golo na partida. As crónicas da época - na maior parte dos casos dadas à estampa semanas depois - realçavam a capacidade de drible - em particular dos escoceses -, fazendo crer que ninguém ficou muito chateado com a ausência de golos.

      O que todos recordavam era a vantagem escocesa por usar onze jogadores do mesmo clube, enquanto os ingleses demonstravam alguma falta de rotina. Os escoceses mandaram na primeira parte e os visitantes, com apenas dois defesas, obrigavam os escoceses a cair muitas vezes em fora-de-jogo, pois a regra obrigava a existência de três defesas entre a bola e a linha de golo. Quase que se pode falar de um protótipo da «armadilha de fora de jogo».

      Os árbitros também tiveram protagonismo ao anular um golo aos da casa ainda na primeira parte. Mas como mandavam as boas regras do desportivismo, os cavalheiros escoceses aceitaram a decisão sem contestar.

      Já perto do fim, a Escócia esteve literalmente a centímetros de vencer, quando a bola chutada por Robert Leckie caiu em cima da fita que estava a ser usada como barra... O 0x0 durou até ao fim, começando a mais velha rivalidade futebolística do mundo sem vencedores nem vencidos.

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      (1) - A flor é o simbolo da Escócia, uma tradição que remonta à Idade Média.

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      jogos históricos
      U Sábado, 30 Novembro 1872 - 00:00
      West of Scotland Cricket Ground
      Willy Keay
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