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Rivalidades

The Northwest Derby: Man Utd x Liverpool

2013/01/14 15:08
Texto por João Pedro Silveira
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«Põe raramente o teu pé na casa do teu vizinho, para que este não se enfade de ti, e te aborreça.»

- Provérbios 25:17

 

O «Dérbi do Noroeste» é para muitos o «Dérbi de Inglaterra». Liverpool e Manchester United, juntos e até 2012, conquistaram 37 Campeonatos de Inglaterra, 18 FA Cup e oito Ligas dos Campeões. Seja em Old Trafford ou em Anfield Road, o jogo entre os dois rivais vermelhos, é dos mais apaixonantes encontros do futebol mundial.

54 km apenas...

A rivalidade entre os dois gigantes do noroeste, vizinhos, separados por apenas 54 quilómetros, tem raízes na rivalidade existente entre as duas grandes cidades. Até 1974, ambas faziam parte do condado de Lancashire, quando uma reorganização territorial do Reino Unido, removeu as duas cidades - e as respetivas áreas metropolitanas - ao condado de Lancashire, para criar os condados da Greater Manchester e Merseyside

A rivalidade Liverpool-Manchester remonta aos séculos XVIII e XIX, quando a Revolução Industrial praticamente virou a Inglaterra do avesso. O noroeste inglês esteve sempre na vanguarda da revolução tecnológica; Manchester e Liverpool tornaram-se nesse tempo os eixos do polo industrial mais avançado do país, com a primeira a ser a grande produtora de bens, com a sua capacidade industrial, e a segunda, com o seu movimentado porto, o centro de exportação da produção «Made in England».
 
Jogadores do Manchester United e Liverpool cumprimentam-se antes do grande dérbi. Nas costas do casaco, os reds homenageiam as vitimas de Hillsborough.
As docas e o porto de Liverpool eram dos mais movimentados do mundo, e era via Liverpool que chegava o algodão que as fábricas de têxteis de Manchester bem necessitavam. Liverpool impunha tarifas altíssimas na importação do algodão para Manchester, e os mancunianos resolveram contornar a situação, criando o Manchester Ship Canal, um canal de navegação, de 58 km, que liga Salford ao rio Mersey e que assim, evita a passagem pelas docas de Liverpool. Estava cimentada a imensa rivalidade entre as duas cidades. 
 
Mesmo em áreas tão distintas como a cultura ou a arquitetura as duas cidades rivalizam. Mas além do futebol, foi muito por culpa da música que as duas cidades ganharam fama além fronteiras. Se Liverpool é a casa dos Beatles e do movimento Merseybeat (1), Manchester deu ao mundo a emblemática Madchester (2) e bandas como os Smiths, Joy Division, Stone Roses, entre outros. Nem na música há unanimidade sobre quem é maior...
 
«Scottish connection» (3)

A grandeza dos dois clubes deve muito à «ligação escocesa». Incontornável é o nome de Alex Ferguson em Manchester, o homem que transformou o United num campeão crónico; enquanto que em Liverpool, Kenny Dalglish ainda é lembrado como o último treinador campeão.
 
Mas os primeiros escoceses que ninguém esquece em Old Trafford e Anfield são Matt Busby e Bill Shankly. Os dois revolucionaram a história dos respetivos emblemas, Liverpool e Manchester United nunca mais seriam o mesmo depois a chegada dos dois escoceses. 
 
Quando Busby chegou a Manchester em 1945, o clube tinha ganho duas ligas e duas taças de Inglaterra. Já em Liverpool, até à chegada de Shankly em 1959, os reds tinham ganho cinco ligas e nenhuma taça. Hoje, os dois gigantes vermelhos do noroeste já contam com 37 ligas, 18 taças, 8 Ligas dos Campeões, mais 10 competições internacionais, 12 taças da liga e por 34 vezes levantaram a Charity Shield.
 
Ao longo dos anos, os encontros entre os dois rivais ficam marcados por muitos casos polémicos.
Não deixa de ser curioso que tanto o começo da ligação de Busby ao United, como o de Shakly ao Liverpool, incluir o adversário na história. Busby, chegou a Old Trafford, onde começou a carreira, depois de ter estado em negociações com o Liverpool, que foi o primeiro clube a mostrar interesse pela sua contratação. Busby reuniu com os dirigentes liverpuldianos, mas divergências quanto à forma de gestão impediram o selar do contrato. Meses depois assinaria pelo United. 
 
Quanto a Shankly, reza a história que quando os diretores do Liverpool o foram tentar buscar ao Huddersfield Town, para ajudar a resgatar os reds das profundezas da segunda divisão, o diretor Tom Williams perguntou: «O que acha de treinar a melhor equipa do país?»,  Shankly respondeu em jeito de pergunta: «O Matt Busby vai abandonar o Manchester United
 
«Os Bebés de Busby»
 
Logo na primeira época à frente da equipa, Busby conduz os seus jogadores ao vice-campeonato (o primeiro de quatro num espaço de cinco anos), para na época seguinte liderar o clube na conquista da sua segunda FA Cup, 39 anos passados da conquista da primeira.
 
Em 1952 conquista a Liga após um longo jejum de 41 anos. Quatro anos depois, nova conquista, com uma equipa com uma média de 22 anos que assombrou a Inglaterra marcando 106 golo numa época – novo recorde – e passou à história como os Busby Babes [Os bebés de Busby]. 
 
Na época seguinte, novo título e uma chegada às meias-finais da Taça dos Campeões, abrilhantavam uma era que prometia ser dourada na história do clube, mas um ano depois, a Tragédia de Munique, o desastre aéreo que vitimou oito red devils, deixou o clube em estado de choque, e adiaria por uns anos o grande sucesso, confirmado pela grande equipa com Dennis Law, George Best e Bobby Charlton, campeão em 1965 e 1967, campeã europeia em 1968. 
 
Grande Liverpool: Shankly e Paisley
 
Shankly pegou no Liverpool na segunda divisão e teve que batalhar para trazer os reds de volta à ribalta, o que aconteceria em 1964, curiosamente o ano em que a beatlemania conquistava a América. 
 
Dois anos mais tarde, ano em que a Inglaterra conquistou o Campeonato do Mundo, o Liverpool conquistou finalmente o Campeonato e chegou à sua primeira final europeia, a Taça das Taças, perdida para os alemães do Dortmund. 
 
A caso de racismo que envolveu Evra (esq) e Suárez (dir), dividiu ainda mais os adeptos dos dois clubes.
Surgia a nova geração que traria grandes sucessos aos reds: Emlyn Hughes, John Toschak, Alec Lindsay, Ray Clemence e Kevin Keegan que seria fundamental nas conquistas da Liga e da Taça UEFA em 1973 e da FA Cup em 1974. No verão de 1974, o adjunto de Shankly, Bob Pasley, tornou-se então treinador principal e o Liverpool lançava-se à conquista da Europa.
 
Entre 1974 e 1983, com uma equipa de sonho de onde se destacavam os escoceses Dalglish e Souness e o galês Rush, o Liverpool conquistou seis campeonatos, três Taças dos Campeões e uma Taça UEFA, tornando-se no mais titulado clube de Inglaterra.
 
Todavia, enquanto Paisley iniciava a primeira era dourada dos reds, em Manchester, os red devils viviam o pesadelo da despromoção precisamente em 1974, culpa de um golo marcado por Dennis Law, um ex-red devil, que agora atuava no rival City. Apesar de regressar ao primeiro escalão logo na época seguinte, a verdade é que durante anos o United viveu longe da glória dos anos sessenta, à sombra dos feitos do rival Liverpool.
 
De Heysel à Premier League
 
Após a saída de Paisley, o Liverpool continuou a saga vencedora, conquistando a quarta Taça dos Campeões e perdendo a quinta na trágica final de Heysel, que por culpa da ação dos hooligans do Liverpool, ficou marcada pela morte 39 espetadores.
 
O Liverpool seria irradiado das competições europeias, assim como os restantes clubes ingleses, iniciando então a curva descendente do seu trajeto.
 
Fãs das duas equipas provocam constantemente o velho rival. Os do Liverpool recordam as cinco Ligas dos Campeões, os do United recordam que já ultrapassaram os reds no total de ligas conquistadas.
Um ano mais tarde, farto do sabor da derrota, o Manchester United vai buscar Alex Ferguson aos escoceses do Aberdeen, onde conquistara três ligas da Escócia e uma Taça das Taças. Quando Ferguson chegou ao United, havia sete ligas nas vitrinas do museu de Old Trafford, bem distante das 16 conquistadas pelo Liverpool.
 
Poucos podiam prever que 25 anos depois de Ferguson se tornar manager dos mancunianos o United tornar-se-ia o clube inglês com mais campeonatos conquistados (19), ultrapassando a cifra histórica do Liverpool (18).
 
Em 1990, um ano depois da tragédia de Hillsborough, em que o nome do Liverpool ficara manchado com a morte de 96 dos seus adeptos, os reds conquistaram a sua 18ª liga inglesa. A partir daí, o Liverpool entrou numa longa agonia...
 
A época de 1992-93 marcou o começo da Premier League, e o Man United, com Schmeichel , Giggs, Cantona e companhia, pôs fim ao longo jejum que durava desde os anos sessenta. O Man United finalmente voltava a ser campeão!
 
Os «Fergie Boys» e o domínio dos devils
 
Os rapazes de Ferguson foi a nova geração brilhante do United: o galês Ryan Giggs, Paul Scholes, os irmãos Neville, Nicky Butt e o mediático David Beckham, brilhavam ao lado das referências como Keane, Ince, Andy Cole ou Dwight Yorke. Seria esta geração, já sem Cantona, que conquistaria novamente a Liga dos Campeões em 1999.
 
Durante a última década do século e a primeira do seguinte, o domínio mancuniano não teve par, com o Man United a conquistar mais de metade das ligas disputadas nesses vinte anos, além de conseguir conquistar uma histórica terceira Liga dos Campeões em 2008.
 
Longe do sucesso do rival, o Liverpool viveu anos de grande frustração, não conquistando nenhuma liga nas duas décadas, vingando-se apenas com a conquista da Taça UEFA em 2001 e o seu maior feito, a conquista da quinta Liga dos Campeões, após uma histórica recuperação na final disputada em Istambul com o AC Milan, conseguindo assim reforçar a condição de clube inglês com melhor palmarés internacional...
 
 
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(1) -  Merseybeat - Também conhecida como música beat ou som Mersey sound, é um movimento musical dos anos 60 que nasceu e teve o seu epicentro em Liverpool, com bandas como The Beatles, Gerry and the Pacemakers, e os The Dave Clark Five.
(2) - Madchester - Foi um movimento de rock alternativo que surgiu em Manchester na década de oitenta e durou até inícios da década de noventa. Entre as bandas mais representativas desse movimento encontram-se: New Order, The Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets, Northside, 808 State, James, The Charlatans, The Fall...
(3) - Ligação escocesa
Entre as bandas mais representativas do movimento destacam-se: The Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets, James, The Charlatans e A Guy Called Gerald.
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