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      Liga dos Campeões 2004/05
      Grandes jogos

      Milan x Liverpool: O milagre de Istambul

      Texto por João Pedro Silveira
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      A 25 de maio de 2005, o Liverpool tinha o encontro marcado com a história. Vinte anos depois voltava a uma grande final europeia. Chegou com 45 minutos de atraso e já perdia por 3x0. Mas, liderados pelo seu grande capitão, iniciaram uma recuperação que ganhou um lugar nos anais da história.

      Um aguardado regresso

      A final de 2005 marcou a sexta ocasião em que o Liverpool chegou ao grande jogo, 20 anos depois da sua última presença: uma final de má memória com a Juventus, em Bruxelas. O Liverpool não só perdeu esse jogo por 1x0 como, pelo lamentável comportamento dos seus adeptos que redundaram na tragédia de Heysel (1), se viu afastado das competições europeias durante um longo período. Quatro vezes campeão europeu, os reds viviam à sombra das míticas equipas dos anos 70 e 80 e de heróis como Dalglish, Souness, Kennedy ou Rush. 

      O adversário era nem mais nem menos que o grande Milan, hexacampeão europeu (2), que chegava à sua décima final. Além da história contava com uma equipa repleta de grandes jogadores como o brasileiro Kaká ou o ucraniano Schevchenko, além de líderes experientes como Maldini, quatro vezes campeão da Europa com a camisola rossonera, ou Clarence Seedorf, que além de ter sido campeão europeu no Milan, também já erguera o troféu com as míticas camisolas de Ajax e Real de Madrid.

      Manhã de promessas em Istambul

      Jamie Carragher e o capitão Steven Gerrard, os únicos ingleses da equipa, ambos nascidos e criados no Merseyside que já iam a Anfield antes de jogarem no clube do seu coração, tinham por missão doutrinar os colegas, lembrando-os da história gloriosa do clube da cidade do Mersey.

      Nessa manhã, Istambul acordou com o habitual som dos muezzin a fazerem a chamada para a primeira oração da manhã; no hotel do estágio, Steven Gerrard não conseguia dormir, antecipando o jogo da noite, inspirando-se nos heróis do passado que brilharam e conquistaram títulos para o gigante de Anfield...

      Nos dias anteriores, os adeptos de Liverpool tinham invadido a cidade do Bósforo, confiantes, cantando cânticos lembrando os feitos do passado. A esperança era obviamente vermelha, se bem que embrulhada em grandes doses de nostalgia...

      Primeira parte de pesadelo

      O relógio marcava 21h45 minutos, horas locais, quando o espanhol Mejuto González apitou para o pontapé de saída do australiano Harry Kewell.

      Os cânticos nas bancadas abafaram o apito do árbitro quando este apitou para a primeira falta do jogo. Andrea Pirlo ajeitou a bola e, da direita, mandou-a para o centro da área, onde apareceu Paolo Maldini a fuzilar Dudek. 1x0, com apenas 51 segundos jogados. Maldini fazia história e apontava o golo mais rápido de sempre numa final da Champions (3)

      Tamanho balde de água fria logo a começar. Os adeptos não queriam acreditar no que os seus olhos viam. O Liverpool entrava literalmente a perder. Mas não demorou a reagir... Minutos depois, primeiro por intermédio de John Arne Riise e depois após um cabeceamento de Sami Hyypiä, os reds estiveram perto do empate.

      Aos 23', Benítez viu-se obrigado a trocar Kewell por Smicer e o Milan, que já ameaçava pegar no jogo, foi acercando-se com cada vez mais perigo da baliza de Dudek. Aos 39', sem surpresa, Kaká avançou no terreno, deixou na direita em Shevchenko que centrou para o argentino Crespo fazer o 2x0.

      Aos 44', a magia da equipa de Ancelotti em todo o seu esplendor. Pirlo roubou a bola, colocou em Kaká que rodou sobre si mesmo e fez um passe de 40 metros perfeito para Crespo picar a bola com veneno e sem hipóteses para Dudek. 3x0 em cima do intervalo. O pior dos pesadelos para o Liverpool. Nas bancadas, os adeptos ingleses incrédulos pareciam perguntavam aos deuses: porque passar tanto tempo para voltar ao grande palco e depois se sofrer tamanha deceção? 

      Segunda parte de sonho

      O segundo tempo começou com o Liverpool decidido a tentar corrigir a história da primeira parte. Benítez tirou Finnan e lançou o alemão Hamann. Mejuto González apitou para o início da segunda parte da final da 50ª edição da competição mais importante de clubes no mundo e poucos podiam crer no que iria acontecer a seguir...

      Os liverpuldianos cerravam os dentes e lançavam-se ao adversário. Nove minutos passados desde o recomeço, Riise tentou centrar da esquerda, Cafu impediu que saísse o centro, o norueguês insistiu, voltou a centrar, a bola passou o lateral brasileiro e encontrou a cabeça do capitão dos reds, que a desviou com classe e precisão para o fundo da baliza de Dida. Luis Garcia foi logo buscar a bola, Gerrard correu para o meio-campo e todos regressaram num instante para a sua metade do terreno. 

      Dois minutos depois, novo ataque, Hamann deixou a bola para o checo Smicer que, de longe, fuzilou Dida. 3x2 num par de minutos. Tudo era possível! 

      O Milan acusou o toque, ficou nervoso, o Liverpool acreditou e aproveitou para subir no terreno. Mais tarde, Gattuso derrubou Gerrard dentro da área e o árbitro marcou penálti. Xabi Alonso na frente de Dida. O espanhol rematou, mas o brasileiro parou o remate. Na recarga, Alonso fez o 3x3! A bancada dos adeptos do Liverpool foi abaixo. Em 15 minutos, os reds anularam uma desvantagem de três golos! 

      Prolongamento, grandes penalidades e São Dudek

      Milan voltou a acordar e carregou novamente. Mas Seedorf, depois Shevchenko e por último Crespo falharam o 4x3 e o jogo foi para o tempo extra. Aos trinta minutos, Pirlo perdeu uma oportunidade, depois Tomasson também e o Liverpool parecia conseguir aguentar o barco.

      Perto do fim, Sheva esteve muito perto de fazer o golo, mas Dudek conseguiu fazer a defesa e na recarga, de forma miraculosa, negou o 4x3 ao avançado ucraniano. Trinta minutos passados, González deu por terminada a partida. Pela 13ª vez, a final da Champions chegava ao desempate através da marca de onze metros.

      Primeira parte, segunda parte, prolongamento e grandes penalidades... Emoção sem fim! Não se podia pedir mais para comemorar cinquenta anos de finais europeias.

      O guarda-redes polaco tornou-se o grande herói, imitando as façanhas de Grobbelaar na final de Roma (4), parando primeiro o remate de Pirlo e, no fim, o de Shevchenko. Vinte e um anos depois da final de Roma, o grande Liverpool reencontrou-se com a história.

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      (1) - Estádio do Heysel, em Bruxelas, uns anos depois da tragédia e após a remodelação e para apagar a carga negativa do nome passou a chamar-se Estádio Rei Balduíno.
      (2) - Na altura da final, o AC Milan já conquistara a Taça dos Clubes Campeões Europeus e/ou a Liga dos Campeões em seis ocasiões: 1963, 1969, 1989, 1990, 1994 e 2003) e perdera as finais de 1958, 1993 e 1995.
      (3) - De todas as edições, tanto da Taça dos Clubes Campeões Europeus como da sua sucessora, a Liga dos Campeões.
      (4) - Bruce Grobbelaar, o guarda-redes sul-africano, internacional pelo Zimbabué, que brilhou com a camisola do Liverpool, ganhou a imortalidade pela forma como provocou os adversários romanos no desempate por grandes penalidades na final da Taça dos Campeões em 1984.

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      jogos históricos
      U Quarta, 25 Maio 2005 - 19:45
      Atatürk Olympic
      Mejuto González
      3-3
      Steven Gerrard 54'
      Vladimír Šmicer 56'
      Xabi Alonso 60'
      Paolo Maldini 1'
      Hernán Crespo 39' 44'
      Estádio
      Atatürk Olympic
      Lotação76092
      Medidas105m x 70m
      Inauguração2002
      TEXTO DISPONÍVEL EM...