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História

Futebol e colonialismo

Texto por João Pedro Silveira
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África será o mais estereotipado dos continentes. Quando se pensa em futebol no Continente Negro uma imagem comum será pensar num descampado, duas balizas formadas com pedras e paus enterrados no terreno, um bando de miúdos descalços a correrem atrás da bola de trapos. 

Esta imagem poderá soar a cliché, mas a extrema pobreza e a desigualdade atroz é a realidade que a esmagadora maioria dos africanos encontra todos os dias. 

O futebol é um escape, uma diversão, uma paixão do continente. À falta de meios ou equipamentos responde-se com dedicação e improvisação. Em África não será a falta de uma baliza ou de umas chuteiras que vão impedir um jogo. 

Esta é a história do jogo em África desde a primeira hora. Complexa, violenta, o que faltava em dinheiro, tática, organização sobrava em racismo, encanto ou magia. O futebol africano é mais que um jogo, e é assim desde a primeira hora em que os europeus o introduziram no continente. 

Um continente partilhado

Na viragem do século XIX para o XX, África estava retalhada pelas grandes potências europeias da altura, como a Inglaterra e a França, e em menor escala a Alemanha e a Itália. Portugal e a Espanha se bem que decadentes mantinham o resto da anterior grandeza dos seus impérios e o próprio Rei Leopoldo da Bélgica tinha um domínio próprio, o Congo, que mais tarde legaria aos belgas.

Ao olharmos para o mapa africano de então percebemos que só a Etiópia e a Libéria não estavam na mão do homem branco.  E como tantas outras importações e inovações que chegavam a África, o futebol foi introduzido pelos europeus. 

O futebol começou a ser lentamente a ser jogado por todo o lado. Primeiro os marinheiros e soldados dos exércitos coloniais, depois gente ligada à administração colonial como os engenheiros e professores, depois os comerciantes e os colonos que chegavam, inclusive os missionários que cedo descobriram no jogo uma forma de se aproximar dos jovens e assim mais facilmente os converter. 

As escolas, fossem estatais ou religiosas, funcionaram verdadeiramente como missionárias do jogo. A Nigéria receberia o futebol através do porto de Calabar, pela mãos de presbiterianos da Jamaica, que além da palavra do Senhor trouxeram consigo uma bola de futebol.

Seria o Reverendo James Luke, diretor da Hope Waddell Training Institute que trouxe a bola que começaria o amor entre os nigerianos e o «beautiful game». A 15 de junho de 1904 os alunos descalços da escola defrontaram os tripulantes do Cruzador HMS Thistle venceram por 3x2.

O futebol começou a ganhar terreno nos domínios de Sua Majestade. África de Sul, Gana, Zanzibar, mais tarde o Egito. O jogo do povo enfrentava a concorrência dos jogos de cavalheiros como o críquete, o râguebi ou o ténis, cativando os indígenas, que preferiram desde a primeira a hora a bola redonda à oval. 

África do Sul: um jogo para brancos outro para negros

Pela considerável população branca que tinha na segunda metade de oitocentos e pela sua importância no contexto imperial britânico a África do Sul tornou-se naturalmente o primeiro foco de desenvolvimento do futebol no continente. 

©Getty / George W. Hales
Os primeiros jogos de que há menção terão sido jogados em 1862 em Porto Elizabeth e na Cidade do Cabo, disputados entre administradores coloniais e soldados.

O primeiro clube (só de brancos) nascera em Pietermaritzburg em 1879, um ano depois já há registo da existência de equipas negras e compostas por indianos tanto em Joanesburgo como Durban. Em 1882 nascia a Associação de Futebol do Natal, que apenas admitia brancos. Seria essa mesma associação que dez anos depois está por detrás da fundação da SAFA (South African Football Association). Mais três anos volvidos e a SAFA era admitida na Football Association em Inglaterra. 

Em 1897 o famoso clube inglês Corinthian visita a África do Sul e no ano seguinte é a vez de uma equipa do Estado Livre do Transval visitar o Reino Unido. Meses depois é a vez da primeira equipa de uma equipa composta por negros jogar na Escócia, Irlanda, País de Gales e Inglaterra, o futebol sul-africano crescia, separando desde a primeira hora brancos, negros e indianos.

Divisões sociais

Por toda a África Britânica o futebol vai se desenvolvendo. Nas colónias com mais autonomia e como tal com menos administradores e colonos o futebol destaca-se, enquanto em colónias com considerável número de colonos são os chamados "Gentlemen's sports" como o râguebi e o críquete que além da África do Sul ganham força no atual Uganda, na Rodésia, na África Oriental Britânica (Quénia). Por sua vez nas colónias da África Ocidental (Gana, Nigéria, Serra Leoa...), do Norte de África e do Corno de África, é o futebol que se impõe. 

O domínio económico e político do homem branco fazia sentir-se por todo o continente. Os europeus controlavam tudo e eram donos de tudo. Mesmo os clubes inteiramente formados por jogadores locais usavam instalações desportivas alugadas ou emprestadas por proprietários brancos. Em alguns casos as equipas locais tinham inclusive que pedir a bola emprestada a um branco para disputarem os seus jogos. Zanzibar a comissão de desportos local obrigava a que todos os árbitros fossem brancos. 

No Egito o futebol tornou-se rapidamente numa paixão nacional com os locais a tornarem o jogo seu pouco depois de os ingleses aí terem chegado e fundado o primeiro clube em 1903. Quatro anos volvidos nascia o Al-Ahly, o primeiro clube 100% egípcio  e que desde a primeira hora assumiu-se como nacionalista, desafiando o domínio colonial britânico. 

Seria no Cairo que nasceu a primeira federação de futebol independente (1921) e que em 1923 já estava filiada na FIFA, três anos depois de já ter competido no torneio olímpico de futebol. Em 1934, os egípcios marcariam presença no mundial de Itália. 

O caso francês

Se a segregação racial nos domínios britânicos impediu que durante décadas os jogadores negros jogassem com brancos ou tentassem a sorte na própria Inglaterra, já no caso francês desde os anos 30 que jogadores provenientes das colónias jogavam em clubes da metrópole. 

Ao contrário dos ingleses que dividiam o seu império consoante a importância e as ligações à metrópole dividindo-o em territórios ultramarinos ou colónias, dependências da coroa e domínios (como Austrália, Canadá, Nova Zelândia e África do Sul com um elevado grau de autonomia), os franceses tinham uma conceção diferente de nação. A Grande Nation Française estendia-se da Normandia ao Vietname. Há muito que os territórios ultramarinos franceses enviavam deputados para a assembleia nacional em Paris.

©Getty / Keystone
Desde a primeira hora que nas colónias francesas com grande número de colonos europeus como Marrocos, Argélia e Tunísia, o intercâmbio futebolístico entre colonos e colonizados era uma realidade. 

A par com a África do Sul o Magrebe francês seria a zona mais urbanizada e industrializada do continente. Cidades como Ourão, Tunes, Argel, Marraquexe e Casablanca tinham grandes comunidades europeias que cedo contaram com clubes de futebol. Muitos dos craques que despontavam nas provas locais cedo deram o salto para o outro lado do mediterrâneo para jogar nos melhores clubes do «hexágono».

A maior dessas estrelas seria o marroquino Larbi Ben Barek que brilhara na Union Sportive Marocaine de Casablanca antes de se mudar para Marselha, onde jogou no Olympique em 1938 e mais tarde brilharia em Paris ao serviço do Stade Français, chegando inclusive à seleção gaulesa. 

Outra estrela seria o argelino Ahmed Ben Bella que jogou também no Olympique e que anos mais tarde seria Presidente da República depois da independência da Argélia. 

Outro dos grandes nomes do futebol francês, o goleador Just Fontaine - melhor marcador do mundial da Suécia em 1958 com um recorde que perdura de 13 golos numa só edição - nasceu em Marraquexe, Marrocos e brilhou em Casablanca antes de se mudar para França onde jogou primeiro no Nice e mais tarde no grande Stade de Reims, o melhor clube francês dos anos 50. 
 
A singularidade portuguesa
 
A situação no império português não seria muito diferente do que se passava no império francês. Angola e Moçambique foram desde cedo verdadeiros viveiros de grandes jogadores que alimentaram o futebol nacional durante décadas. 
 
Desde a segunda década do século XX que o futebol chegou às colónias pela mão de gente ligada à administração colonial, ao exército e à marinha. A 1 de setembro de 1922 o Sporting Clube de Luanda que nascera dois anos antes tornava-se filial do Sporting Clube de Portugal, no mesmo ano, em data incerta nascia o Sport Luanda em Benfica, mais tarde nasceria também a filial portista, o FC Luanda. 
 
O fenómeno espalhou-se por todas as colónias portuguesas em África e estes clubes estreitaram relações com as casas mães na metrópole enviando os seus melhores jogadores para Portugal.
 
Fernando Peyroteo seria o primeiro grande jogador nascido em África a marcar uma era no futebol nacional. Proveniente de Angola, onde nascera e jogara no Sporting de Luanda, chegou a Alvalade onde fez parte da mítica equipa dos «Cinco Violinos» e onde em 197 jogos oficiais apontou 331 golos, uma média extraordinária que ainda hoje é recorde mundial.
 
©Getty / Kent Gavin
Entre outros nomes que se destacaram segue-se nesta lista Matateu, a grande estrela do Belenenses, que tal como Peyroteo marcou uma era no futebol lusitano. Nome incontornável é também o do benfiquista Coluna, «o monstro sagrado», um dos melhores médios da história do futebol mundial. 
 
A lista é imensa e repleta de nomes que deixaram saudades aos adeptos portugueses como Dinis, Mário Wilson, Jacinto João, Vicente, Iaúca, José Águas, Santana, Jordão, Hilário, Jorge Mendonça. 
 
Mas o nome incontornável é o de Eusébio da Silva Ferreira, herói maior do Benfica e grande estrela da seleção nacional no mundial de Inglaterra em 1966. Portugal apresentava então uma seleção que era à imagem do regime.
 
Portugal era uma nação pluricontinental que se estendia do Minho a Timor. A Seleção das Quinas refletia essa multiculturalidade, pois ao contrário da maioria das nações europeias, exibia na sua equipa regularmente jogadores de cor e assim seria até aos nossos dias. A seleção portuguesa servia o próposito do regime de Salazar. 

Quando grande parte do continente já se tornara independente, Portugal era um país isolado, apontado a dedo pelas democracias do Norte da Europa, pelos Estados Unidos da América e a União Soviética e os seus aliados. 

Sozinho, Portugal apresentava no Campeonato do Mundo uma seleção que cumpria o próposito político do regime, mas se o isolamento internacional do país continuou depois de terminada a competição, internamente, durante algum tempo o terceiro lugar seria apresentado como um importante trunfo político que o Estado Novo não podia desprezar.

A independência
 
Terminada a Segunda Guerra Mundial as potências europeias começaram a abandonar as suas possessões africanas. África do Sul, Egito, Libéria e Etiópia eram as únicas nações independentes em todo o continente, mas as duas primeiras ainda não estavam totalmente livres de uma certa forma de domínio britânico.
 
O processo que conduziu à independência do continente começou na década de 50 com os países do norte como a Líbia, Tunísia, Sudão e Marrocos. Em 1957 o Gana tornava-se a primeira colónia negra do Império britânico a conseguir a independência. No ano seguinte a Guiné francesa torna-se independente com o nome de Guiné Conacri. 
 
Nos anos 60 uma verdadeira onda independentista percorreu o continente e quando a Espanha deu independência à Guiné Equatorial apenas as colónias portuguesas, o Sara Ocidental, o Jibuti, as Comores e Seicheles mantinham-se debaixo do domínio europeu.

Chegava ao fim o longo trajeto do futebol colonial e as nações africanas podiam finalmente competir de igual para igual com os seus antigos senhores. 
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