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Grandes Equipas

Hungria: «A Equipa D'Ouro»

Texto por João Pedro Silveira
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Os adeptos de futebol adoram debater quem é o melhor jogador da atualidade ou quem foi o melhor jogador de sempre. Ronaldo ou Messi? Pelé ou Maradona?  E quando não são jogadores, são os treinadores, ou então as equipas. 

Todos terão uma opinião sobre qual é melhor equipa de todas. Real Madrid das cinco taças dos campeões ou o Barcelona de Pep Guardiola? A Laranja Mecânica de Cruijff? O Brasil de 70? A magnífica geração Espanhola? Mas o que é que define o conceito de melhor equipa de sempre?
 
Que parâmetros contam para tal avaliação? Será (à época) ser a equipa que ganhou mais jogos consecutivos? Será obter a máxima pontuação da história num Ranking de seleções? Será o recorde de número de jogos consecutivos com golos marcados? Será obter o maior número de golos numa só fase final de um mundial? Será bater o recorde de diferença de golos numa fase final de um mundial? Será ser a equipa que esteve mais tempo sem perder um jogo na história? Será ter a melhor média de vitórias da história? 
 
É que se estes são os parâmetros, então não há dúvidas. A melhor equipa de sempre foi a mágica Hungria dos anos cinquenta, que passou à posteridade com o ilucidativo nome de «A Equipa D´Ouro».
 
«Made in» Budapeste
 
Aranycsapat, como era conhecida na sua língua natal, encantou todos os que a viram jogar, deixando para as gerações vindouras o mito de um futebol de tal maneira avassalador que muitos adversários tremiam, só de imaginar pisar o mesmo relvado que os húngaros.
 
Os mágicos magiares foram, os números assim o apontam, uma das mais eficazes máquinas de futebol atacante da história. As suas exibições, as vitórias e os seus resultados históricos, criaram uma aura de invencibilidade que perdurou muito para além da sua existência.
 
Entre 1949 e 1956, os húngaros dominaram completamente o futebol mundial, batendo recorde atrás de recorde, desafiando e derrotando todas as potências de então, chamando a si o título de melhor equipa do Mundo.
 
Comandada pelo treinador Gusztáv Sebes, a equipa foi construída à volta da base constituída por seis magníficos jogadores: Ferenc Puskás, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, Zoltán Czibor, József Bozsik e Gyula Grosics.
 
O método de Sebes
 
Gusztav Sebes, treinador e principal mentor da «Equipa D´Ouro» magiar.
Sebes, um perfeccionista, foi o primeiro responsável pelo sucesso da equipa, escolhendo um a um, todos os jogadores, que com muito treino, se tornaram em alguns dos melhores artistas da história do futebol como Kockis, Czibor ou o lendário fora de série: Puskás. 
 
Respeitado pelos jogadores, dedicado à equipa, apaixonado pelo desporto, «obrigava» os seus rapazes a um rígido plano de ginástica e manutenção. Antes de tudo mais, Sebes queria grandes atletas, dando muita atenção ao treino e à metodologia, procurando elevar sempre a sua condição física.
 
No campo, exigia dos seus jogadores, uma total solidariedade para com ele e com os colegas. A equipa estava acima de qualquer ego pessoal.
No seu grupo, todos atacavam e todos defendiam, antecipando em mais de duas décadas o famoso futebol total da Laranja Mecânica de Rinus Michels.
 
Para Sebes, os jogadores tinham que ser polivalentes e capazes de jogar em qualquer posição, tudo em prol do sucesso da equipa. Mas talvez mais importante de tudo, fosse a inovação tática que introduziu, alterando o então famoso sistema W-M, que continha cinco avançados, terminando com o posição fixa de ponta de lança, fazendo recuar o quinto jogador para o meio campo, e obrigando os dois alas a recuarem para o meio-campo sempre que defendiam, inaugurando o sistema 2-3-3-2 que com o tempo se tornaria no 4-2-4 com que o Brasil de Pelé conquisaria o mundo em 1958 e 1962.
 
As primeiras vitórias
 
A história começou a 8 de maio de 1949 em Budapeste com uma vitória (6x1) sobre a vizinha Áustria. Poucos imaginariam que aquela vitória seria apenas a primeira página da história escrita pela mais memorável equipa que já pisou um relvado de futebol...
 
Ausente do torneio Olímpico de futebol de 1948 e da qualificação para o mundial de 1950 no Brasil, a Hungria centrou todas as expectativas na qualificação para os jogos de Helsínquia em 1952.
 
Com Sebes a escolher um núcleo duro de jogadores, que jogavam juntos tanto na seleção, como no Honved de Budapeste, os resultados foram confirmando o valor da aposta.
 
Ao nono jogo, a 14 de maio de 1950, em Viena, surgiu a primeira derrota (5x3) e por certo que quem assistiu ao encontro estaria longe de imaginar que esta seria a única derrota da Hungria durante os próximos quatro anos...
 
Seguiram-se dois anos de vitórias, entre elas uma histórica vitória de 12x0 sobre à Albânia, que lançaram a Hungria na rota dos Jogos Olímpicos, escudada num caminho trilhado vitoriosamente.
 
A conquista de Helsínquia 
 
Com sucesso atrás de sucesso, chegavam à capital finlandesa com a áura de invencíveis, mas contudo não se livravam de ter de jogar uma pré-eliminatória.
 
1952, em Helsínquia a Hungria conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, batendo na final a Jugoslávia por 2x0.
A vitória suada sobre a Roménia não deslumbrou e os céticos fizeram-se ouvir, mas Sebes manteve a aposta nos jogadores, confiante no sucesso. Uma vitória por 3x0 sobre a Itália, deixou o mundo de sobreaviso, mas foi a goleada (7x1) e o futebol espetacular exibido nos quartos-de-final contra  a Turquia que abriram os olhos do mundo...
 
Nas meias-finais a Suécia - que era a campeã em título - foi esmagada por 6x0 e na final depois da vitória sobre a Jugoslávia (2x0), a imprensa local já coroava a equipa magiar como a melhor do mundo... 
 
O «Jogo do Século»
 
Após os Jogos, a fama da magia húngara espalhou-se pelo continente, começando a falar-se insistentemente na equipa maravilha que seria capaz de vencer qualquer adversário. 
 
A vitória no Campeonato da Europa Central em 1953, com um claro 3x0 sobre os italianos no jogo decisivo, foi o despoletar de uma polémica em torno do estatuo da melhor equipa do mundo, que levou a Federação Inglesa a convidar os magiares para um amigável em Wembley
 
25 de novembro de 1953: a Hungria torna-se a primeira seleção não britânica a vencer em Inglaterra, humilhando os ingleses em Wembley com um histórico 3x6.
Os ingleses, inventores do jogo, sempre se consideraram a melhor equipa do mundo, com os melhores jogadores e até aí nunca haviam sido batidos em casa por uma equipa de fora das ilhas britânicas.
 
Sempre que havia uma grande equipa no continente, esta era convidada a ir a Inglaterra, para desafiar a melhor equipa do mundo, e todas, até então, acabavam vencidas às mãos inglesas...
 
A 25 de novembro de 1953, em Wembley, 105 mil espetadores observavam e entrada das duas equipas, cientes que iriam presenciar um jogo histórico. Os ingleses estavam confiantes e a imprensa britânica alcunhara a partida de «Jogo do Século».  Os húngaros não se assustaram e entraram em campo decididos a mudar a história. Logo ao primeiro minuto marcavam e aos 20 já venciam por 1x4. Os ingleses estavam atónitos...
 
O resultado final de 3x6 escandalizou os ingleses, mas com o seu «fair-play» habitual consideraram a Hungria a melhor equipa do mundo. Era o fim do mito da superioridade inglesa que em pouco tempo abandonaria as suas antigas táticas, passando a guiar-se por métodos de treinos continentais. A Hungria destronava a Inglaterra do trono do futebol mundial, e os seus jogadores eram recebidos como heróis quando chegaram a casa.
 
Em maio de 1954, três semanas antes do mundial da Suíça, os ingleses deslocaram-se a Budapeste com a esperança que o jogo do ano anterior não tivesse passado de um mero acidente. Mas mais uma vez as esperanças inglesas caíram rapidamente por terra e os magiares não tiveram piedade dos britânicos esmagando a seleção dos três leões com um histórico 7x1 - até hoje o pior resultado de sempre do futebol inglês! Destronada e humilhada a Inglaterra, chegara o grande objetivo dos magiares: o Campeonato do Mundo de 1954.
 
O mundial de 1954
 
Os capitães da R.F.A e Hungria, momentos antes do pontapé de saída da final do Campeonato do Mundo de 1954.
Na estreia, em Zurique, pela frente estava a Coreia do Sul, que não teve a menor possibilidade e saiu vergada a um pesado 9x0, que se tornava então a maior goleada de sempre numa fase final de um mundial.
 
Dias depois defrontaram a Alemanha Ocidental, que foi despachada com um estridente e humilhante 8x3. Nos quartos-de-final, o Brasil, vice-campeão do Mundo, não conseguiu parar a máquina magiar e perdeu por 4x2, num jogo que passou à história como a «Batalha de Berna», dada a dureza e violência com que os jogadores das duas equipas se defrontaram.
 
Batidos os vice-campeões, nas meias-finais era a vez de defrontar os campeões uruguaios que nunca haviam perdido um jogo numa fase final de um mundial - campeões sem derrotas em 1930 e 1950, não tinham disputado os torneios de 1934 e 1938, em protesto com o domínio europeu sobre a FIFA.
 
Em Lausana, a «Celeste Olímpica» e a «Equipa D'Ouro» da Hungria deram um dos maiores espetáculos de todos os tempos. Com emoção e golos e incerteza no placard
 
Os magiares saíram na frente e chegaram ao 2x0 já na segunda parte, mas num último assomo de honra, os campeões do mundo recuperaram com dois golos no derradeiro quarto de hora, obrigando os húngaros a jogar um prolongamento.
 
Nos trinta minutos extra a Hungria voltou à carga, e dois golos de Kocsis decidiram a partida, com os sul-americanos sem força para voltar a recuperar... Acabava invencibilidade uruguaia e a Hungria chegava à final do Mundial pela segunda vez na sua história, mas ao contrário de 1938, agora a seleção magiar era de longe a grande favorita...
 
O «Milagre de Berna»
 
Chegou finalmente o aguardado dia 4 de julho, o Estádio Wankdorf em Berna, era o local onde os olhos do mundo se centravam: de um lado a Hungria, campeã olímpica em título, imbatível desde 1950, a única que podia gabar-se de ter vencido os ingleses em sua casa e que acabara de bater os campeões do Mundo. Se tal não bastasse, 14 dias antes tinha humilhado esta mesma seleção alemã com uma goleada histórica por 8x3. 
 
Do outro lado da barricada, estava uma equipa humilde, capitaneada por Fritz Walter, e que desde a humilhação sofrida contra os magiares, tinha levantado a cabeça e vencido todos os adversários que lhe tinham aparecido pela frente, chegando à primeira final do seu historial.
 
A expectativa era grande, não relativamente ao vencedor, mas para se saber por quantos golos venceria a Hungria. Se havia crentes na vitória alemã federal, aos oito minutos de jogo já ninguém tinha dúvidas, graças aos golos de Puskas (6´) e Czibor (8´), a Hungria caminhava para o seu primeiro título mundial. A Alemanha Federal ia ser goleada pela segunda vez num espaço de duas semanas...
 
O golo decisivo de Rahn na final do mundial, que custou a única derrota aos húngaros num espaço de seis anos.
Mas dois minutos depois, numa jogada de ressalto, Morlock reduziu e trouxe alguma esperança às cores teutónicas. Estranhamente, os húngaros acusaram o toque e durante alguns minutos pareciam incapazes de construir uma jogada com «pés e cabeça».
 
Após passarem as ondas e de choque, e quando já começavam a dar sinal de voltarem a pegar no jogo, os alemães apontaram o surpreendente golo do empate (18´). Em menos de dez minutos a Alemanha empatara o jogo, e nem sequer vinte minutos da partida se haviam jogado... Até ao intervalo a Hungria dominou, mas de forma nervosa e insegura, e o apito para o intervalo do inglês William Ling, foi bem recebido por Sebes e os seus jogadores.
 
O intervalo trouxe nova vida aos húngaros. Com um 2-3-3-2 bem estruturado no relvado que se desdobrava num ofensivo 4-2-4, onde quatro setas apontavam diretamente a baliza do guardião Turek. Os ataques magiares fizeram o barco alemão tremer, mas não afundar.
 
«Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse», como eram conhecidos Puskas, Czibor, Kocsis e Hidegkuti, foram incapazes de furar a “muralha” germânica, e os húngaros acabaram por ser derrotados, obra de Rahn, autor do terceiro golo alemão, apontado a seis minutos do fim.
 
Quando o inglês Ling apitou para o final, os alemães envolveram-se em festejos no meio do relvado, enquanto os húngaros não acreditavam no que lhes tinha acontecido. A Hungria perdia o seu primeiro jogo em mais de quatro anos, precisamente na final do Campeonato do Mundo... 
 
No centro do relvado e nas bancadas os alemães festejavam, e a notícia da vitória espalhava-se por uma Alemanha incrédula que não queria acreditar no «Milagre de Berna». Em Budapeste, e por toda a Hungria, o silêncio imperava, culpa do soturno regime comunista que tinha imensa dificuldade em lidar com a derrota, depois de tanto utilizar a «Equipa D´Ouro» como símbolo do regime.
 
A Revolução e o fim da «Equipa D´Ouro»
 
Durante os dois anos seguintes, a Hungria disputaria mais 19 jogos, vencendo 16 e empatando apenas três, qualificando-se para os Jogos Olímpicos de Melbourne, mesmo depois de Sebes ter sido demitido.
 
Em outubro de 1956, a equipa do Honved encontrava-se em Bilbao para jogar a primeira partida da Taça dos Campeões Europeus, quando estalou a revolução em Budapeste. 
 
Apanhados de surpresa, os jogadores recusaram-se a regressar logo à Hungria, optando por fazerem o segundo jogo na Bélgica. Após a eliminação do Honved, alguns jogadores tinham conseguido reunir-se com a família e nunca mais regressaram à Hungria como Puskás, Kocsis e Czibor. Era o fim da mítica equipa magiar, que saía da história com 90% de vitórias em todos os jogos disputados e apenas com uma derrota averbada entre junho de 1950 e fevereiro de 1956, precisamente no único jogo que era impossível perder, a final do Campeonato do Mundo.
Comentários (8)
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motivo:
Equipa D´Ouro
2015-01-22 21h14m por paulo218927
A verdadeira equipa de Ouro em todos os aspectos, perfeita apenas falhou na grande final do Mundial de 1954 perante a Alemanha que até na fase de grupos tinha ganhado por uns esclarecedores 8-3.
Enfim a história não se repetiu e apesar desta derrota conquistou medalhas de Ouro e prestigio por todo o Mundo que ainda hoje é recordado.
São 3 as medalhas de Ouro que ainda hoje detém o recorde.
Puskas
2012-07-04 15h33m por voltei_ale
Um jogador que vinha para o Porto, mas preferiu o salario do Real
MU
um exemplo a não esquecer
2012-07-04 15h08m por mustafaz84
Este artigo não só recorda uma geração de ouro do futebol europeu e mundial, como também serve de aviso a um erro que não se deve cometer, por exemplo na nosso futebol, ou seja, a falta de investimento e aposta nas camadas jovens. Isto porque a nossa selecção, que está actualmente entre as melhores do mundo, não se irá manter eternamente assim, logo se a formação de novos jogadores, for mal feita, corremos o risco de nos acontecer o mesmo que aconteceu ao futebol Húngaro
Hungria. . .
2012-07-04 11h19m por marcelinoSF
o futebol hungaro ja tinha muita fama mesmo antes do anos 50.
Muitos treinadores e jogadores Hungaros vieram para Portugal e até algums naturalizaram-se portugueses:
Na historia do FCP por exemplo, entre 1925 e 1947, os treinadores eram todos Hungaros. No mesmo periodo o SCP teve 4 treinadores hungaros e o SLB 3.
E como nao se esquecer de um dos melhores treinadores de sempre que actuou em Portugal que era hungaro, o Bela Guttmann.
Uma selecção histórica.
2012-07-04 11h08m por Afrikaner
Que escreveu páginas de ouro na história do futebol.

Uma raridade de classe e qualidade.
Impressionante
2012-07-04 09h47m por rafa_fcp_gvfc
é bom saber que houve pequenos clubes e selecçoes que conseguiram tornar-se em grandes equipas do futebol mundial de sempre. Muito bem Hungria, muito bem. . .
DZ
Grande Hungria !
2012-07-04 01h26m por Dzsudzsak_Debreceni
O Puskas é sem duvida um dos melhores de sempre, que equipa de sonho que tinham!
QU
fogo
2012-07-04 01h16m por Quark_Return
de facto a hungria já teve das melhores selecções do mundo