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      O grande Blackburn de Sir Kenny Dalglish

      Texto por Ricardo Lestre
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      O futebol inglês é adorado e visto como exemplo no mundo inteiro. Há uma magia que nem todos conseguem explicar, inerente a todas as temporadas, que torna, sobretudo, a Premier League num filme que ainda não estreou, mas que já é apontado como um dos melhores do ano, que enche cartazes publicitários e que deixa um planeta inteiro louco pela estreia oficial. 

      Os anos 90 tiveram o dom especial de trazer muitas novidades para o futebol: novas competições, mudanças de formato, grandes craques, grandes equipas e campeões improváveis. A junção desses dois últimos fez furor numa Inglaterra cada vez mais resignada com a hegemonia do Manchester United, precisamente nessa altura. Uma espécie de Leicester City dos tempos modernos (com as devidas diferenças, até porque o investimento dos rovers foi efetuado com o objetivo de conquistar títulos), brilhante conjunto esse bem vivo na memória das gerações mais novas.

      Em 1995, proveniente de uma cidade que outrora fora um dos grandes centros da revolução industrial, o Blackburn Rovers subiu até ao Olimpo. Porque, salienta a gíria, para ganhar a Premier League é preciso andar de mãos dadas com os deuses do futebol e apenas seis clubes tiveram esse enorme privilégio. Jack Walker, Kenny Dalglish e uma equipa histórica fizeram por merecê-lo.

      There is only one Jack Walker...

      E se tudo se resumiu a um sonho concretizado, quem o tornou possível foi Jack Walker, cuja estátua reluz nas proximidades do Ewood Park. Homem da terra, acérrimo rover e um empresário de sucesso da indústria do aço que começou por construir os alicerces salvadores de uma queda a pique do seu Blackburn.

      Walker assumiu a presidência do clube em 1991, numa altura em que havia sérios riscos de despromoção para o terceiro escalão, e deu corpo e alma para a espetacular recuperação nos anos seguintes.

      Contam várias bocas que gastou quase 100 milhões de libras da sua fortuna para reerguer o clube do coração e levá-lo ao topo para fazer parecer o Manchester United «barato». Nunca foi uma figura unânime, muito menos adorada, acima de tudo pela imprensa. O Independent, em 1992, apelidou-o de «homem mais impopular do futebol».

      Não era difícil imaginar Walker como um clássico magnata: vivia em Jersey por motivos relacionados os impostos e viajava no seu jato particular para os jogos, além de ter proferido tiradas com uma grande dose de arrogância. Diz-se, por exemplo, que recusou contratar Zinedine Zidane, para enfrentar a Liga dos Campeões, porque já tinha Tim Sherwood no plantel.

      Um ser especial à sua maneira que tinha plano bem delineado na sua cabeça. Pegou num Blackburn em risco de cair nas profundezas do futebol inglês - entrou a meio e terminou em 19º no segundo escalão em 1991 - e alavancou-o até ao topo sob a promessa de fazer dos rovers o maior e próspero clube que Inglaterra alguma vez viu, não evitando a queda a pique nos anos seguintes (prestação paupérrima na Champions e descidas de divisão).

      O primeiro passo foi dado com a contratação de Sir Kenny Dalglish para o cargo de treinador, lenda do Liverpool que terminado um ciclo vitorioso nos reds. Num ápice, e sempre em alta rotação, o clube voltou ao principal escalão inglês, quebrando um jejum de 27 anos.

      O investimento, a base e o mastermind

      Jack Walker nunca teve a intenção de poupar. Aliás, era precisamente o contrário. Sabia que, para criar o impacto pretendido, tinha de entrar de rompante. E o regresso do Blackburn à alta roda, em 1992/93, coincidiu com um ponto de viragem já que, nessa mesma época, a Premier League nasceu oficialmente.

      O clube adaptou-se na perfeição aos novos modelos propostos e começou a construir uma base para o futuro. O impacto junto dos grandes não podia ser nada mais do que extravagante. Walker abriu os cordões à bolsa e investiu 11,4 milhões de libras para reforçar o plantel. Números astronómicos para a altura e, mais do que isso, para a entidade em questão. Até porque o Tottenham, segundo da lista, gastou... 5,9.

      Kenny Dalglish, o responsável por trazer muitos reforços ©Blackburn FC
      Henning Berg, Patrik Andersson, Graeme Le Saux, Stuart Ripley, o virtuoso Tim Sherwood e um fenómeno chamado... Alan Shearer. Um jovem avançado com chama que despontou e deslumbrou em Southampton e que preferiu Blackburn a Manchester ou Liverpool após o Euro '92. Nessa altura, a contratação de Shearer caiu como uma bomba e recheou as manchetes da imprensa: a transferência mais cara levada a cabo por um clube britânico (3,6 milhões de libras).

      Houve um denominador comum em todas as operações: Kenny Dalglish. O escocês, que ao sair de Anfield tinha ponderado terminar a carreira de treinador, foi o responsável por atrair praticamente todos os nomes, fazendo um trabalho que, sem a sua presença, era praticamente impossível de ser realizado.

      «Kenny Dalglish era meticuloso em praticamente tudo o que fazia: recrutamento, táticas, análise de oposição. Ele ligou pessoalmente a 10 pessoas diferentes para saber mais sobre o meu caráter e temperamento antes de me contratar. Às vezes juntava-se a nós nos treinos e com 44 anos conseguia ser o nosso melhor jogador!», recordou, ao The Guardian, Tim Flowers, um dos heróis de 1995.

      A estátua em memória de Jack Walker nas imediações de Ewood Park ©Blackburn FC
      A primeira época do Blackburn de Dalglish na Premier League deu para ter uma ideia perfeita do que estava para vir. Alan Shearer apareceu com estrondo - 10 golos logo nas primeiras 10 jornadas -, lesionou-se antes da segunda volta e a equipa caiu de rendimento, apesar de ter segurado um sólido quarto lugar. Na temporada seguinte houve nova subida de patamar. Mais um ano, mais milhões investidos. Walker não estava para brincadeiras: mais 10 milhões de libras investidas para apetrechar o plantel.

      Chegaram David Batty, Paul Warhurst por valores incríveis (2,75 milhões de libras cada) e o experiente e respeitado Tim Flowers, guarda-redes do Southampton e da seleção inglesa, que se tornou, sem mais, nem menos, no guardião mais caro do futebol inglês ao ser contratado por 2,4 milhões de libras.

      Os astros pareciam alinhar-se e adivinhava-se uma surpresa. O arranque foi mau, o Manchester United de Alex Ferguson distanciou-se, mas durante grande parte da prova, o primeiro lugar foi disputado taco a taco. No fim, os red devils, fruto de uma forma fantástica, conquistaram o título de campeão. Para os rovers, o segundo lugar significou a presença nas competições europeias e o coroar de um ano sublime de Alan Shearer, maior artilheiro com 31 golos marcados.

      Kenny Dalglish levou o Blackburn ao céu ©Premier League

      Come on you blues!

      O momentum parecia uma questão de tempo e à terceira acabou mesmo por chegar. Em 1994/95, o Blackburn tornou o impossível, possível. Desta vez, Jack Walker, satisfazendo as necessidades do plantel, rebentou a escala: Chris Sutton, autor de uns impressionantes 25 golos pelo Norwich na época transata, mudou-se para Lancashire por cinco milhões de libras, um recorde absoluto até então.

      Sutton apareceu como a última peça de um bonito e complexo puzzle. Era, na gíria, a cereja no topo do bolo. Porque com a sua chegada, a Premier League ficou a conhecer uma das mais temíveis parcerias atacantes: a famosa 'SAS'.

      Shearer brilhou com a camisola do Blackburn ©Getty Images
      O ex-Norwich, alto e possante, não era tão espetacular como o companheiro. Mostrava, isso sim, um jogo de cabeça absolutamente letal. Mesmo sendo um jogador mais posicional e menos móvel, encaixou na perfeição com Shearer. Ao todo foram nada mais, nada menos do que 49 dos 80 golos que fizeram do Blackburn a equipa mais goleadora do campeonato.

      Mas nessa temporada, os rivais não ficaram nada atrás no mercado: Jürgen Klinsmann e Popescu aterraram em White Hart Lane, Schwarz foi para o Arsenal e Bryan Roy transferiu-se para o Nottingham Forest. Em Old Trafford, Eric Cantona, Peter Schmeichel, Roy Keane e Mark Hughes eram donos e senhores, em Anfield, Robbie Fowler e Steve McManaman faziam crescer água na boca. Por isso, o feito dos homens de Lancashire acabou por ser ainda mais épico.

      A palavra que melhor define a caminhada de início até à glória é, talvez, 'montanha-russa'. Porque, na verdade, foi isso mesmo. Altos, baixos, intensidade e desespero durante umas impressionantes 42 jornadas. Um início tão bom - eliminação precoce na Taça UEFA permitiu foco total na prova interna - que até novembro pareciam imbatíveis, um meio assim-assim e um fim algo atribulado.

      Alan Shearer
      Blackburn Rovers
      Total
      157 Jogos  13622 Minutos
      117   12   0   02x
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      A luta foi disputada com suor, sangue e lágrimas com o Manchester United. Passagens, ultrapassagens, tropeções... Em janeiro, Andy Cole, estrela do Newcastle, passou a fazer parte das opções de Sir Alex por uns impressionantes 7 milhões de libras e prometia dar que falar ao lado de Cantona. No entanto, o francês, no fim da janela de transferências, devido ao famoso pontapé de kung fu a um adepto do Crystal Palace, foi severamente castigado e a equipa ressentiu-se.

      Em fevereiro, a situação do Blackburn era complicada: para além de ter perdido os dois jogos contra o principal concorrente, o primeiro lugar esteve sempre em risco de fuga. Mas a veia goleadora de Shearer e os triunfos alimentaram a esperança numa corrida alucinante - oito pontos de vantagem desperdiçados a seis jornadas do fim -  que só parou na última e derradeira jornada.

      Alan Shearer e Chris Sutton, a famosa 'SAS' ©Getty / Ross Kinnaird - EMPICS

      Os heróis e a derrota do título em Anfield

      Dalglish era um adepto do tradicional 4x4x2 e foi limando alguns pormenores ao longo do tempo. Um sistema adequado, automático e que garantia equilíbrio entre todos os setores. O que mais impressionava no seu Blackburn era a consistência global que tinha como ponto de partida uma retaguarda de respeito.

      Kenny Dalglish
      Blackburn Rovers
      1994/1995

      51 Jogos
      29 Vitórias
      11 Empates
      11 Derrotas

      90 Golos
      51 Golos sofridos

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      Flowers, mesmo imprevisível e irascível, era um dos melhores na baliza; Henry e Pearce apresentavam-se como o ying yang do sabedorismo/espírito jovem; Berg dava consistência do lado direito; o belo pé esquerdo e a qualidade técnica de Graeme Le Saux permitiam aventuras frequentes no ataque no flanco oposto; a Atkins cabia o papel de operário no meio-campo, dando liberdade ao talentoso Tim Sherwood, principal referência na ligação e na criação de jogo; Ripley e Wilcox eram competentes e excelentes no cruzamento e, por fim, Shearer e Sutton, este último beneficiando da lesão grave de Gallacher para pegar de estaca, materializavam tudo isso no que de melhor sabiam fazer.

      Mesmo assim, a crítica nunca foi propriamente meiga com o Blackburn de Dalglish: eram acusados de praticar um jogo demasiado previsível, demasiado focado na verticalidade, no cruzamento dos extremos e no fabuloso trabalho de área dos dois avançados. Para além disso, as constantes escorregadelas - duas vitórias nos últimos seis jogos - davam a entender um nervosismo e uma pressão difíceis de controlar.

      Feitas as contas, ficou conservada uma distância de dois pontos para o último jogo ... em Anfield, contra o Liverpool, a 14 de maio de 1995. A cidade dos Beatles ficou pintada de azul e branco aos quadrados e o universo rover estava dividido: olhos postos no relvado, coração, mente e imaginação em Londres, onde o Manchester United, em Upton Park, defrontava o West Ham.

      Shearer fez a loucura dos milhares de adeptos em Anfield Road, mas Barnes e Jamie Redknapp, em cima do final, viraram e deram o triunfo aos reds de Roy Evans. A quase 350 quilómetros de distância, as notícias eram as melhores possíveis: o United não foi além de um empate a uma bola - um golo bastaria para o título -, por muito que Andy Cole tenha tentado, e muito graças a uma inspirada exibição de Mikloško nas redes londrinas. A explosão aconteceu de forma imediata e Anfield passou a ser uma miniatura de Ewood Park: um título que apareceu 81 anos depois e o culminar de uma sublime campanha que grande parte pensou não ser possível.

      Jack Walker [à direita], adepto, presidente e lenda do Blackburn ao lado de Alan Shearer, principal figura da equipa ©Blackburn FC
      O registo de 27 vitórias, oito empates e sete derrotas não foi o mais estrondoso, mas significou algo maior. Kenny Dalglish venceu o prémio de melhor treinador e juntou-se a Brian Clough (Derby County e Nottingham Forest) e Herbert Chapman (Huddersfield Town e Arsenal) ao conquistar a competição por dois clubes diferentes e Alan Shearer sagrou-se melhor jogador e melhor marcador da competição com 34 golos. A Premier League rendeu-se por completo aos valentes blues que deram uma autêntica chapada de luva branca (e azul) aos mais céticos e aos frequentes mind games de Fergie. 

      Porque o feito do Blackburn é, muito provavelmente, um dos mais subvalorizados da história. Muito mais do que números, prémios e milhões investidos, foi a vitória de uma cidade que parou por completo para celebrar uma conquista memorável. Uma cidade de peso na Revolução Industrial que tanto o país e o tempo se esqueceram de cuidar. E foram os homens de Jack Walker e Kenny Dalglish que a voltaram a colocar no mapa, fazendo jus ao lema do clube: Art et Labore.

      Comentários (1)
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      motivo:
      Na altura não foi uma grande surpresa
      2020-06-02 13h08m por carlos_batuta
      O Blackburn foi o primeiro exemplar dos clubes com dono.
      O triunfo era esperado.

      Valia a pena falar na queda que se seguiu .
      A Liga dos Campeões no ano seguinte foi um desastre - 3 derrotas a abrir, 4 pontos e último lugar no final, num grupo com Spartak, Legia e Rosemborg.
      Ao mesmo tempo, foi sempre a cair no campeonato inglês
      Agradecimento
      hm por zerozero.pt
      Obrigado pelo seu comentário, caro leitor

      Este artigo descreve a construção da equipa e a temporada do título do Blackburn Rovers (1994/1995) porque está inserido na rubrica "Grandes Equipas" da nossa Enciclopédia.

      Quanto ao que referiu, optámos por fazer, apenas, pequenas menções.

      Continuação de ótimas leituras,

      Ricardo Lestre
      zerozero.pt
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