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      História da maldição
      À volta do jogo

      A maldição de Béla Guttmann

      Texto por Luís Rocha Rodrigues
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      Falar de Benfica na Europa é, em fases adiantadas, recuperar a velha história referente a Béla Guttmann, um dos mais importantes treinadores da história secular dos encarnados. Primeiro, porque ganhou, em anos consecutivos, as duas Taças dos Campeões Europeus que as águias têm no seu museu. Depois, porque a sua saída do clube, após essa conquista, incluiu uma declaração que o passar dos anos foi enaltecendo, elevando-a ao rótulo de maldição.

      Não é por acaso. Guttmann era conhecido como «o feiticeiro» e os seus métodos alternativos tiveram enorme sucesso em Portugal. Poder-se-ia desconfiar desses, mas os resultados deram-lhes razão e o tempo encarregou-se de lhes chamar vanguardistas. Quase todos, digamos - a mítica história da privação de relações sexuais para os jogadores, que o húngaro via como fundamental para o alcance das vitórias, teria entretanto contradições práticas.

      Com Coluna @Getty / picture alliance
      Em todo o caso, Guttmann foi marcante, e muito. O húngaro, que tem a fuga à Segunda Guerra Mundial como um dos pontos de interesse de uma história riquíssima (pode ler aqui a biografia), chegou a Portugal em 1958, foi campeão logo a abrir pelo FC Porto e, no verão seguinte, mudou-se para o Benfica.

      Nos encarnados, também foi campeão a começar e abriu as portas à participação na Taça dos Campeões Europeus, na altura uma competição em que só os campeões nacionais entravam. O Benfica não só entrou, como foi até ao fim. A final, em Berna, foi ganha ao Barcelona, um triunfo altamente improvável e que catapultou o nome do Benfica para os jornais mundiais.

      Ainda estava guardado o lançamento internacional de Eusébio, que aconteceria na época seguinte (1961/1962). Como? Com revalidação da conquista europeia, de virada, contra o Real Madrid, num inesquecível 5x3, jogo em que as águias estiveram duas vezes a perder - aliás, ao intervalo os merengues ganhavam por 2x3 e Guttmann, qual psicólogo, teve uma célebre palestra em que disse que os adversários estavam de rastos e que o jogo estaria ganho.

      O surgimento da declaração

      No fim da primeira conquista europeia, houve renegociação do contrato de Guttmann. O húngaro passou a ganhar 500 contos por ano e teria, como prémios de objetivos, 500 contos caso ganhasse a prova europeia, 250 contos pelo campeonato nacional e 100 contos pela Taça de Portugal. Em 1961/1962, só o campeonato escapou, pelo que os cofres da Luz direcionaram ao treinador 1.100 contos, na altura uma pequena fortuna.

      @Getty / Keystone
      Porém, o técnico quis mais e, depois da conquista de Amesterdão, pediu novo aumento, que considerava justo pela dimensão que tinha dado aos encarnados, ao passo que a direção recusava aceder a esse pedido, por entender não ter condições para subir mais o patamar e apelando ao coração do técnico.

      Feiticeiro, mas pouco dado a romances, o treinador foi pragmático e, no fim da época, deu-se a saída, com a célebre declaração:

      «Sem mim, nem daqui a cem anos uma equipa portuguesa será bicampeã europeia ou o Benfica vai ganhar uma taça continental»

      Os efeitos

      Em superstições só acredita quem quer, mas, em Portugal, esta é das mais famosas. Cada vez que os encarnados chegam longe na Europa, é recuperada a história. Seguiram-se cinco finais da Taça dos Campeões Europeus, uma final da Taça UEFA, duas finais da Liga Europa. Em todas elas, o Benfica perdeu.

      Em Turim, derrota com o Sevilla @Carlos Alberto Costa
      Curioso é também o pormenor de, assim que o Benfica assegurou a chegada à final de Viena em 1990 (TCE), Eusébio ter ido ao túmulo de Béla Guttmann, para recordar o treinador que o lançou e, relatou-se na altura, para pedir perdão pelo clube e apelar ao fim da maldição. Uma história que, mito ou realidade, não teve o efeito desejado. O Benfica perderia a final contra o Milan. O próprio Guttmann voltaria ao Benfica e comandou a equipa em 1965/1966, altura em que, nos quartos de final da competição, aos 3x2 de Old Trafford seguiram-se os pesadíssimos 1x5 em Lisboa, que deixou as águias por terra e que, neste caso, significou um feitiço... contra o feiticeiro.

      Além disso, também se pode dizer que a primeira parte da maldição continua de pé: apesar das vitórias do FC Porto em 2002/2003 (Taça UEFA) e 2003/2004 (Liga dos Campeões), não se pode dizer que os dragões tenham sido bicampeões da Europa, já que a primeira conquista foi de uma prova, digamos, secundária.

      Para quem não acreditar em feitiços, este é um artigo baseado em coincidências. Para quem acreditar...

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      Comentários (2)
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      motivo:
      Béla Guttmann
      2020-05-23 15h02m por Blue_Bitter
      Só faltou acrescentar as 2 derrotas na Taça Intercontinental das quais a de 1961 contra o Peñarol o treinador do Benfica ainda era o Béla Guttmann. Por isso cai logo por terra qualquer record de invencibilidade que a comunicação social procurou gerar em torno do húngaro.
      Bela Guttmann
      2020-05-23 13h32m por Blue_Bitter
      Porque não mencionam a derrota na Taça Intercontinental de 1961 na lista das finais disputadas com o Bela Guttmann? É que afinal o Húngaro não era assim tão invencível como se esperava. Ganhou duas taças dos campeões europeus mas perdeu a taça intercontinental.
      E depois no ano seguinte sob o comando do chileno Fernando Riera o Benfica perdeu novamente a Taça Intercontinental por isso se existe maldição ela começou precisamente pelo próprio Bela Guttman quando perdeu com o Peñarol.
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