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      Liga Española 1993/94
      Grandes jogos

      Deportivo x Valencia: Djukic, «tanta pasión para nada»

      Texto por Ricardo Lestre
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      «(...) Os jogadores de ambas as equipas, o público, inclusivamente, os polícias e os fotógrafos, que até esse instante se amontoavam às centenas por trás da baliza, tinham desaparecido. No estádio de Riazor - e no mundo - já só estavam ele, o guarda-redes e o árbitro».

      - Julio Llamazares.

      O momento foi, é e continua a ser tão marcante na história do futebol espanhol e, sobretudo, galego, que mereceu ser eternizado num conto. «Tanta pasión para nada»: assim descreveu Julio Llamazares, escritor e jornalista conhecido pela veia poética e romântica, o drama particular de Miroslav Djukic vivido a 14 de maio de 1994.

      Pilar da defesa do Deportivo ©Getty / Steve Morton - EMPICS
      A linha que separa o sucesso do insucesso, do sonho do pesadelo ou da euforia à fúria é demasiado ténue na vida de um futebolista. Anos como herói podem, por um único lance infeliz, ser resumidos a um dia como vilão que fica para sempre na memória. O caso do central sérvio, nascido na antiga Jugoslávia, é um desses. Senhor defesa, imponente, líder e, acima de tudo, uma referência de um Deportivo à beira de um feito inédito: na época 93/94, os galegos disputavam o primeiro título de campeão da história e entravam na última e alucinante jornada com um ponto de diferença do Barcelona, mais concretamente o famoso Dream Team de Johan Cruyff, que procurava o tetra.

      O Dépor, liderado por Arsenio Iglesias, era o famoso Super Dépor que já encantava Espanha há algumas temporadas. Pela frente tinha o Valencia de Guus Hiddink, um desapontante sétimo classificado que jogava pelo orgulho ou por qualquer interesse económico inerente.

      Numa altura em que as vitórias valiam dois pontos, bastava ao Deportivo, no Riazor, igualar o resultado do Barcelona na receção ao Sevilla. Por isso, Iglesias (as declarações no final do jogo, em conferência, mereceram uma salva de palmas) não olhou a meios para atingir a glória: carne toda no assador, com o trio de brasileiros Donato-Mauro Silva-Bebeto e Djukic no onze inicial. Por sua vez, Mendieta, Quique Flores e Mijatovic eram as estrelas do outro lado do campo.

      Lidar com a pressão numa situação tão especial e delicada não era pêra doce e aos galegos caiu como um fardo enormíssimo sobre os ombros. O Barcelona chegou a estar em desvantagem, graças aos golos de Diego Simeone e Davor Suker, só que Stoichkov, Romário, Michael Laudrup e Bakero trataram de inverter um mal maior em goleada. E ao Dépor cabia não igualar o resultado, mas igualar o número de pontos conquistados.

      Para mal dos seus pecados, os deportivistas ficaram bloqueados praticamente desde o minuto inicial. O nervosismo estava presente em qualquer lance do jogo e cada minuto contabilizado no cronómetro mais parecia uma dor insuportável. 

      No Riazor, a angústia era indescritível. A respiração cada vez mais profunda, a unhas cada vez mais roídas e os cabelos cada vez mais em pé, até que, aos 90'... Penálti! Falta sobre Nando dentro da área. De iceberg, o estádio passou a um autêntico vulcão.

      Com o número um da lista de executantes de bolas paradas já no banco, Donato, a batata quente passou para um dos nomes abaixo na hierarquia, Djukic, face à rejeição da estrela Bebeto em assumir a responsabilidade. Na mente do brasileiro estava, ainda fresca, a grande penalidade desperdiçada semanas antes.

      O relato de Julio Llazanares impressiona pela descrição e pelo detalhismo resultante das conversas com o sérvio: «Quando segurou a bola, Djukic lembrou-se do que a sua mulher lhe tinha dito naquela tarde; parecia que o tinha profetizado. Se surgir a ocasião, tinha-lhe dito Ceca, 'nem te passe pela cabeça marcar um penálti'».

      A verdade é que Djukic assumiu o peso de ter nos seus pés aquele que era, muito provavelmente, o lance mais importante dos então 88 anos de história do clube. Mas nenhuma fração de segundo mostrou uma estrelinha. Uma que fosse na colocação da bola na marca ou na corrida até ao pontapé. O remate saiu frouxo, à meia-altura e desviado ligeiramente para a direita, facilitando a vida a José Luis González que apontou, de seguida, para o céu.

      Miroslav Djukic
      Deportivo
      1993/1994
      42 Jogos  3722 Minutos
      1   7   0   02x

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      Djukic agarrou a cabeça em desespero, Bebeto ficou sem força nas pernas e o Riazor gelou por completo. A milhares de quilómetros de distância, no Camp Nou, a noite era de festa - terminaram empatados com 56 pontos. Para o sérvio foram seis épocas de Dépor, com estatuto no plantel e liderança, mas tudo ficou resumido a um famoso e fatídico penálti. Na Galiza, a vingança veio seis anos depois, com o título de 2000, ao passo que Djukic, por ironia do destino, sagrou-se campeão... pelo Valência, em 2002. Tempos mais tarde, os jogadores da equipa che revelaram que o Barça pagou 18 mil euros a cada elemento do plantel pela missão bem sucedida.

      Para finalizar, o trecho que está na génese do título deste texto.

      «Djukic começou a correr, sem saber ainda como marcar o penálti. Já não podia pensar; já era tarde para tudo. Pontapeou a bola sem a olhar, como se chutasse o ar (o ar que lhe faltava) e durante uns segundos, que lhe pareceram longuíssimos, intermináveis, observou como se afastava em direção à baliza, onde a mancha azul do guarda-redes começava, lentamente, a deslocar-se. Nem sequer viu para onde ia; não viu como a defendeu. Apenas viu que, de repente, o campo voltou a rugir, depois de vários segundos mudo, e o guardião do Valencia, que tinha voltado a levantar-se, começava a correr e a dar saltos de alegria, enquanto os seus companheiros de equipa corriam a abraçá-lo. Tinha defendido o penálti. Os companheiros de Djukic tardaram mais a fazer-lhe o mesmo, mas ele nem chegou a dar por isso. Ajoelhado no relvado, como um pugilista caído, só pensava em fugir dali enquanto repetia para si mesmo, como quando o seu irmão se matou, o que o pai costumava dizer da vida quando esta o maltratava: tanta paixão para nada [tanta pasión para nada]».

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      U Sábado, 14 Maio 1994 - 00:00
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