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      Xavi: O Maestro do Tiki-Taka

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      Não era o driblador mais ágil, nem forte fisicamente. Não tinha o melhor remate no futebol, nem era o melhor defesa da sua equipa. Não saltava à vista em campo, nem fora dele. Mas, ainda assim, Xavi Hernández é sem dúvida nenhuma um dos melhores jogadores da história do futebol.

      Num Barcelona dominante, conhecido pela posse de bola em inesgotáveis combinações, Xavi surgiu como um metrónomo no meio-campo. Por cada corrida desenfreada de um adversário, o pequeno médio limitava-se a responder com um leve toque na bola, ou uma desmarcação simples e precisa. Via o campo como mais ninguém, colocando cada bola no pé de um colega com a mesma precisão com que colocou o tiki no taka, definindo uma era do futebol.

      Xavi foi indiscutível em duas das equipas mais dominantes da história do desporto, o clube que representou durante 17 anos e a sua seleção, pela qual jogou 133 vezes. O seu génio era discreto, raramente colhia os louros dos sucessos coletivos, mas para a história fica o Euro 2008, no qual foi a principal figura, numa conquista que marcou o final do jejum espanhol de 44 anos e começou a nova era dominante da La Roja.

      Made in Catalunha

      Os primeiros tempos ©Getty / Andreas Rentz
      Tal como grande parte das lendas do Barcelona, Xavi é um produto da La Masia, a escola de formação blaugrana. Destacou-se cedo, e mostrou encaixar na filosofia implementada no clube por Johan Cruyff. Chegou com 11 anos e a última etapa da sua formação foi no Barcelona B, onde sob o comando de Josep Maria Gonzalvo alcançou a promoção à segunda divisão espanhola.

      Chegou à equipa principal em 1998/99, lançado por Van Gaal, e teve impacto imediato. Logo na estreia, frente ao Mallorca, na Supertaça, marcou - mas os catalães perderam a competição. Iniciou-se aqui um percurso de 17 anos na equipa principal do Barça, clube pelo qual venceu todas as competições possíveis. No total, foram 767 jogos pelo Barcelona.

      Guardiola começou por ser seu colega ©Getty / Jasper Juinen
      Ainda assim, a lendária história de Xavi em Barcelona podia ter acabado antes de realmente começar, se não houvesse na família Hernandéz alguém mais culé ainda que o médio. Após 14 jogos de Xavi na equipa principal, Guardiola voltou de lesão, o que levou Louis Van Gaal a devolver Xavi ao Barcelona B onde continuaria a evoluir. Quem estava atento era o AC Milan, que ofereceu à promessa de 19 anos um contrato lucrativo e garantia de minutos. A proposta milanesa agradava ao pai e irmãos, mas María Mercè não queria ver o fillho noutro clube, e chegou a ameaçar divorciar-se caso o filho deixasse o Barcelona. A palavra final foi de Xavi, que decidiu ficar, mas para sempre ficou a sua frase: «Conheço alguém que é mais culé do que eu: a minha mãe.»

      O crescimento na equipa principal foi calmo e sustentado. Entre 2001 e 2003 começou a ganhar preponderância na equipa principal e, apesar de estar a jogar num papel mais defensivo, as assistências e golos foram surgindo dos pés do jovem médio. Em 2004/05, era já vice-capitão, e foi nomeado jogador espanhol do ano da La Liga, um ano antes da sua primeira grande conquista: a Champions League de 2006, sendo que Xavi ficou no banco na final, depois de um final de época em que foi afetado por lesões.

      A carreira de Xavi começava a ganhar contornos interessantes à medida que o médio se tornava uma peça-chave do Barcelona, mas foi só a partir dos 27 anos que deixou de ser um grande jogador e passou a estar no lote dos melhores futebolistas da história. Com o ex-colega Pep Guardiola ao leme, o Barcelona tornou-se imparável. Até ao fim da sua carreira, Xavi ganhou tudo a nível de clubes e seleções, e, embora nunca venha a ser creditado como principal obreiro, Xavi será sempre um dos fatores fundamentais para o funcionamento do lendário tiki-taka e de todas as equipas que representou.

      A interminável busca pelo espaço

      Presença constante nos prémios anuais ©Getty /
      Numa era dividida entre Cristiano Ronaldo e Messi, a vã glória de Xavi será ter sido considerado terceiro melhor jogador do mundo. O futuro dirá se o pecado de nunca dar a Xavi o trono de melhor jogador do mundo será perdoado ou não, mas até aí não ficam dúvidas daquilo que foi o pequeno craque: um verdadeiro predestinado do futebol. Seis vezes na equipa do ano da FIFA e três vezes no pódio do Melhor Jogador do Mundo, apesar de pequeno em tamanho, Xavi foi um gigante do futebol mundial. Mas o que é que o tornava tão especial?

      De um desporto espera-se atletas. Indivíduos que se destaquem por características físicas, mais do que mentais. Mas, embora Xavi certamente fosse mais atlético que o típico homem da sua idade, não se destacava propriamente entre os colegas de profissão. Ainda assim, olhar para os 170cms de Xavier Hernández e perceber a dimensão de gigante do futebol que o pequeno génio catalão detém é bem mais fácil do que à primeira vista poderia parecer. Para Xavi, a cabeça sempre foi mais importante do que qualquer outra parte do seu corpo:

      «Sempre tive que usar a mente para jogar futebol. Não sou o Kylian Mbappé. Ele corre, mete a bola e ultrapassa o jogador. Eu não tenho as pernas dele, mas uso o meu cérebro. É assim que compenso.»

      Messi agradeceu-lhe muitas vezes ©Getty Images
      Aquilo que destacou Xavi no futebol, principalmente pelo contexto das equipas em que jogou, foi a sua inegável qualidade de passe. Cada bola era colocada com precisão onde quer que fosse, e o construtor de jogo não mostrava dificuldades a encontrar os seus colegas, independentemente da distância. Ainda assim, esta não era a única característica que o destacava dos outros jogadores: os movimentos sem bola.

      Qualquer médio deve ser competente a passar a bola. E qualquer jogador que se veja como um bom médio tem que dominar certas capacidades, como a visão de jogo, ou olho para um passe, e a capacidade de execução para que consiga realmente entregar a bola. Com dedicação suficiente, qualquer jogador consegue dominar estas habilidades, mas o movimento sem bola e a procura pelos espaços exige um cérebro especialmente preparado para o futebol. Para Xavi, o espaço era tudo em campo e era nesse sentido que queria ajudar a equipa, sabendo sempre onde estar e onde estvam os restantes 21 jogadores.

      O trio mais frequente ©Getty /
      «Passei a minha vida à procura e a procurar novas formas de o encontrar. Onde está o espaço? Eu virava a minha cabeça em todas as direções, já me chamavam 'A filha do exorcista'. Não virava a cabeça a 360 graus, mas houve jogos em que olhei à volta mais de 500 vezes», revelou Xavi, já depois de se retirar do futebol, dedicando-se ainda a pensar o jogo, mas agora fora das quatro linhas. «Cada reflexão, cada questão, abre-me novas perspetivas. Porque é que nos pedem para criar espaço uns para os outros? Ou para abrir o jogo? É lógico!»

      Consagração de uma lenda

      O Campeonato da Europa, embora seja uma competição de grande relevo, dificilmente é a conquista mais impressionante na carreira de um jogador que ganhou tudo o que havia para ganhar. Ainda assim, para Xavi, o Euro 2008 deve ter um gosto especial. Não só porque foi a única competição em que surgiu como a figura de proa da aquipa, que não era bem o seu estilo, mas principalmente porque foi o pontapé de saída de um resto de carreira icónico. «Decisivo, magistral e genial», assim categorizou a imprensa europeia o maestro da orquestra espanhola, que foi eleito pela UEFA como o melhor jogador a pisar os relvados da Áustria e Suíça, durante a prova maior do continente europeu. Mas o melhor estaria para vir.

      Xavi era isto... ©Getty / David Ramos
      Dois anos depois, foi o Campeonato do Mundo. Uma competição nunca antes vencida pela nação espanhola, mas que não fugiu à geração de ouro e ao futebol contagiante da La Roja. Xavi foi quase totalista na competição (não fosse pelos 25 minutos que descansou frente às Honduras na fase de grupos) e como médio mais avançado foi sempre quem mais aroma dava ao perfume espanhol. Na meia-final, frente à Alemanha, encontrou a cabeça de Puyol com um cruzamento perfeito, garantindo o único golo de um dos jogos mais importantes na história da seleção espanhola. Em 2012, veio o terceiro título consecutivo, para consagrar aquela como uma das melhores seleções da história. Em seis jogos no Euro 2012, apenas uma bola entrou na baliza espanhola, que não perdoou os adversários da mesma maneira: a final foi um expressivo 4x0 frente à Itália e Xavi voltou a estar envolvido, com duas assistências, tornando a Espanha a primeira seleção bicampeã da Europa.

      Enquanto a fúria roja dominava o futebol internacional, no Barcelona de Guardiola tudo corria como um verdadeiro conto de fadas, mas, se Messi era o herói da história, então Xavi era a encadernação do livro. O outrora discreto e competente médio estava cada vez mais influente em campo, à medida que o estilo de jogo da equipa se adequava mais as suas qualidades. No total, foram 15 troféus nos quatro anos que Guardiola comandou a equipa, e Xavi foi instrumental em cada um deles. Mesmo pós-Pep, o futebol de Xavi não deixou de contagiar o Camp Nou, nem os troféus deixaram de aparecer. A última temporada em Espanha, antes de rumar ao Qatar, simbolizou a sua carreira de conquistas. O Barcelona e Xavi foram novamente um campeões em triplo: Liga, Taça e a UEFA Champions League.

      Na conquista da última Champions ©Getty / Shaun Botterill
      À carreira do maestro ninguém ficou indiferente. Os meios de comunicação passaram desde cedo a considerar Xavi como o melhor médio do futebol moderno, os treinadores rendiam-se ao talento do catalão e até os colegas de equipa reconheciam o impacto do pequeno génio.

      «É o cérebro da equipa. Equilibra-nos e nunca perde a bola», disse Busquets, que partilhou o meio-campo com Xavi no clube e na seleção, tal como Iniesta: «É um líder e um exemplo. A nível do futebol, é um privilegiado porque está sempre um passo à frente do jogo e do que acontece.» Também Fàbregas partilhou o meio-campo com o lendário médio e, enquanto culé, depois da reforma de Xavier Hernandéz, não deixou de expressar a sua opinião acerca de um legado eterno:

      As lágrimas no adeus ©Getty / David Ramos
      «Porque é que perdemos tempo constantemente à procura de um substituto para o Xavi? Nunca vai haver outro Xavi.»

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      Xavi Hernández (ESP)
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