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Derlei: O Ninja

Texto por Gaspar Castro
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Imaginam o que será para um rapaz vindo do turbulento mundo das favelas do estado de São Paulo marcar dois golos decisivos numa final de Taça UEFA, um ano antes de ser campeão europeu e, depois, campeão mundial? Vanderlei Fernandes Silva viveu tudo isto, além de ter sido um dos poucos jogadores a passarem pelos três grandes do futebol português.

A vida nos relvados de Derlei, o Ninja, começou e terminou no Brasil, mas o auge foi em solo português: apresentou os dotes de goleador em Leiria, conquistou títulos nacionais e internacionais na Invicta, teve uma curta (e pouco produtiva) passagem pela Luz e despediu-se do país em Alvalade, onde foi a tempo de ter algum sucesso, apesar da idade.

Nunca teve direito a transferências a valerem dezenas de milhões de euros, como vários colegas com quem partilhou balneário, mas a imagem deste goleador de raça, frenético, capaz de descobrir espaços vazios em qualquer zona do ataque, não será esquecida do lado de cá do Atlântico. Nem as dezenas de golos que por cá festejou, várias vezes com a camisola a deixar espreitar apenas os olhos (e assim se explica a alcunha).

Bendito jeito para a bola

Não fosse a apetência para o futebol e a vida de Derlei teria sido muito diferente, certamente muito mais dura. A bola e a fé acompanharam-no desde cedo, ajudaram-no a driblar más influências na favela em que cresceu em São Bernardo do Campo, o mesmo município de São Paulo que veria nascer Deco dois anos depois.

Derlei tinha Careca como ídolo e, para ele, já bastaria concretizar o sonho de chegar ao clube da cidade... mas o destino preparou algo bem diferente. Logo a começar a carreira profissional, uma viagem de quase três mil quilómetros até Natal, onde se estreou como sénior ao serviço do América Futebol Clube, da Série B. Na formação tinha começado por ser médio mas gradualmente foi puxado para a frente e a apetência do golo tinha-se tornado clara. Derlei não precisou de muito tempo para começar a faturar no América e ganhar direito à mudança para o Guarani, de primeiro escalão, tendo ainda jogado no Madureira do Rio de Janeiro. Boas experiências, os primeiros sucessos... mas a afirmação a sério seria apenas em Portugal. Primeira paragem? Leiria.

Derlei marcou 42 golos em 92 jogos pela União de Leiria ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
Mário Reis lançou-o na União e o sucesso de Derlei nas margens do Lis foi contundente. Primeiros dois jogos, dois golos. Uma pubalgia deixou-o fora dos relvados durante mais de dois meses, mas ainda assim faturou oito vezes na temporada, que teve Manuel José a entrar a meio. O Ninja, como passava a ser conhecido por esta altura, começava a mostrar-se aos leirienses, aos portugueses, mas ainda mostraria muito mais: à segunda época, 13 golos, incluindo um golo numa surpreendente vitória contra o FC Porto... e uma época histórica para a equipa, com o 5º lugar da Liga. 

À terceira época no clube leiriense, Derlei chegou aos 21 golos, apenas atrás de um inalcançável Mário Jardel na lista dos melhores marcadores. Marcou em dois jogos ao Benfica, marcou quatro vezes num só jogo ao Salgueiros, marcou em incríveis sete jogos seguidos. Já não era nenhum miúdo, mas era claramente jogador para outros voos. Foi o que pensou José Mourinho, que o conheceu por aqueles lados e quis tê-lo na nova experiência na Invicta. 450 mil euros ficaram nos cofres da União, lá foi Derlei em direção ao norte.

À conquista da Europa

«Ele é o Ninja, o nosso Ninja, em todo o campo sempre a lutar, sabem que o golo ele vai marcar»: assim cantariam os Super Dragões depois de rendidos aos golos que Derlei não demorou a marcar de azul e branco. Foram 39 golos em duas épocas e meia, muitos deles decisivos para os oito troféus que viria a ganhar em tão curto espaço de tempo.

O avançado foi herói na final da Taça UEFA de 2003 ©Getty / John Walton - EMPICS

A primeira temporada, 2002/03, foi logo de arromba: campeonato, Taça de Portugal e Taça UEFA, com Derlei a ser o melhor marcador da prova europeia em igualdade com Henrik Larsson. Mourinho deu-lhe o número 11 e um lugar num 4x3x3 em que partilhava muitas vezes o ataque com Postiga e Capucho, mostrando ainda um entendimento às mil maravilhas com Deco, tanto dentro como fora dos relvados. 

O primeiro golo foi contra o Polónia Varsóvia, o terceiro valeu vitória preciosa em solo austríaco contra o Áustria Viena. Mais para a frente, dois ao Denizlispor, dois ao Panathinaikos, dois à Lazio no célebre jogo dos 4x1... os dragões iam galgando etapas na Taça UEFA, voltavam a uma final europeia e muito podiam agradecer a Derlei: e ainda mais agradeceram quando o Ninja decidiu a final frente ao Celtic com dois golos, um deles no prolongamento, a atirar o troféu para o museu portista. Com 20 golos na época, teria até direito a Dragão de Ouro.

A nível coletivo, a segunda temporada de Derlei no Dragão foi ainda mais notável, com a conquista da Liga dos Campeões como apogeu. Desta vez «ficou-se» pelos 18 golos, mas não por quebra individual, bem pelo contrário: Derlei ia com a força toda no início da época, chegava aos finais de dezembro já com notáveis 16 golos (incluindo um hat-trick à Académica e um golo fulcral na difícil vitória em Marselha), tinha legítimas ambições de se aproximar da média de um golo por jogo... quando o azar lhe bateu à porta em Alverca. Lesão grave e o resto da temporada em sério risco, mas a história não se ficou por aí.

Derlei festeja a conquista da Liga dos Campeões ©Getty / Alex Livesey
Estimava-se que não jogasse até ao fim da temporada, mas passados quatro meses o avançado apresentou-se ao serviço, bem a tempo de todas as festas, para as quais contribuiu: festejou no hotel a conquista da Liga em véspera da consagração da equipa no Dragão, onde voltava a jogar e curiosamente contra o mesmo Alverca. Umas duas semanas depois, foi à segunda mão das meias-finais da Liga dos Campeões na Corunha. Penálti aos 60 minutos, que tudo poderia decidir. Quem bate? Derlei, que tal como os colegas seria campeão europeu pouco depois em Gelsenkirchen.

Foi ainda nesta temporada que se abriu uma porta pela qual Derlei nunca chegaria a entrar: a porta da seleção portuguesa. Derlei tinha em vista o passaporte português, Scolari imaginava tê-lo no Euro2004, mas a tal lesão em Alverca acabaria por colocar um entrave em todo o processo de naturalização, que só ficaria consumado depois do Europeu, numa altura em que Derlei já não vivia o mesmo estado de graça.

Viria ainda um adeus amargo ao FC Porto. No pós-Gelsenkirchen, muitos outros saíram para clubes da elite europeia, Mourinho também fez a viagem para o estrangeiro, mas Derlei ainda ficou no Dragão mais meia temporada. Já tinha 29 anos, não se perspetivava um grande negócio para jogador ou clube, o jogador estava bem no Dragão e por lá ficou... mas depois de meia época com apenas um golo viria um adeus amargo. Pouco depois da conquista da Intercontinental, Derlei foi visitar a família durante o período natalício e atrasou-se em vários dias no regresso ao trabalho, como outros colegas. Resultado: acabou multado e a treinar à parte. Para estar na equipa B, Derlei preferia sair... assim fez: pegou no telefone, falou com o empresário e surgiu uma oportunidade em Moscovo.

Moscovo, Luz, Alvalade

O Dínamo Moscovo pagou 7,5 milhões de euros, Derlei mudou-se para a Rússia, como fariam também Nuno, Costinha, Maniche ou Seitaridis... e a nível de números a experiência até não correu nada mal, com 24 golos em 47 jogos. A nível coletivo, o projeto não teve o retorno esperado, e a adaptação ao frio russo não seria fácil para alguém habituado ao calor brasileiro e ao agradável clima português. Chegaram as saudades de jogar em Portugal e a solução apareceu na Luz: Fernando Santos achou por bem chamá-lo para o Benfica no início de 2007.

Derlei teve uma curta passagem pelo Benfica ©Getty / CityFiles

Emprestado pelo Dínamo Moscovo, Derlei teve assim a oportunidade de representar mais um grande do futebol português e agarrou-o, mas o tempo de águia ao peito foi uma experiência pouco produtiva. Estávamos em fevereiro, Derlei entrava num comboio a todo o vapor, uma época há muito em marcha, e já estava sem jogar há uns três meses. Sem o ritmo dos colegas, não conseguiu acompanhar. Em 18 jogos vestido de encarnado, só conseguiu marcar ao último jogo, contra a Académica... não ficaram grandes saudades na Luz.

De forma inesperada, e contra a vontade inicial de boa parte dos adeptos leoninos, o Sporting propôs um contrato em definitivo ao avançado, que conseguia desvincular-se do Dínamo Moscovo. Deste outro lado da Segunda Circular a história viria a ser diferente, embora a primeira das duas épocas que por lá passou tenha sido de novos azares: pouco depois do primeiro golo, ainda nos primeiros meses da época, problemas físicos que o deixariam de fora até abril, altura em que ainda conseguiu fazer o segundo golo na época numa espetacular vitória por 5x3 sobre o Benfica nas meias da Taça de Portugal, que os leões venceriam.

O Sporting foi a última casa em Portugal ©Getty / FRANCISCO LEONG

Foi um indício do que Derlei ainda tinha para dar em Alvalade e que conseguiu dar na segunda temporada, a formar uma dupla produtiva com Liedson: se o Levezinho fez 25 golos, Derlei ainda conseguiu fazer onze, incluindo um bis contra o FC Porto na Taça da Liga e um golo ao Benfica. Na Europa, dois golos na Liga dos Campeões, um deles decisivo contra o Shakhtar a valer apuramento antecipado para os oitavos-de-final. Agora sim, corria tudo bem a Derlei no Sporting, só havia um problema: a idade.

Derlei já tinha 34 anos ao final dessa temporada, e quando foi altura de negociar a renovação contratual os leões não quiseram aceder às exigências financeiras de um jogador que estaria já a dar os últimos passos da carreira. E assim chegou a altura do adeus definitivo ao futebol português, antes do fim da carreira com curtíssimas passagens por Vitória e Madureira no seu Brasil de origem.

Derlei no jogo de homenagem a Deco, em 2014 ©Catarina Morais

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