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      História da edição

      Champions 09/10: O airbus de Mourinho

      Texto por Redação
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      Muitos não ficaram propriamente encantados com a forma, mas José Mourinho, ao longo da sua carreira, nunca pareceu demasiado condicionado com a opinião dos seus detractores. A história do título europeu do Inter de Milão, em 2010, fez-se de muito sacrifício, de um espírito coletivo assinalável, de exibições marcantes, de alguma contenção e, acima de tudo, de um ADN vencedor que foi capaz de derrubar tudo e todos. Seis anos depois da conquista com o FC Porto, o Special One voltou a ser o mais brilhante de todos os treinadores. 

      Foi o triunfo de um estilo que nem sempre agradou, até aos próprios adeptos nerazzurros, mas que deu mostras que podia evoluir para patamares elevados e que podia ser a base certa para que craques como Maicon, Sneijder, Eto´o ou Milito mostrassem todo o seu futebol. Depois, foi só juntar as peças do puzzle, acreditar que era possível terminar com um jejum de quase meio século e ter a estrelinha de campeão nos momentos mais complicados. Mourinho soube juntar todos estes ingredientes e cozinhar outra vez o prato mais saboroso do cardápio europeu. 

      É impossível, em primeiro lugar, recordar esta Champions sem isolar as personalidades de José Mourinho e Pep Guardiola. Ao comando de duas equipas muito diferentes, os dois começaram a construir uma rivalidade própria, especial, muito por causa da diferença de estilos, que teria neste ano alguns dos seus episódios mais polémicos. Barcelona e Inter cruzaram-se logo na fase de grupos e o duplo favoritismo, contra todas as probabilidades, transformou-se num verdadeiro problema, diante de um Rubin Kazan e de um Dynamo de Kiev que nunca ficaram convencidos e conformados com o papel aparentemente secundário. Os italianos, à quarta jornada, chegaram a estar mesmo metidos num autêntico sarilho em solo ucraniano, mas os golos de Milito e Sneijder, para além de terem evitado muitas dores de cabeça e de terem consumado três pontos decisivos, acabaram por ser um daqueles momentos definidores de época, onde os verdadeiros campeões se distinguem e se destacam. 

      Se estes dois possíveis candidatos tinham a muito custo evitado a surpresa, outros emblemas de nomeada caíram mesmo logo demasiado cedo, acabando por não conseguir passar para o relvado todo o estatuto que levavam em cima dos ombros. O Liverpool, uma equipa de referência na Champions, mostrava que o ciclo com Benítez estava mesmo a chegar ao fim e os últimos passos até teriam de ser dados na Liga Europa. A Juventus, depois do caos em 2006, ainda tentava encontrar as melhores referências e o Atlético de Madrid, que contava com Simão, Reyes, Forlán e Aguero, acabou a fase de grupos com uns míseros três pontos. Pelo menos, os colchoneros foram capazes de retirar ainda alguma coisa de muito positivo, com a conquista da Liga Europa, em maio, a dar um colorido especial a 2009/2010. 

      Às custas da inconsistência do Atlético de Madrid, o FC Porto voltou a ser o melhor participante português na fase de grupos da Champions. E desta vez só o tinha de ser, dado que o Sporting, o único que podia acompanhar os dragões, caiu na pré-eliminatória face à Fiorentina. Na verdade, assistimos a mais do mesmo por parte da equipa de Jesualdo. Competência, qualidade de jogo, mesmo que, desta vez, não tenha dado para ser primeiro - o Chelsea de Ancelotti era, de facto, muito forte -, bons momentos contra uma equipa de referência como o Arsenal e, no final, a desilusão de voltar a ficar pelo caminho nos oitavos. Os gunners, que tinham batido os azuis e brancos por 4x0 um ano e meio antes, superaram a marca e chegaram mesmo à manita sem resposta, numa exibição memorável do francês Nasri, que encontrou muitas facilidades pela frente e um adversário que estreou o central Nuno André Coelho ao mais alto nível europeu... mas como médio defensivo. 

      Uma derrota saborosa para Mourinho ©Getty /

      Ainda na fase de grupos, e aproveitando um pouco do tal falhanço de alguns dos grandes clubes, nasceram as duas principais revelações da prova: Fiorentina e Bordéus. Ambas, quiçá, mais candidatas à Liga Europa do que outra coisa, ambas com jovens valores, ambas apuradas para os oitavos na condição de líder. Se em Florença começava a nascer um jovem de muito talento e com um temperamento muito especial, como Jovetic, no sudoeste de França admirava-se o «petit Zidane». Yoann Gourcuff encantava não só pelas semelhanças com o antigo rei do futebol gaulês, mas também pela irreverência, pela liderança em campo de uma equipa de poucos consagrados, que valia essencialmente pelo seu coletivo. Um talento especial que não voltou a atingir o nível futebolístico de excelência demonstrado naqueles meses. 

      De regresso aos oitavos, uma pequena grande menção honrosa para o Real Madrid. Mesmo com Cristiano Ronaldo, mesmo com o regresso de uma aposta galática, assente nas contratações de Albiol, Alonso, Kaká ou Benzema, mesmo com a motivação de poder disputar a final em casa, no Santiago Bernabéu, os merengues falharam de forma inacreditável o apuramento para os quartos de final...pela sexta vez consecutiva! CR9 - o 7 estava ainda ocupado (por pouco tempo) pela lenda Raúl - ainda empatou a eliminatória com o Lyon, mas nem Pellegrini foi capaz de evitar mais uma desilusão europeia daquele que era ainda o recordista de vitórias na prova. Uma maldição que iria acabar no ano segunite, com o protagonista destas linhas. 

      Pois bem, mas antes de rumar a um dos maiores clubes do planeta, Mourinho tinha diante de si um grande desafio logo nos oitavos da Champions. Não só pelo valor do Chelsea, que tinha vencido o grupo e que dava sinais de uma candidatura muito forte ao título da Premier League, mas porque se pintava um cenário parecido ao do ano anterior, quando o Inter foi demasiado curto para lidar com outro adversário inglês também muito forte, o Manchester United. Desta vez, contudo, a resposta foi totalmente diferente e a vitória categórica na segunda-mão, pela margem mínima, serviu apenas para mostrar que este conjunto estava pronto para, pelo menos, lutar pelo título europeu. A consistência defensiva era cada vez maior, com Lúcio a mostrar-se um reforço de grande peso e utilidade, lá na frente o trio Sneijder-Eto´o-Milito demonstrava uma complementaridade mais do que interessante e, acima de tudo, os nerazzurri eram um coletivo cada vez mais confiante e mais bem preparado para atacar qualquer presa. 

      Não era só o Inter, contudo, e voltando ao tema da rivalidade muito própria entre Mou e Pep, que dava sinais de força e de crescimento depois de uma fase de grupos mais sofrida. O Barça, imitando aquilo que tinha acontecido exatamente um ano antes, destruiu os seus adversários dos oitavos e dos quartos com duas goleadas. Se o 4x0 ao Estugarda até pode nem ter sido grande surpresa, o 4x1 ao Arsenal acabou por ser um jogo de referência nesta edição da Champions e na própria carreira de Lionel Messi. O craque argentino, antes e depois desse 6 de abril de 2010, fez muita coisa boa, mas ser decisivo daquela forma e com aquela qualidade, perante uma das grandes equipas inglesas, não estava ao alcance de qualquer um. Exibições históricas e diferenciadoras que acabaram por ser decisivas para a conquista da segunda Bola de Ouro, uns meses mais tarde.  

      Entretanto, na Alemanha, sem dar muito nas vistas, Van Gaal começava a construir um possível super campeão. O Bayern estava forte no campeonato, na Taça - viria a conquistar essas duas competições - e, na Champions, tinha passado por um Cabo das Tormentas em Old Trafford, naquele que foi outro dos jogos memoráveis da Champions 2009/2010. Pela entrada fulgurante de um Manchester United que era sempre incessantemente competitivo nestes contextos, pelo grande golo de calcanhar de Nani e por um Robben que começava a demonstrar que, no flanco direito, mandava só ele e mais ninguém. E aquele festejo no Teatro dos Sonhos...intemporal!

      Chegamos, então, ao grande confronto entre José Mourinho e Pep Guardiola. Se, na outra meia final, o Lyon não teve capacidade para fintar o favoritismo bávaro, a eliminatória entre Barcelona e Inter não teve outra coisa senão equilíbrio, emoção e muito dramatismo. E tudo começou a aquecer em Milão, quando o Inter surpreendeu o Barcelona e levou para Camp Nou uma vantagem muito importante de 3x1. Pedro ainda marcou primeiro, mas a consistência defensiva e a capacidade para sair com perigo em transição reveladas pelos italianos deixaram o conjunto catalão atordoado, nervoso, estranhamente desconfiado. Afinal, o campeão europeu não era imbatível e podia mesmo cair, depois de uma época não tão brilhante como a anterior, é certo, mas onde não faltaram na mesma momentos de excelência futebolística.

      Faltava, contudo, o mais difícil: evitar que o Barça voltasse a ter uma daquelas noites de total inspiração e superação. Camp Nou acreditava e o passado recente desta equipa que entrou para a história do jogo abria boas perspetivas. Tudo ficou aparentemente mais fácil quando Thiago Motta, num lance muito discutível, recebeu ordem de expulsão, ficando o Inter reduzido a dez durante quase 90 minutos. A partir daí, foi um autêntico jogo do gato e do rato, com o Barça a dominar em todos os momentos e os italianos a fazerem das tripas coração, com organização defensiva irrepreensível e um grande Júlio César a formar uma autêntica cereja no topo do bolo. Piqué deu esperança para os últimos minutos, mas, no final, foi ver Mourinho a correr como um louco, na derrota mais saborosa de todas que o Special One teve de enfrentar. 

      Estava para se encontrar e consagrar um novo campeão europeu, em Madrid. Apesar da boa réplica do Bayern, da inspiração de Robben naqueles movimentos da direita para o meio, o triunfo do Inter nunca pareceu estar em causa. Esta era uma equipa preparada para o triplete histórico, confiante, sabedora das suas qualidades e dos seus defeitos, perfeitamente identificada com o jogo do adversário, que, por sua vez, nunca conseguiu lidar com o talento de Millito, decisivo em todas as conquistas ao longo da época. O Airbus de Mourinho, como o próprio tratou de classificar depois da exibição épica em Barcelona, tocava no céu. 

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      U Sábado, 22 Maio 2010 - 19:45
      Santiago Bernabéu
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      0-2
      Diego Milito 35' 70'
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