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      Edwin van der Sar: O Coelho de Gelo

      Texto por Ricardo Rebelo
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      Março de 2016. O modesto Noordwijk, emblema das divisões inferiores da Holanda, encontra-se numa situação complicada, tudo pela falta de soluções para assumir a baliza da equipa. Imponente, no auge dos seus 45 anos, os dois metros de altura e aquele olhar confiante inconfundível... Afinal, não era mesmo brincadeira nenhuma. Havia fumo branco. O bom filho, agora pai, a casa tornava. De luvas calçadas, com as ditas brancas a florescer pelo cabelo e a tempo de defender um penálti. Mais um, como em 21 anos de carreira nos habituou. Fiel às suas origens, esta é a odisseia de mais um Van que encantou a Europa, que conquistou 28 títulos e que se eternizou na história de Ajax, Manchester UnitedLaranja Mecânica.

      Não há guarda-redes? Edwin... avança!

      Nascido a 29 de outubro de 1970, em Voorhoult, localidade vizinha de Noordwijk e próxima de Amesterdão, Edwin Van Der Sar cresceu na região costeira do país. Foi no Foreholt que o miúdo, já distinguível pela sua compleição física acima da média, deu os primeiros passos no futebol. A certa altura, e em moldes idênticos à sua última aparição, o seu treinador, sem guarda-redes disponíveis, pediu-lhe para assumir essa responsabilidade, tarefa que Van der Sar abraçou, cumpriu e fez a diferença. 

      Jovem Van der Sar no Ajax ©Ajax
      Ijskonijn, ou, em bom português, coelho de gelo. Este é o termo que é carinhosamente associado a Van der Sar, um guarda-redes de grande porte (1 metro e 99 centímetros) e que desde cedo mostrou capacidades inimagináveis para um jogador desta envergadura. Foi na baliza que qualidades como força, agilidade, destreza, capacidade posicional ou os reflexos fora do normal se notabilizaram. Valores como estes traçaram um caminho de sucesso. Van der Sar prometia muito. 

      Depois de ingressar no Noordwijk para completar a fase final da sua formação, já como uma certeza na baliza, o seu destino cruzou-se, curiosamente, com o de uma figura incontornável do futebol holandês, e tudo devido... a um jogo de cartas. Ruud Bröring, treinador da equipa juvenil onde Van der Sar atuava, costumava competir amigavelmente com um jovem treinador que haveria de se tornar um símbolo marcante do Ajax: Louis Van Gaal. 

      ©Ajax
      Na altura a desempenhar funções como treinador adjunto do colosso holandês, a pretensão em contratar um guarda-redes surgiu na conversa entre os dois amigos. Ora, um mais um deu Van der Sar, que não demorou a impressionar o conceituado técnico que dava também os primeiros passos no banco de suplentes.

      Consta-se, no entanto, que, entre os postes, o miúdo de Voorhoult não se superiorizava aos demais concorrentes. Apesar de deter valias importantes em termos técnicos, a força mental e a capacidade para ler o jogo foram os fatores que seduziram Van Gaal por completo, qualidades essas que se tornariam essenciais para o estilo de jogo que o técnico viria a implementar num dos melhores períodos da história do Ajax.   

      Nove anos de Ajax, nove anos de glórias  

      O jovem da cidade piscatória dos arredores de Amesterdão chegava ao Ajax, em 1989, alternando algumas (poucas) presenças na equipa principal com o trabalho de desenvolvimento do seu potencial na De Toekomst, famosa academia do clube. Contudo, os primeiros tempos de Van der Sar não foram fáceis. Na sombra de Stanley Menzo, a saída do ostentoso guarda-redes esteve iminente, porém, Van Gaal conseguiu segurar o guardião que, depois de uma exibição frustrante do dono das redes dos de joden, agarrou a oportunidade e nunca mais a largou.

      Em Amesterdão, com muitos craques ©Ajax
      Foram nove as épocas a representar o Ajax, praticamente todas inesquecíveis, e que o fizeram voltar a casa, para assumir funções diretivas, após se ter retirado. Van der Sar partilhou balneário e uma efeméride de conquistas com nomes como os irmãos De Boer, Frank Rijkaard, Clarence Seedorf, Edgar Davids, Jari Litmanen, Patrick Kluivert ou Marc Overmars. À série de sucesso repercutida nos troféus conseguidos juntava-se a nota artística de um futebol diferenciado, intenso, pautado pela circulação rápida de bola e dinâmicas inesquecíveis. Era o ponto de partida para outras equipas de sucesso que se basearam na genialidade deste Ajax do qual Van der Sar fez parte.

      Em casos práticos, a conquista da Liga dos Campeões em Viena, perante o todo poderoso AC Milan, em 1995, foi o ponto alto de um percurso admirável do gigante no emblema holandês, tendo sido considerado o melhor guarda-redes da Europa naquele ano. Para além desta conquista, somaram-se triunfos em quatro ligas holandesas, uma Taça UEFA e mais sete títulos domésticos. Ah, e o primeiro e único golo da carreira!

      Edwin van der Sar
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      Seria imprudente não o referir, mas a verdade é que o papel de Van der Sar envolvia muito mais que manter a sua baliza inviolável. Era, sem dúvida, o papel que Van Gaal sabia que não serviria para qualquer um, mas o gigante em questão, como se sabe, estava longe de ser um desses casos. Desde as valências mentais hoje reconhecidas, passando pela qualidade técnica de um guarda-redes-líbero, Van der Sar era o ator perfeito para aquele papel.

      Sim, já que estamos a falar do génio por detrás de um intimidante guardião, é fundamental perceber que a qualidade técnica era apenas uma ferramenta usada por uma personalidade eficiente no seu jogo, que se diferenciava pela sua mestria e capacidade de comandar o setor que definia a primeira linha de defesa à sua baliza, não fosse pela sua estatura que amedrontava qualquer um que lhe desobedecesse. Van der Sar era, acima de tudo, uma mente tática, o que lhe permitia estar sempre um passo à frente do adversário. Tal capacidade veio a revelar-se decisiva. Louis Van Gaal estava corretíssimo.

      11 metros... O tira-teimas de mais um gigante Van Mecânico 

      Na lista dos jogadores com mais internacionalizações pela seleção holandesa, Van der Sar soma 130 aparições, menos quatro que o líder, Wesley Sneijder. O guarda-redes foi chamado ao Mundial 1994, nos Estados Unidos da América, contudo, não chegou a jogar, situação que perdurou depois de uma campanha que terminou nos quartos-de-final, após derrota com o Brasil. 

      O sucesso crescente no Ajax abriu-lhe, naturalmente, a porta da Laranja Mecânica. A primeira vez lá acabaria por chegar, em 1995, 10 dias depois de se ter sagrado campeão europeu, num amigável frente à Bielorrússia. Seguiram-se os Europeus de 1996, 2000, 2004 e 2008 e os Mundiais de 1998 e de 2006.

      Sem títulos pela Holanda, é verdade, no entanto, o papel de Van der Sar na geração que atravessou o novo milénio consolidou-se e, com ela, a admiração pelo guardião, visto como uma divindade que imprimia a mística de representar a seleção lendária daquele país como ninguém. Além disso, a passagem do jogador pela Laranja trouxe à tona uma das histórias mais peculiares e interessantes do percurso do coelho de gelo e estava tudo relacionado com uma espécie de trauma: grandes penalidades.

      A olho nu, uma das maiores qualidades que se pode atribuir a Van der Sar é, sem sombra de dúvidas, a magistralidade com que defendia penaltis... Quantos foram os títulos decididos assim a seu favor? No entanto, nem sempre foi assim. À parte do domínio interno do seu Ajax, a história na Holanda foi bem diferente, tendo sido as eliminações por grandes penalidades frente a França (Euro 1996), Brasil (Mundial 1998) e Itália (Euro 2000) bastante complicadas para o já conceituado guarda-redes que, apesar de tudo, arregaçou as mangas, contrariou a realidade e tornou-se num dos melhores de sempre neste capítulo.

      Antídoto? Hans van Breukelen. O antecessor de Van der Sar, conhecido pela sua mestria na arte de defender penáltis. A lenda do Ajax explicou que ambos se conheceram no âmbito de uma futura sucessão do antigo guardião responsável por momentos inesquecíveis nos duelos um a um. O que é que mudou? Sobretudo a mentalidade de Van der Sar, convencido por Breukelen que a marcação de grandes penalidades não se traduzia em sorte, mas sim em pesquisa intensiva sobre conhecer os adversários, leis que Van der Sar considerou e que o levaram a repetir os feitos do seu mentor.

      Depois de falhada a qualificação para o Mundial 2002 e de um momento conturbado na sua carreira a nível de clubes, Van der Sar regressava aos grandes palcos pela seleção holandesa no Euro 2004. Numa das suas exibições mais memoráveis, a seleção da Holanda quebrou o enguiço e afastou a Suécia nos quartos-de-final... na marcação de grandes penalidades.

      Van der Sar havia sido o herói e a sua evolução neste capítulo ainda se iria notar, e muito, no futuro. Seguiram-se as prestações discretas no Mundial 2006 (eliminado por Portugal) e no Euro 2008 (eliminado pela Rússia). Van der Sar abandonava a seleção em 2008, aos 37 anos, depois de considerado um dos melhores guarda-redes do Euro. Um legado sublime carregado da tal mística chegava ao fim. 

      Do falhanço na vecchia signora ao Craven Cottage

      E depois do adeus... Turim, Itália, em 1999. Com um status mais do que consolidado, o robusto guarda-redes saiu de Amesterdão em busca de um novo desafio para a sua carreira, mas o percurso na Juventus não correu pelo melhor.

      Edwin van der Sar
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      Aliciado pelo Liverpool, a escolha recaiu sobre o emblema italiano, mas as dificuldades fizeram-se sentir desde cedo. Foram duas épocas onde, apesar da regularidade, somando mais de 80 jogos, Van der Sar não só não caiu nas graças dos adeptos bianconeri, como foi fortemente criticado pela imprensa transalpina.

      Mas porquê? O que é que terá corrido tão mal? A explicação pode recair sobre vários fatores, tal como o choque de identidades, o namoro problemático entre um holandês habituado a jogador de uma determinada maneira que, ao fim ao cabo, era impensável naquele país, situação que se tornou bem evidente num desaguisado com Paolo Montero devido a um passe arriscado, numa saída de bola. A adaptação foi um grande entrave.

      A juntar a isso, a escassez de títulos, como a Serie A, perdida na última jornada para a Lazio, aumentava o remoinho de críticas, não só à equipa, mas ao próprio Van der Sar devido a vários erros que tinha cometido durante o campeonato, conjuntura que lhe valeu uma alcunha pouco amigável: Van der Gol.

      Não foi feliz em Turim ©D.R
      O guarda-redes, então cobiçado por colossos ingleses e pelo Barcelona de Van Gaal, decidiu continuar em Itália, mas a segunda época a defender as cores da Juventus revelou-se penosa. A contestação à equipa e ao próprio Van der Sar era imensa. O fim de linha, sem qualquer título, sem fazer a diferença e debaixo de uma chuva de criticas aconteceria com a chegada de... Gianluigi Buffon. 

      De cariz baixo, a atravessar uma má fase, o também conhecido por Flying Dutchman passava pelo pior momento da sua carreira. Foi então aos 31 anos que surgiu a oportunidade de ir para Inglaterra e para representar o Fulham. Predisposto a mudar o passado recente, Van der Sar voltou a reviver os tempos áureos de Ajax, fazendo esquecer completamente a passagem frustrada por Itália.

      Quatro épocas no Craven Cottage, quatro épocas de grande classe. Intransponível, o fenómeno holandês encantava pelos seus voos, defesas impossíveis e paradas convincentes frente aos maiores nomes do futebol inglês. Não demorou muito a dissecar a ideia de que um monstro das balizas estava de volta aos seus melhores dias. Entretanto, em 2005, o guarda-redes que, acima de tudo, se destacou pela sua longevidade, deu um passo decisivo na carreira para se situar como um dos melhores de sempre. Old Trafford recebia o veterano Van der Sar.

      Um red devil de sucesso... aos 34 anos

      «Se calhar cheguei uns anos demasiado tarde. Gostava de ter chegado mais cedo, mas adorei todos os momentos que vivi aqui», e, de seguida, uma calorosa ovação.

      Edwin van der Sar
      Manchester United
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      Entre várias palavras do discurso de despedida do guardião que pendurou as luvas aos 40 anos, talvez sejam estas as que ficam na memória. Seja como for, foram seis épocas onde Van der Sar superiorizou-se às probabilidades e conquistou Manchester. O drama dos penaltis ou o trauma italiano estavam mais do que ultrapassados. Com a confiança restaurada, Van der Sar chegou, viu e imortalizou-se no legado de Sir Alex Ferguson.

      Entre defesas magníficas e um cariz de autêntico líder dentro do balneário, os capítulos mais grandiosos do holandês nos red devils culminaram na histórica prestação na final da Community Shield, em 2007, frente ao Chelsea, onde defendeu os três primeiros penáltis dos blues. O carrasco dos londrinos voltaria em 2008, no desempate por grandes penalidades na final da Liga dos Campeões e através de uma defesa memorável ao penalti de Nicolas Anelka (lembra-se daquele jogo psicológico?), antes de John Terry entregar o título de bandeja. E claro, sem esquecer, o recorde sem sofrer golos no formato atual do campeonato inglês: 1311 minutos. 

      Van der Sar voltava a levantar a Liga dos Campeões. Depois de vencer a Taça Intercontinental pelo Ajax, revalidava o troféu através da conquista do Mundial de Clubes. Para além de uma Supertaça Europeia, conquistava, em solo inglês, a Premier League por quatro ocasiões e somava ainda mais seis troféus domésticos. Eram 28 títulos para Van der Sar, icónico guarda-redes holandês, dotado de uma força mental que lhe permitiu superar todo e qualquer obstáculo que se meteu entre ele e o sucesso. 

      A família e o cheirinho a relva em 2016

      O último jogo pelo Manchester United da figura holandesa sucedeu-se a 28 de maio de 2011, na final da Liga dos Campeões perdida frente ao Barcelona. Em janeiro desse ano, Van der Sar anunciava a sua aposentadoria, não só motivada pela sua veterania, mas também pelo problema de saúde da sua mulher, que havia sofrido um derrame cerebral em 2009. Van der Sar é casado desde maio de 2006 com Anne-Marie van Kesteren e até por esta atitude, a família sempre foi um ponto fulcral na sua vida, como se pode perceber. Van der Sar é ainda pai de dois filhos, Joe e Lynn, o primeiro, guarda-redes do seu clube de infância, o Noordwijk.

      E por falar em Noordwijk, o início deste texto é exatamente a história que imaginou na sua cabeça. Pronto a acudir o seu clube de sempre, Van der Sar voltou ao emblema da sua juventude para defender as suas redes. Fiel, conciso, simples. A personalidade de um grande entendedor de futebol levou-o ao sucesso, mas é justo dizer que os seus valores mais simples fazem-no-lo aquilo que ele é, um extraordinário guarda-redes que deu a volta por cima e tornou-se o ídolo de muitos. Eis o Coelho de Gelo.  

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