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      Anderson Polga: O Campeão do Mundo

      Texto por Hugo Filipe Martins
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      «O primeiro campeão do Mundo do futebol português». O rótulo por si só já diz muito do que se esperava de Anderson Polga quando aterrou em Lisboa para jogar no Sporting, onde esteve nove épocas, praticamente sempre titular no eixo defensivo leonino.

      Se o lugar no onze dos vários treinadores que passaram em Alvalade durante a estadia de Anderson Polga foi uma constante, o mesmo não se pode dizer da opinião dos adeptos sportinguistas. Polga nunca foi consensual, talvez pelas expectativas criadas aquando da saída do Brasil, talvez pelos poucos títulos que conquistou ao serviço do clube, mas o certo é que de Anderson Polga podia sempre esperar-se um central tranquilo e fiável, com um estilo pouco habitual para a altura - fazia poucas faltas e jogava sempre com simplicidade. 

      Como muitos, Polga saiu de Alvalade sem o desejado título de campeão, mas, para agrado dos adeptos ou não, «o primeiro campeão do Mundo do futebol português» marcou mesmo uma era em Alvalade.

      De ajudante de limpeza ao rival goleador de... Ronaldinho

      Desde a infância que Polga sempre foi uma pessoa tímida. Nascido em Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, onde esteve até fazer 17 anos, o brasileiro começou por ter uma vida pacata junto da família e dos amigos do bairro, com os quais começou a jogar futsal desde cedo, numa equipa chamada Tamiosso. Aí, Polga começou a destacar-se pela força física, que o levava a atuar em vários escalões do clube, já numa altura em que a vida familiar tinha dado uma grande volta. João, pai de Polga, sofreu um AVC e a família passou a sentir cada vez mais dificuldades financeiras. Polga decidiu pôr mãos à obra, quase literalmente.

      Apenas com sete anos, ainda uma criança, Anderson Polga transportou a força física do futsal para a empresa de pintura do tio, onde passou a ser ajudante de limpeza e a ganhar o seu dinheiro, que utilizava para comprar as suas coisas, incluindo aquelas que usava para praticar desporto. Enquanto ocupava grande parte do tempo a mexer em ácido e a lixar paredes, o resto desse tempo era utilizado para jogar futebol amador, sempre contra adversários mais velhos e agressivos.

      Polga passou vários anos em Alvalade, tendo-se tornado capitão do Sporting ©Catarina Morais

      Polga continuava a ser um miúdo tímido e discreto de personalidade, mas no campo de futebol dava cada vez mais nas vistas ao serviço do Cruzeiro, clube da cidade de Santiago. Aos 17 anos, chegou o momento que ninguém da família de Anderson Polga esperava. Ao participar pela terceira vez na Copa Santiago, um torneio de futebol sub-17 realizado na sua cidade, Polga deu nas vistas e acabou por dividir o protagonismo com um jogador que viria a ser seu colega dentro de pouco tempo e um dos melhores jogadores da história do futebol. Em três jogos, Polga fez três golos e dividiu o estatuto de melhor marcador com… Ronaldinho Gaúcho, que tinha marcado três em sete jogos. Já não havia volta a dar. As exibições de Polga chamaram a atenção de vários clubes e aos 17 anos, contra a vontade de Iolanda, a mãe que tanto desejava ver o filho com a farda militar, Polga apanhou o autocarro para Porto Alegre e assinou um contrato profissional com o Grémio, onde viria a reencontrar Ronaldinho.

      Tite, Scolari e Polga, o campeão do Mundo

      Não é à toa que os nomes de Tite e Scolari aparecem destacados em cima. Os dois treinadores tiveram extrema importância na carreira de Anderson Polga, que chegou ao Grémio, na altura treinado por Celso Roth, para ser médio defensivo e passou para central com a chegada de Tite. O novo treinador do emblema de Porto Alegre implementou um esquema com três centrais e a tranquilidade e leitura de jogo de Polga foram fatores chave para a mudança posicional. De «volante», como se diz no Brasil, Polga passou a ser «zagueiro» (defesa central), um dos melhores do campeonato.

      Já com uma Copa do Brasil e dois estaduais, Polga era um dos nomes mais cotados entre os defesas brasileiros e foi com naturalidade que o seu nome começou a entrar na lista de potenciais convocáveis para a seleção, que se preparava para participar no Mundial de 2002. Tite não tinha dúvidas da qualidade do jovem defesa e Scolari, se as teve, não demorou muito a dissipá-las.

      Polga, com a camisola 14, fez dois jogos no Mundial 2002 pela seleção brasileira, que acabaria por sagrar-se campeã ©Getty Images

      Já com o apuramento para o Mundial confirmado, o selecionador brasileiro decidiu aproveitar para testar algumas caras novas, entre elas estava Polga. O defesa estreou-se num particular frente à Bolívia e logo na primeira internacionalização pela Canarinha apontou um dos golos da vitória por 6x0. A restante preparação ajudou Scolari a acabar com todas as incertezas e o selecionador acabou por dar razão àqueles que consideravam Polga o terceiro melhor central do Brasil. Lúcio, Roque Júnior, Edmilson e Anderson Polga foram os quatro escolhidos para o Mundial no Japão e Coreia do Sul, conquistado precisamente pela seleção brasileira. Como era esperado, Polga não foi uma figura decisiva no escrete, mas participou em dois jogos da fase de grupos.

      Se aos 17 anos o adolescente Anderson Polga ainda não tinha visto o mar, um avião ou ido ao cinema, aquele Polga de 23 anos tinha visto o mundo. Pentacampeão brasileiro, um ano antes de deixar a América do Sul e viajar para a Europa. Disputado por Benfica e Sporting, acabou em Alvalade, onde não tardou a afirmar-se e de onde sairia apenas nove épocas depois.

      O primeiro campeão do Mundo em solo português

      Bem mais longa do que a etapa no Grémio foi a aventura no Sporting. Porque o sucesso também pode ser relativo, pode dizer-se que Polga não encontrou em Alvalade o clube que esperaria, nem os adeptos sportinguistas viram no brasileiro aquilo que o rótulo de «primeiro campeão do Mundo a jogar em Portugal» fazia transparecer. No Sporting, Polga foi bem sucedido se olharmos para as nove épocas que passou em Alvalade. 342 jogos num clube com o Sporting, para um jogador brasileiro, que, especialmente no início do século tinha a tradição de mudar várias vezes de clube, é um excelente registo, mas o número de títulos foi bem inferior.

      O estatuto com que Polga veio do Brasil (e a qualidade, claro) levou o brasileiro imediatamente para o onze de Fernando Santos. A tranquilidade do central deu logo nas vistas. Mais experiente e cada vez mais habituado ao futebol europeu, a leitura de jogo do internacional brasileiro era cada vez mais elogiada, até porque Polga tinha a particularidade de fazer poucas faltas quando comparado com outros colegas de posição.

      O passar dos anos em Alvalade trouxe, como tudo na vida, pontos altos e pontos baixos na carreira de Polga, que confessou, mais tarde, ter ficado adepto do Sporting pelo que viveu no clube. Apesar de ter sido titular em praticamente todas as épocas, o brasileiro viveu alguns períodos negativos de leão ao peito. Um dos piores foi precisamente em Alvalade, na final da Taça UEFA perdida para o CSKA. Polga, um dos habituais titulares, ficou no banco e revoltou-se com Peseiro, mas o treinador viria a abandonar o clube poucos meses depois e o defesa brasileiro acabaria por regressar à titularidade.

      Último jogo pelo Sporting foi no Jamor, na final da Taça de Portugal perdida para a Académica ©Catarina Morais

      Foi praticamente sempre assim. Nesses dez anos em Alvalade, Anderson Polga não foi sempre o jogador mais amado pelos adeptos, mas enquanto alguns jogadores entravam e saíam de Alvalade, Polga ia ficando e transmitia os valores do clube aos mais novos, mesmo quando o momento individual não era o melhor. Apesar de ser um defesa bastante fiável e elegante a jogar, o internacional brasileiro ficou marcado por alguns jogos negativos, especialmente em partidas da Liga dos Campeões, embora fosse um dos jogadores mais experientes do plantel. O registo goleador que tinha mostrado no Brasil também nunca foi visto em Alvalade, onde demorou 1502 dias a marcar o primeiro golo.

      Com Paulo Bento como treinador, Polga conquistou os únicos títulos em nove épocas - duas Taças de Portugal e duas Supertaças – e foi titular em todas as finais. Acabou também por ser numa final que Anderson Polga se despediu do clube que aprendeu a amar, apesar de alguns desgostos. Foi assim, desolado, que deixou o Sporting depois de perder a final da Taça de Portugal frente à Académica, já com a braçadeira de capitão no braço esquerdo.

      Demorou, mas a despedida de Anderson Polga acabou mesmo por acontecer. O desejo era regressar ao Brasil e assim foi. Assinou pelo Corinthians, onde reencontrou Tite, mas só fez três jogos. O suficiente para ganhar o estatuto de campeão do Mundo de clubes. Acabaria a carreira pouco depois, de forma tímida, mesmo à sua imagem. Assim foi a carreira de Anderson Polga: o primeiro campeão do Mundo a pisar solo português.

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      Thomas Mueller, Miroslav Klose, Lukas Podolski, Anderson Polga, Tonel
      Anderson Polga (BRA)
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