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      França 2016
      À volta do jogo

      História de uma profecia: «Só volto para casa dia 11 de julho»

      Texto por Luís Rocha Rodrigues
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      Falar do Euro 2016 é falar de um êxito inesperado. De partida para as fases finais, existe sempre uma confiança grande numa campanha triunfal, e Portugal teve vários momentos em que tal se verificou, como nos anos da designada Geração de Ouro ou no tempo do Cristiano Ronaldo mais explosivo. Ora, 2016 não foi dos mais fulgurantes, quer porque o nível exibicional da equipa de Fernando Santos não era brilhante, quer porque a concorrência era fortíssima.

      A campeã da Europa Espanha, a campeã do Mundo Alemanha, a anfitriã França, bem como as eternas Itália e Inglaterra ou a esplêndida Bélgica, repleta de craques... o lote de favoritos era alargado e não tinha espaço para Portugal. O histórico não tinha conquistas e essa é uma barreira que, até em termos psicológicos, muito conta na altura de decisões. Numa segunda linha sim, ao lado de Croácia, Polónia, Suíça, a espreitar uma brecha para ser surpresa.

      Havia o melhor do Mundo do lado lusitano, o que era um enorme aditivo para a equação, só que havia desconfiança e alguma descrença: na memória estava o Mundial 2014, onde nem o grupo foi passado, e a saída de vários jogadores habituais. Alguns tinham sido recuperados por Fernando Santos, como Ricardo Carvalho, Quaresma, Tiago ou Danny, numa garantia de que todos contavam... Embora nem todos: Danny e Bernardo Silva lesionaram-se no fim da época e foram baixas de peso.

      Contudo, nessa altura já estava em marcha o começo da profecia. É verdade, bem antes da fase final. Nas várias entrevistas que foi dando desde que foi assegurado o apuramento, o selecionador foi dizendo: «Não somos favoritos, mas vamos lá para ganhar o torneio. Somos candidatos».

      Discurso do Engenheiro era seguro ©Getty / Handout
      Uma mensagem várias vezes repetida e também acompanhada com a indicação da data de regresso. «Vamos ao Europeu com um objetivo claro, que é alcançar o êxito. Vamos jogar em Paris a final. É nessa base que trabalhamos. Temos a reserva até aí e acreditamos que vamos ficar cá até dia 11 de julho. Só quero ir embora nesse dia, depois de fazer a festa», disse, por exemplo, em janeiro.

      Em junho, na hora da convocatória, Fernando Santos falava assim: «Eu acredito e nós todos vamos acreditar que podemos chegar à final do Campeonato da Europa e vencer. Não é uma questão de fé mas de acreditar. E vamos fazer tudo. Não somos os favoritos, não temos essa presunção. Nunca dissemos que somos os favoritos, mas temos a ambição de ganhar. Estamos imbuídos desse espírito e não preciso de repetir isto aos jogadores. Se tivéssemos a presunção e achássemos que chegamos a França e ganhamos, não vamos ganhar absolutamente nada. Agora, acreditamos».

      Na adversidade, soou estranho

      Quando a competição arrancou, a tal descrença veio ao de cima. Um empate com a Islândia, seleção que se estreava em fases finais, e depois outra igualdade, com a Áustria, numa partida em que Cristiano Ronaldo falhou uma grande penalidade. Num grupo teoricamente acessível, o risco de eliminação existia e o alarmismo era geral... menos para o selecionador.

      «Vou estar em França dia 10 de julho. [Contra a Hungria, última jornada] É um jogo de tudo ou nada e vamos ganhar. Não tenho visto muitas equipas a jogar melhor do que nós. Tínhamos de ganhar à Áustria e merecíamos, mas agora vamos ganhar à Hungria», assegurou.

      Início foi muito tremido ©Global Imagens / Gerardo Santos
      Portugal não ganhou. Empatou a três e seguiu para os oitavos de final como um dos melhores terceiros classificados. Se no grupo havia equipas sem grande expressão, pior seria na fase a eliminar. A começar pela Croácia, que ganhou à Espanha na última jornada e assim venceu o seu grupo. Mas Portugal, enfim, venceria, a acabar o prolongamento.

      Depois, a Polónia. Após empate a um, grandes penalidades para decidir quem ia para as meias-finais. Tal como em 2012, a seleção atingia essa fase e Fernando Santos continuava na mesma linha.

      «Vamos mais seis dias para Marcoussis e eu continuo a acreditar que só dia 11 é que vou para Portugal. Continuo a acreditar nisso. A equipa acredita, estamos unidos e vamos fazer de tudo para dar uma alegria aos portugueses. Foi isso que prometemos. Vai ser batalha a batalha, até à final», sublinhou.

      Críticas não o abalaram ©Global Imagens / Gerardo Santos
      Nessa altura, várias eram as vozes críticas em relação ao nível exibicional da equipa lusa. Na bancada, cantava-se «Pouco importa, pouco importa / Se jogamos bem ou mal / Queremos é levar a taça / Para o nosso Portugal». Na sala de imprensa, Fernando Santos comentava: «

      Sentia-me incomodado se estivesse em casa e se dissessem que Portugal jogou muito bem mas não estava no Euro. Foi traçada uma meta e vamos lutar por isso. Queremos dar uma grande alegria aos portugueses. Temos consciência do que estamos a fazer. Não estamos aqui para fazer bonito ou feio. Estamos para fazer bem. (...) Não vai ser pêra fácil nem doce seguramente. Patinho feio, não me importo nada... nem ser Calimero. O que quero é ir à final e ganhar, o resto não quero saber. Entre bonito ou estar em casa ou feio e estares aqui, eu quero ser feio».

      A mensagem final

      Dia 7, contra Gales, objetivo cumprido ©Global Imagens / Gerardo Santos
      O País de Gales também foi passado, numa vitória em 90 minutos (a única), e a profecia estava cumprida: Fernando Santos estava, com a seleção, em França no dia 10 para disputar a final de Paris, e só no dia seguinte voltaria para Portugal. Com a taça nas mãos.

      No final do jogo, onde Éder foi herói improvável, Fernando Santos apareceu na conferência de imprensa largos minutos depois do apito final e da celebração, sentou-se perante os jornalistas, tirou um papel do bolso e leu-o, para a posteridade.

      «Quero deixar uma palavra ao especial ao presidente [Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol] pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos, a toda a direção e aos que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, quero dizer mais uma vez que tenho enorme orgulho em ter sido seu treinador a estes e aqueles que não estiveram presentes, também é deles esta vitória.

      O meu desejo pessoal é ir para casa, dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, mulher, filhos, ao meu neto, ao meu genro e minha nora e ao meu pai, que, junto de Deus, está seguramente a celebrar. A todos os amigos, um abraço muito apertado de obrigado pelo apoio, mas principalmente pela amizade.

      Por último, mas em primeiro, quero ir falar com o meu maior amigo e sua mãe, dedicar-Lhe esta conquista e agradecer por me ter convocado e agradecer por me ter concedido o dom da sabedoria, da perseverança e humildade para guiar esta equipa, com Ele a ter-me iluminado e guiado. Por tudo o que espero e desejo seja para glória de Seu nome.»

      Voltou como campeão ©Global Imagens / 8654

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