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      Arjen Robben: O Homem de Cristal

      Texto por Gaspar Castro
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      «Só há três coisas certas na vida: a morte, os impostos e Arjen Robben a cortar da direita para dentro e a marcar com o pé esquerdo». Algum sábio o disse, e tão bem o disse. Mais do que uma simples imagem de marca, era uma inevitabilidade que nem os melhores laterais-esquerdos souberam impedir.

      Ao longo dos anos, outra certeza surgiu na carreira do holandês: mais cedo ou mais tarde haverá outra lesão. Foi essa a razão da alcunha Homem de Cristal para um virtuoso que teve de batalhar contra problemas físicos recorrentes e ainda assim conseguiu chegar ao topo.

      Títulos na Holanda, em Inglaterra, em Espanha e na Alemanha (oito Bundesligas, no Bayern que o acolheu durante os largos últimos anos). Uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia. Só faltou fintar as lesões e somar títulos pela Laranja Mecânica, e tão pouco faltou para os conquistar...

      Discípulo do «Einstein do futebol»

      ©Getty / VI-Images
      Para explicar as origens de Arjen Robben temos de falar de Wiel Coerver. Mais do que apenas o treinador que venceu a Taça UEFA com o Feyenoord, foi um criador: conhecido como «o Albert Einstein do futebol», inspirou-se em Pelé, em Garrincha, em Cruyff, em Maradona, nos grandes...  e fez nascer o Método Coerver, uma metodologia de treino que aplica um conhecimento académico do futebol às decisões tomadas no relvado. Os discípulos de Coerver aprendem a ser altruístas, a pensar no jogo como um todo, como uma teia em que podem puxar o fio certo no momento certo, com a execução certa, para que tudo se transforme.

      Arjen Robben nunca foi treinado por Coerver, até porque já nasceu dez anos depois do último ano da carreira do técnico, mas foi um fiel discípulo e estudioso da metodologia, que fez dele um virtuoso ao serviço de um todo maior do que ele próprio, a equipa. Por isso, quando virmos um qualquer vídeo em que Arjen Robben tem espaço para chutar e prefere fintar para descobrir a posição certa antes de o fazer, podemos bem agradecer a Wiel Corver.

      A história do futebolista Arjen Robben, um filho dos anos 80, começa no fim dos 90 em Bedum, um pequeno município às portas de Groningen, lá para o topo dos Países Baixos. Começou a jogar cedo, descobriu os tais ensinamentos e não tardou muito a brilhar. Os primeiros passos foram no modesto VV Bedum, o clube amador ali da terra, e Robben foi logo um pequeno prodígio que se destacava mais do que todos os outros. Dez anos, onze anos, e já mostrava que era para outro nível. Aos 12, responsáveis do FC Groningen foram buscá-lo. E que grande passo era já este para Arjen Robben, ir parar ao maior clube da região.

      ©Getty / VI-Images
      A evolução nas camadas jovens do Groningen foi tremenda, e com apenas 16 anos teve direito a estreia entre os graúdos pela mão do treinador Jan van Dijk. 3 de dezembro de 2000, um adolescente lançado às feras na Eredivisie. A idade não se notava, o que se via era a rapidez e precisão na execução que viriam a levá-lo até ao topo. Logo nessa época de estreia, foi o jogador do ano do Groningen. Como não haveria de haver já clubes atentos a este novo talento?

      Miúdo maravilha em Eindhoven

      ©Getty / VI-Images

      Robben já andava nas seleções jovens holandesas e não foi preciso muito tempo para chegar a um nível que já não era para o bico do Groningen. Dois anos depois da estreia, ali na passagem para a maioridade, e já era altura do próximo passo. O Ajax quis levá-lo, e a tradição do clube de Amesterdão na formação de jovens foi bem apelativa (como o apelo de seguir as pisadas de Cruyff, Van Basten, Rijkaard e tantos outros...). Mas Robben não foi para Amesterdão, onde aliás nunca jogou, e na Holanda corre uma história que o justifica: reza a lenda que os responsáveis do Ajax se enganaram a escrever o nome de Arjen Robben no contrato. O pai, que era também agente, não gostou... e decidiu que o Ajax não era o clube para ele. O PSV aproveitou.

      ©Getty / VI-Images

      3,9 milhões de euros transferidos para o Groningen, o nome escrito como deveria ser e Robben a assinar contrato com o clube de Eindhoven, também um dos crónicos candidatos ao título nacional. O impacto deste diamante bruto foi imediato: na equipa triunfal de Guus Hiddink, ocupava a ala esquerda (só uns anos mais tarde se fixaria na direita), Dennis Rommedahl estava do lado oposto e à frente estava um impiedoso Mateja Kezman. Batman e Robben: assim chamavam à parceria entre o ponta-de-lança e o extremo, que tantos golos valeu. Kezman fez 40 golos, muito pelas assistências do jovem Robben, que criava ocasião atrás de ocasião e fez ele próprio 13 golos. O PSV levou o título, o 17º do clube, o prodígio canhoto foi o Jovem Jogador do Ano na Holanda e teve direito à estreia na seleção principal... contra Portugal, que viria a ser uma espinha encravada.

      Ao fim de uma época em Eindhoven já os clubes endinheirados da Europa andavam de olho em Robben, como no compatriota Van Persie que brilhava no Feyenoord. O Manchester United foi o primeiro a chegar-se à frente junto do PSV, mas tentou aproveitar as finanças fragilizadas do clube holandês com uma minúscula oferta de cinco milhões de libras: «com esse dinheiro talvez comprem uma camisola autografada do Robben», disseram aos red devils. Já o Chelsea não foi tão avarento. Estávamos em 2003 e a Stamford Bridge tinha chegado Roman Abramovich, cujos bolsos rebentavam de tão cheios... a oferta foi de 18 milhões de euros e foi aceite, com contrato de cinco anos para Robben, que ainda ficou em Eindhoven durante mais uma temporada, a segunda e última, na qual não conquistou o título mas saiu como ídolo. 

      Verão em Portugal, mudança para Londres

      ©Getty / Phil Cole

      Antes da mudança para Londres, onde encontraria José Mourinho (já lá vamos...), Arjen Robben foi até Portugal jogar o Euro2004, a primeira grande prova internacional que jogou, e a estreia foi arrebatadora a nível individual, com apenas 20 anos. Ao lado de Sneijder, Van der Vaart, Seedorf, Davids, De Boer... brilhou contra a República Checa, marcou o penálti vitorioso no desempate nos quartos contra a Suécia e só não foi além de Portugal nas meias.

      ©Getty / FRANCK FIFE

      Ao chegar a Stamford Bridge, onde chegava também o Special One recém-sagrado campeão europeu, o mundo do futebol começou a conhecer o lado Homem de Cristal do prodigioso holandês. Logo na pré-época, a primeira lesão grave, adiando a estreia ao serviço dos blues até novembro. Quando pôde jogar nessa época de 2004/05, teve momentos de brilhantismo a partir do flanco esquerdo, mas em toda a temporada só conseguiu estar em 29 jogos. Já tinha falhado o início, falhou também o final da épica conquista da Premier League e da viagem até às meias da Champions, depois de uma lesão grave contra o Blackburn.

      A segunda temporada trouxe-lhe já a marca de 40 jogos, a segunda Premier League consecutiva e duas Taças domésticas, mas Robben continuava a sentir a ameaça dos problemas físicos. Ainda assim, pôde ir à Alemanha jogar o Mundial de 2006 depois de ter apontado dois golos na qualificação. Já em solo alemão garantiu a vitória contra a Sérvia e Montenegro na estreia (melhor em campo), foi também o homem do jogo contra a Costa do Marfim e assim conseguiu uma dupla honra consecutiva que os Mundiais raramente viram. Poupado ao terceiro jogo contra a Argentina, com o apuramento garantido, caiu depois contra Portugal (outra vez), na célebre Batalha de Nuremberga.

      ©Getty / ODD ANDERSEN

      A terceira temporada no Chelsea foi de novo atormentada por lesões, mas a estrela reluziu em vários momentos, como num golo decisivo contra o FC Porto nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões ou na assistência para o golo vitorioso de Didier Drogba na Taça da Liga contra o Arsenal. Era por demais evidente: quando Robben estava nas melhores condições, era um dos mais entusiasmantes do melhor campeonato do mundo. Para o Real Madrid o querer mesmo com esses problemas, tinha de ser realmente bom.

      Empurrado para fora de Madrid

      No Santiago Bernabéu vivia-se nesse ano de 2007 uma espécie de crise de identidade. Estávamos na era do pós-galáticos, durante a qual os adeptos se tinham habituado a ver Zidane, Figo, Ronaldo, Beckham e tantos outros. Era preciso seguir em frente, mas como? O rumo adotado pelo então presidente Ramón Calderón teve forte toque holandês: juntou a Van Nistelrooy o médio Sneijder, o lateral/extremo Drenthe... e Arjen Robben, pelo qual os merengues pagaram 35 milhões de euros. Os seguidores do clube torceram o nariz, Robben convenceu-os durante os 28 jogos em que atuou e marcou cinco golos, numa equipa comandada por Bernd Schuster que venceu de forma convincente a Liga. 

      ©Getty / David R. Anchuelo

      Chegava a hora do Europeu de 2008, a Laranja Mecânica era comandada pelo ícone Van Basten, que não quis dar a Robben o protagonismo de outrora, deixando-o a lutar com Van Persie por um lugar numa das faixas, e Robben esteve em apenas dois jogos... foi suficiente para contribuir para o apuramento no grupo da morte com Itália, França e Roménia, com um golo memorável contra os gauleses. Nos quartos-de-final, uma desoladora derrota contra a Rússia, sem Robben em campo.

      Ao Real Madrid chegou entretanto Juande Ramos, e foi por esta altura que Robben se fixou no lado direito do ataque e atormentou os defesas com a tal movimentação estilo assinatura. Fez 37 jogos e oito golos, voltou a convencer, mas os merengues ficaram-se pelo segundo lugar da Liga e oitavos da Champions e pedia-se algo diferente. À presidência voltou Florentino Pérez, que foi às compras como sempre gostou de fazer: chegaram Cristiano Ronaldo, Kaká, Benzema, Xabi Alonso e não só. Robben perdeu espaço, não teve direito a lugar na equipa e foi dado como dispensável, para surpresa do próprio.

      Anos felizes na Baviera

      Dependendo da análise, pode dizer-se que Arjen Robben já tinha chegado ao topo: o Real Madrid. Mas faltava algo mais, faltava ser indiscutível numa equipa de topo, e faltava também a Liga dos Campeões. Abriu-se então na Baviera uma porta para todas essas conquistas pessoais. O Bayern enviou para Madrid 25 milhões de euros e assim tiveram início várias histórias de amor: entre Robben e o Bayern, entre Robben e Ribéry, a célebre dupla Robbery. Os problemas físicos existiram também lá, mas a classe do holandês veio ao de cima quase sempre. Com o número 10 nas costas, ganhou oito Bundesligas nos dez anos em que lá andou. 

      ©Getty / Matthias Hangst

      Era dono e senhor de uma Bundesliga tantas vezes dominada pelo Bayern, e a primeira época foi logo extraordinária. 23 golos em 37 jogos, com um bis na estreia contra o Wolfsburgo e lá para a frente (na Champions) um golo da vitória contra a Fiorentina e um golaço contra o United. A conquista da Bundesliga ficou selada com uma goleada por 7x0 contra o Hannover e com hat-trick do holandês. Juntou ainda ao palmarés a Taça da Alemanha (marcou na final) e foi o jogador do ano na Alemanha. A única mágoa? A derrota na final da Liga dos Campeões contra o Inter do velho conhecido Mourinho.

      Esse ano de 2010 mostrou o melhor Robben e houve títulos, mas houve também boa dose de desilusão. Além de ficar às portas do sucesso na Champions, teve história semelhante no Mundial de 2010, talvez o melhor torneio internacional do extremo canhoto... que só jogou a partir do terceiro encontro. Não por decisão do selecionador, bem pelo contrário: Robben tinha-se lesionado antes do arranque da prova, mas teve direito a bilhete para a África do Sul na mesma, mesmo vindo a falhar os dois primeiros jogos por lesão. Era Homem de Cristal, sim, mas foi bem a tempo de brilhar a partir do terceiro duelo: golos triunfais contra a Eslováquia nos oitavos e contra o Uruguai nas meias, antes de uma final em que Andrés Iniesta lhe deu a maior das mágoas (e Iker Casillas teve uma grande palavra a dizer também).

      ©Getty / Adam Pretty

      Na Alemanha vieram então os dois anos do Dortmund, com os homens de Jürgen Klopp a quebrarem a hegemonia do Bayern. Robben fez meros 18 jogos em 2010/11 por problemas físicos e ainda lhe era apontado o dedo por fraquejar em momentos-chave, como num penálti falhado na final da Champions de 2012 que o Chelsea venceu contra todas as expectativas. Já eram muitas finais perdidas, muitas mortes na praia, mas a redenção viria um ano depois.

      Depois de um Euro2012 em que a seleção ficou muito abaixo das expectativas e perdeu os três jogos da fase de grupos (um contra Portugal), veio uma temporada 2012/13 que deu a Robben e ao restante Bayern tudo o que tinha para dar: Bundesliga, Taça da Alemanha, Supertaça... e a tão ansiada Liga dos Campeões, com o extremo holandês a fazer o golo da vitória contra o Dortmund em Wembley. A verdadeira definição de catarse, um dos mais icónicos momentos da carreira de Arjen Robben, também um dos mais icónicos momentos do gigantesco clube. Agora sim, Robben chegava ao topo e agarrava a orelhuda.

      O nível de ameaça do Dortmund tinha baixado, o Bayern voltou a colecionar Bundesligas: daí para a frente foi ano sim ano sim, a somar campeonatos até aos dias de hoje, sempre com Robben como estrela. No clube, o adeus deu-se em 2019, depois de uma época com apenas 19 jogos. Na seleção, o último grande torneio foi o Mundial de 2014, em que marcou dois golos numa chocante goleada (5x1) contra a Espanha e um contra a Austrália, contribuindo (e de que maneira) para a viagem até às meias-finais... houve ainda um penálti conquistado contra o México e um penálti convertido no desempate com a Costa Rica, antes da derrota contra a Argentina na penúltima fase, e da vitória por 3x0 contra o Brasil pelo terceiro lugar. Bronze para a Holanda, Bola de Bronze para um jogador que foi de topo e só não teve mais glória porque as lesões e as finais perdidas não deixaram.

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      Comentários (1)
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      motivo:
      Um dos melhores jogadores de sempre
      2020-04-03 08h33m por tcb9277
      Tal como diz o texto, se não fossem as lesões, ainda teria sido melhor.

      Não duvido que ganharia pelo menos uma bola de ouro.