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      John Terry: Captain Blue

      Texto por Ricardo Rebelo
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      Capitão, líder, lenda. Eis uma odisseia - inquestionavelmente - com muita controvérsia pelo caminho de um dos melhores defesas-centrais da sua geração. De seu nome John George Terry, nascido a sete de dezembro de 1980, um dos únicos três jogadores da história a representarem o Chelsea Football Club por mais de 700 vezes. O peso da braçadeira desde os seus 21 anos. A cara, juntamente com Frank Lampard, do sucesso, das maiores glórias do conjunto londrino. Para sempre ligado com o clube da sua vida, as conquistas e o suor dispensado em prol dos blues valem-lhe uma faixa em sua honra na sua casa, Stamford Bridge, onde permanecerá para a eternidade. John Terry é o símbolo da era dourada de um dos maiores emblemas ingleses.

      Afirmação de um central chegado antes do seu tempo 

      Nascido em Barking, John, irmão mais novo de Paul e filho de Sue e Ted Terry, deu os primeiros passos a nível desportivo na Eastbury Comprehensive School, onde jogou com nomes como Ledley King, Bobby Zamora ou Jermain Defoe. Numa mistura de educação com o desporto, a opção dos seus progenitores desenvolveu a paixão de Terry pelo desporto-rei e, com ela, a qualidade de uma criança bastante habilidosa. Depois de uma experiência no West Ham, o elemento mais novo da família Terry chegava às camadas jovens do Chelsea com apenas 14 anos.

      John Terry estreou-se a 28 de outubro de 1998 frente ao Aston Villa ©ChelseaFC
      Outubro de 1998 data a estreia do ainda miúdo pelo Chelsea sob o comando técnico de Gianluca Vialli. Eram 352 minutos nessa temporada para o miúdo que ainda não tinha atingido a maioridade, mas que dava os primeiros passos de uma longa e memorável história. Como parte integrante de um processo de evolução seguiu-se um empréstimo ao Nottingham Forest durante uma época para um pouco mais tarde, apesar de tenra idade, assumir um lugar no centro da defesa de forma gradual.

      Terry já impressionava, não pelas características mentais que lhe são associadas, mas sobretudo pela qualidade de um jovem defesa-central dotado de grande capacidade com a bola nos pés, algo que naquela época era raro e também por vezes desvalorizado, dado o conceito, a visão ou a ideia daquilo um defesa-central deveria ser. No entanto, Terry não pecava nesse aspeto, apenas demonstrava ser mais fora do normal, especial.

      E porque é impossível falar de John Terry sem as imagens de vários casos mediáticos entrarem de imediato na nossa cabeça, aquela que viria a ser uma carreira repleta disso mesmo conheceu o seu primeiro capítulo em 2001. Para o imponente líder foi difícil manter-se fora dos holofotes por razões que não o futebol e o primeiro desses episódios, juntamente com Frank Lampard, Jody Morris e Frank Sinclair, sucedeu-se após a embriaguez do trio num hotel repleto de cidadãos americanos logo após os ataques terroristas levados a cabo contra os Estados Unidos da América.

      John Terry assumiu a braçadeira de capitão aos 21 anos ©Getty / John Giles - PA Images
      Apesar da ocorrência, Terry continuava a fazer a diferença dentro de campo e mostrava, a cada jogo, aquilo que viria a ser. Quem não se lembra da magistralidade de Terry na arte de desarmar? A capacidade de antecipação, de leitura ou a compleição física de um jovem maturo também facilitaram uma travessia a todo o gás. As valias estavam lá, desenvolveram-se e o resto veio por acréscimo. O inglês estabeleceu-se no centro da defesa, isto logo nos inícios de século, sendo a época 2001/02 a primeira em que, com 21 anos, assumiu uma posição de maior responsabilidade e desengane-se quem pense que era apenas e só devido a uma maior regularidade... John Terry era mesmo o novo capitão do Chelsea.  

      Portugueses e ingleses sempre foram bons amigos

      Em 2004 chegava a Stamford Bridge um destemido treinador que havia conquistado a Liga dos Campeões com o FC Porto. Pela mão do histórico presidente blue, Roman Abramovich, José Mourinho aterrava em Londres para levar o Chelsea de forma categórica à conquista do campeonato inglês... 50 anos depois.

      Frank Lampard, José Mourinho e John Terry em 2005 ©Getty / Mike Egerton - EMPICS
      Confirmando as expetativas, Terry esteve em grande. Com 24 anos, o defesa-central não parava de evoluir e escusado será dizer que a ideia de jogo de Mou o beneficiava, muito também porque existia competência. A partir daí foi criada uma base para o técnico português brilhar, ao mesmo tempo que ia aprimorando um projeto de jogador inesquecível. 

      Perante uma dupla de respeito no centro da defesa com outro reforço, Ricardo Carvalho, o Chelsea sagrou-se campeão inglês e venceu a Carling Cup. E porque estamos a falar de dois jogadores dotados de uma mestria defensiva rara e de um técnico que, por aquela altura, demonstrava-se exímio no capítulo defensivo, a importância destes foi brutal para a emancipação do clube. As estatísticas, essas, não enganavam: 38 jogos de Premier League com apenas... 15 golos sofridos.

      Seguiu-se mais uma época nos mesmos moldes e os blues conquistavam o seu terceiro título de campeão inglês, o inédito bicampeonato. A aposta ganha na armada lusa (ainda havia Paulo Ferreira, Maniche ou Tiago), encabeçada, claro está, pelo Special One, constituía-se como o habitat perfeito para a evolução, a todos os níveis, do capitão, líder e futura lenda.

      John Terry falhou o penalti decisivo na final de Moscovo ©Getty / Shaun Botterill
      Tal estatuto não estava muito longe de ser conquistado. Terry capitaneava uma equipa que tinha feito história pelo emblema do bairro mais rico de Londres, mas a melhor parte para o colosso inglês e, por consequência, para o seu líder é que ainda havia muito para conquistar. Depois da saída de José Mourinho, chegava a época 2007/08 e, com ela, a possibilidade do Chelsea conquistar a Liga dos Campeões.

      Na final britânica, frente ao Manchester United, em Moscovo, a partida foi marcada pelo equilíbrio, tal como na luta pela Premier League entre os dois emblemas. Foi preciso o desempate por grandes penalidades para coroar o vencedor daquela edição da Liga dos Campeões. O que aconteceu de seguida levou Terry a lamentar-se de forma angustiante: «Avancei, sabendo que estava lá para um momento decisivo e tudo dependia de mim. O que aconteceu a seguir vai me assombrar pelo resto da minha vida». 

      No duelo com Edwin Van der Sar, o capitão blue escorregou, falhou o penálti decisivo e acabou imediatamente com as esperanças dos adeptos do Chelsea em elevar o nome do clube para um patamar paradisíaco. O Chelsea mantinha-se na sombra do Manchester United de Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo, porém, o melhor ainda estava para chegar.

      De escândalo em escândalo

      O Chelsea era uma confirmação entre os grandes do futebol inglês e voltou a prová-lo, em 2009/10, sob o leme de Carlo Ancelotti ao vencer a Premier League e a Taça de Inglaterra. O sucesso blue na primeira década do novo milénio era inigualável na história do clube, tal como o estatuto de Terry, considerado por muitos, já naquela altura, uma lenda. Apesar deste sucesso, uma conjuntura de casos extra-futebol ameaçou a sua integridade, explicitamente na seleção inglesa, onde já detinha um papel importante, mas sobretudo a negra imagem de um jogador de futebol que era notícia em todo o lado no início de 2010.

      Para além da seleção, Bridge e Terry coexistiram no Chelsea ©Getty / Neal Simpson - EMPICS
      Em causa esteva a relação extraconjugal que John Terry, casado e pai de dois filhos, teve com a ex-mulher do seu companheiro de seleção e ex-colega no Chelsea, Wayne Bridge. Na altura, o escândalo tomou elevadas proporções na vida do defesa-central, não só em termos pessoais mas também na sua atividade profissional. Em fevereiro daquele ano, a cara do sucesso blue foi despromovida de capitanear a seleção inglesa em troca com Rio Ferdinand. Mas a sanção esteve perto de ser ainda mais grave, isto porque os colegas de equipa encontravam-se divididos sobre toda a situação que, do outro lado, levou Wayne Bridge a renunciar à seleção devido à recusa em partilhar balneário com Terry, um dos seus melhores amigos antes de todos estes acontecimentos se originarem.

      Na memória fica a célebre mão estendida de Terry, ignorado por Bridge, no início de um Chelsea x Manchester City, não muito depois da polémica ter estalado. O rótulo de vilão estava presente na cabeça de muitos e a situação agravou-se ainda mais um ano depois, desta feita, um caso de abuso racial contra Anton Ferdinand, irmão de Rio, numa partida frente ao Queens Park Rangers, em outubro de 2011.

      Terry somou 78 internacionalizações por Inglaterra ©Getty / Jasper Juinen
      O captain blue foi considerado inocente, mas o que se seguiu, mais uma vez na seleção inglesa, foram as consequências do caso. Apesar de ter saído ilibado do processo dirigido pelas autoridades judiciais britânicas, a Federação Inglesa de Futebol (FA) impôs um castigo de quatro jogos a Terry, situação que o deixou desiludido e o levou a renunciar à seleção, em 2012, defendendo que a sua posição na equipa era insustentável. Antes disso, e depois de ter perdido a braçadeira devido ao escândalo sexual, voltou a recuperá-la em março de 2011 com Fabio Capello ao leme da seleção. No entando, a atitude da FA em punir o capitão do Chelsea e da Inglaterra levou também o selecionador italiano a abdicar do cargo.

      John Terry foi internacional inglês por 78 ocasiões, tendo marcado por seis vezes. Capitão desde 2006, depois de David Beckham, o defesa-central liderou a seleção das terras de Sua Majestade nos Mundiais 2006 e 2010 e no Europeu 2008. Esteve ainda presente no Mundial 2012 e no Europeu 2004. Terry terminava o seu ciclo pela Inglaterra aos 31 anos.

      A glória a níveis nunca antes vistos

      John Terry nos quartos-de-final, frente ao Benfica, na edição da Liga dos Campeões que o Chelsea viria a ganhar ©Catarina Morais
      O turbilhão de mediatismo assombrava o auge da carreira de John Terry. As consequências estavam à vista mas o capitão do Chelsea continuava de pedra e cal no clube. No epicentro da critica, o incontornável central mantinha-se intransponível no setor defensivo dos londrinos. Depois de uma época apagada com Carlo Ancelotti, o Chelsea recebia André Villas-Boas, técnico que chegava ao emblema londrino com contornos parecidos aos de José Mourinho. Apesar de não ter sido uma passagem bem sucedida do também ex-treinador portista, a temporada 2011/12 iria a tempo de revelar-se histórica.

      Com Roberto Di Matteo ao leme da equipa, o Chelsea terminou o campeonato na sexta posição, mas as atenções e o foco estavam na Liga dos Campeões. A equipa londrina havia ultrapassado Benfica e Barcelona e marcava presença, pela segunda vez na sua história, na final da Liga dos Campeões, em Munique... contra o Bayern.

      John Terry foi uma das peças-chave para levar a equipa à final, contudo, por fruto da expulsão na meia-final da competição, não esteve presente no jogo decisivo que sagrou o Chelsea campeão europeu em 2012. Era o delírio entre os adeptos dos blues que, na época seguinte, sob o comando técnico de Rafael Benitez, conquistavam a Liga Europa frente ao Benfica, em Amesterdão, também sem o inglês, devido a lesão. Apesar da relação tensa com o treinador espanhol, John Terry continuava no clube e os títulos europeus engrandeciam a sua aventura pelo emblema londrino.

      Apesar da ausência por lesão, Terry levantou a taça da Liga Europa conquistada frente ao Benfica ©Carlos Alberto Costa

      2013 marcou o regresso de José Mourinho ao Chelsea e com ele a fase final da carreira do capitão, na altura com 33 anos, do qual o conceituado técnico português nunca prescindiu. Obviamente, as suas qualidades físicas iam decrescendo, mas as valias mentais, a liderança e a longevidade de um estatuto mais do que conquistado continuavam a fazer a diferença.

      Após uma primeira época apagada, Mourinho voltou a levar o Chelsea à conquista da Premier League. Com o magistral técnico português, Terry nunca realizou menos de 40 jogos, marca que, naturalmente, demonstrava a importância de um verdadeiro comandante dentro de campo. Após uma saída conturbada de um dos grandes responsáveis pela carreira de sucesso de Terry, a veia conquistadora ainda não tinha conhecido o seu fim.

      Sob o comando técnico de Mourinho, Terry venceu a sua quarta Premier League
      Tudo o que é bom acaba e a consistência de Terry conhecia o seu final na época 2016/17. Ao serviço de Antonio Conte, John Terry realizou apenas 14 jogos, sinal que estaria iminente o fim da relação com o seu maior amor. Passados 22 anos da sua ligação, a caminhada fulgurante do captain blue conhecia o seu fim, mas antes voltou a fazer algo a que já se tinha habituado, ou seja, levantar mais um troféu, a sexta Premier League do clube.

      Numa despedida arrepiante em 2017, John Terry colocava um ponto final numa das ligações que mais frutos deram na história do desporto. Não se trata apenas e só de um jogador, mas sim do símbolo da mudança de paradigma de um clube que teve em Terry um dos ícones que a grandeza das conquistas no presente século trouxeram ao Chelsea.

      John Terry teve direito a uma grande despedida depois da mão cheia de Ligas Inglesas
      Três vezes considerado o melhor defesa para a UEFA e cinco aparições no melhor 11 do ano para a FIFA. 21 títulos - sim, mais de duas dezenas de triunfos -, três dos quais internacionais e cinco campeonatos que, de resto, o tornam como o único capitão a vencer a competição com esse estatuto tantas vezes. 

      E depois do adeus, o Aston Villa

      Ao serviço do Aston Villa, 2017/18 foi a última época do lendário central inglês ©Getty / Gareth Copley
      A sua história no futebol não havia terminado. Antes de pendurar as chuteiras, o experiente defesa-central juntou-se ao Aston Villa no Championship. Depois de alinhar em 36 partidas pelo histórico inglês, Terry e companhia caíram no derradeiro jogo do play-off de subida à Premier League frente ao Fulham, naquele que foi o último jogo da sua carreira curiosamente com uma derrota em Wembley, palco onde levantou muitos troféus.

      Terminando a vida dentro das quatro linhas, John Terry permaneceu (e permanece) na estrutura do Aston Villa, mais propriamente como treinador adjunto. Uma longa carreira de êxitos, controvérsias e, essencialmente, um legado que em Stamford Bridge jamais cairá por terra. Estamos assim perante o Captain, Leader, Legend como carinhosamente é reconhecido pelos apaixonados blues.

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