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      Fernando Hierro: El Jefe

      Texto por Ricardo Rebelo
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      O história de um dos maiores ícones da história do Real Madrid começou em 1989. Na capital espanhola, um miúdo de Málaga a atuar no Valladolid chegava ao Santiago Bernabéu para se juntar a Emilio Butragueño, Hugo Sánchez e Bernd Schuster. El Jefe já demonstrava, apesar da idade precoce, as características, o carisma, a essência de um jogador imponente, de uma figura diferenciada que não se acanhou e confirmou aquilo para que estava predestinado.

      Impetuoso em cada lance, intransponível nos duelos aéreos, o líder que ainda não era mas que tinha de ser, a qualidade técnica para desarmar com classe, inteligentemente e, acima de tudo, a estranha, mas justificada veia goleadora de um médio defensivo que recuou definitivamente para defesa-central pela mão de Jorge Valdano, em 1994/95. Quando se adiantava no terreno mostrava que era muito mais que um simples trinco, ou, se preferir, um 6 de classe mundial. Estávamos perante Fernando Hierro, o espanhol que ficará eternizado nas memórias deste desporto. Carismático, eis El Jefe.

      Eis o miúdo acabado de chegar de Valladolid ©Getty / Michael Steele - EMPICS
      Perdido no tempo? Hierro sempre se manteve em alta. Até nisto o espanhol demonstrou para o que vinha. Pegou de estaca, o nível sempre foi altíssimo e sim, é, naturalmente, uma estrela incontornável da história do Real Madrid que está em cima da mesa, não poderia ser de outra forma. Foram 17 títulos em 14 anos, com a sua crescente quota parte de importância, não há como negar. Para quem é deste tempo, para quem acompanhava Hierro, certamente o dado seguinte não vai causar qualquer espanto: 127 golos.

      Pois é, mais de uma centena de golos acabam por ser uma das facetas da figura madrilena, tal era a perfeição de um jogador que atuava inicialmente no meio-campo merengue e onde registou épocas avassaladoras, passando a fase mais madura da sua carreira a defesa-central. Por vezes, aquando das suas primeiras épocas foi utilizado na posição nove e marcava fosse como fosse... Pelo ar, à bomba, de livre, de penálti, na cara do guarda-redes, enfim, inquestionavelmente, um jogador à frente do seu tempo, um líder nato em todos os capítulos do jogo.

      A paragem no Vicente Calderón a caminho de uma nova era

      De Valladolid para a capital, Hierro pisava o relvado do... Vicente Calderón. O craque que tinha dado e muito nas vistas segurava na camisola número seis, era aposta do lendário presidente colchonero, Gil y Gil, que havia negociado a sua permanência, a título de empréstimo, no clube onde tinha brilhado, sendo transferido na época seguinte, em 1990. O que se seguiu foi mais um episódio da tensa e escaldante rivalidade dos de Madrid, já que, Ramón Mendonza, líder dos merengues, mesmo depois da apresentação do jovem com as cores do eterno rival, abordou o espanhol, audaciosamente, com uma proposta aliciante à qual, Hierro, não recusou, estabelecendo-se de imediato na capital espanhola. No final do verão de 1989, El Moro era jogador do Real Madrid.

      Fernando Hierro foi motivo de disputa entre os rivais de Madrid ©HemerotecaRMFC
      As relações entre ambos os clubes eram tensas e então, entre os dois presidentes, idem aspas. Desde 1985 em choque, devido a Hugo Sánchez ter trocado o Atleti pelo rival, as emoções mantinham-se à flor da pele e o despoletar do caso Hierro trouxe ainda mais «sangue» a este duelo. O Real Madrid foi obrigado a indemnizar o Atlético de Madrid e, fiel à sua imagem, Gil y Gil, protagonizou um momento peculiar, utilizando esse dinheiro para produzir relógios para os seus adeptos com a seguinte inscrição: Regalos [Prendas] Don Ramón [ironia com o presidente dos blancos, Ramón Mendoza].

      Apesar de tudo, os blancos aperceberam-se com o tempo que a aposta, cifrada em 1,2 milhões de euros, tinha sido mais do que ganha. Era o início da década e com ela, o início de um bonito legado. 46 jogos, sete golos, conquista da Supertaça e do campeonato. Eis a primeira época, idêntica à segunda, mas antes daquela que viria a ser, por vários motivos, a época de apoteose para Hierro.  

      Os primeiros sinais estavam dados, o estatuto estava a ser conquistado a olhos vistos, a confirmação, essa, chegou em 1991/92. Hierro não garantiu nenhum título nessa temporada. Perdeu a luta com o Barcelona pela liga, caiu nas meias-finais da Taça UEFA, no entanto, ganhou o respeito, o rótulo de vencedor, tudo devido a uma época soberba a nível individual. A história de diferenciação já se via a olho nu, mas o jovem que se distinguia dos demais, dono e senhor do meio-campo madrileno e que era preponderante como ninguém naquela zona, chegava ao fim da época com 26 golos em 53 jogos. Uma constelação de exibições incríveis marcavam um jogador polivalente, fosse em que posição fosse, Hierro brilhava. Era, afinal de contas, a época de consciencialização para todos de que um prodígio tinha assumido um papel com maior responsabilidade no futebol espanhol.  

      As duas épocas seguintes revelaram-se as mais produtivas neste aspeto, contudo, foi, gradualmente, recuando para a posição que todos lhe associam. Apesar de menos golos, a essência, o espírito de líder sobredotado, futebolisticamente falando, foi algo que sempre esteve presente numa história que podia ter um desfecho diferente, isto porque, em 1993, o Barcelona, como admitiu o presidente blaugrana à data, Joan Gaspart, ofereceu seis milhões de euros para o contratar, no entanto, sem sucesso. Hierro estava pronto para cimentar a sua história no Real Madrid.

      O fenómeno multifacetado que marcou a La Roja

      Tal efeito no colosso madrileno não passou, obviamente, despercebido à seleção espanhola que, igualmente, recebeu um jogador disposto a fazer história. Mais uma vez, não desiludiu. Hierro é hoje uma das maiores figuras da seleção espanhola e pode ainda gabar-se de feitos ao alcance de poucos.

      Atualmente, Fernando Hierro é o segundo melhor marcador da seleção espanhola ©Getty / Mike Egerton - EMPICS
      89 internacionalizações, seis fases finais de Campeonatos da Europa e do Mundo, 29 golos. Assim foi o percurso de El Jefe pela Espanha. A veia goleadora, como pode ver, manteve-se intacta, sendo à data, nada mais, nada menos, que o segundo goleador máximo da seleção (chegou a ser o primeiro!), apenas superado por Raúl González, que apontou 31 golos.

      Em termos coletivos, a equipa espanhola onde Hierro figurava não esteve à altura do sucesso que a geração teve anos mais tarde. Seja como for, é um nome incontornável. Esteve presente nos mundiais 1990, 1994, 1998 e de 2002: nenhum deles foi particularmente assinalável em termos coletivos, contudo, o polivalente jogador marcou e foi presença regular nos últimos três.

      E por falar em Mundial, talvez o melhor momento de Hierro ao serviço de Espanha estará relacionado com o golo inesquecível que apontou frente à Dinamarca, em 1993, carimbando os bilhetes de embarque para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos da América. Não eram, de todo, tempos iguais para a seleção espanhola, isto em relação à equipa que conhecemos dos dias de hoje, contudo, é um dado adquirido que Hierro se tornou numa das figuras mais impactantes da La Roja.

      Capitão após Zubizarreta ter pendurado as luvas, Hierro ainda participou nos europeus de 1996 e 2000, mas sem grande sucesso. A decisão de abandonar a seleção de nuestros hermanos sucedeu-se depois do Mundial de 2002.

      A mudança da figura paterna do sucesso galático

      O ano era 1994. Jorge Valdano chegava ao comando técnico do Real Madrid. O técnico argentino, também pela falta de soluções de qualidade na defensiva, entendia que Hierro era o «reforço» perfeito para aquela posição que, de resto, manteve até ao fim da sua carreira. A verdade é que a aposta fazia sentido, o também conhecido por El Moro era um jogador de valia imensa, cumprindo os papéis que fossem precisos e calçou que nem uma luva no centro da defesa. A mudança definitiva de um jogador que adaptava-se a qualquer lado e que, ainda por cima, já tinha jogado no eixo da defesa era privilegiada por uma série de atributos apurados, como a capacidade posicional e de antecipação fora do vulgar ou, por exemplo, a qualidade cimentada na construção, quer pela capacidade de decisão, quer pela competência na execução da mesma. 

      Fernando Hierro conquistou a Liga dos Campeões por três vezes ©UEFA
      Os aspetos técnicos eram completados por uma capacidade de organizar os seus colegas acima do normal, no fundo, era como se de um verdadeiro comandante se tratasse. Respeitado, Hierro, uma certeza mais do que confirmada, começava a preparar o terreno para a melhor fase da sua carreira e, objetivamente, o regresso do Real Madrid aos grandes palcos. Depois de já ter ganho alguns troféus domésticos, Hierro pode ser considerado, sem qualquer exagero, um verdadeiro pai da geração que levou o clube blanco a conquistar três Ligas dos Campeões em seis anos, para além, de uma Supertaça Europeia e duas Taças Intercontinentais.

      O impetuoso líder vestiu a pele de herói na primeira conquista na competição milionária depois de um longo jejum de 22 anos. Frente à Juventus, um golo de Predrag Mijatović selou o triunfo, no entanto, a exibição de Hierro, ao travar Del Piero, a estrela da companhia adversária, é ainda hoje recordada como uma das suas melhores prestações e, quiçá, de um defesa perante um astro rival, numa partida daquela magnitude.

      Os galáticos estavam aí à porta e para os receber existia um carismático defesa-central com o estatuto completamente imaculado. Zidane, Figo, Ronaldo ou Roberto Carlos chegaram na fase final da carreira do espanhol, coincidindo num dos melhores períodos do lendário clube de Madrid. Em 2000, os merengues bateram os compatriotas do Valência por 3x0 na final da Liga dos Campeões. Passado duas épocas, foi a vez de garantirem pela nona vez a mesma competição, no célebre título do remate à meia volta de Zidane, frente ao Bayer Leverkusen.

      Para além das conquistas dos outros títulos internacionais já mencionados, e mais alguns campeonatos conquistados frente a equipas muito competitivas do Barcelona, Atlético de Madrid ou Deportivo, Hierro fez parte de uma verdadeira viragem positiva de século para o Real Madrid. Apesar de todo um percurso notável, El Jefe apenas assumiu a braçadeira de capitão em 2001, sucedendo a Manolo Sanchís, contudo, não estava em causa o estatuto de lenda do Real Madrid.

      Fernando Hierro capitaneou os primeiros galáticos ©Getty / Peter-Schatz
      Do famoso blackout à imprensa espanhola, em 1998, até à saída deturpada do Santiago Bernabéu, depois de um coro de criticas generalizadas à sua condição física, Hierro envolveu-se em vários casos mediáticos em Espanha, tudo antes da abandonar o Real Madrid pela mão de Florentino Perez, em 2003, acompanhando Vicente Del Bosque pela porta de saída, tudo enquanto uma significativa massa associativa do clube se juntava à porta do estádio para pedir a continuidade de Hierro. A verdade é que El Moro acabou por sair mesmo à medida que a política de galáticos ia sendo implementada pelo histórico dirigente blanco. Seguiu-se uma curta estadia no Qatar e ainda no Bolton de Sam Allardyce antes de pendurar as chuteiras, definitivamente, em 2005. A carreira imaculada do jogador terminava depois de 804 jogos e 163 golos.

      Se tivermos a época 1994/95 como o ponto de viragem, não em termos da carreira em si, mas do lendário defesa espanhol que todos conhecemos, faz sentido que a existir, seja aqui. A fasquia elevou-se, tornando-se uma personagem inigualável a partir do momento em que amadureceu, ainda mais, na posição no setor defensivo da equipa, deixando uma marca, não na sua capacidade ofensiva, que, apesar de tudo, caracteriza o enorme jogador que foi, mas sim como líder, como figura carismática e, por tudo isto, foi no eixo da defesa que essa marca apareceu, que o Fernando Hierro que todos nos recordamos hoje, se tornou verdadeiramente imortal para todos os apaixonados por futebol.

      A vida fora dos relvados

      Fernando Hierro continua com o bichinho da bola ©Real Oviedo
      Dos relvados para o fato e gravata. Hierro continuou ligado ao futebol, começando por um cargo diretivo na Real Federação Espanhola (RFEF) entre 2007 e 2014. Depois de uma passagem, nos mesmos moldes, pelo Málaga, juntou-se à equipa técnica de Carlo Ancelloti, em 2014, abandonando o cargo pouco tempo depois, em conjunto com a equipa técnica liderada pelo italiano, dados os maus resultados dos merengues.

      Em 2016, surgiu a primeira experiência como treinador principal, comandando o Real Oviedo, no entanto, o oitavo lugar na segunda liga espanhola não convenceu, sendo dispensado no final da época. Mais recentemente, voltou para a estrutura da RFEF, tendo assumido a equipa na desapontante campanha no Mundial 2018, tudo depois de Julen Lopetegui ter sido despedido a dois dias do começo da competição.

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