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      Liga BBVA 2008/2009
      Grandes jogos

      Real Madrid x Barcelona: A nova era culé no Bernabéu

      Texto por Jorge Ferreira Fernandes
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      A perfeição não existe. Num desporto complexo como o futebol é impossível controlar todos os momentos, todo o talento que um adversário possa ter, todas as incidências que tantas vezes são capazes de mudar o rumo de um acontecimento mais ou menos previsível. A maior parte do comum dos mortais pode, no máximo, ficar-se pelo quase, atingir níveis altos e entrar para a história sendo melhor, durante mais ou menos tempo. Outros, os especiais, tocam no céu e chegam a patamares únicos de excelência. 

      O Barcelona de Guardiola, em especial o primeiro, faz parte daquele conjunto de equipas com um lugar muito especial e importante no grande livro da história do jogo. Pela qualidade, pelos intérpretes, pela filosofia, pelos resultados avassaladores e, também, por esta goleada de 2x6 que ainda hoje é recordada como uma das mais avassaladoras em clássicos. Mais de dez anos depois, continua a parecer que foi uma equipa de um outro planeta aquela que invadiu o Santiago Bernabéu para deixar uma marca histórica. 

      Um baile daqueles

      Separados por apenas quatro pontos, Barcelona e Real Madrid chegaram ao clássico decisivo em momentos distintos. Juande Ramos, que entrou para substituir Schuster, tinha conquistado 52 dos 57 pontos possíveis e reduzido e muito uma diferença que chegou a ser de mais de uma dezena de pontos. O Barcelona, com o desgaste da Champions e da Taça, ia perdendo alguma força, sem que nunca estivesse em causa a qualidade de jogo que Xaví, Iniesta, Henry, Messi e companhia eram capazes de apresentar. Era uma queda nos resultados, não propriamente na máquina que começava a parecer imparável aos olhos dos observadores.  

      Praticamente na máxima força, os dois conjuntos apresentaram-se sem grandes novidades. Um Real com um Robben muito inspirado, um Higuaín como marcador incessante de golos e um Raúl que ainda oferecia classe e qualidade de definição no último terço. Já o Barcelona estruturava-se como habitualmente, com Messi, Henry e Eto´o a formarem um trio da frente temível. Parecia tudo igual, mas Guardiola trazia uma novidade na manga que viria a revolucionar o Barça e o futebol mundial. 

      Metzelder, o espelho da impotência blanca ©Getty /

      Na verdade, todas as cadeias de televisão, órgãos de comunicação de imprensa e rádios apontavam para o desenho do costume: Messi na direita, Eto´o no meio, Henry na esquerda. Pois bem, pela primeira vez a este nível, e depois de um ano em que o próprio jogador cresceu exponencialmente em quase todos os momentos do jogo, experimentando um futebol mais pausado e de toque, o argentino que viria a conquistar o planeta era colocado na posição de falso avançado-centro. A aposta, mais do que ganha, foi absolutamente marcante na carreira de um dos melhores da história do jogo e no clássico que encaminhou o primeiro de seis títulos catalães em 2009. 

      Uma mudança que a literatura futebolística já tratou de explicar que não surgiu como uma aposta momentânea ou um feeling. Apercebendo-se da distância entre centrais e dupla de médios que o Real costumava ter, Pep preparou uma estratégia que permitisse à equipa superioridade na zona intermédia e capacidade para deixar os já pouco móveis Cannavaro e Metzelder em sarilhos. Encarar a melhor versão de Messi de frente foi mesmo missão impossível e o telefonema uns dias antes do técnico para o jogador no sentido de o preparar para uma nova função e papel provou-se uma jogada acertada. 

      E nem foi preciso esperar muito tempo para se perceber que este Barça estava pronto para acabar com as dúvidas, mostrar toda a sua qualidade e, pior do que isso, deixar bem claro os defeitos do seu grande rival, algo escondidos, até então, pela via dos bons resultados. O remate perigoso de Xavi, ainda antes do ponteiro dar uma volta completa, e a defesa de Casillas representaram um ponto de partida para uma superioridade que viria a ser histórica e quase inacreditável. 

      Perante este cenário já descrito, espera-se que o futebol tenha alguma lógica. Impossível. É verdade que o Barcelona foi muito melhor desde o primeiro apito, mas este jogo é apaixonante de tão imprevisível que se pode tornar. O Real, com o talento das suas individualidades e pouco mais, chegou ao início da segunda parte com um impensável 2x3 no marcador. Impensável porque taticamente Juande Ramos nunca conseguiu controlar o tiki-taka do adversário, porque a diferença nas grandes oportunidades foi gritante, porque Casillas já tinha tido mais trabalho do que em várias outros clássicos juntos. E que gigante foi San Iker a impedir que os números passassem de históricos a irrepetíveis. 

      A estratégia de colocar Messi em terrenos mais centrais abriu o caminho da felicidade para o Barcelona. O argentino, numa das suas tardes mais inspiradas, construiu pequenas grandes sociedades com Xavi, Iniesta e Henry e a desorientação do outro lado só não ficou como a grande imagem do jogo porque não havia como não admirar aquilo que os artistas de Barcelona faziam. Foram seis golos, sim, muitas mais oportunidades, mas, acima de tudo, uma exibição para contar a filhos e netos. Sublime!

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      jogos históricos
      U Sábado, 02 Maio 2009 - 19:00
      Santiago Bernabéu
      Undiano Mallenco
      2-6
      Gonzalo Higuaín 14'
      Sergio Ramos 56'
      Thierry Henry 18' 58'
      Carles Puyol 20'
      Lionel Messi 36' 75'
      Gerard Piqué 83'
      Estádio
      Santiago Bernabéu
      Lotação81044
      Medidas105x68
      Inauguração1947