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      Carles Puyol: O Tarzan

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      Em 2003, o amor da vida de Carles Puyol não estava a passar a melhor fase. Aliás, o jogador já estava há quatro anos na equipa principal sem ter conquistado nenhum troféu, mas, mesmo assim, quando surgiu a oportunidade de se transferir para o Manchester United de Sir Alex Ferguson, campeão de Inglaterra, Puyol rejeitou imediatamente. Estava apaixonado pelo Barcelona.

      A decisão de ficar e renovar foi criticada por muitos em Espanha, mas só o próprio sabia o que estava para vir. No ano seguinte, Puyol herdaria a braçadeira de Luis Enrique, e da sua liderança nasceu uma das equipas mais dominantes da história.

      Nasceu um Homem

      Carles Puyol i Saforcada é recordado por imensas qualidades. Um verdadeiro líder, um homem justo e comprometido, exemplo de fair play e, acima de tudo, um dos melhores defesas da história do futebol. Mas nem sempre foi assim.

      ©Catarina Morais
      Quando Puyol começou a jogar futebol não era um defesa. Jogou a médio ofensivo durante a maior parte da sua infância, e foi frequentemente o melhor marcador da sua equipa.

      Já na fase final da sua formação no Barcelona, Puyol recuou para médio centro, e foi quando chegou à equipa B do clube catalão que completou a sua transição para a defesa, onde se viria a tornar uma referência.

      Competente com os dois pés, Carles Puyol era uma opção para qualquer posição na defesa. Fosse a lateral esquerdo, direito, ou a defesa central, o espanhol fixou-se como um dos melhores jogadores da formação secundária, o que levou a que, aos 21 anos, recebesse uma chamada de Louis Van Gaal, então treinador da equipa principal do Barcelona.

      ©Catarina Morais
      A 2 de outubro de 1999 foi chamado a entrar para o lugar de um jovem, de seu nome Simão Sabrosa, para a sua estreia oficial pelo Barcelona, num jogo em que venceram o Real Valladolid, por 0x2. Passou um ano até se estabelecer como regular na defesa, ora a central ora a lateral direito, mas algo terá feito bem, porque um ano depois estreava-se oficialmente pela seleção espanhola.

      Não era o mais alto de todos os defesas, pelo contrário, nem sequer dos mais fortes, mas Puyol era rápido e eficaz a abordar os lances e sabia usar o seu corpo. Era também um ás na arte de 'tirar o pão da boca' aos avançados, quando surgia e roubava a bola sem fazer falta nos momentos mais apertados. 

      Era um dos melhores defesas a ler o jogo e a saber antecipar-se, mas acima de tudo era destemido, e duro como mais ninguém num campo de futebol.

      «Carles Puyol põe a cabeça onde a maioria dos jogadores não se atreveria a pôr a chuteira», disse o icónico defesa italiano Franco Baresi sobre o espanhol.

      Nasceu um Capitão

      Quando começou a temporada de 2004/05, Puyol já levava quase 200 jogos pelo Barcelona e tinha-se tornado um dos membros mais influentes do plantel. Rejeitou Manchester porque tinha fé num clube que estava a mudar. Laporta chegou para presidente, Frank Rijkaard para treinador, e a braçadeira de capitão agarrou-se ao braço esquerdo de Puyol. Bons tempos estariam para vir.

      Nessa época, o Barcelona foi campeão espanhol pela primeira vez no novo milénio. No ano seguinte, defenderam o título de campeão e acrescentaram a conquista da Champions League. Com um plantel recheado de prata da casa, que para além de Puyol tinha nomes como Messi, Xavi, Iniesta e Victor Valdés, ao Barça não faltava talento e os troféus começavam a acumular-se.

      ©Getty / Jamie McDonald
      Para além da glória pelo Barcelona, Puyol também esteve presente nas conquistas da La Roja durante aquela que foi a sua geração de ouro. Pela seleção, o 'Tarzan' não usava a braçadeira de capitão devido a um tal guarda-redes de nome de Iker Casillas, mas não foi por isso que deixou de ser um líder dentro de campo, sendo a voz de uma das equipas mais talentosas da história do futebol internacional.

      Em 2008, fez dupla com Carlos Marchena na conquista do Europeu disputado na Áustria e Suíça, e dois anos mais tarde foi totalista na equipa de Espanha que venceu o Campeonato do Mundo de 2010, em que foi decisivo com o único golo da meia-final frente à Alemanha: uma cabeçada potente que bateu Neuer na baliza. 

      «Eu juro, soube que ia ser golo no exato momento em que o meu pé tocou na bola no pontapé de canto», disse Xavi depois do jogo. «Não sei como, mas soube. Olhei, vi o Puyi e pensei 'ele não falha esta, esta é golo'.»

      Com a conquista do Mundial, o defesa fez história, ao conquistar tudo, mesmo tudo, na sua carreira.

      Ainda em 2008, o defesa voltou da conquista europeia para encontrar grandes alterações na equipa do Barcelona. Rijkaard saiu e Pep Guardiola chegou, trazendo consigo uma nova filosofia.

      Para alcançar os seus objetivos, Guardiola dispensou uma boa parcela das estrelas do clube, mas houve um jogador que saiu ileso da razia, por motivos que o técnico explicaria mais tarde:

      «Puyol é um dos melhores da história do Barça. Ele foi um exemplo para todos, era sempre o primeiro a chegar ao treino, a correr.»

      ©Catarina Morais
      Logo na primeira temporada, atingiram o mundo do futebol como um furacão: a tríplice coroa, Campeonato, Copa del Rey e e UEFA Champions League. Nos anos seguintes, a Liga Espanhola não escapou, e em 2011 surgiu a terceira e última Champions League da titulada carreira de Puyol.

      Com as ideias de Pep, o futebol de Xavi e Iniesta e a magia de Messi, o Barcelona tornou-se uma força imparável, mas a importância da solidez de uma defesa liderada por Puyol nunca foi esquecida

      Mès que un Líder

      A pessoa que saiu mais beneficiada pela gloriosa carreira de Carles Puyol provavelmente não foi o próprio, nem os treinadores, nem os adeptos, mas sim Gerard Piqué. O defesa que teve a oportunidade de crescer ao lado do seu mentor, fazendo uma parceria com experiência e juventude.

      «Ele cansa-me!», disse Piqué. «Lembro-me do jogo em que ele voltou de lesão. A meio do jogo, eu disse-lhe 'Puyi, tive tantas saudades tuas.' Ele mandou-me calar e concentrar no jogo.»

      «Uma vez, o jogo estava parado, alguém se tinha lesionado, e ele estava só a gritar comigo. Eu disse-lhe 'Calma, está 4x0 e faltam três minutos.' Ele respondeu 'E então? concentra-te! Eu conheço-te.' Eu só me queria rir, o Puyol mantém-te sempre em alerta.»

      Aquilo que diferenciou Puyol dos seus companheiros e fez dele um dos grandes líderes que o desporto já viu foi a seriedade com que encarava os jogos. Tinha mais respeito que ninguém pelo futebol, e adorava estar em campo, razão pela qual nunca relaxou. O espanhol simplesmente dava demasiado valor a todas as oportunidades que tinha de representar a sua equipa. Talvez por isso se recusasse a envolver em tudo o que acontecia em campo que não fosse futebol.

      Num jogo contra o Mallorca, em 2005, levou uma chapada de Sergio Ballesteros. Puyol não reagiu, de todo, apenas virou costas. Ronaldinho não gostou do que viu e foi lançado para confrontar Ballesteros, que foi imediatamente protegido por... Puyol.

      ©Getty / Chris Brunskill Ltd
      Existem muitos momentos que definem El Capitan como um excelente jogador, líder, e pessoa, mas um deles é certamente o gesto que levou Eric Abidal a emocionar-se, quando, após a conquista da Champions League em 2009, Puyol deu a Taça ao francês durante a apresentação aos adeptos. Abidal tinha acabado de recuperar de uma cirurgia para remover um tumor do fígado.

      Em 2014, com 35 anos, Carles Puyol anunciou que no final da época iria pendurar as botas. Foi um momento emocional para o jogador, que várias vezes tinha mostrado vontade de jogar até aos 40 anos, mas o corpo não acompanhou a mente e as lesões foram-se acumulando. 

      Para a história ficaram os 593 jogos pelo Barcelona, 100 pela Seleção, e os 23 troféus que levantou. Sem dúvida, um dos grandes nomes do futebol mundial.

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      Carles Puyol (ESP)
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