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      Ricardo Carvalho: O General Silencioso

      Texto por Gaspar Castro
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      Dar o exemplo é para muitos a melhor forma de liderar, e o que Ricardo Carvalho fez em campo ao longo de uma ilustre carreira foi isso mesmo. Um central que não precisava de levantar a voz para mostrar aos colegas da defesa como travar ataques, a quem bastava ser exímio como era para inspirar. Um central com qualidades para sempre admiradas no FC Porto e pelo mundo fora.

      De Amarante a Shanghai foram mais de duas décadas, com passagens por grandes clubes de além-fronteiras como Chelsea ou Real Madrid. Porém, a Liga dos Campeões conquistada em Gelsenkirchen com a camisola azul e branca e o Euro2016 com a camisola das quinas terão sido os momentos mais marcantes de um dos grandes centrais que pisaram os relvados portugueses e europeus. 

      De Amarante à glória em Gelsenkirchen

      Ricardo Alberto Silveira de Carvalho nasceu com o Tâmega bem à vista, na cidade de Amarante. Calmo, tímido, recatado, o Manga - era assim que vários amigos o tratavam - ia dando por lá os primeiros toques na bola. As balizas das Antas, de Stamford Bridge, do Santiago Bernabéu, estavam bem longe... Ricardo e os amigos improvisavam com os portões das garagens. Não tardou muito até que o Manga fosse até ao Amarante FC, o clube da terra, dar uns toques mais a sério. Longe do futebol profissional, sonhava ser polícia, mas quando ainda nas camadas jovens o FC Porto lhe foi bater à porta outro sonho ganhou forma: policiar os avançados adversários, porque não?

      Ricardo Carvalho no jogo da conquista da Taça UEFA © John Walton - EMPICS / Getty Images
      Ricardo Carvalho mudava-se para a Invicta para representar o clube que era já então bicampeão nacional e caminhava para um penta único em Portugal. As qualidades já estavam à vista dos responsáveis portistas, mas havia ainda um caminho a percorrer para que o central se afirmasse. Para começar houve um ano na equipa de juniores portista e seguiu-se uma época de empréstimo ao vizinho Leça, onde deu início à carreira profissional. A estreia no FC Porto foi logo depois do regresso, num jogo contra o Salgueiros em que fez dupla com João Manuel Pinto. Um dia marcante, mas ainda era cedo, e seguir-se-iam mais dois empréstimos, ao Vitória FC e ao Alverca, para preparar o defesa para aquilo que aí vinha. 

      Regressou à casa de partida com 23 anos, com outra maturidade, e aproveitou a saída temporária de Jorge Costa para o Charlton para agarrar um lugar na defesa às ordens de Octávio Machado. Exibia desde logo a rapidez de decisão e capacidade de antecipação que sempre o caracterizaram, mas foi com José Mourinho, na época seguinte, que se começou a dar o salto em definitivo para o estrelato. Até começou a época como suplente de Pedro Emanuel, mas aproveitou as oportunidades que Mourinho lhe deu e tornou-se a primeira opção ao lado de Jorge Costa numa épica caminhada até um triplete: campeonato nacional, Taça de Portugal e Taça UEFA. Era também nesta altura que começava a surgir na seleção portuguesa, pela qual viria a jogar 89 vezes em toda a carreira.

      O central venceu uma vez a Liga dos Campeões, com a camisola do FC Porto ©Getty / Nigel French - EMPICS
      A essa já inesperadamente fantástica época seguiu-se uma outra ainda mais impressionante, tanto a nível individual como coletivo. 2003/04 trouxe um Ricardo Carvalho como peça essencial para a conquista de mais um título nacional e do segundo título europeu do FC Porto - a primeira Liga dos Campeões no formato moderno -, na célebre final contra o Mónaco. Considerado o melhor defesa do ano pela UEFA, esteve também na equipa do ano da UEFA e foi o único defesa no top 10 da Bola de Ouro desse ano. E se o fim da época já tinha sido de emoções fortes, também o verão o foi: jogou o seu primeiro grande torneio pela seleção nacional, o Euro2004. Foi suplente no primeiro jogo, saltou para o lugar de Fernando Couto no segundo e não perdeu mais um minuto sequer numa caminhada até à final contra a Grécia que acabou em... muitas lágrimas de desilusão.

      O chamamento dos tubarões

      A ilusão de facilidade que transmitia quando surrupiava a bola a todo e qualquer adversário para depois sair a jogar de peito feito fazia de Ricardo Carvalho um dos centrais mais apetecíveis do futebol europeu. Não seria preciso esperar muito mais para chegar a um campeonato de topo por valores quase impensáveis nessa altura. José Mourinho era o treinador campeão europeu de clubes, escolheu o endinheirado Chelsea para seguir caminho e, ao sentir falta de um novo central de qualidade em Londres, pediu a Roman Abramovich quem nunca o tinha deixado ficar mal: Ricardo Carvalho, claro.

      A relação com Mourinho nem sempre foi fácil, mas foi determinante ©Getty / Nick Potts - PA Images
      O oligarca russo largou 30 milhões de euros, numa altura em que dar dezenas de milhões por um defesa parecia de loucos, mas o central português viria a justificar. Formou uma dupla de ferro com John Terry e as duas primeiras temporadas em Stamford Bridge foram logo de grande sucesso, com dois muito ansiados títulos da Premier League. No fim desse período,  mais uma grande campanha pela seleção no Mundial2006, com Portugal a conquistar o quarto lugar em solo alemão. A terceira época em Inglaterra começou por trazer um desentendimento com Mourinho, mas o central viria a reentrar no onze e reforçar um estatuto que manteria mesmo para lá da saída do treinador português, tendo repetido uma presença numa final da Liga dos Campeões em 2008. Dessa vez perdeu, mas foi considerado pelos colegas de equipa o jogador do ano.

      Ricardo Carvalho apresentado no Real Madrid ©Getty / JAVIER SORIANO
      A ligação a Mourinho não ficaria por aí. Ricardo Carvalho não reencontrou o treinador no Inter - diz-se que queria rumar a Milão quando Guus Hiddink lhe retirou protagonismo no Chelsea - mas reencontrou-o no Real Madrid, já com 32 anos, com o clube espanhol a pagar algo como 7,9 milhões de euros. O então já experiente defesa esteve no Bernabéu durante três épocas e a primeira foi, de longe, a melhor a nível individual, com 48 jogos e enormes elogios à calma que transmitia à defesa merengue. O título espanhol viria no ano seguinte, numa época em que não teve igual sorte: uma lesão interrompeu-lhe a temporada e a partir daí começou a curva descendente na passagem por Madrid, até à eventual saída em fim de contrato após três temporadas.

      Uma bronca e um Euro conquistado com 38 anos

      Foi um pouco antes dessa tal lesão que Ricardo Carvalho teve o seu mais controverso episódio na seleção nacional, com Paulo Bento como selecionador. Em 2011, a equipa preparava um encontro com o Chipre quando o central abandonou a concentração de forma repentina, alegando mais tarde ter sido «desrespeitado» como profissional. Paulo Bento defendeu que o central «desertou» por ter percebido que não seria titular no jogo.

      Em 2011 deixou a concentração da seleção ©Getty / FRANCISCO LEONG
      Parecia ser o fim do trajeto internacional de Ricardo Carvalho, até que em 2014 o novo selecionador Fernando Santos decidiu chamá-lo de volta apesar dos seus 36 anos. Então jogador do Mónaco, que representou durante três épocas antes de terminar a carreira nos chineses do Shanghai SIPG, já não tinha toda a destreza do passado, mas a inteligência e capacidade de decisão mantinham-se e o central viria a fazer mais 14 jogos por Portugal na fase final da carreira.

      O Euro2016 foi o último grande troféu do central, então com 38 anos ©Getty / Jean Catuffe
      No âmbito da carreira internacional, o final foi mesmo de glória coletiva: esteve no Euro2016 que foi nosso, tendo sido escolhido para os três jogos da fase de grupos e ficado pelo banco durante as eliminatórias. A conquista da prova fez de Ricardo Carvalho o campeão da Europa mais velho da história da competição. Mas talvez mais importante do que isso foi a forma como ao longo de duas décadas fez os fãs do bom futebol deliciarem-se com os roubos exímios de um central de rara qualidade.

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      Ricardo Carvalho (POR)
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