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      António Livramento: O virtuoso imprevisível

      Texto por Humberto Ferreira
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      Contam os mais velhos, aqueles que tiveram a sorte de ver Livramento nas pistas, que num certo jogo de Portugal o árbitro interrompeu a partida e quis verificar se o stick dele tinha cola, tal era a facilidade de António Livramento a controlar a bola ‘colada’ ao stick.

      Virtuoso, fantasista, ícone, um homem diferenciado. António Livramento foi o único, no mundo do hóquei em patins, a conseguir ser figura e a ganhar coisas nos três principais emblemas do desporto em Portugal, Benfica, Sporting e FC Porto

      O futebolista que o hóquei soube fintar

      António Livramento tinha tudo para não ser jogador de hóquei em patins: Era alentejano, de São Manços, distrito de Évora, bem perto da zona raiana onde o hóquei não chegou. Foi viver para Lisboa, para os arredores de Benfica, e decidiu experimentar o futebol no ‘Fófó’. Esse foi o momento da mudança. Não se sabendo nem bem como, nem porquê, Torcato Ferreira, treinador do Futebol Benfica, disse que António Livramento tinha jeito para outro desporto, o hóquei em patins.

      No princípio, Livramento nem quis ouvir falar disso, mas depois de muita insistência pegou nos patins, experimentou no Benfica e nunca mais os largou. O ano da graça era 1959 e, com 16 anos, Livramento percebeu que se calhar tinha mesmo jeito para andar nas oito rodas e a dominar o ‘Aléu’ como ninguém. Nesse ano, foi convocado por António Raio à seleção de juniores e o efeito Livramento foi imediato: Melhor marcador e melhor jogador do torneio, tendo isto com o título europeu conquistado.

      Tão novo, tão desequilibrador, tão predestinado

      Já não havia como esconder: Livramento era diferente de todos os outros e ao mesmo tempo único. Nas pistas, espalhou magia e sozinho conseguiu, literalmente, ganhar jogos e competições.

      O momento de maiores conquistas do Benfica deu-se com ele na pista, os momentos mais altos da seleção nacional foram consigo. Com 17 anos, chegou à seleção nacional e logo se sagrou campeão da Europa. No ano seguinte, campeão do Mundo pela primeira vez, em Santiago do Chile. As crónicas relataram que, no jogo contra a Argentina, Livramento fez um golo soberbo, depois de uma jogada individual, e todo o pavilhão se levantou a aplaudir.

      Golos, muitos golos e o estrangeiro

      Nos tempos em que os guarda-redes não usavam máscaras, António Livramento era, na prática, aquele que mais vezes acertava na baliza e melhor conseguia fugir aos adversários. Só no campeonato da europa de 1967 fez 42 golos em nove jogos, sendo que, em três deles, marcou dez golos em cada.

      ©Sporting CP
      Tal como no futebol, qualquer modalidade, em plenos anos 70, não exportava valores, mas António Livramento era diferente de todos os outros e Itália chamou por ele. Dessa vez, Livramento não hesitou. Foi e todos se renderam às suas qualidades. Monza foi o primeiro sítio, mas foi em Lodi que ganhou o título de imortal, anos mais tarde, já depois de ter voltado a Portugal e ter brilhado no Sporting.

      Na cidade da Lombardia foi campeão italiano em 1977/78, numa altura em que o Lodi não sabia o que era ganhar.

      Por lá, existe um bar que ainda nos dias de hoje tem um espaço dedicado a António Livramento. Era a mesa onde o jogador passava os tempos fora do hóquei em patins.

      Não há memória de um jogador que tenha ganho tanto em tantos clubes diferentes, e de ser ele o responsável por essas vitórias. Foram 37 títulos entre Portugal, Benfica, Sporting, Lodi.

      Um treinador que não deixou a desejar

      Os anos de ouro de António Livramento não se cingiram à carreira de jogador. Mal colocou um travão às patinadelas a sério como atleta, transformou-se num treinador ímpar e com um toque de midas.

      ©RTP
      No ano de estreia, conquistou a Taça das Taças com os leões, frente aos espanhóis do Cibeles, numa equipa recheada de amigos e antigos companheiros de equipa de Livramento: Chana e Sobrinho eram apenas dois deles.

      Livramento venceu o primeiro título de campeão nacional como treinador no ano a seguir, igualmente ao serviço do Sporting, e na Nave de Alvalade sentiu a outra forma de festejar.

      Chegar à seleção nacional foi uma questão de pouco tempo.

      «Nesta seleção, são dez titulares». Esta expressão entrou na gíria das equipas de hóquei em patins, que assumiam a vontade de ganhar, e foi trazida por Livramento quando, nos anos 90, chegou à seleção nacional pela segunda vez. A seleção nacional era de facto melhor de todas as outras, e na altura, António Livramento escolhia a base do Sporting, FC Porto e do Benfica. Para ele não havia dúvidas: Dinâmicas de equipa, conhecimento do estilo e espírito de grupo já existiam, o resto era só unir sem misturar.
      Levou Portugal a quatro títulos europeus e dois mundiais, foi ainda o selecionador dos Jogos Olímpicos de 1992, com uma das melhores gerações da modalidade, mas não houve pódio.
      Jogadores desse período já contaram que no mundial do Recife, em 1995, antes da final com a Argentina, disse a todos os jogadores, de forma individual, que iam ser titulares, mas só podiam ser cinco e dessa vez Portugal não foi campeão do mundo.

      A última aventura

      Foi dos poucos a ser treinador de um clube e da seleção nacional, nos tempos em que esteve no Turquel, mas quando saiu da seleção nacional não demorou muito a voltar a ter um projeto para ganhar.

      Em 1998/99 foi para o FC Porto. O grande objetivo era voltar a levar os dragões às conquistas europeias. Para tal, os azuis e brancos foram contratar Edo Bosch. A primeira metade da época do ‘jovem’ guarda-redes foi desastrosa e ele chegou a perguntar se se tinham enganado no guarda-redes, mas o FC Porto ganhou, mas apenas internamento. Há quem diga que foi ele o percurso do Deca, que Franklim Pais veio a construir uns anos mais tarde.

      O título de campeão nacional 98/99 foi o último da carreira. Morreu em junho desse ano, vítima de AVC.

      ©António Lopes
      Desde então, é homenageado todos os anos com a supertaça, que ficou eternizada com o seu nome a partir da temporada 2001/2002.

      A modalidade deve-lhe a fama. Era comum ouvir-se que Livramento era mais conhecido que o hóquei em patins, e, numa altura em que o futebol quase atingiu o sucesso no Mundial de 1966, houve um ‘Eusébio’ sobre as oito rodas que deu ao país a alegria que tantas vezes fugiu, presa num regime ditatorial. Ele foi o maior.

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      Comentários (1)
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      motivo:
      Zerozero. . .
      2020-06-13 16h23m por bludouro
      Excelente homenagem a uma das maiores figuras nacionais (e mundiais) da modalidade. . . Sinceramente, o artigo faz uma ótima leitura.
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