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      Oliver Kahn: O Titã

      Texto por Duarte Monteiro
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      «O único animal lá em casa sou eu.»

      A descrição na primeira pessoa. Frontal, feroz e impulsivo. Indomável, assim era Oliver Kahn dentro das quatros linhas. Um líder de punho forte e de palavras cortantes que se soube impor pelo talento e pelo carisma. A carreira de Kahn, o titã, escreve-se praticamente com os termos do próprio; foi quase tão grandioso o espetáculo linguístico como as defesas impossíveis que fizeram dele um dos maiores entre os postes.

      Sem bases, mas com o resto

      Oliver Kahn entregou-se ao futebol com 17 anos. Estávamos em 1986 e as estruturas do futebol de formação viviam nos antípodas daquilo que hoje é regra. Por isso, o miúdo integrou diretamente a equipa de juniores do Karlsruher SC, o clube da sua cidade-natal, mas a espera pela Bundesliga seria curta. Um ano depois, numa noite nebulosa de novembro, Kahn fez a estreia em Colónia, onde encaixou quatro golos.

      «Sofrer quatro golos não é motivo para satisfação, mas é preciso entender a forma como os sofremos. Por isso, para uma estreia, foi razoável», dizia então o ainda estudante, mostrando desde cedo que não temia o ato de apontar as responsabilidades dos outros. Na jornada seguinte, voltou à baliza, diante do Werder Bremen. Nova derrota, por 0x2. O caminho começava íngreme, mas o titã tinha chegado.

      Munique e lesão grave

      O início foi arrastado, banhado em doses gigantes de paciência. Depois da estreia em 1987, Oliver Kahn só atingiu a consolidação na temporada de 1990/91, sob o comando de Winfried Schäfer. A lesão de Alexander Famulla na partida diante do VfL Bochum, na jornada 13 da Bundesliga, abriu-lhe as portas da glória. Kahn entrou e nunca mais saiu. Seguiram-se tardes e noites de exibições inesquecíveis que elevaram o guardião da terra ao estatuto de herói entre os adeptos do Karlsruher SC.

      Quatro anos. Depois, o adeus à casa-mãe. Oliver Kahn tinha crescido para lá da dimensão do seu clube de sempre. Após 140 jogos e uma chamada à seleção alemã para o Mundial de 1994 nos Estados Unidos (onde não fez qualquer jogo como terceiro guarda-redes), deu-se a mudança para o «monstro» Bayern de Munique. Era o início de um percurso para o qual nenhum título soa melhor do que «lendário».

      ©Getty /
      Kahn aterrou em Munique com o peso dos 4,6 milhões de marcos que os bávaros tinham pago por ele. À data, o mais elevado dos montantes alguma vez transferido por um guarda-redes alemão. E o que se seguiu foi a ameaça real de um caminho falhado. A 26 de novembro de 1994, diante do Bayer Leverkusen, uma rotura nos ligamentos. Cinco meses de recuperação e a pressão de voltar em grande. Foi isso que fez.

      Títulos e polémicas alimentaram o «monstro»

      Recuperado da lesão, Kahn regressou ao seu lugar na baliza e em 1996 pôde, por fim, celebrar o primeiro título da carreira. A conquista da Taça UEFA diante do Bordéus, pela mão de Franz Beckenbauer, seria o primeiro de 23 troféus, todos ao serviço do Bayern de Munique. Por esta altura, o titã era indiscutível no clube, mas na seleção vivia na sombra de Andreas Köpke. Um estatuto que não lhe permitiu somar qualquer minuto na caminhada triunfante da Alemanha no Euro 96, ele que tinha feito a estreia pela Mannschaft um ano antes, num particular com a Suíça.

      O ano de 1999 é marcante na carreira de Oliver Kahn. Não pelos títulos, mas pela polémica e pelo drama de Barcelona.

      Primeiro, em abril, no sempre escaldante clássico com o Borussia Dortmund, mordeu Andreas Möller na orelha; no mesmo jogo, depois de uma saída «kamikaze» da baliza, tentou repetir o «mimo» com Heiko Herrlich. «O treinador tinha-nos pedido para mordermos o adversário. Foi isso que tentei fazer», disse Kahn no final da partida.

      Depois, veio o dia 26 de maio e a final da Liga dos Campeões.

      Camp Nou, Barcelona.

      ©Getty / Michael Steele - EMPICS
      O relógio bate o minuto 90. O Bayern de Munique vence o Manchester United por 1x0. 91. Golo de Teddy Sheringham. Empate. 93. Canto para os red devils. Ole Gunnar Solskjaer desvia. 1x2. Fim. Kahn estava lá, entre os postes do templo catalão, no dia em que a Liga dos Campeões escreveu uma das mais míticas histórias do futebol. «Como é que descreveria aquele último lance?» Perguntaram-lhe. «Pois bem, foi canto e depois golo.» Assim era Oliver Kahn.

      Porém, a glória milionária chegaria ao seu currículo. Em 2001, Kahn e o Bayern de Munique regressaram à final da Champions, no Giuseppe Meazza, frente ao Valência. E, na noite mais triunfante da sua carreira, o guardião tinha reservado para si a chave do sucesso, ao defender três remates no desempate por grandes penalidades, o último e decisivo de Mauricio Pellegrino.

      O gigante das balizas tinha alcançado o apogeu na noite de Milão. Kahn já era lenda, agora tinha o diploma.

      O Mundial de 2002 e a relação com Jens Lehmann

      Quando defendeu esse último remate, o titã já era o senhor da baliza da seleção alemã. Tinha-a ganho, finalmente, antes do Euro 2000, onde acabou a sofrer um hattrick de Sérgio Conceição na «banheira» de Roterdão. Dois anos depois, Kahn esteve muito perto de se sagrar campeão do Mundo, mas dois golos de Ronaldo, o «fenómeno», travaram-lhe o caminho para o Olimpo. Ainda assim, foi eleito o melhor jogador da prova, o primeiro guarda-redes a merecer essa distinção em Campeonatos do Mundo.

      Depois do Euro português, em 2004, Kahn começou a sentir o «bafo» de Jens Lehmann, o «eterno» número dois da Alemanha. De língua afiada e personalidade intensa, Lehmann foi sempre um rival persistente, dentro e fora dos relvados. Certa tarde, um jornalista confrontou Kahn com a afirmação de que o concorrente era melhor a jogar com os pés. «Sim, também há pessoas que acreditam em extraterrestres», respondeu.

      ©Getty / Alexander Hassenstein
      No entanto, no Mundial alemão de 2006 seria relegado para o papel de suplente, quando Jürgen Klinsmann decidiu de forma surpreendente dar a titularidade a Lehmann. Kahn, então com 37 anos, aceitou a decisão com desportivismo. Inesquecível o momento em que, no Olímpico de Berlim, diante da Argentina, se aproxima de Lehmann e os dois trocam um aperto de mão antes do desempate por grandes penalidades. «Isto é teu», disse-lhe. A rivalidade ficava de fora. 

      Em 2008, o adeus. Chegava ao fim a caminhada do titã, eleito por três vezes o melhor guarda-redes do mundo. Para além dos títulos coletivos, Kahn continua a deter recordes individuais no futebol alemão. É o atleta com o maior número de vitórias na Bundesliga (310), o guarda-redes com mais jogos (557) e aquele com o maior número de encontros sem sofrer golos (196). Detalhes de uma carreira ímpar, adereços de uma história que perdurará até ao fim dos tempos.

      «Aqueles que olhavam Kahn nos olhos, ficavam com medo.» - Hugo Gatti, ex-guarda-redes da seleção argentina.

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      Comentários (2)
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      motivo:
      Oliver Kahn
      2020-03-15 15h24m por AcaroInformatico
      Muitos preferem Buffon, para mim Oliver Kahn é o Oliver Kahn.
      Um dos melhores de sempre, carismático, o verdadeiro e único "macaco".

      Um dia participou de um evento de solidariedade, em que dez criança iriam marcar uma grande penalidade cada, e por cada golo, reverteria uma quantia em dinheiro para o evento. Oliver Kahn em dez, defendeu dez. . . para ele nada era a feijões.
      GP
      Oliver Kahn
      2020-03-15 15h06m por Gprof_isBack
      Lenda!O 4 melhor GR de sempre!
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