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        Young Boys

        Texto por Ricardo Lestre
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        Se para fundar um clube é necessário um propósito, seja ele simples ou bem estranho, o BSC Young Boys – traduzindo para português significa “Rapazes Jovens” – nasceu com o claro intuito de imitar (e fazer frente a) um dos clubes mais poderosos da capital suíça a seu tempo.

        Tudo começou quando quatro estudantes da Universidade de Berna – os irmãos Max e Oscar Schwab, Hermann Bauer e Franz Kehrli – decidiram marcar presença no dérbi da cidade, entre FC Bern e… BSC Old Boys – “Rapazes Velhos”. Este último o principal motivo da fundação.

        A independência e o famoso hat-trick

        A 14 de março de 1898, o desejo concretizou-se. O FC Young Boys nasceu, ainda que dentro de uma espécie de barriga de aluguer, e começou por ser uma equipa jovem pertencente ao FC Bern. Mas o sucesso estava destinado.

        ©Young Boys
        O primeiro encontro aconteceu poucos meses depois – triunfo contra o FC Viktoria em junho – e a pressão para a «independência» começou a intensificar-se. O facto de os jovens do FC Young Boys serem utilizados frequentemente na primeira equipa do FC Bern irritou os restantes jogadores e surgiu um ultimato: afiliação definitiva ao clube (dois em um) ou independência. A partir desse momento, nasceu uma rivalidade motivada especialmente pelo rancor do FC Bern.

        Destino ou não, os êxitos começaram a aparecer. O YB iniciou um percurso com muitas vitórias, triunfou sobre os mais recentes rivais por duas ocasiões e sagrou-se campeão da Central League. Em 1900, o emblema de Berna foi admitido pela Associação de Futebol da Suíça e foi convidado, anos mais tarde, a disputar as fases finais do campeonato.

        O velhinho Wankdorf ©Young Boys
        Aí, e depois de tombado o FC Zürich, com os dois irmãos Schwab em campo, apareceu o todo poderoso e campeão FC Neuchâtel. A derrota no primeiro jogo por 1x4 dava sinais muito pouco positivos, mas nada estava perdido. Uma elevada dose de subestimação levou a que o YB no segundo encontro vencesse por uns esclarecedores 5x0 e levantasse o primeiro título de campeão com apenas cinco anos de existência, em 1902/03.

        Após esse acontecimento memorável, deu-se uma curta seca. Embora fosse presença constante nos lugares cimeiros, o YB só voltou a atingir o céu seis épocas mais tarde. E que sucesso. Um hat-trick (1908/09, 1909/10 e 1910/11) de títulos, mais três Taças. Arrumados ficaram conjuntos poderosos como FC Winterthur, FC Aarau, Servette Geneva e FC Zürich.

        Sotaque inglês, o velhinho Wankdorf e a nova vida

        No ano de 1913, o inglês Reynold Williams tornou-se no primeiro treinador da história do clube e não teve vida fácil. Estalou a I Guerra Mundial e o clube viu-se obrigado a colocar a mochila às costas e a mudar de casa. Desde 1904 no Spitalacker-Platz, que virou literalmente um campo de batatas, o YB alugou um novo terreno e, mesmo inserido num contexto difícil, conquistou o campeonato em 1919/20.

        O ano de 1925 acabou por ser memorável em todos os sentidos. Novo nome (FC Young Boys para Berner Sport Club Young Boys) e novo estádio.

        Em outubro, o grande e moderno Estádio Wankdorf foi inaugurado num torneio onde participaram clubes como Servete Geneva e… o Old Boys. No entanto, foi a rivalidade com o FC Bern que subiu de nível. Isto porque, ao contrário do YB, o clube atuava no pequeno e arcaico Neufeldplatz.

        À exceção da primeira Taça da Suíça, passaram-se 15 anos de uma longa seca, com dificuldades económicas intrinsecamente ligadas à II Guerra Mundial.

        Os anos dourados de Sing

        Falar dos tempos áureos do Young Boys é falar da década de '50 e parcialmente da de '60. O desconhecido Albert Sing chegou para o comando técnico e despertou um clube adormecido.

        Ninguém esperava tamanho sucesso. Aliás, o alemão até começou como treinador-jogador, mas decidiu, entretanto, dedicar-se a tempo inteiro a comandar de fora.

        A famosa equipa liderada por Albert Sing ©BSC Young Boys
        Nesse período, o investimento foi total. O plantel recebeu elementos de calibre como Eugene “Geni” Meier, Walter Eich, Heinz Schneite ou Ernst Wechselberger – alguns deles viraram lendas -, o Wankdorf aumentou de 30 para 60 mil espetadores com vista o Mundial de 1954 e o YB tocou o céu.

        Quatro campeonatos consecutivos (1956/57, 57/58, 58/59 e 59/60), duas Taças (1953 e 1958) e presenças memoráveis nas competições europeias. O YB dominou internamente e surpreendeu a Europa de tal forma que chegou mesmo a ser convidado para disputar alguns torneios internacionais.

        Para a história ficou a forma sensacional com que a equipa atingiu as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus em 1959 (hoje Liga dos Campeões) eliminando formações teoricamente superiores. E o momento mais marcante aconteceu, por isso, diante dos franceses do Stade de Reims. A primeira mão, num lotadíssimo Wankdorf, foi memorável, sendo que “Geni” Meier apontou o único golo.

        No Parque dos Príncipes, na capital francesa, o Stade de Reims não vacilou: triunfo por 3x0 e uma passagem à final.

        Sing deixou o Young Boys em 1964 e deixou um legado inigualável. O alemão entrou diretamente para os livros da história e é, até aos dias de hoje, o técnico mais bem-sucedido da história do emblema de Berna.

        Da queda a Mandziara ao… Real Madrid

        O vazio foi enorme e a herança muito pesada. Tanto que, desportivamente falando, o YB sofreu uma acentuada. Técnicos entraram e saíram pela porta pequena. Alguns jogadores fundamentais como “Geni” Meier ou Wechselberger permaneceram, mas de nada adiantou.

        Outros reforços apetrecharam o plantel, como Dieter Brenninger, que chegou do Bayern Munique, só que rivais como Basel e Zürich aproveitaram para subir à pole position. Em 1977, com Kurt Linder, o YB conquistou a quinta Taça do seu palmarés e apurou-se para as pré-eliminatórias da velhinha Taça das Taças, sendo eliminado pelo Rangers

        ©BSC Young Boys
        Os tempos de turbulência chegariam ao fim com a chegada de um senhor polaco com passaporte alemão de seu nome Alexander Mandziara, em 1984. A filosofia ofensiva e as sessões de treino duras e completas faziam parte do seu cardápio, mas a primeira temporada não correu de feição, com um pobre nono lugar no fim da época. Mas a confiança no seu trabalho continuou e em boa hora.

        Com Mandziara ao leme voltaram os títulos. Vinte e seis anos depois, o Young Boys voltou a festejar o título de campeão (1985/86). Uma segunda volta espetacular – na primeira acabaram em quinto – e o talento de futebolistas como Robert Prytz, Georges Bregy, Lars Lunde e Dario Zuffi fizeram a diferença no final e o Neuchâtel Xamax acabou… a ver navios.

        Na Europa, saiu a rifa mais valiosa. A 17 de setembro de 1986, sob uma chuva intensa, 32 mil espetadores lotaram o Wankdorf Stadium para ver a equipaça de Hugo Sánchez, Emilio Butragueño, Jorge Valdano e companhia. Um golo solitário de Urs Bamert aos dois minutos fez as delícias dos muitos adeptos presentes e deu um enorme alento ao conjunto suíço para o derradeiro encontro.

        Na segunda mão, 75 mil assistiram em pleno Santiago Bernabéu a uma goleada implacável (5x0). O Young Boys caiu, mas caiu de pé.

        Em 1987, a sexta Taça da Suíça deu um apuramento para a primeira ronda da Taça das Taças. O YB eliminou os checoslovacos do Dunkaska Streda, os holandeses do FC Den Haag e só sucumbiu perante o poderosíssimo Ajax com um 2x0 no conjunto das duas mãos.

        Os terríveis anos noventa

        A década de ’90 é uma das páginas mais escuras da história do YB. Viveu-se um novo e largo período sem títulos e o expoente máximo surgiu com a final da Taça em 1991. 
        Para além disso, os problemas económicos voltaram… e em força. Desde 1946/47 que as finanças não assombravam o clube que acabou relegado para a segunda divisão.

        Nesse mesmo ano a subida confirmou-se, a manutenção no principal escalão nem por isso e o pesadelo virou realidade. A bancarrota estava mais próxima do que nunca.

        Não fosse a intervenção de uma empresa sediada em Lucerna e o YB estava condenado à ruína. A dívida em 1999 superava o milhão de euros e praticamente todos os jogadores abandonaram o barco, relegando a equipa para uma situação bastante delicada.

        A possibilidade de disputar a terceira divisão esteve em cima da mesa e passou a forte possibilidade, mas a chegada de Marco Schällibaum para o leme e de alguns reforços impediu que tal acontecesse. 

        Em dezembro desse mesmo ano, tudo mudou. Entrou capital, houve investimento e um projeto bem delineado, tanto que, com o devido mérito, o YB voltou à elite do futebol suíço, praticando um futebol bem atraente. Nessa época, ficou registada apenas uma derrota em casa em toda a temporada.

        O assalto ao trono do Basel

        Mudar de século também significou uma mudar de estádio. O clube disputou o seu último encontro no velhinho Wankdorf na temporada 2001/02 e mudou-se para o atual Stade de Suisse Wankdorf Bern, inaugurado em 2005.

        Em 18/19, Hoarau marcou 30 golos ©BSC Young Boys
        Antes disso, a equipa não conseguiu voltar aos troféus apesar da contratação de alguns jogadores sonantes. Desde logo o mítico Stéphane Chapuisat, que com pompa e circunstância assinou proveniente do Grasshoppers. Prolífico goleador, o avançado é considerado um dos melhores jogadores da história do futebol helvético.

        Em 2003, as duas principais divisões sofreram uma profunda remodelação e, na primeira Super Liga, o YB atingiu o segundo posto, com Hans-Peter Zaugg no comando, e qualificou-se para as pré-eliminatórias da Champions, onde acabou por cair aos pés do Crvena Zvezda.

        Com o virar do século, o Young Boys conseguiu, em várias ocasiões, alcançar o topo da tabela classificativa e participar com regularidade nas competições europeias, sobretudo na Liga Europa.

        Mas a espera terminou em 2017/18. Foram 32 anos de um sonho que parecia inatingível perante um domínio absoluto do FC Basel. O Young Boys, então comandado pelo austríaco Adi Hütter, destronou o octocampeão e voltou a erguer o ceptro de campeão. Na época seguinte conquistou o bicampeonato, com Seoane ao leme e com um Guillaume Hoarau intratável na finalização, garantindo a primeira presença de sempre na fase de grupos liga milionária. 

        Comentários (3)
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        motivo:
        Young Boys
        2019-09-19 16h37m por cramos
        O maior acionário do clube, Andy Rihs, que investiu muito (e muitos anos) para que o YB voltasse ao sucesso, faleceu em abril de 2018 de doença, poucos dias antes do clube se sagrar oficialmente campeão após 32 anos. . .

        De realçar também o atual diretor desportivo Christoph Spycher que montou a estrutura atual (que conta também com Stéphane Chapuisat), e que tem feito um excelente trabalho.

        2019 foi a quarta vez que uma equipa da mesma cidade venceu o campeo...ler comentário completo »
        hat-trick
        2019-09-19 12h40m por Jbribeiro
        "(. . . ) Um inédito hat-trick (1909, 1910 e 1991)(. . . )"

        com interegno de 81 anos ?
        Agradecimento
        hm por zerozero.pt
        Muito obrigado. A notícia foi alterada com base no comentário acima.
        Zerozero. . .
        2019-09-19 12h14m por bludouro
        Excelente artigo sobre o Young Boys: sobre o seu historial e os seus princípios humildes, os seus pontos altos e baixos, e sobre os seus vários terrenos - particularmente o de Wankdorf (onde o Benfica já foi tão feliz).

        Há apenas um pequeno reparo: "Young Boys" significa - rigorosamente falando - "Rapazes Jovens". "Rapazes Novos" traduz-se em "New Boys".
        Agradecimento
        hm por zerozero.pt
        Muito obrigado. A notícia foi alterada com base no comentário acima.