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Rivaldo, o artista do carrossel

Texto por Vasco Sousa
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Qual foi o jogador inglês que marcou mais golos ao longo da sua carreira? Quando confrontados com esta questão, muitos pensarão em nomes incontornáveis como Bobby Charlton, recordista de golos ao serviço da seleção inglesa, ou Jimmy Greaves, que só marcou menos um golo que Charlton na seleção, mas que o superou por longa margem ao longo da carreira. Haverá por certo quem fale até de Arthur Rowley, o grande goleador dos anos 50, conhecido como The Gunner - sem nenhuma ligação ao Arsenal - e que apontou 434 golos em 619 jogos.

O Brasil é o berço de alguns dos melhores jogadores de sempre: Rivaldo é um deles. Campeão do Mundo, vencedor da Champions, considerado por uma vez o Melhor Jogador do Mundo, Rivaldo ganhou o seu lugar entre os maiores jogadores da história do desporto rei.

Primeiros passos no carrossel

Nascido na cidade de Paulista, no Pernambuco, em abril de 1972, passou pela formação do clube local (Paulistano), onde cedo deu nas vistas e transferiu-se para o Santa Cruz, clube pelo qual se estreou como profissional, em 1992. Demonstrou qualidade na Copa São Paulo de Juniores, que levou o Mogi Mirim a contratá-lo. Ao serviço do clube paulista, Rivaldo formou com Válber e Leto um tridente que foi conhecido pelo “Carrossel Caipira”, pelo bom futebol apresentado, inspirado pela Laranja Mecânica, a Holanda da década de 1970.

O salto e a “vingança”

As boas exibições de Rivaldo pelo Mogi Mirim valeram-lhe a transferência para o Corinthians, onde não foi feliz, jogando muitas vezes fora da sua posição. Estávamos em 1994 e por esta altura a Parmalat, multinacional italiana de produtos alimentícios investia no Palmeiras, criando uma equipa recheada de estrelas, e juntou Rivaldo a nomes como Roberto Carlos, Zinho, César Sampaio, Flávio Conceição ou Edmundo. No Palmeiras, explodiu definitivamente, sagrando-se campeão brasileiro e brilhando intensamente na final do campeonato, frente... ao Corinthians. Bisou na 1.ª mão e marcou o golo do empate na 2.ª, tornando-se a figura maior do título palmeirense.

Brilho em La Liga

©Getty / Martin Rose
Em 1996, Rivaldo participou nos Jogos Olímpicos, competição que, à data, os brasileiros nunca tinham vencido. Nas meias-finais, a Nigéria destruiu o sonho olímpico de Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos ou Bebeto, que teve que se contentar com a medalha de bronze. Após a prova, transferiu-se para a Europa, rumando a Espanha e ao Deportivo, equipa galega que, por essa altura, lutava com Barcelona e Real Madrid pelo título espanhol. Numa época inesquecível na Liga Espanhola, com craques como Redondo, Seedorf, Roberto Carlos, Mijatovic, Raúl, Suker, Stoitchkov, Figo, Guardiola ou Ronaldo, o internacional brasileiro foi um dos que mais brilhou na competição, apontando 21 golos. Era um ídolo no Riazor, mas o Barcelona, então órfão de Ronaldo, contratou-o.

Foi no Camp Nou que viveu os melhores anos da sua carreira. Na sua 1.ª temporada no Barcelona, ajudou o clube catalão a vencer a dobradinha.

1998 foi o ano de afirmação definitiva na seleção brasileira. Apesar de se ter estreado em 1993, até 1997 só tinha alinhado em jogos amigáveis. Nesse ano, conquistou a Taça das Confederações, mas era habitualmente suplente na Seleção Canarinha. Contudo, a grande forma exibida pelo Barcelona “obrigava” Mário Zagallo a conceder-lhe a titularidade. Foi titular nos sete jogos do Brasil no Mundial de França, marcando três, dois deles decisivos nos quartos de final, frente à Dinamarca. Apesar do Brasil ter falhado nessa ocasião o penta, Rivaldo foi um dos destaques da prova e convenceu a torcida brasileira.

O Melhor do Mundo

Numa época em que vários craques brilhavam (Zidane, Ronaldo, Figo...), Rivaldo foi eleito o Melhor Jogador do Mundo pela FIFA em 1999, vencendo ainda a Bola de Ouro, atribuída pelo France Football. Era o apogeu da carreira de Rivaldo, com as suas arrancadas, os remates de fora da área, os livres diretos ou as assistências para golo a encantarem não só a plateia de Barcelona, mas como todos os adeptos em geral.

Nesse ano de 1999, Rivaldo voltou a conquistar a Liga Espanhola, marcando um total de 24 golos na competição, e conquistou ainda a Copa América pelo Brasil, numa prova onde foi o maior destaque, bisando na final, frente ao Uruguai.

Rei da Catalunha

No Barcelona, Rivaldo manteve-se até 2002. Em 2000, foi o melhor marcador da Champions, com 10 golos, mas os catalães viveram um final da época para esquecer: viram o Deportivo sagrar-se campeão espanhol pela 1.ª vez e foram eliminados nas meias-finais da Champions pelo Valencia.

2000/01 não é, propriamente, uma época que os adeptos do Barcelona guardem boas recordações, mas foi, provavelmente, a melhor temporada da carreira do internacional brasileiro. Rivaldo marcou 36 golos (o seu melhor registo numa só época), e colecionou algumas das suas melhores exibições de sempre. Assinou um hat-trick no San Siro, perante o Milan; bisou no Santiago Bernabéu: mas foi na última jornada da Liga Espanhola que Rivaldo mais brilhou. O Barcelona recebia o Valencia com a obrigação de vencer para chegar à Champions. Os catalães venceram por 3x2, com um hat-trick de Rivaldo. O seu 3.º golo, marcado no final do jogo, levou a multidão ao rubro, não só por significar a vitória do Barça, mas pela forma como foi obtido: Rivaldo marcou de fora da área, de pontapé de bicicleta...

2001/02 foi a sua última época no Camp Nou – e também a menos feliz. Até começou bastante bem (9 golos em 9 jogos), mas não teve a influência que costumava ter na equipa. Não foi utilizado nos últimos jogos da equipa nessa temporada (incluisivemente nas meias-finais da Champions, frente ao Real Madrid) e no final da temporada rescindiu contrato com os catalães, terminando assim uma relação quase perfeita.

Campeão do Mundo

Em 2002, no Mundial da Coreia do Sul e do Japão, Rivaldo espalhou classe e viveu o melhor momento da carreira, ao sagrar-se campeão do Mundo. Foi titular nos sete jogos da seleção orientada por Scolari, e marcou cinco golos, todos nos cinco primeiros jogos. Ao lado de Cafú, Lúcio, Roberto Carlos, Ronaldinho e Ronaldo, foi uma das maiores estrelas dos brasileiros na conquista do título mundial. Esse Mundial ficou ainda recordado por um momento caricato envolvendo Rivaldo: logo na estreia, frente à Turquia, simulou uma agressão de um jogador turco, agarrando-se à cabeça, quando tinha levado com uma bola nas pernas. A sua “cena” levou à expulsão de um jogador da seleção turca. 
©Getty / Ross Kinnaird


Enfim, a Champions

Terminado o capítulo Barcelona, Rivaldo transferiu-se para o Milan. Ao lado de craques como Maldini, Pirlo, Seedorf, Shevchenko, Rui Costa ou Inzaghi, venceu a Champions, título que lhe faltou no Barcelona. Contudo, Rivaldo não foi totalmente feliz no San Siro, não sendo titular indiscutível. De resto, foi mesmo suplente não utilizado na final da Champions. Ainda começou a época seguinte em Itália, conquistou a Supertaça Europeia frente ao FC Porto, mas a meio da temporada voltou ao Brasil.

Reta final da carreira

O Cruzeiro, no seu país natal, marcou o início da curva descendente da carreira de Rivaldo, onde saltou de clube em clube e em país em país. Após meio ano em Belo Horizonte, voltou à Europa, alinhando três épocas no Olympiacos, onde voltou a viver excelentes momentos, marcando ao Liverpool ou ao Real Madrid. Pela Grécia continuou, jogando no AEK, seguindo-se depois o Usbequistão (onde voltou a ser orientado por Scolari), Angola e o regresso ao Brasil (São Paulo e São Caetano), terminando a carreira no “seu” Mogi Mirim, clube que chegou a presidir e onde jogou com o filho.

O futebol brasileiro tem inúmeros craques: de Pelé a Neymar, passando por Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Zico ou Garrincha. Rivaldo talvez não tivesse o estilo ou o carisma destes. Mas a carreira e os títulos conquistados falam por si e colocam-no entre os grandes do futebol.

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