história
À volta do jogo

Baldes de Água Fria

Texto por João Pedro Silveira
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Alvalade, Lisboa, 18 de Maio de 2005, um gigante balde de água fria cai sobre a juba do leão. O Sporting juntava-se a uma lista ilustre de desafortunados que conta nomes tão grandes como o Brasil, Portugal, a Itália, a Alemanha, o Bayern, a Roma ou até o FC Porto.

Esta terça feira, o Sporting enfrenta os moscovitas do CSKA no play-off de acesso à Liga dos Campeões. Entre os adeptos sportinguistas será difícil encontrar um que não sinta algum incómodo quando se recorda do último encontro entre leões e russos, precisamente no mesmo Estádio de Alvalade onde amanhã, portugueses e russos decidem quem vai participar na próxima edição da «Liga Milionária».

Vágner Love fez estragos ©Getty / Jamie McDonald
Em 2005 a competição era outra. Em Lisboa decidia-se a final da Taça UEFA - hoje Liga Europa - e o Sporting jogava a final no seu próprio estádio. O golo de Rogério na primeira parte fez sonhar o leão, mas no segundo tempo os moscovitas cilindraram o sonho sportinguista e levaram a taça para a Rússia. Terá sido o momento mais duro da história verde e branca, um gigantesco balde de água fria que se abateu sobre Alvalade.

Do desastre da Luz ao Mineirazo Mas o Sporting não está sozinho nesta lista que o zerozero.pt recuperou. Quase um ano antes, não muito longe de Alvalade, a Seleção Nacional jogava a final do Euro 2004 contra a Grécia no Estádio da Luz. Todo o país acreditava que finalmente Portugal iria conquistar um grande título internacional. Angelos Charisteas e companhia tinham outros planos e Portugal levou um banho gelado sem igual.

Perder a final de uma grande competição internacional em casa não acontece a todos. Portugal tem como companhia a seleção brasileira, derrotada pelo Uruguai no Maracanazo, o jogo decisivo do mundial de 1950, em pleno Estádio do Maracanã, perante 200 mil adeptos incrédulos.

O fantasma do Maracanazo durou décadas. O Brasil esperou pacientemente pela oportunidade de voltar a organizar um Campeonato do Mundo e finalmente vence-lo. 2014 era o ano mágico para enterrar o fantasma do Maracanazo. Com maior ou menor eficácia o Brasil chegou às meias-finais, para sofrer às mãos da Alemanha a mais pesada derrota da sua história (1x7). O Maracanazo estava morto, o Brasil tinha novo fantasma para mais meio-século: o Mineirazo

Outras derrotas célebres Na história dos mundiais vários foram os baldes de água fria deitados sobre a cabeça das equipas que jogavam em casa. Em 1974, o RFA x RDA, o célebre encontro de irmãos, ainda na primeira fase da prova, terminou com uma vitória inesperada dos alemães de leste, perante a incredulidade de todos os que estavam presentes no estádio em Hamburgo.

16 anos depois, em Nápoles, numa noite quente de verão, a Squadra Azzurra estava a um passo de jogar a final do seu Mundial em casa. O último obstáculo no caminho transalpino era a Argentina de Maradona. Com muito sofrimento à mistura, a Albiceleste aguentou o jogo até às grandes penalidades. Na "lotaria" dos onze metros, Donadoni e Serena falharam e a Itália perdeu a sua final, a Argentina seguiu para Roma, onde seria vencida pela Alemanha Ocidental.

A Alemanha também sofreu a mesma desdita em 2006, quando já no prolongamento, Fabio Grosso e Alessandro Del Piero marcaram os dois golos com que a Itália a eliminou da prova. A Itália iria à final e venceria a França nas grandes penalidades. O balde de água fria de 1990 estava vingado.

Em 2012, o Chelsea ganhava a Champions em Munique ©Getty / Mike Hewitt
Mas, como o Sporting bem sabe, os baldes de água fria sofridos pela equipa da casa não se resumem apenas ao futebol de seleções. A história das competições europeias também tem os seus momentos memoráveis. 

Em 2012, o Bayern sentiu na pele o que o Sporting sentira em 2005. Perante um estádio pintado de vermelho, os bávaros acabaram vencidos pelo futebol defensivo do Chelsea, que levou a melhor no desempate por penáltis. 

Muitos anos antes, o Estádio Olímpico de Roma assistiu à célebre final entre a Roma e o Liverpool. Quem viu não esquece a dança de Bruce Grobbelaar perante o medo estampado no rosto de Francesco Graziani. O italiano falhou a grande penalidade e os reds levaram a Taça para Inglaterra.

Até o FC Porto... Também no futebol nacional os baldes de água fria já fizeram a sua vítima: O FC Porto, vencido por duas vezes na final da Taça de Portugal. A última vez em 1983, quando o Benfica foi vencer a «Prova Rainha» em pleno relvado do velhinho Estádio das Antas (0x1). Mais surpreendente e histórica terá sido a vitória do Leixões em 1961. Porque os dois clubes eram nortenhos, a FPF acedeu à ideia do FC Porto para que a final se realizasse na Cidade Invicta, de pouco valendo a oposição leixonense. De Lisboa chegou o "sim", a final podia e devia ser no Estádio do FC Porto.

As Antas encheu-se de esperançados adeptos portistas, mas o futebol tem destes sortilégios. Osvaldo Silva e Oliveirinha desfeitearam Acúrcio e o Leixões escreveu a sua história mais bonita, virando um enorme balde gelado sobre a cabeça do dragão. 

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