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      Grandes jogos
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      Inglaterra x Hungria: Rei morto, rei posto

      Texto por João Pedro Silveira
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      Nenhum outro jogo teve tanto impacto na história do futebol inglês - e do mundo - como o encontro entre Inglaterra e Hungria que teve lugar a 25 de novembro de 1953, em Wembley.

      Até então, apenas as seleções da Grã-Bretanha (Escócia e País de Gales) e a Irlanda tinham conseguido bater a Inglaterra perante o seu público. 

      Antes da guerra, a grande Áustria de Hugo Meisl e a Itália de Vittorio Pozzo estiveram muito perto de travar a Inglaterra na sua própria casa, mas, no fim do jogo, os ingleses acabaram sempre por levar a melhor.

      Mas tudo mudou nessa tarde de novembro de 1953. O brilhantismo do futebol húngaro e a magia dos magos magiares eclipsou por completo a equipa inglesa. Ao fim de uma hora de jogo, tal era a manifestação de superioridade, a equipa húngara abrandou, como que respeitando os anteriores senhores do futebol e recusando-se a avolumar o resultado quando ainda faltava jogar um terço do tempo. 

      Quando o holandês Leo Horn apitou para o final, o futebol não era o mesmo. A sobranceria inglesa estava morta e enterrada. A defesa da supremacia e da insularidade inglesa caía com estrondo. A Hungria arrasava a arrogância inglesa e mostrava ao mundo que o futebol estava "livre" dos seus senhores. 

      O fim do mito

      Seis meses antes, no mesmíssimo palco de Wembley, a Inglaterra assistira delicada à final da FA Cup entre Blackpool e Bolton que coroara Stanley Matthews como rei incontestado do futebol inglês e, por arrasto, do futebol mundial.

      Quatro dos internacionais que defrontaram a Hungria tinham estado nesse jogo, jogando pelo vencedor Blackpool. O jogo fora transmitido pela primeira vez pela BBC e, de norte a sul do país, famílias tinham-se reunido em volta dos televisores para assistirem a um hat-trick histórico de Stan Mortensen.

      O Reino Unido, ainda na ressaca da guerra, vivia um período de exaltação nacional, tentando recuperar o papel que detivera até ao começo da Segunda Guerra Mundial. Recentemente, Edmund Hillary conduzira a primeira expedição com sucesso ao topo do Everest. A Union Jack estava literalmente no topo do mundo e, pouco depois, Isabel II era coroada em Westminster. A Inglaterra estava orgulhosa da sua monarquia e do seu papel no mundo.
       
      Se é verdade que a Índia, a «Jóia da Coroa» do Império Britânico, conseguira a independência em 1947, não é menos verdade que o Império Britânico ainda se estendia por grande parte de África e Ásia.
       
      Lento declínio
       
      A seleção de futebol, como o próprio Império Britânico, ainda vivia agarrada ao passado, recusando-se a perceber os sinais dos tempos.
       
      Nessa tarde, as Torres de Wembley presenciaram uma exibição histórica da Hungria. ©Getty / Dennis Oulds
      Em 1929, a Inglaterra já sofrera a sua primeira derrota com um adversário continental quando perdera em Madrid por 4x3 com a Fúria Espanhola, tendo a culpa sido atribuída ao terreno impróprio e ao público arruaceiro.
       
      Itália e Áustria tinham estado muito perto de vencer em Londres e o Dynamo de Moscovo encantara a Inglaterra e deixara a nu as fragilidades do futebol inglês do pós-guerra. Em Belo Horizonte, a super equipa inglesa perdera de forma humilhante com os Estados Unidos e saíra sem glória do Mundial brasileiro, mas a culpa fora do calor e dos jogadores que tinham desrespeitado os adversários...
       
      Quando Hidegkuti marcou o sexto golo aos 53 minutos, não havia volta a dar. A Inglaterra não tinha desculpas para apresentar e apenas algo que os próprios ingleses teimavam em não aceitar saltou à vista: a Inglaterra já não era a maior potência do futebol mundial.

      Atraso técnico e táctico
       
      Ao contrário das suas congéneres europeias e sul americanas, a seleção inglesa só passara a ter um treinador depois do fim da guerra. Walter Winterbottom assumira essa função em 1946. Para os ingleses era muito normal a equipa nacional não ter um treinador e ser orientada pelo seu capitão, um resquício do futebol do século XIX que os ingleses tinham teimado em deixar cair.
       
      Winterbottom nunca foi (nem é) um nome consensual na história do futebol inglês. A sua paixão pelo jogo de dribles assente na magia de magos como Matthews há muito que é apresentada como uma das causas do declínio do jogo inglês.
       
      Taticamente, a Inglaterra estava longe da vanguarda que exibira nos tempos de Herbert Chapman, enquanto que a Hungria de Gusztáv Sebes era um "relógio afinado" na perfeição, um «onze» taticamente evoluído em que todos os jogadores sabiam o papel que tinham em campo e que executavam o plano do treinador na perfeição. 
       
      No Brasil, Matthews acusara Winterbottom de ter desanimado os jogadores com a sua palestra tática antes do jogo. «Os rapazes querem jogar» e não sentarem-se em cadeiras a olhar um quadro. Na sua opinião, as táticas estavam a matar a magia do futebol:

      «Não se pode dizer aos jogadores referência como é que eles devem jogar e o que devem fazer num jogo internacional. É preciso deixá-los jogar o seu jogo naturalmente (...)».
       
      O banho tático do século

      Mas a inocência do futebol tinha horas contadas. Winterbottom alinhou a sua equipa como sempre o fizera. Do outro lado, Sebes adotara o MM de Bukovi para um dinâmico 4x2x4. Frente a frente estavam o passado e o futuro e os jogadores húngaros pareciam passar pelos ingleses como se uns fossem de mota e outros a pé.
       
      Atleticamente superiores, tecnicamente compenetrados, os húngaros formavam um todo, enquanto as vedetas inglesas queriam brilhar e mostrar a todos que o seu jogo de toques rápidos e dribles era ainda o melhor do mundo.
       
      Com o passar do tempo o resultado avolumava-se perante uma plateia atónita. ©Getty / William Vanderson
      Sebes dera liberdade a Nandor Hidegkuti, - jogava como um falso nove - e Harry Johnston simplesmente não sabia o que fazer com o seu adversário. Mostrava-se perdido em hesitações, incapaz de acompanhá-lo e ficava na sua área de ação para deixar o número 9 húngaro jogar. Winterbottom não sabia como travar esta movimentação e Hidegkuti estava livre para servir os quatro companheiros da frente: Puskas, Kocsis, Budai e Czibor.

      Na parte de trás do campo acontecia o inverso, os defesas laterais subiam, Zakarias tinha recuado para o lado de Lorant e Bozsik podia subir para as costas de Hidegkuti, formando um 4x2x4 que mandava no campo. Matthews e companhia quase nem tocavam na bola, perdidos entre linhas de húngaros.
       
      Antes de um pontapé de saída, um jogador inglês perguntava quem era aquele gordinho. Responderam-lhe que era Puskas. Os ingleses sorriram e a bola começou a rolar. Aos 57 segundos, já a Hungria abria o marcador. Sewell ainda empatou aos 13, mas a Hungria continuou a carregar. À meia-hora, Puskas e Hidegkuti tinham marcado dois golos cada. O jogo estava resolvido. 
       
      Mortensen ainda reduziu antes do intervalo (2x4), mas, no regresso das cabinas, os magiares marcaram mais dois nos primeiros minutos. Uma grande penalidade a favor dos ingleses ainda atenuou o resultado, mas o embaraço era enorme e ainda faltavam mais de trinta minutos de jogo.
       
      No fim das contas, e mesmo depois da Hungria ter tirado o pé do acelerador, o resultado era curto. Havia um golo mal anulado e uma mão cheia de falhanços inacreditáveis. O resultado acabava por ser lisonjeiro para a Inglaterra.
       
      Seis meses depois, a Inglaterra visitava Budapeste e perdia novamente, desta feita por 7x1. A esmagadora força dos números faria abrir os olhos dos últimos ingleses que ainda achavam que o jogo de Wembley tinha sido um mero acidente.
       
      «Os futuros campeões do mundo»
       
      No fim do dia, os espetadores que tinham lotado o Estádio do Império - era assim que Wembley era oficialmente conhecido nesses dias - acreditavam que tinham visto jogar os «futuros campeões do mundo».
       
      Um ano depois, na Suíça, a Hungria encantaria, mas acabou vencida no jogo decisivo pela surpreendente Alemanha Ocidental. Treze anos depois, nesse mesmo palco em que a Inglaterra fora humilhada pela Hungria, a seleção dos Três Leões venceria o Campeonato Mundial de 1966, batendo a mesma Alemanha Federal que roubara a possibilidade da glória a Puskas e companhia. 
       
      Para muitos em Inglaterra foi o peso desta derrota que provocou a mudança necessária no futebol inglês para a sua seleção chegar um dia à coroa mundial. No banco de Wembley, em 1966, estava Alf Ramsey, o mesmo que apontara a grande penalidade que reduzira o resultado para 3x6 em 1953.

      The two captains, Billy Wright and Ferenc Puskas, shook hands. The referee blew his whistle. The game, dubbed the "match of the century" by media all over the world, had started.
      Stanley Matthews, Alf Ramsey and the other English players were filled with self-confidence, and rightly so. England was at the height of its power, literally as well as figuratively.
      Captains Billy Wright and Ferenc Puskas
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      Captains Billy Wright and Ferenc Puskas
      Just a few months earlier a British-led expedition had conquered Mount Everest and shortly afterwards, when the Queen was crowned, the royalist fervour sweeping the country seemed boundless.
      Although England had left India, the British Empire still included large parts of Africa and South East Asia. England was not just any old country, it was a world power and had no intention whatsoever of giving up that position.
      The situation for Hungary was rather different. The country had suffered badly as a result of World War Two, being occupied first by German and then by Russian troops. The new communist leader, Rakosi, had built a police state second only to that of his great teacher and role model - Stalin.
      Tens of thousands of Hungarians had been sent to camps and prisons.
      Sports in general, and football in particular, had become part of the wider ideological struggle. The Hungarian government not only nationalised farmlands and factories, they also took over the football clubs. The national team coach, Gusztav Sebes, was also a member of the government.
      And Sebes, who was leading strikes at the Renault factory in Paris in the 1930s, did nothing to conceal his views: "The bitter struggle between capitalism and communism is fought out not only between our societies, but also on the pitch," he stated bluntly.
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      jogos históricos
      U Quarta, 25 Novembro 1953 - 00:00
      Wembley Stadium
      Leo Horn
      3-6
      Jackie Sewell 13'
      Stan Mortensen 38'
      Alf Ramsey 57' (g.p.)
      Nándor Hidegkuti 1' 20' 53'
      Ferenc Puskás 24' 29'
      József Bozsik 50'
      Estádio
      Wembley Stadium
      Wembley Stadium
      Inglaterra
      Wembley, London
      Lotação127000
      Medidas-
      Inauguração1923
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